Período de Isim-Larsa é uma designação aplicada a uma fase da história da Mesopotâmia antiga que se estende desde o fim da terceira dinastia de Ur e a conquista da Mesopotâmia pelo rei Hamurabi da Babilónia. Segundo a datação convencional (aproximada), esse período teve o seu início em e terminou em , constituindo a primeira parte do chamado período paleobabilônico ; correspondendo a segunda parte ao período da primeira dinastia da Babilónia.
Como o nome indica, durante este período afirmaram-se sucessivamente duas grandes potências na Baixa Mesopotâmia: o Reino de Isim, que tenta ser herdeiro do Reino de Ur depois deste cair, e do Reino de Larsa, cuja queda marca o fim do período. Na realidade, nenhum desses dois reinos chega a ser incontestavelmente hegemónico da Baixa Mesopotâmia, tendo coabitado com outros reinos menos poderosos, como Uruque, Babilónia, Manquisum, etc. A norte, dominaram outras entidades políticas poderosas (Esnuna, Ecalatum, Mari e Iamade), não tendo Isim e Larsa qualquer influência. As dinastias deste período têm em comum serem de origem amorita, apesar de se terem aculturado rapidamente às tradições mesopotâmicas.
Queda de Ur e formação das dinastias amoritas As tribos amoritas tornaram-se cada vez mais turbulentas durante o período da terceira dinastia de Ur (um período também chamado renascimento sumério, no É difícil saber as causas dos movimentos das populações amoritas. Sem dúvida estão ligadas a um fenômeno de aquecimento climático que afetou mais rapidamente os semi-nómadas que viviam nas estepes, onde a sobrevivência depende de raros pontos onde havia água, que secam rapidamente quando o clima se torna mais seco. As menções aos amoritas nos textos dessa época tornam-se mais numerosos na Suméria e na Acádia. O rei Sulgi chegou a construir uma muralha para se proteger das incursões dos amoritas, mas este revelou-se ineficaz. Na Síria, os sítios urbanos perderam a sua importância, o que parece demonstrar que o nomadismo ganhou importância, o que é visto como um sinal de um estabelecimento massivo de amoritas naquela região. É nessa altura que as dinastias amoritas se começam a instalar na Síria do norte. Na Baixa Mesopotâmia, a pressão exercida pelos amoritas faz-se sentir cada vez mais fortemente no fim do O rei Ibi-Sim perdeu uma grande parte do seu território setentrional para as tribos amoritas, numa altura em que o seu país passava por uma seca, um fenómeno que sem dúvida estava ligado aos ataques, pelo menos em parte. É então, cerca de 2017, que o governador da cidade de Isim, Isbi-Erra, se declara independente, quando Ibi-Sim o encarrega de fornecer cereais a Ur. O Reino de Ibi-Sim fica assim ainda mais enfraquecido e o golpe final sobreveio quando Quindatu, o rei de Elão lançou um ataque durante o qual conquistou Ur e outras cidades sumérias em Ibi-Sim foi deportado para Elão e o antes poderoso Reino de Ur desaparece. Não obstante terem sido os elamitas que derrotaram Ibi-Sim, os amoritas tiveram um papel determinante na queda do Reino de Ur e foram eles que recolheram os principais dividendos: logo que os elamitas voltam às suas terras, os soberanos amoritas ficam à frente de numerosos reinos em todo o Médio Oriente.
