A é o termo para designar um grupo de instrumentos de sopro pertencente à família das madeiras. Mas todos eles são instrumentos compostos por um tubo com nove orifícios, sendo oito na parte frontal e um na parte traseira para o polegar. Em modelos antigos, os dois últimos orifícios destinados ao dedo mínimo eram pareados. Dependendo da mão que está posicionada na parte superior e inferior, um dos orifícios era vedado com cera, resultando no uso efetivo de apenas oito dos nove orifícios. Hoje em dia, as flautas doces possuem pés móveis, e em geral são projetadas para uma usabilidade voltada a destros.
Possui uma embocadura com canal e bisel, onde um bloco é inserido no bocal para formar o do canal. Os oito furos incluem um furo de oitavação (para o polegar) localizado na parte traseira do instrumento. Os dois últimos furos podem ser duplos para os semitons. Em flautas sem pé móvel, o último furo é deslocado para o lado para alocar o dedo minimo.
É um instrumento cromático, e, devido à ausência de um sistema de chaves, quase todos os semitons são tocados com dedilhados de forquilha. Geralmente, a mão esquerda é colocada acima da mão direita, embora isso nem sempre tenha sido uma regra. A extensão da maioria das flautas doce é de duas oitavas e meia. No entanto, as "de consort" do Renascimento têm um alcance menor, geralmente inferior a duas oitavas. Os quatro tamanhos mais comuns de flauta hoje são soprano em dó, contralto em fá, tenor em dó e baixo em fá, sendo que o alto tornou-se a flauta doce por excelência.
História miniaturadaimagem|Corte trasnversal de uma flauta doce da parte da cabeça ou bisel. A: Bloco B: Canal de ar C: JanelaO instrumento mais antigo classificado como uma flauta, totalmente preservado, foi descoberto em um fosso de uma residência em Dordrecht, na Holanda, e atualmente está abrigado no Gemeentemuseum em Haia. Uma recente descoberta, publicada pela Universidade de Tuebingen, destaca o que pode ser considerado o instrumento mais antigo feito por um homem de Neandertal na Alemanha. Trata-se de uma flauta de osso com aproximadamente 42.000 anos. Embora haja evidências suficientes para confirmar a presença da flauta doce na Europa nas últimas décadas do século XIV, foi durante o século XV que o instrumento se consolidou, aparecendo de forma inequívoca em listas de compras de instrumentos, em representações visuais (pinturas, afrescos, tapeçarias) e em descrições presentes em diversos documentos.
Em muitas dessas flautas os dois orifícios finais destinados ao dedo mínimo eram emparelhados; dependendo de qual mão ocupava a posição superior ou inferior, um deles era vedado com cera, resultando na utilização efetiva de apenas oito dos nove orifícios. Poderia apresentar um formato interno cilíndrico ou cônico invertido. No segundo caso, o estreitamento do tubo começava a partir do primeiro orifício (a cabeça permanecia cilíndrica), atingia o ponto mais estreito na altura do último orifício e, em seguida, o tubo se alargava novamente, formando uma pequena campana. Em ambas as configurações, o diâmetro interno era relativamente grande, e a parede interna não muito espessa, proporcionando uma sonoridade ampla e encorpada, com notas graves bem ressonantes. A tessitura abrangia uma oitava mais uma sexta ou sétima.
miniaturadaimagem|direita|Flauta doce contralto construída por Bob Marvin. A flauta doce era produzida em três tamanhos principais: um descante em sol (posteriormente conhecido como alto em sol), um tenor em dó e um baixo em fá. No início do século XVI, a combinação desses três tamanhos, com ou sem dobramentos, possibilitava a execução de praticamente todo o repertório vocal disponível, porem soando uma oitava acima.
