A Luftwaffe foi o ramo aéreo da Wehrmacht durante a Alemanha Nazi. Fundada em 1933, mas formada apenas em 1935, foi responsável pelo cumprimento de missões aéreas internas e externas. Nessas actividades, participou na Guerra Civil Espanhola e na Segunda Guerra Mundial, na qual combateu até ao cessar de hostilidades.

Os dois ramos aéreos do Império Alemão durante a Primeira Guerra Mundial, a Luftstreitkräfte do Exército Imperial e a Marine-Fliegerabteilung da Marinha Imperial, foram dissolvidos em 1920. Isto aconteceu devido aos termos impostos à Alemanha pelo Tratado de Versalhes, que estipulava que a Alemanha ficaria proibida, por tempo indeterminado, de constituir uma força aérea.

Durante o período entreguerras, a República de Weimar, em violação do tratado, permitiu que cidadãos alemães recebessem instrução de voo e pilotagem na Base Aérea de Lipetsk. Com a ascensão dos nazis no governo alemão e consequente repudiação do Tratado de Versalhes, uma nova força aérea foi formada no dia 26 de Fevereiro de 1935. Com o despoletar da Guerra Civil Espanhola, a Luftwaffe destacou a Legião Condor para combater pela Espanha Nacionalista. Este conflito tornou-se num campo de testes para novas doutrinas e tácticas da jovem Luftwaffe, assim como para testar antigos e novos conceitos e aeronaves. Com efeito, a Luftwaffe era a força aérea mais sofisticada, tecnologicamente avançada e com mais experiência bélica quando, em 1939, a guerra se iniciou na Europa.Killen 2003, p. 93. No verão de 1939, a Luftwaffe tinha 28 Geschwaders (asas) e aproximadamente 3 650 aviões de combate.

A Luftwaffe foi essencial nas vitórias alemãs pela Polónia e na Europa Ocidental. Durante a Batalha de Inglaterra, embora tenha causado enormes danos materiais à Força Aérea Real e às cidades britânicas durante o Blitz, foi incapaz de alcançar uma vitória. Posteriormente, em retaliação, os bombardeamentos aliados a partir de 1942 começaram gradualmente a destruir as instalações da Luftwaffe. Na União Soviética, no sul da Europa e no norte de África, o ramo aéreo alemão também prestou serviços essenciais para o avanço germânico. Apesar do uso de aeronaves a foguete e a jato para interceptar as formações aliadas, a Luftwaffe foi simplesmente esmagada em termos do número de aeronaves que conseguia fabricar e pilotos que conseguia formar, nunca conseguindo alcançar o ritmo de produção e formação dos aliados. Numa última tentativa de conseguir superioridade aérea, uma campanha foi lançada durante a fase final da Batalha das Ardenas, na qual embora os pilotos da Luftwaffe voassem mais horas e mais missões que os seus semelhantes aliados, não conseguiram alcançar superioridade. Com uma escassez cada vez maior de recursos como o petróleo, óleo e lubrificantes, a Luftwaffe deixou de ser uma força de combate eficaz. Depois da derrota do III Reich, foi dissolvida pelo Conselho de Controlo Aliado, juntamente com a Wehrmacht, em Agosto de 1946.

Origens Primeira Guerra Mundial

O precursor da Luftwaffe foi fundado em 1910 com o nome Die Fliegertruppen des deutschen Kaiserreiches, frequentemente abreviado para Fliegertruppe. Esta força aérea foi rebaptizada Luftstreitkräfte a 8 de Outubro de 1916.Blumberg, Arnold, "The First Ground-Pounders," Aviation History, Novembro de 2014, p. 39. As missões e batalhas aéreas da Luftstreitkräfte na Frente Ocidental desempenharam um forte papel na história inicial da aviação militar, tendo produzido lendas da aviação como Manfred von Richthofen, conhecido como o Barão Vermelho, Ernst Udet, Oswald Boelcke, Werner Voss, entre muitos outros. Muitos pilotos e militares serviriam mais tarde na Luftwaffe, sendo o exemplo mais famoso o de Hermann Göring, que havia sido piloto e sucessor de Richthofen na Jagdgeschwader 1, que se tornaria no comandante máximo e um dos organizadores da Luftwaffe, juntamente com Erhard Milch.

