300px|thumb|Mapa do Rione XIV - Borgo. thumb|direita|300px|Mapa da Região XIV - Transtiberim, uma das 14 regiões da Roma de Augusto.
Borgo, chamado também de I Borghi, é um dos vinte e dois riones de Roma, oficialmente numerado como Rione XIV, localizado no Município I, na margem ocidental do Tibre. Com o formato trapezoidal, o Borgo faz fronteira com o Vaticano (a Praça de São Pedro) para o oeste, com o Tibre a leste, o rione Prati para o norte, o quartiere Aurelio para o sudoeste e o rione Trastevere para o sul.
Seu território está inclui uma região plana, composta de depósitos aluviais do Tibre, e outra montanhosa, sobre as encostas cobertas de terra do monte Vaticano. Em termos administrativos, o Borgo, depois de um decreto de 2013, passou a fazer parte do Município I, vindo do Município XVII juntamente com o rione Prati e os quartieri Trionfale e Della Vittoria (em volta da Piazza Mazzini).
As principais vias correm no sentido leste-oeste e, com a notável exceção da Via della Conciliazione, não são chamadas de "Via", mas de "Borghi". Embora fortemente alterado na primeira metade do século XX, o Borgo mantém sua importância histórica como porta de entrada para a Basílica de São Pedro e o Palácio Apostólico.
História thumb|esquerda|150px|Brasão de Borgo: um leão (uma referência à Cidade Leonina, que fica no rione) em frente de um monte com três cumes e uma estrela, símbolos que, juntamente com o leão empinado, fazem parte do brasão do Papa Sisto V, que anexou o Borgo como décimo-quarto rione de Roma.
Época Romana: Campo do Vaticano No período romano, o território do Borgo era parte do Região XIV - Transtiberim, uma das 14 regiões da Roma de Augusto, e era chamado de Campo do Vaticano (Ager Vaticanus) por causa dos augúrios () que eram realizados ali pelos áugures etruscos. Como ele ficava do lado de fora do Pomério (a fronteira religiosa da cidade dentro da qual era proibido realizar sepultamentos) e era infestado pela malária, a região era utilizada como cemitério. Alguns túmulos eram enormes, incluindo o chamado Terebinto de Nero (Terebinthus Neronis), um túmulo redondo encimado por uma torre estreitaBorgatti, 5 e a "Meta Romuli", pirâmide similar à Pirâmide de Céstio, ainda em pé perto da Porta San Paolo, demolida em 1499.
No sopé do monte Vaticano, duas estradas romanas começavam: a Via Cornélia, que se juntava à Via Aurélia perto de TarquíniaBorgatti, 2 e a Via Triunfal (Via Triumphalis), que se juntava à Via Cássia alguns quilômetros para o norte.
No começo da era imperial, magníficas villas e jardins (horti), como a de Agripina, a Velha, esposa de Germânico e mãe de Calígula (Horti Agrippinae), e a de Domícia Longina, esposa de Domiciano (Horti Domitiae), foram construídas perto da encosta do Janículo e do Vaticano.
O imperador Caio Calígula construiu no Vaticano um circo, o Circo Gaiano (Circus Gaianus), ampliado depois por Nero e rebatizado de Circo de Nero (Circus Neronis).Borgatti, 3 O obelisco no centro da Praça de São Pedro ficava antes no meio (na spina) deste circo, que era ligado à cidade através de um pórtico. Nero também substituiu a ponte de madeira da Via Triunfal por uma ponte de alvenaria, cujas ruínas ainda podem ser vistas no fundo do Tibre durante períodos de baixo fluxo), a Ponte Neroniana (Pons Neronianus) ou Triunfal (Triumphalis). O imperador Adriano construiu, na margem do Tibre, seu enorme mausoléu, que ele ligou à margem esquerda do rio com outra ponte, a Ponte Élio (moderna Ponte de Santo Ângelo).
Porém, o evento que mudaria para sempre o destino do local foi o martírio de São Pedro no sopé do monte Vaticano em 67, durante a primeira perseguição aos cristãos. O santo foi enterrado nas proximidades, o que fez do Vaticano um local de peregrinação. Sobre o túmulo, o papa Anacleto construiu um oratório, que, em 324, o imperador romano Constantino I transformou em uma enorme basílica.Borgatti, 11 Esta igreja, conhecida hoje como Antiga Basílica de São Pedro, logo tornar-se-ia, até sua demolição no século XVI para a construção da Basílica de São Pedro moderna, um dos centros do cristianismo mundial.