O instrumento sobrevivente mais antigo e completo é a chamada flauta doce de Dordrecht, de meados do século XIII. Essa flauta doce "ancestral" é caracterizada por seu corpo estreito e cilíndrico (o curso largo do tubo interno no meio do instrumento é responsável pela afinação e resposta sonora). A segunda flauta doce medieval mais ou menos completa, datando do século XIV, é de Göttingen (norte da Alemanha), onde foi achada numa latrina na Weender Straßer, número 26, em 1987. A "flauta doce de Göttingen" faz parte da coleção do Stadtarchäologie Göttingen.
Idade Média: 1300 a 1500 Vários membros da família das flautas foram predominantes nos séculos XIV e XV. Primeiramente, a subfamília das flautas de canal ou ducto (Flutes with duct or duct flutes em inglês), que incluía as flauta pastoril, outras flautas de canal tocadas com uma ou duas mãos e que tinham um número variado de furos para os dedos, e a flauta doce, que definimos como um tipo especializado de flauta de canal com furos para sete dedos e o polegar. Em segundo lugar, a subfamília das flautas transversais, que incluía a flauta convencional, bem como um tipo militar de orifício mais estreito chamado pífaro, embora os dois instrumentos nem sempre sejam claramente diferenciados. Em terceiro lugar, as flautas de pan, feitas a partir de uma série de tubos soprados na extremidade de diferentes comprimentos unidos.
miniaturadaimagem|Ilustração de quatro flautas doce do "Musica Getutscht" de Sebastian Virdung (1511)|550x550px As primeiras informações certas sobre alguns aspectos da história da flauta doce remontam ao final do século XV e posteriormente. A primeira descrição da flauta doce associada a um nome é encontrada em um tratado latino de Johannes Tinctoris, intitulado "De inventione et usu musice" (Sobre a Invenção e o Uso da Música — Nápoles, cerca de 1481–83). Tinctoris menciona a fistula (literalmente, tubo ou tubo), um tipo específico de instrumento de sopro de madeira (tibia) com 'sete furos na frente e um atrás'. Os termos fistula e tibia remontam à antiguidade. Na Grécia, a aulos geralmente denotava um instrumento de sopro composto por dois tubos e duas palhetas (provavelmente duplas), mas também poderia se referir a qualquer instrumento composto por um único tubo com ou sem palheta. Para essencialmente o mesmo tubo de palheta dupla, os romanos usavam o termo tibia, ou ocasionalmente fistula, uma palavra que os poetas usavam para se referir às flautas de pastor. Tinctoris também está familiarizado com a prática de duplicar o sétimo furo para os dedos em alguns tipos não especificados de tibia, para que os músicos pudessem tocar o instrumento com qualquer mão na parte superior. Essa disposição era comum em flautas doces pré-barrocas.
A primeira descrição seguramente datada em vernáculo da flauta doce associada a um nome, a primeira descrição vinculada a uma imagem e o primeiro gráfico de dedilhado têm todas as origens no "Musica getutscht" (1511) de Sebastian Virdung. Ele chama o instrumento de Flöte. O termo principal utilizado para a flauta doce no "Epitome musical" (1556) de Philibert Jambe de Fer, que também retrata o instrumento e fornece dedilhados para ele, é "fleute à neuf trous" (flauta com nove furos - incluindo o sétimo furo duplicado). Este termo indiretamente fornece a mais antiga confirmação do significado de "recorder" em inglês - documentado pela primeira vez em 1388.
