Brasileiros na Itália  →  Estimativa da comunidade 159 000 pessoas em 2023 Cidadania brasileira 54 338 residentes em 2025 Residência não comunitária 47 324 residentes em 2025 Principais regiões Lombardia, Piemonte, Lácio e Vêneto País de origem Brasil País de destino Itália

Os brasileiros na Itália formam uma comunidade composta por cidadãos brasileiros residentes no território italiano, pessoas nascidas no Brasil que adquiriram a cidadania italiana ou de outro país, indivíduos com dupla cidadania, estudantes, trabalhadores temporários e descendentes de brasileiros nascidos localmente. A dimensão dessa comunidade varia conforme o critério estatístico utilizado.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil estimou que aproximadamente 159 mil brasileiros viviam na Itália em 2023. Essa estimativa consular procura representar a comunidade brasileira de maneira ampla e pode incluir pessoas nascidas no Brasil que possuem cidadania italiana.

Os registros do Istituto Nazionale di Statistica (ISTAT), organizados segundo critérios administrativos, indicavam a existência de 54 338 residentes com cidadania brasileira em 1.º de janeiro de 2025. A diferença entre os números não representa necessariamente uma contradição, pois as fontes medem universos distintos.

Critérios estatísticos

Não existe um único indicador capaz de representar integralmente a presença brasileira na Itália. As fontes brasileiras e italianas utilizam critérios e métodos diferentes, que não devem ser confundidos nem somados.

+ Indicadores da presença brasileira na Itália Indicador Número Data de referência Universo contabilizado Estimativa da comunidade brasileira 159 000 2023 Estimativa elaborada pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Residentes com cidadania brasileira 54 338 1.º de janeiro de 2025 Pessoas registradas administrativamente como cidadãs brasileiras. Brasileiros não comunitários em situação regular 47 324 1.º de janeiro de 2025 Cidadãos brasileiros abrangidos pelas normas de residência aplicáveis aos nacionais de países externos à União Europeia.

Os diferentes números não devem ser somados, pois uma mesma pessoa pode estar abrangida por mais de uma categoria. Uma pessoa nascida no Brasil pode, por exemplo, estar registrada como cidadã italiana e, por isso, não aparecer nas estatísticas organizadas exclusivamente pela cidadania brasileira.

A estimativa do governo brasileiro procura abranger a comunidade brasileira de maneira ampla. Os registros do ISTAT, por sua vez, identificam a população segundo variáveis administrativas, como cidadania e país de nascimento.

As estatísticas relativas aos cidadãos de países não pertencentes à União Europeia constituem outro universo administrativo. Elas não incluem brasileiros que possuem cidadania italiana ou de outro Estado-membro da União Europeia.

História

Antecedentes migratórios

A presença contemporânea de brasileiros na Itália está parcialmente relacionada à história da imigração italiana no Brasil. Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a Itália foi um dos principais países de origem da imigração europeia para o território brasileiro.

Os imigrantes italianos estabeleceram-se especialmente nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo. No sul do Brasil, a colonização italiana organizada adquiriu maior intensidade a partir de 1875, com o estabelecimento de famílias em áreas que posteriormente deram origem ou contribuíram para o desenvolvimento de municípios como Caxias do Sul, Bento Gonçalves e Garibaldi.

Ao longo das gerações, comunidades formadas por descendentes de italianos mantiveram ou reconstruíram referências culturais, familiares e linguísticas relacionadas à Itália. Associações culturais, festas comunitárias, pesquisas genealógicas e iniciativas de preservação da memória da imigração contribuíram para fortalecer a identificação de determinados grupos brasileiros com a ascendência italiana.

Essa vinculação histórica teve importância para a formação de fluxos migratórios posteriores, especialmente entre descendentes de italianos interessados em conhecer a região de origem de seus antepassados, obter o reconhecimento da cidadania italiana ou desenvolver uma trajetória de vida na Europa.

Formação da migração brasileira contemporânea

A migração brasileira contemporânea para a Itália tornou-se mais visível nas últimas décadas do século XX, especialmente a partir dos anos 1990. Embora brasileiros já residissem no país por razões diplomáticas, religiosas, acadêmicas, familiares e profissionais, o fluxo passou a abranger grupos sociais e trajetórias mais diversificados.

Uma das vertentes desse movimento foi formada por brasileiros de ascendência italiana provenientes principalmente do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Pesquisa histórica e etnográfica realizada com migrantes no Vêneto, em Trento e no sul do Brasil identificou trajetórias motivadas pelo desejo de conhecer a terra dos antepassados, obter o reconhecimento da cidadania italiana, trabalhar, estudar ou permanecer na Europa.

Para parte desses migrantes, o deslocamento era simbolicamente descrito como um “retorno” à terra dos antepassados, embora os próprios migrantes tivessem nascido e vivido no Brasil. A experiência envolvia o encontro entre uma Itália preservada pelas memórias familiares e a realidade econômica, social e cultural da Itália contemporânea.

A migração de ascendência italiana, contudo, não representa a totalidade da comunidade brasileira. A presença brasileira também se expandiu por meio de casamentos binacionais, reunião familiar, oportunidades de trabalho, intercâmbios universitários, atividades religiosas, esportivas e artísticas, além de outros projetos individuais e familiares.

Retorno e circulação migratória

As trajetórias dos brasileiros na Itália nem sempre correspondem a uma migração permanente e linear. Parte dos migrantes retorna ao Brasil, desloca-se para outros países europeus ou mantém períodos alternados de residência em diferentes territórios.

