A mitologia guarani compreende o conjunto de narrativas sagradas, concepções cosmológicas, entidades espirituais e tradições religiosas dos povos guaranis da América do Sul. Essas tradições são compartilhadas, com variações regionais, por diferentes grupos guaranis contemporâneos, incluindo os mbiá, nhandeva (avá-guarani) e pãi-taviterã/caiouá, distribuídos principalmente pelo Brasil, Paraguai, Argentina, Bolívia e Uruguai.

A religião guarani caracteriza-se por uma cosmologia complexa centrada na criação do universo, na existência de múltiplos planos celestes, na busca da perfeição espiritual e na relação entre os seres humanos e as divindades criadoras.MELLO, Flávia Cristina de; SOARES, Jules Batista; KERBER, Leandro de Oliveira. Astronomia e educação intercultural: experiências no ensino de astronomia e ciências em escolas indígenas. In: I SNEA – SIMPÓSIO NACIONAL DE EDUCAÇÃO EM ASTRONOMIA, 2011, Rio de Janeiro: Sociedade Astronômica Brasileira, 2011. Embora compartilhem muitas entidades e narrativas com a mitologia tupi, com a qual formam o conjunto maior da mitologia tupi-guarani, os mitos guaranis desenvolveram características próprias, incluindo entidades e narrativas únicas.

Cosmologia

Boa parte da cosmologia guarani é conhecida através dos mitos mbiás coletados pelo etnólogo paraguaio León Cadogan, segundo o relato oral de nativos como o chefe Pablo Verá e outros, no Ayvú Rapyta.CADOGAN, 1959, p. 10. O escritor tapuia Kaká Werá fez uma adaptação poética em seu livro Tupã Tenondé (2001).

Segundo a cosmologia guarani, o universo foi criado por uma divindade primordial denominada Nhamandu (identificado também como Nhanderu, “Nosso Pai”, ou Nhanderuvusu, “Nosso Pai Grande”, em algumas tradições), que se desdobra como um grande sol antes do nosso Sol atual, que ainda vai nascer, desabrochando como uma flor brilhante no meio do nada absoluto. Antes da existência da Terra, Nhamandu/Nhanderu teria criado a si mesmo a partir das trevas primordiais e estabelecido os fundamentos do cosmos por meio de sua sabedoria e de sua palavra criadora.CADOGAN, 1959, caps. I e II.

Para os caiouás, da substância primordial, djasukávy, originaram-se todas as coisas por um princípio de emanação. Do djasukávy partem todos os deuses e a própria humanidade,SCHADEN, 1974, p. 110. a começar por Nhané Ramõi Papá (“Nosso Avô Eterno”), deus supremo para os caiouás, que dizem que do orvalho primitivo (Ysapý) se originou o "embrião da terra" (Yvý Reñõi).SCHADEN, Egon. A religião guarani e o cristianismo: contribuição ao estudo de um processo histórico de comunicação intercultural. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 25, p. 1–24, 1982. p. 9.

Após a criação primordial, outras divindades passaram a participar da organização do universo. O universo é estruturado em múltiplos céus sobrepostos. O Criador (Nhanderu) habita o céu mais elevado, enquanto os céus intermediários e a Terra são povoados por deuses assistentes e ancestrais espirituais:

Yvy Vai: "Terra Má", a terra em que vivemos. Céus: Yvy Anhã: "Terra dos Anhã", a terra de espíritos canibais, que representam as formas destrutivas do universo. Nós, os humanos, não somos capazes de enxergar esse céu. Yvy Djú: "Terra Amarela/Dourada", o céu azul que enxergamos, acima de Yvy Anhã. É o céu no qual correm os “rios” que para nós são nuvens. É neste plano que Sol (Quaraí) e Lua (Jaci) vêm passear, criando o dia e noite. O plano seguinte é a terra de Sol e Lua, o céu em que eles moram com as estrelas visíveis. Os céus acima da terra de Sol e Lua nós não podemos enxergar. Nelas vivem os outros sóis, que são os deuses criadores do universo, além de estrelas que também não somos capazes de enxergar.