Com o Armistício, os ramos aéreos alemães foram dissolvidos no dia 8 de Maio de 1920, sob as condições impostas pelo Tratado de Versalhes, que também ordenava a destruição de todas as aeronaves militares da Alemanha.

Período entreguerras Visto que o Tratado de Versalhes proibia a Alemanha de ter uma força aérea, cidadãos alemães receberam instrução de voo e pilotagem em secretismo. Inicialmente, as escolas de aviação civil foram usadas para treinar pilotos, porém apenas aeronaves ligeiras de instrução podiam ser usadas, para manter a aparência de que estes alunos seriam futuros pilotos de companhias aéreas como a Deutsche Luft Hansa. Para treinar os seus pilotos em aeronaves de combate, a Alemanha solicitou apoio à sua futura inimiga, a União Soviética, que se mantinha longe da órbita europeia. Uma base aérea secreta foi criada nas imediações da cidade soviética de Lipetsk, em 1924, que operou durante 9 anos usando aeronaves holandesas, soviéticas e algumas alemãs, antes de ser encerrada em 1933. Esta base era oficialmente conhecida por 4º Esquadrão da 40ª Asa do Exército Vermelho. Centenas de pilotos da futura Luftwaffe e pessoal de tripulações em terra visitaram, estudaram e foram treinados em diversas bases aéreas soviéticas um pouco por todo o território russo.Stein, George H. (1962) Russo-German Military Collaboration: The Last Phase, 1933. Political Science Quarterly 77 (1), 54–71..

Os primeiros passos para a formação da Luftwaffe foram dados poucos meses após a nomeação de Adolf Hitler como Chanceler da Alemanha. Herman Göring, às da aviação (22 vitórias) e sucessor de Richthofen, foi nomeado Comissário Nacional para a Aviação, com Erhard Milch como seu vice. Em Abril de 1933, o Ministério da Aviação do Reich (RLM) foi criado. O RLM estava encarregue do desenvolvimento e produção de aeronaves, e rapidamente a Base Aérea de Rechlin tornou-se um campo de testes. A 25 de Março de 1933, a Deutscher Luftsportverband (DVLA) absorveu todas as organizações públicas e privadas de aviação, mantendo-se ainda como organização desportiva. A junção de todas as organizações aéreas civis e militares sob a alçada do RLM deu-se a 15 de Maio de 1933, data esta que se tornou o nascimento 'oficial' da Luftwaffe.Hooton 2007, Luftwaffe at War: Gathering Storm, p. 30. Muitos membros do Nationalsozialistisches Fliegerkorps (NSFK - Corpo de Aviadores Nacional-Socialistas) foram transferidos para a Luftwaffe. Como todos os membros do NSFK estavam filiados ao Partido Nacional-Socialista, estes, ao serem transferidos para a Luftwaffe, deram à mesma uma forte carga ideológica, em contraste ao outros ramos da Wehrmacht. Göring teve um papel muito importante na construção da Luftwaffe entre 1933 e 1936, porém deixando de ser protagonista no desenvolvimento da mesma até 1937, tendo Milch sido ministro de facto até 1937.Hooton 2007,Luftwaffe at War: Gathering Storm, p. 31.thumb|Manfred von Richthofen com outros membros da Jasta 11, em 1917.|250x250pxA ausência de Göring no planeamento e produção trouxe ar fresco à Luftwaffe. Göring tinha conhecimentos muito limitados sobre a aviação da época, havia pilotado pela última vez em 1922, e não se mantinha atento a novas tecnologias; ele também não acompanhou a evolução das técnicas de combate, campo que ele deixou para outros mais competentes. O Comandante-em-chefe afastou-se da organização e construção da Luftwaffe, altura em que Erhard Milch ganhou importância. Contudo Göring, que fazia parte do círculo interno de Hitler, continuou a ser uma figura importante para desbloquear verbas para material e armamento para o equipamento da Luftwaffe.Corum 1997, pp. 124–125.

Outra figura importante na construção do poderio aéreo alemão nesta altura era Helmuth Wilberg, que daria um importante contributo à doutrina aérea alemã. Tendo encabeçado a componente aérea da Reichswehr durante oito anos durante os anos 20, Willberg tinha experiência e era ideal para um posto sénior.Corum 1997, p. 125. Göring teve intenções de fazer de Willberg Chefe de Estado-maior; contudo, foi descoberto que a mãe de Willberg era judia, motivo pelo qual Göring não o poderia nomear para este cargo. Não querendo desperdiçar o seu talento, Göring fez com que as leis raciais não se aplicassem a Willberg, fazendo com que permanecesse no comando e ajudasse a criar a "Conduta da Guerra Aérea" e o "Regulamento 16" sob a direcção de Walther Wever.Corum 1997, p. 127.Hooton 2010, pp. 20–21.

