O conceito de corpo sutil é presente tanto em tradições ocidentais quanto orientais, geralmente significando um aspecto corpóreo "quase material" entre corpo e mente, ou um revestimento da alma cujos elementos são mais sutis, finos ou espirituais do que os do corpo físico humano. No Ocidente, é da filosofia grega que se encontram originalmente as definições de veículo da alma (ochema), corpo pneumático, corpo luminoso (augoeidés), corpo astral/sidéreo/estelar (ástroéides), corpo etéreo (aítheriodes), principalmente a partir do contexto neoplatônico, do qual se derivaram os termos atuais. No Oriente, encontram-se sistemas de corpos sutis em doutrinas do taoismo, hinduísmo e budismo.

Na era contemporânea, o conceito foi popularizado por doutrinas espiritualistas, teosofistas e ocultistas. Uma porção significativa de pessoas no Ocidente atualmente aceita a concepção de um corpo composto por "energia" em práticas espirituais e terapêuticas.

História

Contexto originário No contexto filosófico grego, a teoria de um veículo para a alma, ou de corpo sutil, visava explicar como o princípio imaterial e incorpóreo, a alma (psique), se conectava à realidade material de um corpo grosseiro. Os relatos doxográficos atribuem tanto a Platão quanto a Aristóteles uma doutrina já postulada sobre isso. Na formação conceitual, encontra-se forte influência da definição de pneuma avançada por Aristóteles, em que ela mediaria a atividade da psique à atividade motora do corpo; para ele, a pneuma não é idêntica à alma, porém é conectada a ela no momento do nascimento e a carrega. Em crítica à teoria da alma de Platão, Aristóteles afirmava a necessidade de um "corpo instrumental (organikon)" para que ela pudesse operar e se mover.

Esse corpo também seria composto de elementos ("natural", physikôn), porém "diferentes e mais divinos" do que aqueles do corpo material. Talvez sejam verdadeiros antigos testemunhos, como o de Cícero, que atribuíam a Aristóteles a origem da afirmação de que pneuma era composta do quinto elemento: quintessência ou éter.

Além do mais, a pneuma era transmitida pelo sêmen durante a procriação como uma substância quente e aérea onde se localizava as almas nutritiva, sensitiva e imaginativa, e Aristóteles (em Da Geração dos Animais, 736b36-737a) afirma que ele é "análogo ao elemento que pertence às estrelas [isto é, ao éter]". Nisso, afirma que o sêmen possui um "corpo diferente e mais divino", do elemento etéreo do Céu que ele também chama de "primeiro corpo" (prôton sôma). Há evidências também de que Aristóteles utilizava da analogia platônica da carruagem e do Demiurgo timoneiro para descrever Deus sobre o globo terrestre como um cocheiro; por exemplo, conforme Pseudo-Plutarco em Placita (século II): "Aristóteles diz que o Deus maior é uma forma separada, montada sobre a esfera do todo, que é um corpo etéreo (aíthérion soma, αἰθέριον σῶμα), o qual ele chama de o quinto".

Por fim, em uma passagem no primeiro livro do De Anima em que Aristóteles analisa modelos da alma feitos por outros pensadores, ele afirma: "[Há] aqueles que sustentam que a alma é um tipo sutil de corpo (soma ti leptomeres) (...) [Alguns consideram a alma] como o mais sutil (leptomerestaton) e mais próximo do incorpóreo (asomatotaton) de todos os tipos de corpo."

Já a outra fonte, Platão, forneceu mitos alegóricos sobre a origem celestial da alma e a formação de seu corpo; a "lei dos termos médios"; o elemento éter; bem como o termo okhema (, "veículo" ou carruagem), conforme a alegoria da biga, em que a alma é automovente e um princípio do movimento, porém constituída por partes, representadas por um cocheiro em uma biga de dois cavalos.Shaw, Gregory; Crabtree, Adam; Marshall, Paul (19 de fevereiro de 2015). «Platonic Siddhas - Supernatural Philosophers of Neoplatonism». In: Kelly, Edward F.; Crabtree, Adam; Marshall, Paul. Beyond Physicalism: Toward Reconciliation of Science and Spirituality (em inglês). [S.l.]: Rowman & Littlefield Uma passagem precursora disso é Timeu 41d-e:"E quando Ele [o Demiurgo] compôs o todo, Ele o dividiu em almas iguais em número às estrelas, e cada uma das várias almas Ele designou para uma estrela, e, colocando cada uma como se estivesse em uma carruagem (okhema), Ele mostrou-lhes a natureza do Universo, e declarou-lhes as leis do destino, a saber, como que o primeiro nascimento deveria ser um e o mesmo ordenado para todos, a fim de que ninguém pudesse ser menosprezado por Ele; e como era necessário que elas, quando semeadas cada uma em seu próprio órgão de tempo, crescessem como as criaturas vivas mais tementes a Deus"No Fedro 247b, a alma também é descrita como um okhema (ver Parábola da biga). No Fédon 113d, é narrado como são dadas embarcações (ochemata) aos mortos para que navegassem pelo Aqueronte. Outra passagem implícita para o conceito de corpo sutil é o voo da alma do mito de Er. E também em outras, Platão especula sobre se a alma das divindades celestiais possuem um corpo ou veículo, a exemplo do Sol.

