O Poème sur le désastre de Lisbonne (), com o subtítulo ou Examen de cet axiome: «Tout est bien» («ou Exame deste axioma: "Tudo está bem"»), é um poema francês do filósofo e escritor iluminista Voltaire, escrito no final de 1755 e publicado em 1756. Inspirado pelo Sismo de Lisboa de 1755, que destruiu grande parte de Lisboa a 1 de novembro desse ano, Voltaire exprime a sua consternação perante a catástrofe e põe em causa a ideia de uma ordem racional e providencial do mundo, defendida por filósofos otimistas como Gottfried Wilhelm Leibniz e pelo poeta inglês Alexander Pope.
Contexto O terramoto que atingiu Lisboa na manhã de 1 de novembro de 1755, seguido de um tsunami e de incêndios, causou dezenas de milhares de mortos e destruiu grande parte da cidade. O acontecimento teve profunda repercussão no pensamento europeu do século XVIII e reavivou o debate filosófico e teológico sobre o problema do mal e a teodiceia. Voltaire, então instalado nas proximidades de Genebra, ficou fortemente abalado com as notícias do desastre e compôs o poema nas semanas que se lhe seguiram.
Conteúdo e temas O poema, escrito em versos alexandrinos rimados, adota um tom grave e sombrio, distinto da ironia que Voltaire viria a empregar no romance Cândido. Abre com uma apóstrofe à humanidade — «Ô malheureux mortels! ô terre déplorable!» («Ó infelizes mortais! ó terra deplorável!») — e recusa a ideia de que as vítimas, entre as quais crianças, pudessem merecer semelhante castigo divino.
O texto constitui um ataque direto ao otimismo filosófico e, em particular, ao axioma «tudo está bem» (tout est bien), inspirado no ensaio An Essay on Man de Alexander Pope e associado ao princípio de Gottfried Wilhelm Leibniz segundo o qual o mundo existente seria «o melhor dos mundos possíveis». Voltaire argumenta que um Deus omnipotente poderia ter evitado ou limitado o sofrimento e sublinha os limites do conhecimento humano perante os grandes problemas metafísicos.
Publicação e receção O poema foi publicado em 1756, em conjunto com o Poème sur la loi naturelle («Poema sobre a lei natural»), acompanhado de prefácios e notas em que Voltaire defende a sua posição contra o otimismo. A obra suscitou reações intensas. Jean-Jacques Rousseau respondeu-lhe numa longa carta datada de 18 de agosto de 1756, conhecida como Lettre sur la Providence («Carta sobre a Providência»), na qual defendia a Providência divina e sustentava que o mal particular contribui para o bem do conjunto.
Relação com Cândido O Poème sur le désastre de Lisbonne é frequentemente considerado um prelúdio ao romance Cândido (1759), no qual Voltaire retomou, agora de forma satírica, a crítica ao otimismo de inspiração leibniziana.
Categoria:Poemas da França Categoria:Lisboa em ficção Categoria:Livros de Voltaire