Jacques Dupuis foi um padre jesuíta que nasceu em Charleroi (Huppaye, Brabant), Bélgica, em 1923. Ingressou na Companhia de Jesus como noviço em 1941Father Jacques Dupuis, em inglês, acesso em 17 de julho de 2015.. Entre 1948 e 1984, viveu na Índia, onde estudou ensinamentos hindus. Após o seu retorno à Europa, ensinou na Pontifícia Universidade Gregoriana e foi consultor do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso e da Comissão para a Missão e a Evangelização do Conselho Mundial de Igrejas em Genebra. Em 1997, publicou: "Toward a Christian Theology of Religious Pluralism" (Para uma teologia cristã do pluralismo religioso), no qual sugeriu que a salvação poderia ser possível através de religiões não-cristãs, e que as religiões não-cristãs desempenharam um papel vital nas religiões cristãs. Basicamente, argumentava que, enquanto que para os cristãos: Jesus é a manifestação e sacramento de Deus, não se poderia esperar que os não-cristãos percebessem Jesus da mesma forma. Ele morreu em 28 de dezembro de 2004 em RomaJacques Dupuis , em inglês, acesso em 15 de julho de 2015. Unidade das religiões na complementaridade: a teologia de Jacques Dupuis, acesso em 15 de julho de 2015..
Em janeiro de 2001, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu uma notificação contra "Para uma teologia cristã do pluralismo religioso", por entender que a referida obra continha ambiguidades e dificuldades em pontos doutrinais, que poderiam induzir o leitor em opiniões errôneasNOTIFICAÇÃO A PROPÓSITO DO LIVRO DE JACQUES DUPUIS "PARA UMA TEOLOGIA CRISTÃ DO PLURALISMO RELIGIOSO", acesso em 15 de julho de 2015..
Dupuis acreditava que a atual ação de Deus através do Verbo e do Espírito diz respeito a toda a história humana e encontra espaços nas várias culturas e religiões, mesmo onde a fé em Cristo não é conhecida ou praticadaCristologia, autodefesa de Dupuis. Artigo de Carlo Molari, acesso em 1º de agosto de 2015..
Atuação na Índia e na Pontifícia Universidade Gregoriana
Em 1949, desembarcou em Bombaim, e seguiu para Calcutá. Três anos depois, começou a estudar teologia no St Mary's College em Kurseong nas encostas do Himalaia e foi ordenado sacerdote em 1954. Depois para prosseguir os estudos, foi enviado para a Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, onde obteve um doutorado em 1959. Depois disso, voltou para St Mary's College em Kurseong como um professor. Em 1971, quando a faculdade de teologia foi transferida para Nova Déli, fez uma viagem de 1.250 milhas em uma motocicleta. Depois disso, ele se tornou o principal conselheiro teológico para Conferência dos Bispos Católicos da Índia. Entre 1977 e 1984, foi o editor-chefe da revista teológica Vidyajyoti, durante esse tempo, ele e o Padre Josef Neuer escreveram um trabalho intitulado: "The Christian Faith In The Doctrinal Documents Of The Catholic Church".
Em 1984, deixou a Índia para assumir um posto de professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, por sugestão de Pedro Arrupe, superior dos jesuítas, que tinha grande apreço pelo trabalho de Dupuis.
Na Índia, Dupuis era identificado como um teólogo "ocidental e conservador", mas na Pontifícia Universidade Gregoriana, passou a ser considerado um teólogo "muito radical", identificado como "um símbolo do progressismo e da abertura". Seus cursos e seminários estavam sempre cheios e inúmeras as solicitações de orientação. Entre 1985 e 2003, foi diretor da revista Gregorianum.
Em Roma, foi um dos principais responsáveis pela redação de um dos mais abertos documentos pontifícios sobre o tema do diálogo do cristianismo com as religiões, denominado "Diálogo e Anúncio" (1991), do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religiosoJacques Dupuis: a honradez de uma teologia livre, acesso em 25 de julho de 2015..
