Hans Schultze-Jena (Jena, — Naulila, Angola, ) foi um jurista, juiz e administrador colonial em Outjo, ao tempo no Sudoeste Africano Alemão, hoje Namíbia, cuja morte num conflito com tropas portuguesas foi o casus belli para o conflito fronteiriço entre as forças portuguesas em Angola e as forças de defesa do Sudoeste Africano Alemão que teve o seu auge no combate de Naulila.

Biografia Hans Schultze-Jena nasceu no seio de uma família de reputados académicos. O seu pai, Bernhard Sigmund von Schultze-Jena era um famoso médico e professor de ginecologia e obstetrícia na Universidade de Jena, cidadão honorário da cidade, agraciado com o título de von Schultze-Jena. O seu avô, Karl August Sigismund Schultze (1795–1877), fora médico e professor de anatomia e fisiologia. O seu tio Max Johann Sigismund Schultze (1825–1874) foi anatomista e zoólogo e os seus tios August Sigismund Schultze e Richard Sigismund Schultze foram juristas. O seu primo, Oskar Max Sigismund Schultze, foi, como o seu pai Max Johann Sigismund, anatomista e lente dessa especialidade (Ordinarius) na Universidade de Würzburg (Julius-Maximilians-Universität Würzburg). O seu irmão Kurt Schultze-Jena foi professor de Cirurgia e o seu irmão Leonhard Schultze-Jena (1872-1955) foi explorador e antropólogo, com importantes contribuições para o conhecimento da geografia e antropologia do Sudoeste Africano.

Seguindo a tradição familiar de excelência académica, Hans Schultze (que mudou o nome em 1912 para Hans Schultze-Jena na sequência de seu pai ter sido agraciado com o título) doutorou-se em Direito e ingressou na magistratura colonial do Império Alemão.

Em Dezembro de 1906 foi nomeado juiz de círculo de Windhoek e Lüderitzbucht. Em 1907 foi nomeado administrador imperial (Kaiserlicher Bezirksamtmann) em Grootfontein e depois em Outjo. Prestou serviço nas tropas de defesa da colónia do Sudoeste Africano Alemão, onde atingiu o posto de tenente da reserva (Oberleutnant d. R.).

Era com os títulos de Oberleutnant d. R. Dr. jur. que em 1914, no dealbar da Grande Guerra, Hans Schultze-Jena exercia as funções de administrador de Outjo (Kaiserlicher Bezirksamtmann zu Outjo). No entretanto, pelas suas funções, origens familiares e por deter as mais altas qualificações académicas da colónia, granjeara elevada reputação, sendo considerado uma das figuras mais respeitadas entre os colonos alemães do Sudoeste Africano.

Terá sido o seu estatuto social e a respeitabilidade que Hans Schultze-Jena merecia na colónia, que levaram a que em Setembro de 1914 o governo da colónia, sediado em Windhoek e ao tempo presidido por Theodor Seitz, encarregasse Hans Schultze-Jena de uma missão diplomática da máxima importância: o objectivo era negociar com as autoridades portuguesas em Angola um acordo que permitisse o reabastecimento da colónia alemão com víveres originários de Angola, ou importados através daquele território, e o encaminhamento do correio da colónia alemã através da colónia portuguesa. Estas negociações eram vitais para os interesses alemães, dado que após a declaração de guerra britânica, as tropas da União Sul-Africana tinham encerrado as fronteiras sul e leste da colónia e a marinha britânica impunha um apertado bloqueio às suas costas. Os abastecimentos, que antes vinham da colónia britânica, cessaram e o correio que era encaminhado através da Cidade do Cabo estava interrompido. A abertura da fronteira portuguesa era a única forma de garantir uma comunicação segura com a Alemanha.

