thumb|292px|Ruínas da cidade de Ur, com o zigurate em segundo plano
A terceira dinastia de Ur, também designada abreviadamente Ur III, foi a terceira dinastia da cidade suméria de Ur, segundo a tradição historiográfica mesopotâmica. A designação é também aplicada ao grande império fundado pelos soberanos da dinastia, que dominou toda a Mesopotâmia aproximadamente entre e segundo a "cronologia média" ou entre e segundo a "cronologia inferior".
Na história mesopotâmica, o Império de Ur deu continuidade ao Império Acádio, que o precedeu cerca de dois séculos. No entanto, ao contrário desta, a dinastia de Ur III era de origem suméria e não acádia. Os seus reis, administradores e letrados, usavam sobretudo a língua suméria, pelo que este período é por vezes chamado período neossumério, o qual também inclui a dinastia de Gudea de Lagaxe, que terminou com o início do domínio de Ur III e que teria constituído um "renascimento sumério" depois do domínio dos acádios, uma perspetiva que é contestada por alguns estudiosos.
O período de Ur III é notável pela quantidade de documentação escrita que chegou até nós, na sua maior parte de natureza administrativa, que permite saber como funcionava o reino e alguns aspetos da sua sociedade e da sua economia. Esta abundância documental e a análise das práticas administrativas da época dão a impressão de um Estado "burocrático". Durante a dinastia, a administração das instituições oficiais (templos e palácios) ganhou uma importância sem precedentes e raramente igualada depois na história mesopotâmica, que deu origem a experiências administrativas originais.
História Em meados do , o Império Acádio foi destruído em circunstâncias mal conhecidas: aparentemente os gútios tiveram um papel importante nesse acontecimento, mas também se nota que a Baixa Mesopotâmia se fragmentou em vários reinados constituídos em volta de certas cidades, nomeadamente Uruque e Lagaxe. Cerca de ou , o rei Utuegal de Uruque derrotou Tiricã, o rei dos gútios, passando a poder exercer a sua soberania sobre o sul da Mesopotâmia. Mas o seu reinado foi breve e após cerca de oito anos no trono, foi deposto por notáveis da sua corte liderados pelo seu irmão Ur-Namu, o governador de Ur. A tradição mesopotâmica reconhece Ur-Namu como o fundador da terceira dinastia de Ur.
A história política da dinastia foi reconstituída em primeiro lugar graças aos nomes dos anos dos reis que são conhecidos de forma completa a partir do reinado de Sulgi. Eles fornecem a duração dos reinados e os acontecimentos mais notáveis (usualmente de caráter militar ou religioso). Por exemplo, o sexto ano do reinado de Su-Sim intitula-se "Su-Sim, rei de Ur, erigiu uma magnífica estela para Enlil e Ninlil" e o sétimo "Su-Sim, rei dos `quatro cantos, destruiu o país de ". O nome do ano refere-se ao acontecimento considerado mais relevante entre aqueles que tiveram lugar no ano precedente: assim, a tomada de Zabesali ocorreu no sexto ano do reinado de Su-Sim. Estas informações podem ser completadas por várias inscrições reais. As mais desenvolvidas acerca de acontecimentos históricos datam do reinado de Ur-Namu. Há ainda informações complementares nos hinos dedicados a reis e nos textos administrativos. Cabe ainda mencionar os textos de caráter historiográfico redigidos depois da queda do reino e cartas que se apresentam como sendo correspondência entre os reis de Ur e os seus administradores, cuja fiabilidade é tema de debate.
Com todos estes elementos, a cronologia relativa geral da dinastia pode ser estabelecida, mas há muitas lacunas. A cronologia absoluta é muito mais incerta: não há consenso para a datação absoluta dos reinados e os especialistas hesitam entre uma "cronologia média" e uma "cronologia inferior", sabendo que ambas são apenas aproximadas, embora a maior parte opte por usar a cronologia média.
