250px|direita|thumb|"Santíssima Trindade". Os dois doadores aparecem fora do espaço pictórico principal, onde estão a Santíssima Trindade e dois santos.1425-6. Afresco de Masaccio em Santa Maria Novella, Florença. Um retrato de doador ou retrato votivo é um retrato pictórico inserido numa pintura ou outra obra de arte maior mostrando a pessoa que encomendou e pagou pela imagem ou um membro de sua família. O termo "retrato de doador" geralmente é uma referência ao retrato (ou retratos) dos dos doadores apenas enquanto que "retrato votivo" podem também ser uma referência a toda uma obra de arte, incluindo, por exemplo, uma Madona, especialmente se o doador é muito proeminente. Contudo, nenhum dos dois termos é utilizado de forma consistente pelos historiadores da arte, como lembra Angela Marisol RobertsRoberts, pp. 1-3, 22, e podem também ser utilizados para outros temas religiosos menores que provavelmente ficavam com o patrocinador e não eram doados para uma igreja.
Retratos de doador são muito comuns na arte religiosa, especialmente em pinturas, da Idade Média e do Renascimento, com o doador aparecendo em geral de joelhos num dos cantos inferiores em primeiro plano. Geralmente, mesmo no final do Renascimento, os retratos de doador, especialmente quando aparecia uma família inteira, eram representados numa escala muito menor do que as figuras centrais, desafiando a perspectiva linear. No final do , os doadores passaram a aparecer integrados na cena principal, como espectadores ou mesmo participantes.
Localização thumb|esquerda|250px|"História de Santo Antônio Eremita". O doador aparece no canto direito, em primeiro plano, numa escala maior ou igual a das diversas cenas retratadas na obra. 1410-40. Por Meister der Heiligen Sippe der Ältere, atualmente na Antiga Pinacoteca de Munique. O objetivo dos retratos de doador era lembrar o doador e sua família e, especialmente, solicitar orações para eles depois de suas mortesRoberts, 22-24. Presentes para a igreja na forma de edifícios, peças-de-altar ou grandes vitrais eram geralmente acompanhados por termos que garantiam que missas em nome do doador seriam realizadas perpetuamente e acreditava-se que os retratos destas pessoas encorajava orações em seus nomes. Além disso, a exibição de retratos em lugares públicos era também uma expressão de status social; os retratos de doador assim se sobrepunham aos monumentos tumulares nas igrejas, cujo objetivo era o mesmo, com a vantagem de que os retratos de doador podiam ser exibidos com o doador ainda vivo. Finalmente, os retratos de doador da pintura primitiva neerlandesa sugerem que eles tinham ainda o objetivo de servirem como avatares ou modelos de pessoas em suas próprias orações e meditações — não para serem imitados como pessoas ideais, como santos, mas para servir de espelho para que o recipiente se veja em si mesmo e em seu estado de pecado, idealmente levando-o a um autoconhecimento e ao conhecimento de DeusScheel, Johanna, Das altniederländische Stifterbild. Emotionsstrategien des Sehens und der Selbsterkenntnis, pp.172-180, 241-249, Gebr. Mann, Berlin, 2013. Fazê-lo durante uma oração está em linha com os conceitos medievais tardios sobre a oração, que desenvolver-se-ia na moderna devoção. Este processo pode ser intensificado se o modelo é o próprio doadorScheel, Johanna, Das altniederländische Stifterbild. Emotionsstrategien des Sehens und der Selbsterkenntnis,pp.317-318, Gebr. Mann, Berlin, 2013.
Quando um edifício inteiro era financiado, uma escultura do patrono podia ser incluída na fachada ou em outros locais. A "Madona de Rolin", de Jan van Eyck, é uma pequena pintura na qual o doador, Nicolas Rolin, divide o espaço pictorial igualmente com a Madona e o Menino, mas Rolin doou grandes somas para sua igreja paroquial, onde o quadro era exibido, representada pela igreja que aparece na paisagem da cidade atrás dele, logo acima de suas mãos em oraçãoHarbison, Craig, Jan van Eyck, The Play of Realism, pp.112, Reaktion Books, London, 1991, ISBN 0-948462-18-3.