Portugal era ao tempo, pese embora a sua antiga aliança com o Reino Unido, um Estado neutral no conflito entre o Império Alemão e o Império Britânico. Contudo, apesar da neutralidade, as relações entre Portugal e a Alemanha já apresentavam claros sinais de degradação e cresciam em Portugal as vozes que defendiam a entrada do país na guerra contra o Império Alemão. Recentes conflitos fronteiriços no norte da África Oriental Portuguesa, com o espinhoso precedente do Triângulo de Quionga, tinham deteriorado o relacionamento entre as colónias portuguesas e alemãs em África ao ponto do Governo da República ter decidido no verão de 1914 enviar forças expedicionárias para reforçar as forças coloniais ao longo das fronteiras luso-alemãs no sul de Angola e no norte de Moçambique.

Foi neste contexto de tensão que a 18 de Outubro de 1914 a expedição capitaneada pelo Dr. Hans Schultze-Jena, que incluía uma pequena escolta armada, cruzou a fronteira angolana, sem se fazer previamente anunciar nem contactar qualquer posto de fronteira. Para além do estabelecimento de contacto com as autoridades portuguesas visando um acordo sobre abastecimento de víveres e transferência de correio, o grupo tinha como missão determinar o que acontecera com alguns carros de víveres enviados de Angola que não tinham chegado ao seu destino em Outjo, no lado alemão da fronteira.

Na tarde daquele dia o grupo alemão foi interceptado por um pelotão de tropas portuguesas comandado pelo alferes Manuel Álvares Sereno, em patrulha junto à fronteira com a Damaralândia, quando se encontrava a uma dúzia de quilómetros do posto de Naulila. Apesar do encontro não ter sido amigável, os militares portugueses e alemães acabam por jantar juntos e pernoitar lado a lado, num improvisado acampamento.João Manuel Rocha, "Angola: a frente esquecida". Público, 31/08/2014.

Apesar de terem acampado conjuntamente, as dificuldades de comunicação entre as forças portuguesas e alemãs eram grandes, mesmo recorrendo aos serviços de um intérprete de origem dinamarquesa, de nome Carl Jensen, que acompanhava a força alemã, mas cujos conhecimentos de português se vieram a revelar limitados. Quando fora interceptado pelo pelotão português, Hans Schultze-Jena informara o alferes Manuel Álvares Sereno que estava em perseguição de um desertor e queria autorização do administrador de Humbe para se deslocar a Lubango.Augusto Casimiro, Naulila : 1914. Lisboa : Seara Nova : Anuário do Brasil, 1922. - XV, 240, p., map. desdobr. : il. ; 19 cm.

Por coincidência, o alferes Manuel Sereno, dias antes, tinha apreendido carros de víveres destinados à Damaralândia, os mesmos que estavam em falta em Outjo, e tinha ordens «para prender e desarmar» os alemães, levando-os ao capitão-mor de Cuamato, António Fernandes Varão. Essas restrições ao movimento dos alemães estavam previstas na declaração de estado de sítio em vigor nos distritos do Sul de Angola, que determinava o desarmamento das tropas alemãs que entrassem no território.

Na manhã de 19 de Outubro, conforme combinado, a liderança da expedição alemã acompanhou o pelotão português a Naulila, enquanto os restantes membros do grupo permaneceram no local do acampamento. O grupo alemão que chegou a Naulila era composto pelo Dr. Hans Schultze-Jena, pelo Oberleutnant Alexander Lösch, pelo tenente miliciano (Kriegsfreiwillige Leutnant) Kurt Röder, pelo intérprete Carl Jensen e pelos ordenanças nativos Andreas e Hugo.Namibiana: Hans Schultze-Jena.Naulila. Erinnerungen eines Zeitgenossen, von Max Ewald Baericke.

