A Guerra do Uruguai, também referida como Guerra contra Aguirre, e denominada pela historiografia uruguaia como Invasão brasileira de 1864, ocorreu de 10 de agosto de 1864 até 20 de fevereiro de 1865 e foi travada entre o governante Partido Blanco do Uruguai e uma aliança que consistia no Império do Brasil e o Partido Colorado. Desde a sua independência, o Uruguai tinha sido devastado por lutas constantes entre as facções colorada e branca, cada uma tentando conquistar e manter o poder. O líder colorado Venancio Flores lançou a Cruzada Libertadora em 1863, uma insurreição que visava derrubar Bernardo Berro, que presidia um governo de coalizão (fusionista) entre colorados e blancos. Flores foi ajudado pela Argentina, cujo presidente Bartolomé Mitre lhe forneceu suprimentos, voluntários argentinos e transporte fluvial para as tropas.

O movimento fusionista ruiu quando os colorados abandonaram a coalizão para se juntar aos soldados de Flores. A guerra civil uruguaia rapidamente se transformou, tornando-se uma crise de âmbito internacional que desestabilizou toda a região. Mesmo antes da rebelião colorada, os blancos dentro do fusionismo buscaram uma aliança com o ditador paraguaio Francisco Solano López. O governo blanco agora exclusivamente de Berro também recebeu apoio de federalistas argentinos, que se opunham a Mitre e seus unitários. A situação deteriorou-se quando o Império do Brasil foi arrastado para o conflito. Quase um quinto da população uruguaia era considerada brasileira. Alguns se juntaram à rebelião de Flores, estimulados pelo descontentamento com as políticas governamentais dos blancos, que consideravam prejudiciais aos seus interesses. O Brasil finalmente decidiu intervir no caso uruguaio para restabelecer a segurança das suas fronteiras no sul e sua ascendência regional.

Em abril de 1864, o Brasil enviou o ministro plenipotenciário José Antônio Saraiva para negociar com Atanasio Aguirre, que tinha sucedido Berro no Uruguai. Saraiva fez uma primeira tentativa de resolver a diferença entre blancos e colorados. Confrontado com a intransigência de Aguirre em relação às demandas de Flores, o diplomata brasileiro abandonou o esforço e ficou do lado dos colorados. Em 10 de agosto de 1864, depois que um ultimato brasileiro foi recusado, Saraiva declarou que os militares do Brasil começariam represálias severas. O Brasil se recusou a reconhecer um estado formal de guerra e, durante a maior parte de sua duração, o conflito armado uruguaio–brasileiro foi uma guerra não declarada.

Em uma ofensiva combinada contra redutos dos blancos, as tropas brasileiras–coloradas avançaram pelo território uruguaio, tomando uma cidade após a outra. Posteriormente, os blancos ficaram isolados em Montevidéu, a capital nacional. Diante de uma derrota certa, o governo blanco capitulou em 20 de fevereiro de 1865. A guerra de curta duração teria sido considerada um sucesso para os interesses brasileiros e argentinos. Porém a intervenção do Paraguai em apoio aos blancos (com ataques a províncias brasileiras e argentinas) provocou a longa e custosa Guerra do Paraguai.

Guerra Civil Uruguaia Conflitos blancos-colorados

A República Oriental do Uruguai, na América do Sul, tinha sido, desde a sua independência em 1828, perturbada por conflitos entre o Partido Blanco e o Partido Colorado. Eles não eram partidos políticos, no sentido moderno, mas facções que se envolviam em rebeliões mortíferas sempre que o outro dominava o governo. A nação estava profundamente dividida entre os lados colorado e blanco. Estes grupos partidários formaram-se na década de 1830 e surgiram a partir de relações clientelistas promovidas por caudilhos locais nas cidades e no campo. Em vez de uma unidade baseada em sentimentos nacionalistas comuns, cada um tinha diferentes objetivos e lealdades correspondentes aos seus respectivos quadros políticos insulares.

