A língua jeju (em jeju: 제줏말 Jejumal, AFI: [tɕe.dzun.mɛl]), também conhecida como jejueo, jejuo e jejuano, nomenclaturas usadas frequentemente em contextos acadêmicos, é uma língua de origem nativa da Ilha de Jeju, Coreia do Sul. Apesar de ter sido historicamente classificado como um dialeto coreano, o jeju é linguisticamente reconhecido como um idioma separado, ou seja, uma entidade linguística distinta do coreano, com o qual é mutualmente inteligível. Em adição, junto ao coreano, o jeju, além de utilizar um alfabeto em comum (Hangul), constitui um dos dois únicos membros reconhecidos da família linguística coreânica.

Em Janeiro de 2011, a UNESCO adicionou jeju a seu Atlas das Línguas do Mundo em Perigo como uma “linguagem criticamente em perigo”, grau de maior vulnerabilidade antes do status de extinção. A estimativa de falantes fluentes da língua em 2014 foi de 5 á 10 mil indivíduos em uma população insular de 600 mil habitantes, sendo a maior parcela de tais indivíduos idosos. Apesar de seu estado criticamente ameaçado, o jeju é objeto de esforços ativos de revitalização, como visto no investimento de sua preservação por parte da Sociedade de Preservação da Língua Jejueo e do governo provincial através da Lei de Preservação e Promoção da Língua de Jeju (2007). Dado seu status dentro família coreânica, a perda da língua de Jeju representaria uma redução significativa na diversidade linguística da Coreia.

No começo do período de Goryeo (918-1392 d.C), a província de Jeju era conhecida como o Reino de Tamna e, apesar de sua anexação oficial ao reino coreano de Goryeo em 1105 e renomeação da ilha para Jeju em 1295, o idioma jeju desenvolveu-se relativamente isolado do território coreano, fenômeno que se fortificou devido a política de isolamento, também conhecida como Reino Eremita, durante a Dinastia Joseon (1392-1897). O distanciamento histórico permitiu que o jeju preservasse características fonológicas do coreano médio que desapareceram do coreano padrão moderno. Todavia, no século XX, eventos como o Incidente 4-3 (1948) e o grande influxo de falantes do coreano continental, os quais traziam com si a imposição do coreano na formalidade, levaram ao rápido declínio da língua. Além de aspectos gramaticais, o jeju não é mais considerado um simples dialeto coreano por originar-se do Reino Tamna, reino independente que foi incorporado à Coreia por meio de processos políticos, e não uma região que sempre fez parte do território coreano.

Por conseguinte, alguns exemplos de características oriundas do isolamento histórico da província foram a preservação (derivadas do coreano médio) da vogal arae-a (“a inferior”, representada pelo dígrafo aw na romanização) e do sufixo contínuo -eoms (indicador de eventos em andamento ou em progresso). Um dos aspectos gramaticais diferenciais da língua jeju é seu sistema de evidencialidade, uma vez que este exige gramaticalmente que o falante indique como obteve a informação que está relatando, evitando a ambiguidade através da morfologia obrigatória, enquanto o coreano expressa tais detalhamentos por meio de advérbios ou a própria contextualização da conversação.

Etimologia miniaturadaimagem|289x289px|Praia em Jeju, 2025 O nome Jeju (제주 / 濟州) "Ilha de Jeju" pode ser transcrito, na Romanização Coreana, como Jeju ou, em McCune-Reischauer, como Cheju. Tal nomenclatura é composta por dois caracteres chinesesincorporados à língua coreana através da escrita Hanja. Desse modo, Je 제 (em hangul) / 濟 (em hanja), pode significar “cruzar”/“atravessar” um rio/mar, assim como “balsa”, já Ju 주 (em hangul) / 州 (em hanja), remete uma “divisão administrativa”, “estado” ou “província”. Juntos, Jeju (제주 / 濟州) tem o sentido de “província do outro lado do mar”.