Ur-Namu, o fundador Desde a sua entronização que Ur-Namu (r. ca. segundo a cronologia média; segundo a cronologia inferior) afirmou o seu domínio sobre o território anteriormente governado por Utuegal, centrado em Uruque e em Ur, tendo depois estendido as suas possessões a toda a Baixa Mesopotâmia. Tomou então o título de "rei da Suméria e da Acádia", simbolizando a unificação das cidades-estado da Baixa Mesopotâmia como tinham feito antes os reis da Acádia. O seu domínio em direção ao rio Diala, a nordeste, teve que passar por uma vitória sobre as tropas elamitas. Ur-Namu procedeu depois a uma reorganização dos territórios dominados, tendo mandado restaurar as cidades maiores, os seus santuários, os canais de irrigação, além de ter feito uma reorganização administrativa. O seu código legal é um símbolo da sua vontade em mostrar-se como um rei justo. A crer numa tradição posterior, Ur-Namu morreu durante um combate ocorrido no 18.º ano do seu reinado.
Sulgi, o Império de Ur Ur-Namu foi sucedido pelo seu filho Sulgi (r. ca. ou ) em condições difíceis se o seu pai morreu realmente numa expedição militar. Da primeira vintena de anos do seu reinado só são conhecidas atividades religiosas, nomeadamente em Ur e Nipur. Os 18 anos seguintes colocam Sulgi entre os mais brilhantes da história mesopotâmica. Ele estendeu o seu reino na sequência de várias conquistas em direção a norte e sobretudo a nordeste; as suas campanhas militares levaram a vitórias na região do Alto Tigre e do Zagros ocidental (Arbela, Simurrum, , , etc.) e o Elão (Ansã). Para encontrar soluções pacíficas para os conflitos, foram feitas diversas alianças matrimoniais com reinos do planalto iraniano, nomeadamente com o poderoso .
As regiões conquistadas foram constituídas em províncias-tampão face aos reinos que se mantiveram independentes. Foi construída uma muralha no norte da Acádia para fazer face às incursões das populações do noroeste, os MAR.TU (amoritas). Sulgi levou também a cabo numerosas reformas que reorganizaram profundamente as províncias centrais. Uma parte destas pode ter sido iniciada pelo seu pai, pois por vezes é difícil distinguir entre as obras de um e de outro. Algumas das áreas em que estas reformas incidiram notoriamente foi no sistema de tributação (com a colocação em prática do BALA), na organização dos domínios dos templos, na formação de escribas e da escrita, no calendário real e na construção de um importante centro administrativo (e talvez residência real) em (um subúrbio de Nipur). Tal resultou numa burocratização da administração, que explica a inflação da documentação que então teve lugar. No reinado de Sulgi assistiu-se ainda à divinização do rei e à redação de toda uma literatura a glorificá-lo. Vários dos seus filhos e filhas foram postos à frente de grandes santuários. Sulgi morreu após reinar durante 18 anos com grande sucesso. As causas da sua morte são tão obscuras como as do seu pai e é possível que os seus últimos anos tenham sido tumultuosos.
Amar-Sim, Su-Sim e Ibi-Sim, a lenta degradação do reino Amar-Sim (r. ca. ou ) sucedeu ao seu pai Sulgi e reinou durante nove anos. As suas tropas combateram em várias ocasiões nas zonas periféricas do norte e do leste (Arbela, Quimas, Hunur, etc.) onde o domínio do reino de Ur tinha que ser regularmente reafirmado, ao mesmo tempo que as relações diplomáticas com os reis do planalto iraniano continuaram. O sistema administrativo posto em prática pelos seus antecessores continuou a funcionar bem.
Su-Sim (r. ca. ou ), filho ou irmão de Amar-Sim, a quem sucedeu, reinou também durante nove anos. Teve que afirmar a sua autoridade nas zonas periféricas do norte e do leste. Os tributos cobrados nessas regiões parecem ter chegado menos regularmente, um sinal de um enfraquecimento do poder do rei de Ur. A maior ameaça vinha de noroeste, devido a incursões amoritas. Para lhes fazer face, Su-Sim reforçou o sistema defensivo implementado por Sulgi construindo uma nova muralha.