Idade Média: Cidade Leonina thumb|300px|O Castelo de Santo Ângelo e a Ponte de Santo Ângelo. O castelo, construído sobre o Mausoléu de Adriano, dominava a entrada para a margem direita do Tibre e o acesso à Basílica de São Pedro. thumb|300px|O Passetto visto do Castelo. Trata-se de um caminho coberto que corre por cima de um trecho da muralha ligando a Basílica de São Pedro ao castelo para permitir aos papas uma chance de fugir em caso de ataque. Foi utilizado, entre outras vezes, durante o saque de Roma em 1527.
Na Alta Idade Média, a Ponte de Nero ruiu e o Mausoléu de Adriano foi convertido numa fortaleza, o Castelo de Santo Ângelo, que garantia o controle da cidade. Apesar das guerras e invasões que afligiram Roma na época, uma multidão de peregrinos vinha visitar o túmulo do apóstolo Pedro. Os peregrinos de mesma nacionalidade se juntavam em associações conhecidas como Scholae ("escolas"),Borgatti, 19-21 cuja tarefa era receber e ajudar homens e mulheres de seus países chegando em Roma. As mais famosas era as scholae dos francos, saxões, frísios e lombardos; cada uma delas contava com seu próprio hospício e igreja. Uma das primeiras, a Schola Saxonum, foi construída no século VIII pelo rei saxão Ine de WessexBorgatti, 42 e seu hospício evoluiu continuamente até o moderno Hospital do Santo Spirito, um dos maiores e mais antigos hospitais de Roma, fundado pelo papa Inocêncio III em 1198. Perto do hospital está a igreja Santo Spirito in Sassia. Peregrinos alemães batizaram a região à volta de sua schola de "Burg" ("cidade fortificada"),Borgatti, 13 um termo que, italianizado, deu origem ao nome do rione e da região, "Borgo".
Como estava fora da Muralha Aureliana, o Borgo sempre foi vulnerável a ataques. Entre os séculos VIII e IX, o rione — e a basílica — foi saqueado diversas vezes pelos sarracenos, que desembarcavam em Porto,Borgatti, 14 e devastado por incêndios: o de 847 foi imortalizado por Rafael num afresco pintado nas Salas de Rafael, no Palácio Apostólico.
Finalmente, o papa Leão IV construiu uma muralha que ainda leva seu nome: Muralha Leonina. Em 27 de junho de 852, o papa, acompanhado do clero e do povo, começou a obra andando descalço pelo circuito da nova muralha. Então, para aumentar a população, o papa assentou diversas famílias corsas no Borgo. Desde esta época, o rione deixou de ser considerado parte de Roma e ganhou o nome de Cidade Leonina (Civitas Leonina), com seus próprios magistrados e governador. Foi apenas em 1586, no reinado do papa Sisto V, que o Borgo, o décimo-quarto rione de Roma, tornou-se novamente parte de Roma. A Muralha Leonina, que incorporou uma outra mais antiga, construída pelo rei ostrogótico Tótila durante a Guerra GóticaD'Onofrio, chapter III, passim ainda existe entre o Vaticano e o Castelo de Santo Ângelo, trecho no qual recebe o nome de Passetto por causa da passagem coberta sobre ela que podia ser utilizada — e foi diversas vezes — pelo papa como rota de escape de sua residência para a fortaleza do castelo em caso de perigo.
Na Idade Média, o rione não tinha uma população expressiva, com casas esparsas, algumas igrejas e muitas hortas. Havia diversos fornos de tijolo para cozinhar o barro abundante no Vaticano e no Janículo. Um pequeno porto, chamado "Porto Leonino", foi mais tarde utilizado para entregar os blocos de travertino necessários para construir a nova basílica de São Pedro, ficava ao sul do castelo.
Os peregrinos a caminho da basílica e vindo da margem esquerda através da Ponte de Santo Ângelo, depois de passarem por um portão (chamado mais tarde de Porta Castello), podiam caminhar através do "borgo dos Saxões" (moderno borgo Santo Spirito) ou através da "Portica" (chamada atualmente de ''Porticus Sancti Petri) enquanto ela estava de pé. Os que vinham do Trastevere pelo caminho que depois iria ser chamado de Via della Lungara usavam a "posterula Saxonum" (moderna Porta Santo Spirito)Borgatti, 15 e, finalmente, os peregrinos que vinham do norte (monte Mario) seguindo a Via Francigena, entravam pela Porta San Pellegrino (chamada também de Viridaria, por que ficava perto dos Jardins do Vaticano).