À chegada a Naulila, Schultze-Jena descobriu que o capitão-mor António Fernandes Varão não estava no forte e, através do intérprete, manifestou a sua estranheza por ter ali sido inutilmente conduzido. O alferes Sereno procurou explicar-lhe que o capitão-mor estava em Cuamato e que seria lá que se encontraria com ele. Apesar do intérprete informar Schultze-Jena que Sereno estava a agir de acordo com instruções que recebera, este duvidou e acreditou estar a ser vítima de uma armadilha para o separar do grupo e desarmar. Segundo a versão do incidente fixada por sentença arbitral de Julho de 1928 do Tribunal Internacional de Lausanne, a partir daí os eventos precipitam-se: Schultze-Jena duvida das intenções do alferes Sereno e insiste em voltar, armado, ao seu acampamento afirmando que teria compreendido na véspera que a situação seria esclarecida em Naulila e que não passariam dali. Trocam-se ameaças e os alemães, que já estavam montados nos seus cavalos, recusam entregar as armas, esboçando uma fuga. O alferes Sereno dá ordem de fogo e os três alemães e os seus dois ordenanças são mortos. Do grupo alemão só sobreviveu o intérprete Carl Jensen, mantido como prisioneiro pelos portugueses até Novembro de 1919.Der 1. Weltkrieg in Deutsch-Südwestafrika 1914-15, Band 2: Naulila, von Historicus Afrikanus.

As interpretações do sucedido extremam-se, com os alemães a entenderem que foi uma armadilha portuguesa, e os portugueses a afirmarem que o incidente foi provocado por um mal-entendido linguístico acompanhado pela recusa alemã de desarmar.Filipe Ribeiro de Meneses, Portugal 1914-1926: From the First World War to Military Dictatorship. TBS The Book Service Ltd, Londres, 2004 (ISBN 978-0862925550). A ordem de fogo na versão portuguesa foi para contrariar uma tentativa de fuga; a versão alemã é que se tratou de um assassinato friamente planeado.António José Telo,Primeira República I – Do Sonho à Realidade. Editorial Presença, Colecção Diversos, Lisboa, 2010 (ISBN 978-972-23-4417-3).

Apesar do relatório sobre os acontecimentos de 19 de Outubro de 1914, resultado do inquérito ordenado pelo governador-geral de Angola, Norton de Matos, ter ardido dois meses depois na sequência do ataque alemão ao posto de Naulila, o Tribunal Internacional de Lausanne concluiu que, com os alemães já montados, Hans Schultze-Jena apontou a carabina a Álvares Sereno, que estava desarmado, e que o tenente Alexander Lösch sacou da pistola. Foi nessa altura que o alferes português deu ordem de fogo aos seus homens. Na sentença de 1928 afirma-se: É evidente que, interpretando como ameaça o gesto de Schultze-Jena e o do tenente Roeder, Sereno, desarmado, acreditou agir em legítima defesa.

O incidente visto do lado alemão assumiu gravidade extrema: não se tratava de uma qualquer expedição, mas sim de uma delegação de alto nível, enviada por ordem expressa do governador da colónia para negociar com os portugueses.Max Ewald Baericke, Naulila. Erinnerungen eines Zeitgenossen. Gesellschaft für Wissenschaftliche Entwicklung und Museum Swakopmund, Südwestafrika/Namibia, 1981 (ISBN 0-620-05512-X). O incidente deu brado, sendo notícia nacional na Alemanha dada a importância social de um dos falecidos, os quais passaram a ser conhecidos pelos «cinco assassinados de Naulila» (). O incidente foi referido pela imprensa alemã como «o assassinato de Naulila» (), correndo a informação que as fardas, armas e pertences pessoais teriam sido roubados e os corpos enterrados sem cerimónia em lugar desconhecido. A indignação na colónia era enorme e os apelos à vingança sucederam-se.

Os resultados do incidente foram dramáticos: a 31 de outubro forças alemãs atacaram e destruíram o posto de Cuangar e a 12 de Dezembro uma força alemã entrou em Angola e, depois de alguns recontros, a 19 de Dezembro destruiu o forte de Naulila, fazendo cerca de 150 mortos do lado português, neles se incluindo o alferes Manuel Álvares Sereno. O incidente ficou conhecido na historiografia portuguesa como o Desastre de Naulila.

Em 1933 foi erigido em Outjo um monumento aos mortos alemães no incidente, o Naulia-Denkmal, que ainda ali se encontra. Também em Naulila foi construído um monumento, localizado sobre as sepulturas dos mortos no incidente,Monumento de Naulila.Monumentos da Grande Guerra em Angola. que se encontra presentemente em ruínas.Ruínas do Monumento de Naulila.

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