Algumas vezes, como no caso do Retábulo de Ghent, os doadores aparecem na vista fechada de uma peça-de-altar de painéis laterais móveis ou somente neles, como é o caso do "Retábulo de Portinari" ou ainda apenas de um lado, como no "Retábulo de Mérode". Se eles aparecem dos dois lados, geralmente os homens estão à esquerda do espectador, o que representa o lugar de honra à direita do espaço pictórico. Em grupos familiares, as figuras estão geralmente divididas por gênero. Grupos de membros de confrarias, geralmente com suas esposas, também são comuns. Outros membros da família, por conta de nascimentos ou casamentos, podem ser adicionados mais tarde e as mortes podem ser registradas acrescentando-se pequenas cruzes em suas mãos em oraçãoAinsworth, Maryan W. "Intentional Alterations of Early Netherlandish Painting". In Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000–..
Pelo menos no norte da Itália e também nas grandes peças-de-altar e afrescos dos grandes mestres que atraem a maior parte da atenção dos historiadores da arte, havia um grupo mais numeroso de pequenos afrescos com um único santo e o doador em paredes laterais que podiam ser repintados tão logo o número de velas acesas à frente deles rareasse ou um outro rico doador precisasse de espaço para um grande ciclo de afrescos, como se revela num conto italiano do Roberts, 16-19. Citado na p. 19, nota 63, da obra I Motti e facezie del Piovano Arlotto, uma compilação muito popular do de histórias cômicas atribuídas ao verdadeiro Piovano Arlotto, um sacerdote de Pratolino, perto de Florença.:
História thumb|direita|250px|Uma composição com uma peça-de-altar e dois afrescos dos doadores à volta.Por Domenico Ghirlandaio, na Cappella Sassetti na Igreja da Santa Trindade, em Florença. Retratos de doador tem uma história contínua desde a Antiguidade Tardia e o exemplar num manuscrito do , "Dioscórides de Viena", pode muito bem ser o reflexo de uma bem estabelecida tradição clássica há muito estabelecida, assim como os retratos do autor encontrados no mesmo manuscrito. Uma pintura nas Catacumbas de Comodila, de 528, mostra uma "Madona e o Menino" entronada, flanqueada por dois santos e acompanhada por Turtura, uma doadora, à frente do santo da esquerda, que apóia a mão sobre o ombro dela; composições muito similares tornar-se-iam muito populares um milênio depoisHandbook, 67. Outra tradição, com precedentes anteriores ao cristianismo, eram as imagens reais ou imperiais mostrando o monarca com uma figura religiosa, geralmente Cristo ou a Virgem Maria nos exemplares cristãos, com as figuras divinas e reais se comunicando entre si de algum forma. Embora nenhum tenha sobrevivido, há evidências literárias de retratos de doadores em pequenas capelas do período paleocristãoEarly Christian Chapels in the West: Decoration, Function and Patronage, pp. 97-99; Gillian Vallance Mackie, Gillian Mackie; University of Toronto Press, 2003, ISBN 0-8020-3504-3], provavelmente continuando a tradição já estabelecida nos templos pagãos.