Durante o papado de Avinhão, o Borgo, assim como toda a cidade de Roma, sofreu um grande declínio. A Portica ruiu e, em seu lugar foi construída a rua do borgo Vecchio, chamado também de Carriera Martyrum por causa dos mártires que passavam por ali em direção da morte no Circo de Nero. A partir daí, as únicas formas possíveis para se chegar à Basílica de São Pedro vindo da margem esquerda era pelo borgo Santo Spirito ou pelo borgo Vecchio.
Renascimento A recuperação começou com o fim do Cisma do Ocidente e o começo do Renascimento. Na época, o centro de gravidade de Roma já havia começado a mudar, saindo da região à volta do Capitólio, onde a Roma medieval havia se desenvolvido, para a planície do Campo de Marte. Na mesma época, os papas finalmente abandonaram o complexo de Latrão em prol do Vaticano, que agora era o centro do poder católico na cidade.Krautheimer, Profile, 327 passim As grande quantidade de obras civis e sobretudo a construção da Basílica de São Pedro, o símbolo máximo desta mudança, atraiu muitos artesãos e artistas para o Borgo e o renovado fluxo de peregrinos alimentou o comércio na região.
Sob o papa Nicolau V, Bernardo Rossellino planejou três ruas divergentes com arcadas chegando até São Pedro, mas a morte do papa interrompeu o projeto. O papa Sisto IV abriu uma nova via, paralela ao Passetto, chamada Via Sistina e mais tarde rebatizada de borgo Sant'Angelo.
Edifícios magníficos foram construídos no início do pelos altos prelados e aristocratas romanos, incluindo o Palazzo Branconio dell'Aquila, projetado por Rafael; o Palazzo Caprini, de Donato Bramante (uma casa que Rafael escolheu e que mais tarde tornar-se-ia parte do Palazzo dei Convertendi); Palazzo Castellesi, construído para o cardeal Adriano CastellesiCeccarelli, 21 e atribuído a Andrea Bregno ou Bramante, uma cópia em escala menor do Palazzo della Cancelleria; e Palazzo dei Penitenzieri, talvez de Baccio Pontelli. Estes três últimos estão de frente para uma pequena praça, Piazza del Cardinale di S. Clemente (mais tarde, Piazza Scossacavalli), que é hoje a praça mais importante no Borgo. Além disso, ricos burgueses, como Febo Brigotti e Jacopo da Brescia, médicos respectivamente de Paulo III e Leão X, construíram seus palácios no Borgo.
A Cidade Leonina na época era famosa em Roma por suas stufe. Estes edifícios, de tradição germânica, eram uma mistura de uma terma romana e uma moderna sauna e frequentados por artistas, que podiam esboçar seus nus livremente nestes locais (o próprio Rafael tinha uma estufa perto de seu palácio no Borgo).Ceccarelli, 8
thumb|esquerda|300px|Complexo do Hospital do Santo Spirito, um dos maiores e mais antigos hospitais de Roma e cuja origem está na antiga Schola Saxorum. thumb|esquerda|300px|Ponte Vittorio Emanuele II, construída para ligar o Corso Vittorio Emanuele II ao Borgo. À direita, o fundo de Santo Spirito in Sassia e, no fundo, a gigantesca cúpula da Basílica de São Pedro.
Para resolver o problema do tráfego, cada vez mais agudo, uma nova rua, a Via Alexandrina (ou Via Recta), chamada depois de borgo Nuovo, foi inaugurada no Jubileu de 1500 pelo papa Alexandre VI Bórgia.Giovanni Burcardo (Johannes Burckardt de Estrasburgo), relatou a abertura da nova via em seu diário (Liber Notarum). Ceccarelli, 6 Depois da inauguração do Borgo Nuovo ao norte do já existente borgo Vecchio, a fileira de casas entre estas duas vias passou a ser chamada de "Spina" (por causa da similaridade com a spina que divide um circo romano). No meio dela ficava uma pequena praça, Piazza Scossacavalli.