Conflito com o Vaticano
A obra "Toward a Christian Theology of Religious Pluralism" (Para uma teologia cristã do pluralismo religioso) foi publicada quase que simultaneamente em inglês, francês e italiano ("Verso una teologia cristiana del pluralismo religioso" (Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso))O caso Dupuis, o último herege banido pelo Vaticano, acesso em 17 de julho de 2015. no fim de 1997; em 1999, foi publicada a tradução para o português; e em 2000, foi publicada a tradução para para o espanhol. Inúmeras resenhas foram feitas em inglês, francês e italiano; merecendo destaque aquela publicada em 22 de novembro de 1997 pelo Jornal Avvenire, pertencente a dioceses da Itália.
No dia 14 de abril de 1998, foi publicada, também no Jornal Avvenire, uma crítica negativa
Em 2 de outubro de 1998, Dupuis foi comunicado, por meio do Superior Geral da Companhia de Jesus, sobre a existência de um documento de nove páginas com 14 questionamentos contra o livro "Toward a Christian Theology of Religious Pluralism". O documento afirmava que a Congregação para a Doutrina da Fé encontrou na referida obra: "graves erros ou ambiguidades doutrinais sobre as doutrinas do divino e da fé católica concernentes à revelação, à soteriologia (o ensino da salvação), à cristologia e à trindade" e que a obra apresentava várias "afirmações perigosas" que "não podem ser seguramente ensinadas", tais como o uso de "Mãe" para a primeira pessoa da trindade. Foram concedidos três meses para que Dupuis respondesse às questões.
Com o abalo causado pela comunicação, o teólogo, que sofria de uma enfermidade crônica, passou duas semanas no hospital.
Dupuis contou com a ajuda do padre jesuíta Gerald O’Collins, para formular sua resposta.
Em 16 de janeiro de 1999, a revista londrina The Tablet publicou o artigo "Em defesa do Pe. Dupuis", escrito pelo Cardeal Franz König, bispo emérito de Viena, defensor de longa data do diálogo inter-religioso e reconhecido por ter desempenhado um importante papel na eleição de João Paulo II. Antes disso, o arcebispo de Calcutá e outros líderes católicos já haviam expressado seu apoio a Dupuis.
Posteriormente, o The Tablet publicou a tradução de uma carta aberta dirigida ao cardeal König assinada pelo Cardeal Ratzinger, que revelou surpresa e tristeza em relação ao artigo de König, afirmou que a Congregação para a Doutrina da Fé apenas enviou algumas questões confidenciais ao Pe. Dupuis e nada mais do que isso.
Dupuis encaminhou sua resposta, com 188 páginas, em dezembro de 1998. Meses de silêncio se seguiram, e isso teve repercussões na saúde do teólogo, que em fevereiro de 1999, voltou a adoecer. A resposta veio no final de julho de 1999, na qual, a Congregação, mais uma vez, deu a Dupuis três meses para responder.
Em novembro de 1999, Dupuis encaminhou sua resposta, à segunda manifestação da Congregação, com cerca de 60 páginas. Em meados de agosto de 2000, ele soube que a Congregação havia preparado uma "declaração" (Dominus Iesus) sobre a questão de Cristo como o único e universal salvador e uma "notificação" sobre o seu livro e que o Cardeal Ratzinger o tinha convidado para uma reunião marcada para 4 de setembro de 2000, um dia antes da publicação da Dominus Iesus.
No dia 1º de setembro, Dupuis recebeu as cópias da "notificação" de 15 páginas sobre seu livro e o texto de 32 páginas da Dominus Iesus, ambos os documentos aprovados oficialmente pelo papa em 16 de junho. Além disso, foi informado que a Congregação desejava publicar a Dominus Iesus no dia 5 de setembro e a "notificação" na mesma semana.