Dentro da língua coreana, o idioma jeju é referido como Jeju bang-eon ( / ), Jeju saturi () "Dialeto de Jeju" ou como Jejueo ( / ) "Língua Jeju".'제주어' 유네스코 소멸위기 언어 등록, Yonhap News, 2011-01-17 O termo Jejueo foi utilizado pela primeira vez em um dos artigos do lepidopterólogo coreano Seok Joo-myung, em 1947, e, desde então, o nome foi popularizado e passou a ter aparições em uma diversidade artigos, materiais didáticos e dicionários. Enquanto Jejueo tenha sido um nome fortemente disseminado no meio acadêmico, os habitantes de Jeju, especialmente aqueles fluentes na língua, utilizam os termos Jejumal (제줏말) “Fala de Jeju” ou Jejudomal (제주도말) “Fala da Ilha de Jeju”.

Distribuição O jeju é uma língua falada primariamente na província de Jeju, Coreia do Sul, porém, há também uma comunidade de falantes fluentes situadas na cidade de Osaka, no Japão, fenômeno decorrente de uma série de ondas imigratórias ao país em questão. Além disso, historicamente, a língua jeju era falada em toda extensão da Ilha de Jeju, com exceção do arquipélago de Chuja (Chujado), território no qual os habitantes falam uma variação do dialeto de Jeolla, pois, embora ligados administrativamente ligados à província de Jeju, o arquipélago está geograficamente mais próximo da província de Jeolla do Sul, também situado na Coreia do Sul.

De acordo com dados coletados em 2010, estima-se que, dentro dos limites de Jeju, existam entre 5 mil a 10 mil nativos falantes de jeju dentro de uma população insular de 600 mil habitantes (cerca de 1-2% da população), todos com 75 ou mais anos de idade. Atualmente, tais falantes teriam no mínimo 90 anos de idade e, mesmo que tenham sido considerados fluentes ao longo de suas vidas, grande parte desses indivíduos não são mais considerados fluentes e não conseguem exercer a língua por um período extenso de tempo, diminuindo a estimativa de falantes.

Devido ao declínio da língua dentro das últimas décadas, o jeju foi adicionado pela UNESCO, em 2010, no Atlas das Línguas do Mundo em Perigo com a classificação de “linguagem criticamente em perigo”, sendo tal classificação um grau de vulnerabilidade antes de ser considerada língua extinta.

Contrário dos falantes situados em Jeju, grupo o qual apresenta forte laço entre proficiência linguística e faixa etária, a comunidade de falantes em Osaka — cujo número de falantes não é definido — evidência uma distribuição igualitária entre as faixas, variando de 30 a 85 anos de idade. Além disso, de 25 entrevistados falantes de jeju em Osaka, 75% são mulheres, isso devido ao número significativamente menor de homens na comunidade jejuana de Osaka. Na província de Jeju, a relação de falantes dos sexos feminino e masculino também tende a estimativa de uma maior quantidade de fluentes mulheres, o que pode ser explicada tanto por seu caráter social de semi-matriarcado, quanto pela maior quantidade de sobreviventes nativos mulheres em relação aos homens.

Dialetos Considerando o jeju como um idioma separado do coreano e um segundo membro do tronco linguístico coreânico, o idioma é composto de 4 a 5 dialetos divididos de acordo com a demarcação de diferentes regiões da Ilha de Jeju e de uma variação encontrada em Osaka, no Japão. Atualmente, não há um dialeto considerado padrão, fenômeno decorrente do fato do jeju ser uma língua majoritariamente oral, ou seja, por não ser reproduzido de forma escrita com frequência, uma ortografia padronizada ainda não foi estabelecida.

Tradicionalmente, os dialetos de jeju são separados em 4 grupos:

O terceiro nível de ramos da esquematização acima representa as principais cidades onde os respectivos dialetos são falados. Em geral, não há diferença linguística significativa entre as cidades de mesma região.

Entre os quatro diferentes dialetos encontrados dentro da província de Jeju, há a presença de uma isoglossa clara dividindo os lados norte e sul, enquanto, entre leste e oeste, as diferenças linguísticas são consideravelmente sutis. Através da análise de 155 itens lexicais em 16 pontos diferentes da província de Jeju, os dialetos foram divididos em 3 padrões de distribuição geográfica das variações lexicais entre dialetos.

