Helicobacter pylori — também conhecida apenas como H. pylori — é uma espécie de bactéria que coloniza naturalmente a mucosa do estômago do ser humano. Muitas úlceras pépticas, alguns tipos de gastrite e de câncer do estômago decorrem da infecção causada pela H. pylori. A maioria das pessoas afectadas nunca chega a manifestar qualquer tipo de sintomatologia ou complicação relacionada com a bactéria.
Estas bactérias vivem quase exclusivamente no estômago humano e duodeno, sendo o único organismo conhecido capaz de colonizar esse ambiente muito ácido, em parte pela sua capacidade de secretar urease, que transforma a ureia presente no ácido gástrico em amônia, elevando o pH ao redor da bactéria, para assim possibilitar a colonização. As bactérias têm formato de hélice (daí o nome Helicobacter) e a forma espiralada permite-lhes "atravessar" com mais facilidade a camada de muco que protege o epitélio gástrico.Campylobacter and Helicobacter Medical Microbiology 4.ª edição, Samuel Baron (editor), 1996
História Em 1875, cientistas alemães encontraram bactérias espirais na mucosa gástrica — essas bactérias não cresceram em culturas in vitro, e os achados foram esquecidos.Blaser MJ An Endangered Species in the Stomach Scientific American, 2005, 292(2)2, 38–45 Em 1892 o investigador italiano Giulio Bizzozero descreveu bactérias espiraladas colonizando o ambiente ácido do estômago de cães.
Os primeiros relatos da presença de microrganismos em forma de “espiroquetas” na mucosa gástrica de animais tiveram início no final do século XIX, em estudos realizados por Giulio Bizzozerz em 1893. Em suas observações anatômicas da mucosa gástrica de cães, Bizzozero relatou a presença de “espiroquetas” habitando glândulas gástricas e ilustrou, com as próprias mãos, organismos gram-negativos no interior dessas células.Figura N, Oderda G. Reflections on the first description of the presence of Helicobacter species in the stomach of mammals. Helicobacter 1996;1(1):4-5. O Trabalho de Bizzozero foi estendido por Salomon, que foi capaz de propagar esses organismos em estômagos de ratos após a ingestão forçada de mucosa gástrica infectada de gatos e cães.Salomon H. Ueber das spirillum saugetiermagens und sien verhalten zu den belegzellen. Bakteriol 1896;19.
A primeira observação de microrganismos no estômago de humanos foi realizada por Krienitz em pacientes com carcinoma gástrico no início do século XX,Krienitz W. Ueber das Auftreten von Spirochäten verschiedener Form im Mageninhalt bei Carcinoma ventriculi. Dtsch Med Wochenschr 1906;32. que mais tarde foi confirmada por Luger e Neuberger, que ainda relatou a raridade desses microrganismos na mucosa gástrica e suco gástrico de indivíduos com mucosa gástrica saudável.Luger A, Neuberger H. Über Spirochätenbefunde im Magensaft und deven diagnostische Bedeutung fur das Carcinoma ventriculi. Zeit. f. Klin. Med. 1921;92(54). O professor Walery Jaworski da Universidade Jaguelônica, em Cracóvia, investigando sedimentos de lavagem gástrica obtidos de um humano em 1899, também observou a presença de um micro-organismo de forma espiral, que chamou de Vibrio rugula. Ele foi o primeiro a sugerir o possível papel deste organismo na patogênese de doenças gástricas. Este trabalho foi incluído no "Handbook of Gastric Diseases", mas não teve muito impacto por ter sido escrito em polonês.