A crise econômica europeia iniciada em 2008 afetou a inserção profissional de parte dos migrantes e contribuiu para retornos ao Brasil ou novos deslocamentos. Estudos qualitativos identificaram brasileiros que, após obterem a cidadania italiana ou residirem durante determinado período na Itália, migraram para outros países da União Europeia, para os Estados Unidos ou novamente para o Brasil.

A cidadania italiana pode, nesse contexto, funcionar simultaneamente como elemento identitário e como instrumento de mobilidade. O reconhecimento da cidadania permite que brasileiros descendentes de italianos residam e trabalhem na Itália e nos demais países da União Europeia sem depender das autorizações exigidas de cidadãos de países terceiros.

O ISTAT também identifica migrações secundárias entre cidadãos italianos nascidos no exterior. Parte das pessoas que obtém a cidadania italiana por descendência desloca-se posteriormente para outro país europeu, utilizando a liberdade de circulação decorrente da cidadania comunitária.

Demografia

Em 1.º de janeiro de 2025, a Itália registrava 54 338 residentes com cidadania brasileira. Esse total dizia respeito à cidadania registrada e não incluía pessoas nascidas no Brasil classificadas administrativamente apenas como cidadãs italianas.

A população registrada com cidadania brasileira apresenta acentuada predominância feminina. Em 2025, havia 36 986 mulheres e 17 352 homens, correspondendo as mulheres a aproximadamente 68% do total.

+ Composição por sexo dos residentes com cidadania brasileira em 2025 Sexo Número de residentes Participação aproximada Mulheres 36 986 68,1% Homens 17 352 31,9% Total 54 338 100%

A predominância feminina também aparece nas estatísticas referentes aos cidadãos brasileiros não comunitários em situação regular. Entre os 47 324 residentes contabilizados nessa categoria em janeiro de 2025, cerca de 71% eram mulheres.

Essa composição demográfica pode estar relacionada a diferentes trajetórias migratórias, incluindo reunião familiar, casamentos binacionais e inserção feminina em determinados segmentos do mercado de trabalho. A predominância numérica das mulheres, entretanto, não permite definir uma única causa para a migração brasileira.

A comparação histórica deve ser realizada com cautela, pois as séries demográficas italianas sofreram mudanças metodológicas. Os registros mais recentes derivam do censo permanente e da integração de diferentes bases administrativas.

Distribuição geográfica

Os brasileiros estão presentes em todas as regiões italianas, mas sua distribuição territorial é desigual. A Lombardia reúne a maior concentração de residentes com cidadania brasileira, seguida por Piemonte, Lácio, Vêneto, Emília-Romanha e Toscana.

+ Regiões com as maiores populações de cidadania brasileira em 2025 Posição Região Residentes Participação aproximada 1 Lombardia 14 675 27,0% 2 Piemonte 6 179 11,4% 3 Lácio 6 099 11,2% 4 Vêneto 6 092 11,2% 5 Emília-Romanha 4 089 7,5% 6 Toscana 3 829 7,0% Total das seis regiões 40 963 75,4%

As quatro primeiras regiões concentravam, juntas, aproximadamente 61% dos residentes registrados com cidadania brasileira. A concentração territorial está associada à presença de grandes áreas metropolitanas, às oportunidades de trabalho e às redes familiares e comunitárias previamente estabelecidas.

Os números não abrangem pessoas nascidas no Brasil que estejam registradas exclusivamente como cidadãs italianas.

Cidadania italiana

A cidadania italiana por descendência desempenha papel relevante na mobilidade entre Brasil e Itália. Muitos brasileiros chegam ao país já reconhecidos como cidadãos italianos, enquanto outros iniciam ou concluem o procedimento de reconhecimento depois de se estabelecerem em um município italiano.

Quando uma pessoa nascida no Brasil é registrada como cidadã italiana, ela deixa de integrar as estatísticas de estrangeiros organizadas por cidadania, embora possa continuar aparecendo nos dados organizados por país de nascimento. Essa diferença ajuda a explicar por que as estimativas sobre a comunidade brasileira são superiores ao número de residentes formalmente registrados como cidadãos brasileiros.

Em 2023, foram registrados mais de 41 mil procedimentos de aquisição ou reconhecimento da cidadania italiana envolvendo residentes no Brasil. Segundo o ISTAT, a maior parte desses procedimentos estava relacionada ao reconhecimento da cidadania por descendência, conhecido como iure sanguinis.

O reconhecimento da cidadania italiana não implica necessariamente a mudança para a Itália. Parte dos requerentes permanece no Brasil ou utiliza a cidadania para estudar, trabalhar e residir em outros países da União Europeia.

O ISTAT também registra que novos cidadãos italianos nascidos na América Latina podem deslocar-se para outros países europeus após o reconhecimento da cidadania. Esse fenômeno contribui para a formação de trajetórias migratórias que não se limitam ao deslocamento direto e permanente entre Brasil e Itália.

Autorizações de residência

Em 2024, foram expedidas 3 886 autorizações de residência para cidadãos brasileiros, equivalentes a aproximadamente 1,3% das autorizações concedidas pela Itália durante o ano.

+ Autorizações de residência concedidas a cidadãos brasileiros em 2024 Motivo Participação Família ou reunião familiar 58,6% Outros motivos 12,6% Estudo 11,8% Proteção 10,4% Trabalho 6,6% Total 100,0%

O predomínio das autorizações familiares evidencia a importância dos casamentos binacionais, das famílias transnacionais e da reunião com parentes residentes na Itália.

O motivo jurídico inicial da autorização não determina necessariamente a atividade posterior do titular. Uma pessoa que recebeu autorização por razão familiar pode, por exemplo, ingressar posteriormente no mercado de trabalho.