Sobre as ruínas do Reino de Ur III surgem uma série de reinos liderados por dinastias amoritas. Na Suméria, Isbi-Erra logrou manter-se no poder em Isim e continuou a dominar a região depois de ter repelido os elamitas de Ur. No entanto, os amoritas já se tinham entretanto instalado em Larsa após o fim do reinado de Ibi-Sim. Os arquivos do Reino de Esnuna mencionam a presença de tribos amoritas poderosas na região do rio Diala (afluente da margem esquerda do Tigre). Na Acádia, os reinos amoritas foram fundados mais tarde, durante o período de lutas entre Isim e Larsa, nas cidades de Quis, Sipar e Babilónia. Na Síria, foi nesse mesmo período que foram fundadas as dinastias amoritas dos reinos de Mari, Alepo e de Catna, bem como todos os principados da região do Cabur, do e de todo o Médio Eufrates
Rivalidade entre Isim e Larsa Domínio de Isim Isbi-Erra conseguiu manter o domínio sobre Isim depois da queda de Ur. Ele conquistou esta cidade depois dela ter estado oito anos nas mãos dos elamitas. Nessa altura ele tinha já estendido o seu poder para norte, como Esnuna, onde colocou um novo governador que no entanto se emancipou pouco depois. A sul, o Reino de Larsa continuou independente. Isbi-Erra morreu em e foi substituído por Su-ilisu , que restaurou Ur durante o seu reinado, nomeadamente fazendo retornar as estátua do deus Sim, que tinha sido levada para Elão em O reinado seguinte, de Idindagã , está muito mal documentado, ao contrário do que acontece com o do seu sucessor, Ismedagã , do qual há um grande número de fontes, entre as quais muitos textos literários. Sabe-se que empreendeu várias construções e reconstruções em várias cidades sumérias. O apogeu de Isim deu-se nesse período e no do reinado seguinte, de Lipite-Istar , o qual é conhecido por ter deixado um código legal. Nessa altura, Larsa começa a tornar-se uma ameaça séria e a tornar-se predominante.
Ascensão de Larsa thumb|Lista de reis de Larsa; Museu do Louvre, Paris
Segundo a lista real suméria, da historiografia do Reino de Larsa, esta cidade foi a capital de uma dinastia independente amorita desde , quando um certo Naplanum, não mencionado em quaisquer outras fontes, conquistou a cidade ao soberano de Ur. Os primeiros anos do reino amorita de Larsa são muito mal conhecidos e os primeiros registos fiáveis sobre este reino datam dos reinados de , que conquistou a cidade de Lagaxe, e do seu sucessor . Quando este último morreu, o trono foi ocupado pelo seu irmão , durante cujo reinado Larsa se tornou uma potência regional. Gungunum começou por apoderar-se de Ur e depois de e de Uruque, todas elas dependentes de Isim. Em seguida derrotou a outra grande potência regional, Elão, tendo-se apoderado brevemente de Susa. As vitórias de Gungunum precipitaram a queda da dinastia elamita de , o que fez com que Elão deixasse de constituir uma grande ameça para a Mesopotâmia durante mais de um século. Quando Gungunum morreu, Larsa tinha-se tornado o reino mais poderoso do sul da Mesopotâmia.
Entretanto Isim não se dá por vencida e os dois reinos entram em guerra durante os reinados dos monarcas seguintes. A guerra terminou com a vitória do rei de Larsa e a morte de Ur-Ninurta em combate. O filho deste, Bur-Sim tentou vingar a derrota frente a , mas tal não impediu que este último conquistasse outras cidades mais a norte: Quis, e sobretudo Nipur. Sumuel foi também muito ativo em obras fluviais, tendo desviado uma braço do Eufrates que corria em direção ao território de Isim para ser aproveitada por Larsa, o que teve enormes consequências económicas. No entanto, aparentemente o Reino de Larsa desapareceu devido a uma catástrofe cuja natureza se desconhece.
A fragmentação política do sul mesopotâmico No mesmo período, a Babilónia do norte foi dividida entre vários pequenos reinos amoritas: Quis, que cai nas mãos de Larsa durante o reinado de Sumuel, Sipar, Marade, a qual conhece um momento de grande expansão, Dilbate, Danrum e a cidade de Babilónia, onde foi fundada uma dinastia por Samulael Ainda mais a norte, no vale do Diala, o Reino de Esnuna apoderou-se de todos os principados vizinhos a partir do reinado de Ipique-Adade e tornou-se uma grade potência política. Na Suméria dominada por Isim e Larsa, foi fundada uma nova dinastia em Uruque por em 1860, que empreendeu várias obras na sua capital e se aliou a Babilónia, casando-se com a filha de Sumulael.