Desde então foram reportadas várias observações desses microrganismos na mucosa gástrica de indivíduos com úlceras pépticas e carcinomas gástricos.Doenges JL. Spirochaetes in gastric glands of Macacus rhesus and humans without definite history of related disease. Proceedings of The Society for Experimental Biology and Medicine 1938;38:536-8. Em 1940, utilizando técnicas de coloração de prata, Freedberg e Baron encontraram “espiroquetas” em aproximadamente 40% das biopsias analisadas de pacientes submetidos à cirurgia gástrica e que, após tratamento com alguns tipos de metais pesados como mercúrio e bismuto, em alguns casos ocorria a remissão da úlcera péptica. Foram os pioneiros ao suspeitar que esses microrganismos pudessem ser agentes etiológicos de úlceras, porém seu trabalho foi ignorado por especialistas, que na época, e por durante décadas adiante, atribuíram a ocorrência de úlceras ao estresse.Freedberg AS, Barron LE. The presence of spirochetes in human gastric mucosa. The american journal of digestive disease. 1940;7(10):443-5.Stafford N. Abraham Stone Freedberg. BMJ 2010;340.
Até que em 1979, Robin Warren, um patologista australiano, começou a notar bactérias curvas frequentemente presentes em biopsias gástricas submetidas a exames histológicos. Estes organismos não estavam presentes no interior da mucosa gástrica e sim no muco que cobre o tecido (WARREN, MARSHALL, 1983). Warren encontrou que organismos similares, encontrados na mucosa gástrica, tinham sido descritos no final do século XIX por patologistas europeus, mas naquela época não foi possível o isolamento de tais organismos que permaneceram esquecidos por gerações de médicos e patologistas (DUNN et al., 1997).
Interessados nessas observações, Barry Marshall e Robin Warren procuraram isolar os organismos a partir de amostras de biopsias gástricas. Baseados na aparência curva, gram-negativa do organismo, os pesquisadores utilizaram a metodologia para isolamento de espécie de Campylobacter, que envolvia a inoculação da amostra de biópsia em meio seletivo e a incubação das culturas em condições microaeróbicas. Em 1982 Warren e Marshall isolaram, pela primeira vez, a bactéria Helicobacter pylori e iniciaram uma nova era na microbiologia gástrica (WARREN, MARSHALL, 1983; JONES et al., 1984).
No entanto, a comunidade médica na época demorou a reconhecer o papel deste micro-organismo nas úlceras gástricas e gastrites, por acreditar que nenhuma bactéria pudesse sobreviver muito tempo no ambiente ácido do estômago, pois até então acreditava-se que o estômago era um ambiente estéril. Determinado a provar que o novo microrganismo estaria relacionado com as alterações gástricas, Marshall ingeriu uma solução de cultura contendo H. pylori, e após alguns dias Marshall realizou o exame de endoscopia, onde foi possível observar alterações gástricas na biópsia coletada comparada com biopsias coletadas anteriormente a ingestão da cultura. As bactérias causadoras da gastrite foram recuperadas a partir de biopsias do seu estômago, satisfazendo assim três dos quatro postulados de Koch. O quarto foi satisfeito pós uma segunda endoscopiaz feita dez dias depois da inoculação revelando sinais de gastrite e a presença da H. pylori. Marshall curou-se após o uso de antibióticos por 10 dias, demonstrando que os antibióticos eram efetivos no tratamento de gastrites.
Em 1994, o National Institutes of Health (EUA) publicou uma nota declarando que muitas úlceras gástricas recorrentes são causadas por H. pylori e recomendou que os antibióticos sejam incluídos no tratamento. Acumularam-se evidências sugerindo que as úlceras duodenais também estão associadas à infeção por H. pyloriHelicobacter pylori infection induces duodenitis and superficial duodenal ulcer in Mongolian gerbils
Em 2005, Warren e Marshall foram premiados com o Prémio Nobel em Medicina pelos seus trabalhos com H. pylori.The Nobel Prize in Physiology or Medicine 2005 awarded to Barry J. Marshall and J. Robin Warren "for their discovery of the bacterium Helicobacter pylori and its role in gastritis and peptic ulcer disease".
Antes do reconhecimento do papel da bactéria, as úlceras gástricas eram tipicamente tratadas por neutralização ou diminuição da produção do ácido gástrico. Quando esse tratamento era interrompido, as úlceras frequentemente reapareciam. Um tradicional medicamento utilizado no tratamento de gastrites era o subsalicilato de bismuto. O medicamento era muito eficaz, mas caiu em desuso porque seu mecanismo de ação era um mistério, além de ser extremamente toxico ao paciente, sendo responsável por lesões gástricas. Atualmente, muitas úlceras gástricas são tratadas com antibióticos efetivos contra H. pylori.