Em Fédon 81e, Platão afirma que a alma de pessoas impuras, quando partida após a morte, é "interpenetrada pelo corpóreo" (τοῦ σωματοειδοῦς), contendo elementos que se tornaram nela impregnados ao longo de seu contato com o corpo. Essa passagem foi interpretada posteriormente por Orígenes e Proclo como se referindo ao veículo da alma ou corpo luminoso. Para eles, esses acréscimos materiais explicariam algumas vezes a opacidade e visibilidade da alma, devido à perda de sua transparência e luminosidade.

No Timeu 45b-c, Platão afirma que a combinação da luz que o olho emite (elemento fogo interno) com a luz do dia (elemento fogo externo) forma um único "corpo de luz". Ele retoma no diálogo em 64d-e para afirmar que o corpo de luz não sente dor, ou prazer, nem pode ser cortado, diferente de "corpos com partes maiores" (μειζόνων μερῶν σώματα):"Eles planejaram que todo fogo que tivesse a propriedade não de queimar, mas de fornecer uma luz suave, formasse um corpo semelhante à luz de cada dia. Pois eles fizeram com que o fogo puro dentro de nós, que é semelhante ao do dia, flua através dos olhos em um fluxo suave e denso; e eles comprimem toda a substância, e especialmente o centro, dos olhos, de modo que obstruem todos os outros fogos que são mais grosseiros e permitem que apenas esse tipo puro de fogo seja filtrado. (...) E a afecção que, em sua totalidade, se dá com facilidade é eminentemente perceptível, mas não envolve dor nem prazer; tais são, por exemplo, as afecções do próprio fluxo visual, que, como dissemos antes, torna-se à luz do dia um corpo substancialmente um com o nosso. Pois nele nenhuma dor é produzida por cortes ou queimaduras ou quaisquer outras afecções, nem sua reversão à sua forma original produz prazeres; (...) Mas aqueles corpos compostos de partículas maiores, por cederem com dificuldade ao agente e transmitirem seus movimentos ao todo, sentem prazeres e dores"Em algum momento depois, ocorreu uma junção das teorias de okhema e pneuma. Alguns atribuíram a Heráclides do Ponto (século IV a.C.) uma formulação do conceito de veículo da alma, quando ele narra o voo da alma do personagem Empedótimo e supostamente afirmara que na Via Láctea as almas se purificariam ou adquiriam substância. Essa passagem foi motivo de discussão para comentaristas posteriores, que consideraram que Heráclides estaria postulando uma teoria sobre se o veículo da alma tinha a mesma substância da Via Láctea (e suas estrelas) ou não. O único fragmento a atribuir a Heráclides a Via Láctea como sendo composta por almas é encontrado no livro Da Alma de Iâmblico, provavelmente por alguma tradição doxográfica desconhecida. Na descrição, é dito que Heráclides defendia o corpo da alma como mais sutil.Kupreeva, Inna (2008). «Heraclides' On Soul (?) and Its Ancient Readers». In: Fortenbaugh, William W.; Pender, Elizabeth. Heraclides of Pontus: Discussion. Col: Rutgers University Studies in Classical Humanities (em inglês). XV. Nova Brunswick; Londres: Transaction Publishers Damáscio, posteriormente, discorda de Heráclides, afirmando que é improvável que a Via Láctea fosse composta por veículos de alma, pois ela teria uma substância maior na hierarquia do ser, mais brilhante, astral e divina. Já Filopono parece atacar Heráclides ou Damáscio quando menciona a doutrina daqueles que consideravam a alma como da mesma substância da Via Láctea e a descreviam como "astral" e "luminosa".

O que diversas fontes doxográficas atribuem também a Heráclides é a teoria da alma luciforme (photoeides). Há alguma indicação de que ele teria associado o elemento éter a isso. Deve-se considerar também como sua doutrina teria se inserido no contexto de discussões filosóficas de uma teoria da luz, se esta era corpórea ou não: a teoria corporealista da luz iniciada por Platão evocava que em última instância a luz, como parte do elemento fogo, era formada por partículas. Já para Aristóteles, a luz era não corpórea, mas uma qualidade da união de transparência de um corpo em interação com o elemento fogo. Há ainda precedente para que Heráclides, frequentemente citado como adepto da teoria dos anarmoi onkoi, pudesse se utilizar da noção da diferente densidade de elementos, que já existia na doutrina de Xenócrates, o qual postulava diferentes estados de densidade ou rarefação da matéria.

Médio platonismo e neoplatonismo