Durante o século XVII, foi mais usada como instrumento solo. Antes, era composta de duas ou uma única peça. Neste século, ela já era formada por três peças. Este modelo permitia produzir som com mais intensidade e com mais possibilidade de expressão. Muitos desses exemplares históricos ainda existem nos dias de hoje em condições de uso. Assim, a flauta doce foi sendo utilizada até se tornar um instrumento profissional no século XVIII, mas foi colocada como instrumento secundário no século XIX, até que foi sendo quase que substituída pelo traverso, instrumento que por sua vez originou a moderna flauta transversal. Em contrapartida, os colonizadores europeus perceberam que os índios utilizavam uma cana como instrumento que era assemelhada à flauta doce. A presença de flautas doces na América do Norte foi documentada já em 1633 quando um inventário de uma plantação em New Hampshire listou 15 flautas doces, e um inventário semelhante feito em outra propriedade de New Hampshire informou a presença de 26 flautas doces.Música 1983; Pichierri 1960: 14
Depois do surgimento da orquestra clássica, os compositores procuravam instrumentos com maiores recursos dinâmicos. Assim começa o declínio da flauta doce perante a flauta transversal. Por volta de 1750, a flauta doce praticamente desaparecera do repertório de qualquer compositor. Assim, a flauta doce ficou presente apenas na história dos instrumentos musicais. Somente no final do século XIX é que alguns músicos começaram a ter contato com este instrumento novamente, através de pesquisa de músicas antigas e através de literaturas musicais existentes em museus. Entre os envolvidos no ressurgimento da flauta doce, estão Cristopher Welch (1832-1915) e Canon Francis Galpin. Galpin, além de estudar este instrumento, ensinou sua família a tocá-lo. Mas foi o inglês Arnold Dolmetsch (1858-1940) que concluiu que a flauta doce só renasceria se sua reconstrução recebesse o mesmo tratamento dos demais instrumentos. O fruto de suas pesquisas lhe permitiu construir um quarteto de flautas e tocá-las com sua família em um concerto histórico no Festival Haslemere em 1926. Seu filho Carl se tornou um virtuoso no instrumento e elevou-o a um nível de alta interpretação. Esse conjunto de flautas feito por Dolmetsch foi copiado e produzido em série na Alemanha, onde se tornou muito popular.
Tubos de bambu foram introduzidos em escolas dos Estados Unidos nos anos 1920 e depois nas escolas da Grã-Bretanha, quando Hilda King, diretora de uma escola em Londres, começou a ensinar seus alunos em 1926. O "Grêmio de Flautistas de Bambu", fundado por Margaret James em 1932, foi patrocinado por Louise Hanson-Dyer na França, onde ela pôde promover compositores como Georges Auric, Jacques Ibert, Milhaud, Albert Roussel, Poulenc, Arthur Benjamin da Austrália e Margaret Sutherland, para escrever para este meio.
Em 1935, Edgar Hunt introduzia o ensino de flauta doce nas escolas primárias inglesas, e em 1937 foi fundada a "Society of Recorder Player". Aos poucos, a flauta doce ressurgia e os compositores começaram a escrever para o instrumento. Com o aumento do número de grandes intérpretes, a flauta doce se tornou um instrumento de pesquisa de técnicas alternativas de execução.
Hoje em dia, as flautas doces fabricadas possuem um som mais suave do que as flautas do século XVIII nas quais elas são baseadas. No entanto, estas flautas doces neobarrocas permanecem como instrumentos para solo.
Temos, também, hoje, a produção em série de flautas de resina a partir de cópias de originais como, por exemplo, as japonesas Yamaha, Aulos e Zen-On, além de uma série de edições modernas facsímiles de edições antigas e de manuscritos editados na Europa.
No Brasil
Introdução do Instrumento Não seria surpreendente supor que a flauta doce tenha chegado ao Brasil nos primeiros anos da colonização, considerando que, no início do século XVI, esse instrumento já era conhecido e utilizado na música sacra e profana em toda a Europa. A presença de instrumentos europeus por todo o mundo pode ser considerada de certa forma natural, dado que a Era das Descobertas envolveu fortemente a exportação de um modelo cultural, principalmente no âmbito religioso. Embora essa transposição muitas vezes resulte em manifestações bastante semelhantes à matriz europeia, não é incomum que as circunstâncias exijam a necessidade de improvisação e adaptação. Nesse contexto, os portugueses parecem ter desempenhado um papel particularmente hábil nessa capacidade de adaptação.