Durante a reunião com Ratzinger no dia 4 de setembro, Gerald O’Collins falou em nome de Dupuis. Nessa reunião, Dupuis teve a impressão de que Ratzinger não tinha compreendido bem os detalhes de sua teologia, ou então estava mal informado a respeito. Ao final da reunião, Ratzinger indagou se Dupuis: "[...] estaria disposto a declarar que seu livro deve ser compreendido à luz de nossa Declaração Dominus Iesus?". Dupuis respondeu: "Eminência, temo que o senhor esteja pedindo muito de mim".
No dia 5 de setembro, conforme planejado, a Congregação publicou a declaração Dominus Iesus sobre a "unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja", enquanto que a publicação da "notificação" foi adiada para dezembro, além disso a "notificação" foi reduzida de quinze para sete páginas. Apesar das dúvidas sobre a forma como a Congregação interpretaria sua assinatura, Dupuis assinou esta segunda versão da "notificação", em meados de dezembro.
Em 26 de fevereiro de 2001, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou uma terceira versão da "notificação", oficialmente aprovada pelo Papa um mês antes e um pouco diferente do texto que Dupuis assinara antes do Natal. O que angustiou o notificado, foram quatro novas linhas de texto no documento que se referiam à sua assinatura: "Com sua assinatura o autor se comprometeu em concordar com as teses estabelecidas (na notificação) e em seguir, na sua atividade teológica futura bem como nas publicações, os conteúdos doutrinais indicados na notificação do livro em questão", pois lhe pareceu um abuso acrescentar tais considerações após ter ele assinado a versão anterior do documento que não continha tais consideraçõesUm olhar sobre o conflito de Dupuis com o Vaticano, acesso em 16 de julho de 2015..
Últimos anos
Após a publicação da notificação, Dupuis passou a ter "uma sensação de liberdade recuperada embora limitada", e voltou a escrever e a dar palestras.
Em 2001, publicou um novo livro com o título: "O cristianismo e as Religiões". No post scriptum desta obra, disse que: "Afirmações absolutas e exclusivas sobre Cristo e sobre o cristianismo, que reivindicassem a posse exclusiva da auto-manifestação de Deus ou dos meios de salvação, distorceriam e contradiriam a mensagem cristã e a imagem cristã".
Ao longo do ano de 2003, proferiu palestras em Berlim, na França, na Holanda, na Índia, no México, na Polônia, em Portugal, na Suíça, na Tailândia, nos Estados Unidos e várias cidades dentro da Itália. Acobou por reconhecer que as medidas tomadas pela Congregação da Doutrina da Fé, além de trazê-lo "ao conhecimento dos teólogos de todo o mundo e provocar-lhes a simpatia", também impulsionou massivamente as vendas do livro "Toward a Christian Theology of Religious Pluralism" em cinco idiomas.
O último ano de sua vida foi muito doloroso, principalmente por causa de uma alegação vinda da Congregação da Doutrina da Fé de que novos escritos de Dupuis, publicados em 2004, minariam a unicidade de Jesus Cristo.
Essa nova situação afetou a saúde de Dupuis, que morreu em 28 de dezembro de 2004, antes de uma nova reunião com a Congregação para a Doutrina da Fé, que estava agendada para o início de 2005.
Obra póstuma
Em 2014, foi publicada a obra o "Perché non sono eretico. Teologia del pluralismo religioso: le accuse, la mia difesa" (Por que não sou herege. Teologia do pluralismo religioso: as acusações, a minha defesa (ou "Jacques Dupuis Faces the Inquisition" (Jacques Dupuis enfrenta a Inquisição), na versão em inglês), pela EMI (Edições Missionárias Italianas, uma editora católica). A obra foi organizada por William Burrows, seu editor norte-americano, e contém dois longos textos de autodefesa, do próprio condenado, contra a "notificação" e de acusação contra a Dominus Iesus.
A obra possui quatro capítulos, os Capítulos II e III contém pontos de vista de Dupuis sobre a Dominus Iesus e sobre o processo movido contra ele pela Congregação para a Doutrina da Fé, os Capítulos I e IV, são de autoria de Burrows, e contém o ponto de vista de Burrows sobre o processo movido contra Dupois.