A situação de Isim continuou a deteriorar-se depois das derrotas infligidas por Sumuel: há uma história que conta que o rei vencido , tendo sabido por presságios da sua morte, fez-se substituir temporariamente por um "substituto real", o jardineiro Enlil-Bani, sobre o qual a maldição deveria abater-se; mas o destino tinha decidido a sua morte, pelo que Enlil-bani se tornou o rei legítimo e reinou entre 1860 e Após o fim do reinado deste, Isim foi declinando cada vez mais, enquanto Larsa se tornou a potência dominante da região. Nesta cidade, empreendeu obras importantes, mas o seu único feito militar relevante foi a conquista de , situada a norte do seu reino, e enfrentou uma revolta no seu território. O seu filho e sucessor teve um reinado mais prolífico, tendo derrotado Sumulael da Babilónia e depois Esnuna, as duas principais potências em ascensão situadas a norte do seu reino. Depois dele, enfrentou uma coligação formada por Isim, Uruque, Cazalu e Elão.
Na mesma altura, o poderio de Babilónia também crescia. Depois da derrota de Sumulael frente a Larsa, o seu filho Sabium apoderou-se de vários reinos vizinhos de Sipar, Quis, Danrum, Dilbate e Marade e possivelmente chegou a derrotar um exército de Larsa. Nesta cidade, instalou-se uma nova dinastia em , com um personagem de nome elamita , que no entanto não chega a ser rei de Larsa, ao contrário dos seus dois filhos e . Ao que parece, esta mudança dinástica sucedeu na sequência de uma revolta em , que se aliou com Cazalu, o que deu origem a uma ofensiva no coração do Reino de Larsa. Cudur-Mabuque restabeleceu a situação e Uarade-Sim estendeu a sua autoridade à cidade santa de Nipur e derrotou o Reino de Malgium.
Rim-Sim teve um reinado muito longo, de quase 60 anos, cuja primeira metade foi marcada por grandes êxitos militares. Em , apoderou-se do reino vizinho de Uruque e assegura o controlo definitivo da cidade de Nipur, que entretanto tinha voltado à órbita de Isim. Estes primeiros sucessos não o puseram a salvo da expansão babilónica: Sim-Mubalite lançou vários ataques à parte sul do Reino de Larsa e apoderou-se temporariamente de Nipur e até mesmo de Isim cerca de Rim-Sim não perdeu tempo a contra-atacar; as suas tropas retomaram Nipur, seguidamente anexaram Isim e o que restava do seu reino em Este é o ponto alto do seu reinado, mas também a sua última grande vitória. Esgotado pelas guerras sucessivas em que se envolveu, o Reino de Larsa parou de se expandir, ao mesmo tempo que em Babilónia ascende ao trono o maior soberano desse período: Hamurabi .
A situação na Alta Mesopotâmia e na Síria Os acontecimentos nas regiões setentrionais da Mesopotâmia e da Síria neste período são mal conhecidos, havendo falta de fontes. Os grandes reinos da região são os de Iamade, centrado em torno da sua capital Alepo; Catna; o seu rival a sul, no Médio Eufrates, Mari, de onde provêm as principais fontes desta época; Carquemis, junto à Anatólia; Ecalatum no Alto Tigre (sítio que ainda não foi localizado); e a cidade de Assur, conhecida neste período pelos arquivos de Canés, na Capadócia. Cabe também mencionar, devido à sua importância, o Reino de Esnuna, que tinha interesses na região do Médio Eufrates, e a região do Cabur, local de passagem de grandes rotas comerciais.
de Esnuna apoderou-se da cidade de Arrapa durante a segunda metade do O seu filho Narã-Sim continuou a expansão, lançando ofensivas na região do Tigre, onde derrotou a potência local, Ecalatum, cujo rei fugiu para Babilónia. Prosseguiu depois para o Triângulo do Cabur, onde Ecalatum tinha estendido a sua influência, e atacou na direção do Eufrates; o seu pai tinha submetido e ele apoderou-se de Suhum. O rei de Mari , então já vizinho de Esnuna, foi forçado a aceitar a suserania deste último em detrimento do seu vizinho oriental, Iamade. O rei deste país, Sumuepu , enfrentou uma revolta das tribos nómadas beniaminitas do Reino de Mari, que foi esmagada por Iadum-Lim. Entretanto, Sansiadu voltou do exílio e restabeleceu o seu poder em Ecalatum, aproveitando a retirada de Esnuna depois da morte de Narã-Sim.
Concentração política Reino da Alta Mesopotâmia upright=1.25|left|thumb|Mapa aproximado do Reino da Alta Mesopotâmia antes da morte de Sansiadu