Tipo 1: Leste-Oeste — variação de 66 itens, isoglossa mais comum e sutil Tipo 2: Norte-Sul — variação de 29 itens, isoglossa clara, mais precisa. Nota-se também que a região norte possui uma influência da língua coreana maior do que a região sul. Tipo 3: Complexo — variação de 56 itens, isoglossa altamente variável pois corre em múltiplas direções +Divergência lexical entre os quatro dialetos da provínciaItem exemplo (português)NordesteNoroesteSudesteSudoesteErva-de-Passarinhomigujaeng-i 미구쟁이mipyejaeng-i 미폐쟁이eokgujang 어욱고장eokgujang 어욱고장Sarampomanuɾa 마누라manuɾa 마누라hanjip 한집hanjip 한집Caracol (lit. Lesma-com-Concha)beotbaeng-i 벋백이peombaeng-i 펌백이usbeosinpeombaeng-i 웃벗인펌백이jibosinpeombaeng-i 집옷인펌백이Kimchigimchi 김치gimchi 김치jinggwo 징궈gimkki 김끼 O jeju falado nas ilhas menores (Udo, Halim/Biyangdo, Gapago e Marado), que rodeiam a Ilha principal da província, apresentam uma variação pequena de 22 itens e a ausência de vocabulário de plantas e animais externos às respectivas ilhas. Em geral, a língua jeju está em um rápido processo de mudança, com formas do norte expandindo ao sul, isso devido à maior, e crescente, exposição ao coreano padrão no extremo norte de Jeju.

Além dos mencionados dialetos, Moira Saltzman e outros acadêmicos argumentam a existência de uma variação do jeju um tanto distinta das demais, sendo essa praticada por uma parcela de indivíduos situados predominantemente no Distrito Higashinari-ku, em Osaka, Japão.

Dialeto de Osaka Atualmente, considera-se que há três polos existentes de comunidades jejuanas, as quais mantém aspectos linguísticos e culturais da província, situadas fora da província de Jeju em si, sendo tais polos o Japão (Osaka), Estados Unidos (Havaí e Costa Oeste) e China (Yanbian – região autônoma coreana na China). Embora as três diásporas tenham origem de formação parecidas (dispersão populacional durante e pós Guerra da Coreia e Incidente 4-3), o nível de documentação do jeju em Osaka, em comparação aos demais, é discrepante, uma vez que seu dialeto é o único, dos três polos, que tem sido sistematicamente estudado por linguistas. miniaturadaimagem|307x307px|População coreana no Japão (1910-2015) A comunidade de Osaka é o maior e mais concentrado polo de jejuanos fora da Coreia, uma vez que cerca de 60% dos coreanos residentes em Osaka terem origens jejuanas. A prevalência desse grupo deve-se ao processo de migração em cadeia (do inglês, Chain Migration), ou seja, houve um fluxo contínuo da população falante de jeju em Osaka no decorrer do último século. Tal fluxo pode ser dividido em três grandes ondas de imigração: durante a ocupação japonesa na Coreia, Após o Incidente 4-3 e a Guerra da Coreia e, por fim, na década de 1970.

Devido a ocorrência de discriminação da população japonesa de Osaka em relação aos jejuanos, a comunidade vinda de Jeju passou a se isolar e concentrar no Distrito de Higashinari, o que permitiu a conservação de faces culturais e linguísticas da província de Jeju. Consequentemente, o dialeto de Osaka é considerado a variação mais robusta e conservadora da língua, mantendo uma maior quantidade de características do coreano médio em relação aos dialetos falados na Ilha.

A seguir temos uma tabela, feita por Moira Saltzman (2022), comparando variações do Jeju e o coreano ao utilizar a frase, em português, "A avó e o neto estão colhendo laranjas". +Comparação entre jeju falado na ilha, o falado em Osaka e o coreano padrãoVariedade linguísticaEm hangulTransliteraçãoCaracterísticas observadasJeju falado em Osaka할망줴 손테이줴 미깥을 타ㅁ수다harmang-juy sontei-juy mikaj-ul ta-ms-u-taConjunção nativa -juy; progressivo nativo -msJeju falado na Ilha de Jeju할망코아 손차오아 귤을 타고 이수다harmang-koa sontca-oa kjul-ul ta-ko is-u-taPrevalência dos termos nativos harmang e -u-ta; Conjunção coreana -koa; progressivo coreano -ko isCoreano padrão할머니와 손자와 귤을 따고 있어요harmani-oa sontca-oa kjul-ul ta-ko is-yoForma do coreano padrão