Ibi-Sim (r. ca. ou ), filho de Su-Sim, reinou 24 anos, durante os quais a desagregação do reino continua de forma inexorável. Nos arquivos dos grandes centros administrativos das regiões centrais nada se encontra depois dos primeiros anos do reinado. São realizadas várias campanhas militares contra as entidades políticas situadas nas zonas fronteiriças orientais do reino (Ansã, Hunur e Susa), que entretanto tinham ganho autonomia. Por seu lado, as províncias próximas do centro foram-se tornando independentes: é bem conhecido o caso de Esnuna e sobretudo o de Isim, sob a liderança de Isbi-Erra, um governador renegado de origem amorita. As incursões das tribos amoritas tornaram-se cada vez mais violentas, ao mesmo tempo que surgiu uma crise de fome.
A queda de Ur esquerda|thumb|Tábua com o texto da Lamentação pela destruição de Ur, Museu do Louvre
A queda da terceira dinastia de Ur ocorreu cerca de quarenta anos depois da morte do seu maior rei, durante o reinado do seu neto. Foram propostas várias causas para explicar este colapso: a organização burocrática complexa do império parece ter sido pesada e frágil por ser difícil de manter ao longo do tempo, ao mesmo tempo que os governadores provinciais só só eram bem controlados quando o poder do soberano era forte, podendo tornarem-se autónomos quando tal poder enfraquecia, a começar nos das regiões periféricas. Além disso, as relações com as regiões vizinhas nunca foram pacificadas apesar das numerosas tentativas, nomeadamente com os reinos elamitas e com as tribos dos martu/amoritas. Mais recentemente, foi proposta outra explicação: um aquecimento climático que teria provocada a fome dos últimos anos do reino.
O desenrolar exato da queda de Ur é mal conhecido, pois a sua reconstituição é feita sobretudo recorrendo a fontes posteriores cuja fiabilidade está mal estabelecida, nomeadamente pelas carta apócrifas evocadas acima, que dão elementos sobre as condições da secessão de Ixiberra e Isim, que teve lugar num cenário de crise alimentar. O golpe de misericórdia parece ter sido uma expedição liderada pelo rei elamita Quindatu de , que também integrava tropas vindas do Zagros. Aparentemente, o rei de Ur Ibi-Sim parece ter sido levado para Elam com a estátua do deus Nana, padroeiro de Ur, simbolizando a sua completa derrota. No entanto, as tropas elamitas são depois perseguidas por Ixiberra, que tira partido da queda de Ur, exercendo a hegemonia sobre as cidades da Suméria, não obstante não ter logrado estabelecer um reino com o tamanho do de Ur III.
O reino de Ur III lançou as bases dos grandes reinos que lhe sucederam. Enquanto Embora os sumérios desaparecessem como povo, abriu-se uma nova era na história mesopotâmica, o ou período amorita. Os primeiros reis amoritas (sobretudo os de Isim e de Larsa) assumiram a herança de Ur III: os seus títulos retomaram os dos reis de Ur e continuaram durante algum tempo a ser divinizados e a patrocinar arte e literatura que davam continuidade às do período neossumério. No reino de Isim foram redigidos textos de "lamentações" que comemoram a queda do reino de Ur e das suas grandes cidades (Ur, Uruque, Nipur e Eridu). Esses escritos tinham como objetivo justificar a queda de Ur e legitimar o domínio dos novos governantes do sul da Mesopotâmia, apresentando os seus reinados como decisões divinas. Hinos e histórias relativas aos reis de Ur III, principalmente Ur-Namu e Sulgi, foram também recopiadas e perpetuam a memória dos seus brilhantes reinados, o mesmo acontecendo com as cartas apócrifas dos reis de Ur, que são recopiadas no meio escolar.
Organização do reino de Ur III A organização do reino de Ur III é bem conhecida graças à abundante documentação em escrita cuneiforme desse período, proveniente principalmente de cinco sítios, as antigas cidades de Guirsu (Telo), Uma (Tel Jocar), (Drehem), Nipur e Ur. Estima-se que tenham sido encontradas cerca de tábuas deste período, das quais não foram publicadas. A esmagadora maioria dos documentos são de natureza administrativa, provêm dos templos e datam dos reinados de Sulgi, Amar-Sim e Su-Sim.
O rei e a sua comitiva