thumb|right|332x332px|Em 2013, oito milhões de moedas de 5 cêntimos (uma por habitante) foram despejadas no Bundesplatz em Berna para apoiar o referendo suíço de 2016 para um rendimento básico (que foi rejeitado por 77%–23%).
é uma proposta de seguridade social que advoga que cada cidadão pertencente a uma nação ou região receba regularmente uma renda mínima na forma de um pagamento de transferência incondicional, ou seja, independentemente de outras rendas e sem a necessidade de trabalhar. Em contraste, uma renda mínima de inserção é paga apenas àqueles que já não recebem uma renda suficiente para viver. Até 2024, nenhum país tinha um sistema de RBU em vigor, mas dois países – Mongólia e Irã – o tiveram no passado. Diversos projetos piloto já foram testados, e a ideia é discutida em diversos países. Alguns rotulam a RBU como utópica graças a sua origem histórica.
Existem vários programas de bem-estar social que podem ser considerados semelhantes à renda básica, embora não sejam incondicionais. Muitos países têm um sistema de renda familiar, que é essencialmente uma renda básica para os guardiões das crianças. Uma pensão pode ser uma renda básica para pessoas aposentadas. Existem também programas quase de renda básica que são limitados a certos grupos populacionais ou períodos de tempo, como o Bolsa Família no Brasil, que é concentrado nos economicamente desfavorecidos, ou o Programa Thamarat no Sudão, que foi introduzido pelo governo de transição para aliviar os efeitos da crise econômica herdada do regime Bashir. Da mesma forma, o impacto econômico da pandemia de COVID-19 levou alguns países a enviar pagamentos diretos aos seus cidadãos. O Alaska Permanent Fund é um fundo para todos os residentes do estado americano do Alasca, e às vezes é descrito como o único exemplo de uma verdadeira renda básica na prática. Um imposto de renda negativo pode ser visto como uma renda básica para certos grupos de renda, onde os cidadãos recebem cada vez menos dinheiro até que este efeito seja revertido quanto mais uma pessoa ganha.
Críticos afirmam que uma renda básica a um nível apropriado para todos os cidadãos não é financeiramente viável, temendo que a introdução de uma renda básica levaria a menos pessoas trabalhando, e/ou consideram socialmente injusto que todos recebam a mesma quantidade de dinheiro, independentemente de sua necessidade individual. Os proponentes dizem que é de fato financiável, argumentando que tal sistema, em vez de muitos benefícios sociais individuais testados por meios, eliminaria muitos esforços administrativos sociais caros e burocráticos, e esperam que empregos pouco atraentes teriam que ser melhor remunerados e suas condições de trabalho melhoradas porque teria que haver um incentivo para fazê-los quando já se recebe uma renda, o que aumentaria a vontade de trabalhar. Os defensores também argumentam que uma renda básica é justa porque garante que todos tenham uma base financeira suficiente para construir e menos pressão financeira, permitindo assim às pessoas encontrar trabalho que se adapte aos seus interesses e forças.
Os primeiros exemplos de pagamentos incondicionais aos cidadãos remontam à antiguidade, e as primeiras propostas para introduzir uma renda regularmente paga de forma incondicional a todos os cidadãos foram desenvolvidas e disseminadas entre os séculos XVI e XVIII. Após a Revolução Industrial, o conhecimento público e o apoio ao conceito aumentaram. Pelo menos desde meados do século XX, a renda básica tem sido repetidamente objeto de debates políticos. No século XXI, várias discussões estão relacionadas ao debate sobre a renda básica, incluindo aquelas que dizem respeito à automação de grandes partes da mão de obra humana por meio da inteligência artificial (IA), e questões associadas sobre o futuro da necessidade de trabalho. Uma questão-chave nesses debates é se a automação e a IA reduzirão significativamente o número de empregos disponíveis e se uma renda básica poderia ajudar a prevenir ou aliviar tais problemas, permitindo que todos se beneficiem da riqueza de uma sociedade, bem como se uma RBU poderia ser um trampolim para uma economia baseada em recursos ou de pós-escassez. História
Antiguidade
Em um triunfo em 46 a.C., o general e ditador romano Júlio César deu a cada plebeu romano 100 denários. Depois de seu assassinato em 44 a.C., o testamento de César deixou 300 sestércios (ou 75 denários) a cada cidadão. Trajano, imperador de Roma de 98 a 117 d.C., deu 650 denários (equivalente a cerca de 430 dólares em 2023) a todos os plebeus romanos que se candidataram.
Século XVI Em sua obra Utopia (1516), o político e filósofo inglês Thomas More descreve uma sociedade na qual todas as pessoas recebem uma renda garantida. Nesse livro, a renda básica é proposta com uma resposta à afirmação "nenhuma penalidade na Terra impedirá as pessoas de roubar, se essa for a sua única maneira de conseguir comida," afirmando:Em vez de infligir essas punições horríveis, seria muito mais adequado fornecer a todos algum meio de subsistência, para que ninguém tenha a terrível necessidade de se tornar primeiro um ladrão e depois um cadáver.O acadêmico espanhol Juan Luis Vives propôs que o governo municipal deveria ser responsável por garantir um mínimo de subsistência a todos os seus residentes "não por uma questão de justiça, mas para um exercício mais eficaz da caridade moralmente exigida." Vives também argumentou que, para se qualificar para o auxílio aos pobres, o beneficiário deve "merecer a ajuda que recebe, provando sua disposição para trabalhar."