Os painéis em mosaico do na Basílica de São Vital, em Ravena, sobre o imperador Justiniano I e a imperatriz Teodora com cortesões não são do tipo mostrando o monarca recebendo aprovação divina, mas cada um deles mostra um deles em pé, confiante, com um séquito de seguidores e olhando diretamente para o espectador. A escala e a composição são únicas entre as obras sobreviventes de grande porte. Também em Ravena está um pequeno mosaico de Justiniano, possivelmente originário do painel de Teodorico, o Grande, na Basílica de Sant'Apollinare Nuovo. Na Alta Idade Média, um grupo de retratos em mosaico em Roma dos papas que construíram ou reformaram a igreja onde estão mostram figuras em pé segurando modelos do edifício, geralmente entre um grupo de santos. Gradualmente, estas tradições se fizeram presente também nas camadas mais baixas da sociedade, especialmente em manuscritos iluminados, onde os retratos são geralmente de autor, pois os manuscritos eram criados para o uso pessoal da pessoa que os encomendou. Numa capela em Mals, no Tirol Meridional, há dois retratos de doador em afresco de antes de 881, um leigo e o outro, um clérigo tonsurado segurando um modelo do edifícioDodwell, 46. Nos séculos seguintes, bispos, abades e outros clérigos foram os doadores mais conspícuos, além da realeza, e mantiveram-se proeminentes nos períodos seguintesRoberts, 5-19.
Retratos de doador de nobres e ricos comerciantes tornaram-se populares no , na mesma época que os retratos em painéis estava começando a se popularizar entre este público — embora haja provavelmente mais retratos de doador em grandes obras de arte em igrejas sobreviventes de antes de 1450 do que retratos em painéis. Um formato neerlandês muito comum em meados do século era o pequeno díptico com uma "Madona com o Menino", geralmente no painel esquerdo e um doador no direito — o doador, neste caso, o proprietário, pois estes objetos eram geralmente instalados na casa do patrocinador. Nestes, o retrato pode assumir uma postura de oração ou uma pose mais próxima do sujeito num retrato puramente secular. O "Díptico de Wilton", de Ricardo II da Inglaterra, é um precursor deste tipo. Em alguns destes dípticos, o retrato do doador original foi repintado com o de um outro posteriorJohn Oliver Hand, Catherine Metzger, Ron Spronk; Prayers and Portraits: Unfolding the Netherlandish Diptych, cat no 40, (National Gallery of Art (U.S.), Koninklijk Museum voor Schone Kunsten (Belgium)), Yale University Press, 2006, ISBN 0-300-12155-5.
Uma convenção particular dos manuscritos iluminados era o "retrato de apresentação", no qual o manuscrito se iniciava com uma figura, geralmente ajoelhada, presenteando o manuscrito ao seu proprietário ou, às vezes, o proprietário encomendando a obra. A pessoa apresentando pode ser um cortesão presenteando seu príncipe, mas é geralmente o autor ou o escriba que recebeu para criar o manuscritoBurgundian frontispieces.
Iconografia dos retratos de doador na pintura thumb|direita|250px|"Díptico de Wilton", de Ricardo II da Inglaterra, atualmente na National Gallery (Londres). thumb|direita|250px|Um próspero vidraceiro e sua família, 1596. As duas crianças em roupas brancas com costuras pretas aparentemente morreram antes da pintura ficar pronta. As outras cinco com cruzes nas mãos provavelmente morreram depois e tiveram as cruzes acrescentadas à pinturaWalter A. Friedrich: Die Wurzeln der nordböhmischen Glasindustrie und die Glasmacherfamilie Friedrich (only available in German), p. 233, Fuerth 2005, ISBN 3-00-015752-2. thumb|direita|250px|"Jacopo Pesaro apresentado a São Pedro pelo papa Alexandre VI".1506-11. Por Ticiano e atualmente no Museu Real de Belas Artes de Antuérpia. Durante a Idade Média, as imagens do doador eram geralmente representadas numa escala muito menor do que a das figuras sagradas, o que, segundo Dirk Kocks, só se alteraria no , embora exemplos anteriores em manuscritos existamKing, 129.. Uma convenção posterior determinava que as figuras teriam cerca de três-quartos do tamanho das principais. A partir do , os primeiros pintores neerlandeses, como Jan van Eyck, passaram a integrar, com variados graus de sutileza, retratos de doadores no espaço pictórico da cena principal de peças-de-altar na mesma escala que a das figuras principais.