O Uruguai tinha uma densidade populacional muito baixa e um governo fraco. Os cidadãos comuns foram obrigados pelas circunstâncias a procurar a proteção de proprietários — caudilhos locais que eram colorados ou blancos e que usavam seus trabalhadores, em sua maioria cavaleiros gaúchos, como exército particular. As guerras civis entre as duas facções eram brutais. Táticas duras produziram a crescente alienação entre os grupos, e incluíam a apreensão de terra, o confisco do gado e execuções. O antagonismo causado pelas atrocidades, juntamente com as lealdades familiares e os laços políticos, fizeram da reconciliação algo impensável. Imigrantes europeus, que vieram em grande número durante a segunda metade do , foram atraídos para um partido ou outro; ambas as partes tinham asas liberais e conservadoras, de modo que os pontos de vista sociais e políticos dos recém-chegados poderiam ser conciliados com qualquer um. Os blocos rivais impediam o desenvolvimento de uma administração central nacional amplamente apoiada.

Cruzada Libertadora de 1863 miniaturadaimagem|225px|left|Cavaleiros gaúchos foram usados como milicianos por caudilhos da região platina Na segunda metade da década de 1850, os principais membros do grupo colorado e do blanco tentaram uma reconciliação. Com a aprovação de muitos membros de ambas as partes, foram feitos esforços para a implementação de políticas "fusionistas", que começaram a mostrar resultados em cooperações nas esferas governamentais e militares. A tentativa de resolver o cisma sofreu um revés em 1858, quando os reacionários do Partido Colorado rejeitaram o plano. A revolta foi derrubada por Gabriel Pereira, ex-presidente colorado e do Uruguai, sob o governo fusionista. Os líderes rebeldes foram executados em Paso de Quinteros ao longo do rio Negro, o que provocou novos conflitos. Os colorados suspeitavam que o fusionismo promovesse os objetivos dos blancos em seu prejuízo e chamaram os mortos de "mártires de Quinteros", que deveriam ser vingados.

Com as fraquezas internas do fusionismo agora expostas, os colorados moveram-se para afastar os seus apoiadores do governo. Seu líder, o brigadeiro-general Venancio Flores, um caudilho e um dos primeiros defensores do fusionismo, viu-se sem meios militares suficientes para montar uma revolta sustentada e recorreu à Argentina para pedir uma intervenção.

A Argentina era uma nação fragmentada (desde a queda do ditador argentino Juan Manuel de Rosas, em 1852), com a Confederação Argentina e o Estado de Buenos Aires brigando por supremacia.Veja:

. Flores se aproximou do Ministro da Guerra de Buenos Aires, Bartolomé Mitre, concordando em dar o apoio dos colorados a Buenos Aires em troca de assistência argentina subsequente na sua luta contra o governo fusionista em Montevidéu. Flores e suas unidades coloradas serviram Buenos Aires com determinação feroz. Eles tiveram um papel decisivo na Batalha de Pavón em 17 de setembro de 1861, em que a confederação foi derrotada e toda a Argentina foi reunificada sob o governo de Buenos Aires.

No cumprimento de seu compromisso, o presidente argentino Bartolomé Mitre forneceu à milícia colorada unidades voluntárias argentinas e suprimentos para serem transportados a bordo de embarcações argentinas ao Uruguai em maio e junho de 1863. Navios da marinha argentina mantiveram navios de guerra uruguaios longe da operação. De volta à sua terra natal, Flores pediu a derrubada do governo constitucional, até essa data liderado por Bernardo Berro. Flores acusou o governo de Montevidéu de ter simpatias com os blancos e emoldurou sua "Cruzada Libertadora" (como ele chamava sua rebelião) nos termos familiares de uma luta dos colorados contra os blancos. Colorados de áreas rurais aderiram aos desertores do serviço militar em resposta ao seu apelo.Veja:

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Crise internacional Laços paraguaio–blanco miniaturadaimagem|esquerda|300px|Buenos Aires, capital da Argentina, 1864 Embora os colorados tivessem desertado para a insurgência de Flores, a Guarda Nacional continuou a apoiar o governo fusionista. Partidários dos blancos preencheram os postos vagos. Eles também substituíram oficiais do exército que haviam desertado para Flores. Os blancos receberam ajuda de vários Federalistas argentinos que se juntaram a sua causa. Como no Uruguai, a Argentina tinha sido um campo de batalha de partidos rivais, e a vitória de Bartolomé Mitre em Pavón em 1861 havia sinalizado o triunfo do seu Partido Unitário sobre o Partido Federal liderado por Justo José de Urquiza. Mitre negou qualquer envolvimento na rebelião de Flores, apesar de sua cumplicidade ser muito conhecida e dada como certa.Veja:

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As relações entre Argentina e Uruguai se agravaram, e os dois países chegaram perto de declarar guerra um contra o outro, embora nenhum dos dois pudesse arcar com um conflito militar direto. A Argentina tinha recentemente saído de uma longa guerra civil, e ainda estava lutando para reprimir uma rebelião Federalista na sua província de La Rioja. O Uruguai era muito fraco militarmente para se envolver em uma luta sem ajuda.

Desde 1862, os blancos haviam feito contatos repetidos com o Paraguai, governado pelo ditador Carlos Antonio López, em uma tentativa de forjar uma aliança que poderia alavancar os interesses de ambos na região platina. Após a morte de Carlos Antonio López, seu filho Francisco Solano López o sucedeu como ditador paraguaio. Ao contrário do velho López, que se esforçou para evitar alianças onerosas, Solano recebeu as propostas dos blancos com entusiasmo. Ele acreditava que a Argentina estava trabalhando para a anexação de Uruguai e Paraguai, com o objetivo de recriar o Vice-Reino do Rio da Prata, a antiga colônia espanhola que, uma vez, englobou os territórios dos três países. Solano López, já em 1855, expressou essa preocupação, comentando com o uruguaio Andrés Lamas que "a ideia de reconstruir [o antigo vice-reinado] está na alma dos argentinos e, como resultado, não é apenas o Paraguai que precisa ficar de guarda: o seu país, a República Oriental [do Uruguai], tem que se aproximar do meu, a fim de se preparar para quaisquer eventualidades". No final de 1863, Solano López mobilizava seu exército e estava em negociações com Urquiza, o líder dos dissidentes federalistas argentinos, para convencê-lo a juntar-se à proposta aliança do Paraguai–Uruguai.

Brasil e a guerra civil miniaturadaimagem|250px|Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, c. 1865 O desenvolvimento do assunto no Uruguai foi vigiado de perto pelo Império do Brasil, que tinha interesses vitais na bacia do rio da Prata. Após Rosas cair em 1852, o Brasil tornou-se a potência regional dominante. Sua política externa incluía a subscrição secreta dos partidos de oposição no Uruguai e na Argentina, impedindo que governos fortes pudessem ameaçar a posição estratégica do Brasil na área. Empresas bancárias e comerciais brasileiras também tinham empreendimentos na área, promovendo laços na região. No Uruguai, o banco dirigido por Irineu Evangelista de Sousa (então Barão e depois Visconde de Mauá) tornou-se tão fortemente envolvido em empreendimentos comerciais que a economia dependia desta fonte contínua de fluxo de capital.

Cerca de 18 por cento () da população uruguaia () falavam português e se consideravam brasileiros, e não uruguaios. Muitos dentro das linhas de soldados de Flores eram brasileiros, alguns vindos da província brasileira vizinha do Rio Grande do Sul. A vida ao longo da fronteira entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai era muitas vezes caótica, com as hostilidades em erupção entre os partidários de vários barões do gado, abigeato e assassinatos aleatórios. Grandes proprietários de terra em ambos os lados da fronteira há muito estavam em antagonismo com as políticas de Berro.Veja:

. O presidente uruguaio tentou taxar o gado vindo do Rio Grande do Sul, além de impor restrições sobre o uso de escravos brasileiros no território uruguaio; a escravidão havia sido banida no Uruguai anos antes.Veja:

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