Século XVIII O filósofo americano de origem inglesa Thomas Paine escreveu Common Sense (1776) e The American Crisis (1776–1783), dois dos panfletos mais influentes no início da Revolução Americana. Seu ensaio Agrarian Justice foi publicado em 1797. Nele, ele propôs reformas concretas para abolir a pobreza. Em particular, ele propôs um sistema de seguridade social universal que incluiria pensões para idosos e apoio a deficientes, além de bolsas universais para jovens adultos, financiadas por um imposto sobre herança de 10% com foco na terra. Paine resumiu seu ponto de vista afirmando que "os homens não fizeram a terra. É apenas o valor das melhorias, e não a terra em si, que é propriedade individual. Todo proprietário deve à comunidade um aluguel pela terra que possui." Paine via a herança como sendo parcialmente um fundo comum e queria complementar o dividendo do cidadão com um imposto sobre as transferências de herança.
Em 1797, o radical inglês Thomas Spence publicou The Rights of Infants como uma resposta a Agrarian Justice de Thomas Paine. Nesse ensaio, Spence propõe a introdução de uma renda básica incondicionaol para todos os membros da comunidade. Esse subsídio seria financiado por meio da socialização da terra e da renda dos aluguéis recebidos por cada município. Parte dos ganhos de todos seria confiscada pelo Estado e dada a outros.
Século XIX O economista político e jornalista americano Henry George propôs a criação de um sistema de aposentadoria e invalidez e um amplo sistema de apoio social a partir de um único imposto sobre o valor da terra e dos recursos naturais. O apoio social seria distribuído aos residentes "como um direito", e não como caridade. George mencionou, mas não enfatizou, a possibilidade de distribuição direta em dinheiro do aluguel da terra. Suas ideias deram origem à filosofia econômica hoje conhecida como georgismo ou "movimento do imposto único", que é uma ideologia econômica que sustenta que, embora as pessoas devam ser proprietárias do valor que elas mesmo produzem, a renda econômica derivada da terra – incluindo todos os recursos naturais, os bens comuns e os locais urbanos – devem pertencer igualmente a todos os membros da sociedade.
Início do século XX thumb|Bertrand Russell, defensor de um modelo social que incluía a renda básica como elemento vital|esquerda|249x249pxPor volta de 1920, o apoio à renda básica começou a crescer, principalmente na Inglaterra. Bertrand Russell defendia um novo modelo social que combinasse as vantagens do socialismo e do anarquismo, e que a renda básica deveria ser um componente vital dessa nova sociedade. No final da Primeira Guerra Mundial, Dennis e Mabel Milner, um casal quaker do Partido Trabalhista, publicou um pequeno panfleto intitulado Scheme for a State Bonus (1918) que defendia a "introdução de uma renda paga incondicionalmente, semanalmente, a todos os cidadãos do Reino Unido". Eles consideravam um direito moral que todos tivessem os meios de subsistência e, portanto, não deveria ser condicionado ao trabalho ou à vontade de trabalhar.
O engenheiro e economista C. H. Douglas se preocupou com o fato de que a maioria dos cidadãos britânicos não tinha condições de comprar os bens que eram produzidos, apesar do aumento da produtividade da indústria britânica. Sua solução para esse paradoxo foi um novo sistema social que ele chamou de crédito social, uma combinação de reforma monetária e renda básica.
Em 1944 e 1945, o Comitê Beveridge, liderado pelo economista britânico William Beveridge, desenvolveu uma proposta para um novo e abrangente sistema de bem-estar social, com seguridade social, benefícios testados quanto à renda e subsídios incondicionais para crianças. Lady Rhys-Williams, membro do Comitê, argumentou que a renda dos adultos deveria ser mais parecida com uma renda básica. Ela também foi a primeira a desenvolver o modelo de imposto de renda negativo. Seu filho, Sir Brandon Rhys-Williams, propôs uma renda básica a um comitê parlamentar em 1982 e, logo em seguida, em 1984, o Basic Income Research Group, agora Citizen's Basic Income Trust, começou a conduzir e disseminar pesquisas sobre renda básica.
Final do século XX O economista e escritor americano Milton Friedman propôs a ideia de um imposto de renda negativo, que efetivamente sancionava uma renda básica para todos, em seu livro Capitalism and Freedom, publicado em 1962. Em seu discurso sobre o Estado da União em 1964, o presidente dos Estados Unidos, Lyndon B. Johnson, apresentou uma legislação para combater a "guerra contra a pobreza". Johnson acreditava na expansão das funções do governo federal na educação e na assistência médica como estratégias de redução da pobreza. Nesse clima político, a ideia de uma renda garantida para todos os americanos também criou raízes. Seis ambiciosos experimentos de renda básica foram iniciados com o conceito relacionado de imposto de renda negativo. O presidente que o sucedeu, Richard Nixon, explicou que seu objetivo era "fornecer uma rede de segurança para os pobres e um incentivo financeiro para que os beneficiários da previdência social trabalhassem." O Congresso acabou aprovando uma renda mínima garantida para idosos e deficientes.
Em meados da década de 1970, o principal concorrente da renda básica e do imposto de renda negativo, o Earned Income Tax Credit (EITC), e seus defensores, conquistaram legisladores suficientes para que o Congresso dos EUA aprovasse leis sobre essa política. Em 1986, foi fundada a Basic Income European Network, posteriormente renomeada para Basic Income Earth Network (BIEN), com conferências acadêmicas a cada dois anos. Outros defensores incluíam movimentos políticos verdes, bem como ativistas e alguns grupos de desempregados.
Em 1988, o economista e político Eduardo Suplicy publicou o livro Da distribuição de renda e dos direitos à cidadania, defendendo o conceito de uma renda básica universal.
Século XXI