A bactéria foi inicialmente nomeada Campylobacter pyloridis, posteriormente C. pylori (depois de uma correção para a gramática latina) e em 1989, após o sequenciamento da fração 16S do rDNA e outros dados demonstraram que a bactéria não pertencia ao gênero Campylobacter, então foi colocada em seu próprio gênero, Helicobacter. Esta confusão na sua classificação acabou por atrasar as pesquisas, uma vez que Marshall não conseguia reproduzir as bactérias em laboratório, pois, acreditando ser uma Campylobacter, esperava que as culturas estivessem prontas em 48 horas. Até que o acaso deu uma ajuda: num feriado prolongado, as culturas ficaram cinco dias intactas no laboratório e puderam se desenvolver, para surpresa do pesquisador.MEYERS, MA. Happy Accidents: Serendipity in modern medical breakthroughs. New York: Arcade Publishing. 2008.
Enquanto H. pylori permanece como a bactéria mais importante que coloniza o estômago humano, muitas outras espécies do género Helicobacter foram identificadas noutros mamíferos e em algumas aves, e algumas destas podem infectar humanos. Algumas espécies de Helicobacter foram também encontradas no fígado de certos mamíferos, estando associadas ao desenvolvimento de doenças hepáticas.
Gênero Helicobacter Durante três anos, Marshall e Warren observaram a presença de pequenos bacilos curvos em forma de “S” em cortes histológicos de biopsias gástricas, e verificaram que sua presença estava relacionada com a inflamação da mucosa gástrica. A observação morfológica desses bacilos ao microscópico óptico demonstrou semelhanças dos bacilos com bactérias do gênero Campylobacter.Warren JR, Marshall BJ. Unidentified curved bacilli on gastric epithelium in active chronic gastritis. Lancet 1983;1(8336):1273-5. Devido a sua semelhança morfológica, as condições técnicas para o isolamento do Campylobacter por cultura foram utilizadas em amostras de biopsias gástricas (MARSHALL et al., 1984).
A bactéria foi inicialmente denominada Campylobacter pyloridis e foi isolada de todos os pacientes com úlcera duodenal e da maioria dos pacientes com úlcera gástrica, sendo considerado um fator importante no desenvolvimento de úlceras pépticas.Marshall B, Royce H, Annear DI, Goodwin CS, Pearman JW, Warren JR, Armstrong JA. Original isolation of Campylobacter pyloridis from human gastric mucosa. Microbios Letters 1984;25:83-8. Alguns anos mais tarde, de acordo com a International Code of Nomenclature of Bacterial, sua nomenclatura foi revisada para Campylobacter pylori.Marshall B, Goodwin CS. Revised Nomenclature of Campylobacter pyloridis. Int J Syst Bacteriol 1987;37(1):68.
Contudo, diversos estudos comparativos indicavam que o C. pylori não pertencia ao gênero Campylobacter. Em 1985, Goodwin e colaboradores, relatou que ácidos graxos e as principais características ultraestruturais do C. pylori eram muito diferentes das outras bactérias do mesmo gênero.Goodwin CS, Mcculloch RK, Armstrong JA, Wee SH. Unusual cellular fatty acids and distinctive ultrastructure in a new spiral bacterium (Campylobacter pyloridis) from the human gastric mucosa. J Med Microbiol 1985;19(2):257-67. Relatou ainda que lipídeos de membrana, como a menaquinone 6 (MK-6), uma das formas de vitamina K2, característica do gênero Campylobacter.eram ausentes em C. pylori; e mais, a suscetibilidade a antibióticos também era diferente entre as espécies.Goodwin CS, Collins MD, Blincow E. The absence of thermoplasma quinones in Campylobacter pyloridis and its temperature and pH growth range. Microbios Letters 1986;32:137-40. Análises comparativas nas sequencias do RNA ribossômico 5S e 16S determinou a posição filogenética da C. pylori e indicou claramente que esta não deveria ser incluída no gênero Campylobacter, apresentando uma maior relação com Wolinella succinogenes.