Primeiros anos A era Wever (1933–36) thumb|esquerda|150px|Walther Wever, Chefe do Estado-maior General da Luftwaffe entre 1933 e 1936.

Contrariamente à crença ocidental, a Luftwaffe não foi "a criada do Exército Alemão". Contudo, embora a Luftwaffe fosse independente e seguisse a sua própria linha de pensamento e teorias estratégicas, foi dada ênfase ao apoio às tropas terrestres, sendo a Alemanha uma força continental e estando sempre ameaçada por hostilidades e operações militares terrestres.Murray 1983, p. 1.

Por estas razões, entre 1933 e 1934, o comando da Luftwaffe estava preocupado com métodos tácticos e operacionais; em termos aéreos, o conceito do exército de Truppenführung (operações conjuntas entre ramos) era um conceito operacional, mas também tinha uma vertente táctica. Durante a Primeira Guerra Mundial, as unidades aéreas estavam "delegadas" a determinadas formações do exército, prestando apoio às mesmas. As unidades de bombardeamento de mergulho eram consideradas essenciais à Truppenführung, destruindo posições importantes e linhas de comunicação.Corum 1997, p. 129. O Regulamento 10 da Luftwaffe, publicado em 1934, defendia a superioridade aérea e tácticas de ataque ao solo sem preocupações operacionais. Até 1935, o manual de 1926 "Directivas para a Conduta da Guerra Aérea Operacional" continuava a ser o principal guia para as operações aéreas alemãs. O manual orientou o Oberkommando der Luftwaffe (OKL) a concentrar-se em operações aéreas limitadas: protecção de áreas específicas e apoio ao exército em combate.

Com um conceito táctico eficaz,Corum 1997, p. 130. os teóricos do poderio aéreo alemão necessitavam de uma doutrina estratégica e de organização. Robert Knauss, um militar da Luftstreitkräfte e, mais tarde, piloto da Luft Hansa,Corum 1997, p. 132. foi um proeminente teórico do poderio aéreo. Knauss apoiava a teoria de Giulio Douhet, que defendia que o poder aéreo poderia, por si só, ganhar guerras, através da destruição da indústria inimiga e da desmoralização da população através de tácticas de bombardeamento de terror. Esta teoria incluía ataques e bombardeamentos a civis.Corum 1997, p. 133. O Estado-maior impediu que a teoria de Douhet se tornasse numa doutrina, receando que se o inimigo ganhasse superioridade aérea, pudesse fazer o mesmo contra as populações alemãs.Corum 1997, pp. 133–134.

Em Dezembro de 1934, o Chefe de Estado-maior Walther Wever procurou criar uma doutrina e estratégia que a Luftwaffe pudesse usar na prática. Por esta altura, Wever conduzia exercícios militares (simulações contra os franceses) para validar a sua teoria de que bombardeamentos estratégicos, contra a indústria inimiga, seria o suficiente para ganhar uma guerra, mesmo que fossem também necessários ataques estratégicos contra posições inimigas no solo. Em 1935, o Regulamento 16: Conduta da Guerra Aérea, foi planeado. Nesta proposta, estava escrito "A missão da Luftwaffe é concretizar estes objectivos".Hooton 2007, Luftwaffe at War: Gathering Storm, p. 34.Hooton 2010, p. 28.

Nesta doutrina, o alto comando da Luftwaffe rejeitava a prática de bombardeamentos de terror.Corum 1997, p. 7. Esta táctica de terror estava condenada a ser contra-produtiva, visto que iria aumentar a vontade do inimigo em resistir, em vez de o desmoralizar.Corum 1997, pp. 143–144. Tais campanhas de bombardeamento eram consideradas como um desvio do objectivo principal das operações da Luftwaffe: a destruição da força armada inimiga.Corum 1997, p. 146. Os bombardeamentos de Guernica, Roterdão e Varsóvia foram considerados bombardeamentos tácticos e não foram intencionados contra a população civil.Corum 1997, pp. 6–7.