Como a humanidade foi criada por esses deuses superiores, que também criaram Quaraí, o Sol, e Jaci, a Lua, nós somos considerados irmãos destes. A Terra foi criada pelos Nossos Pais (Nhanderus) para a criação de seus filhos, havendo, assim, uma relação de parentesco entre os seres celestes e os habitantes terrenos.

O centro da Terra, a partir do qual o nosso mundo foi criado, é chamado pelos guaranis de Yvy Mbyté (“Meio da Terra”) e fica localizado no atual Departamento de Caaguazú (no sudeste do atual Paraguai), onde o Criador e sua consorte Nhandeci geraram Quaraí,CADOGAN, 1960, p. 133. e de onde este e seu irmão Jaci ascenderam ao céu como Sol e Lua.LADEIRA, Maria Inês. O caminhar sob a luz: o território Mbya à beira do oceano. São Paulo: [s.n.], 1992. 198 p. Dissertação de mestrado em Antropologia-PUC/SP. p. 95-96.

A palavra sagrada ocupa papel central na religião guarani. Em muitas tradições, a linguagem é entendida não apenas como meio de comunicação, mas como princípio criador e fundamento da existência.CADOGAN, 1959, cap. II.

A Terra sem Males

Um dos conceitos mais conhecidos da religião guarani é o da Yvy Marã Ey, a “Terra sem Males”.

A Terra sem Males é descrita como um lugar de perfeição espiritual (aguyjé), abundância e ausência de sofrimento. Diferentemente de um paraíso exclusivamente pós-morte como o Guajupiá, algumas tradições a concebem como um lugar real e acessível por meio da purificação espiritual, de migrações rituais ou da intervenção divina.CLASTRES, 1978, p. 97-98.

O pai e a mãe dos deuses na religião e mitologia guaranis, Nhanderu/Nhamandu e Nhandeci, têm residência em Yvy Marã Ey. Nhandeci, em especial, recepciona os recém-chegados com comida e bebida e pede, entre lágrimas, para não mais voltarem para o mundo de cá, cheio de dor e morte.NIMUENDAJÚ, 1987, p. 104.

O primeiro homem a alcançar a Terra sem Males foi, também, o primeiro incestuoso, caraí Jeupié, por cujo crime a Primeira Terra foi destruída por um dilúvio.CADOGAN, 1959, p. 57-58.

O conceito desempenhou papel importante em diversos movimentos religiosos e migratórios guaranis registrados historicamente.CLASTRES, 1978, p. 55.

Divindades Os guaranis chamam os seus deuses maiores, não só o Criador (Nhanderu Tenondé), mas também seus quatro grandes deuses auxiliares (Nhamandu, Caraí, Jacairá e Tupã) e os gêmeos astrais (Quaraí e Jaci), de Nhanderus (“Nossos Pais”),HISTÓRIA E CULTURA GUARANI. Quem são os deuses Guarani Mbya? História e Cultura Guarani, [S. l.], [s. d.].YAMPEY, Girala. Cosmovisión guaraní: el mito solar. [S. l.]: Portal Guarani, 2003. e as deusas de Nhandecis (“Nossas Mães”), ou Nhanderu kuery e Nhandexy kuery na forma plural do guarani,MACEDO, Valéria, & SZTUTMAN, Renato (2014). A parte de que se é parte. Notas sobre individuação e divinização (a partir dos Guarani). Cadernos De Campo (São Paulo - 1991), 23(23), 287-302. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v23i23p287-302. enquanto os deuses, em conjunto, são chamados de Nhande Aryguá, ("Aqueles Situados Acima de Nós") ou Nhande Ru Jukuéry (ju, "amarelo, dourado, áureo", e kuéry, designativo de plural, "Nossos Pais Áureos").CADOGAN, 1992, p. 124. Também se pode referir a uma deidade masculina como Xeru ou Xe Ru (“Meu Pai”).CADOGAN, 1960, p. 149.

As vestes dos deuses são amarelo-claro (ju), a cor do Sol, e azul-claro (ovy), a cor do céu limpo. Essas cores são, portanto, consideradas sagradas e emblemáticas da Divindade.CADOGAN, 1959, p. 33.

Como forma de preservar sua imortalidade, diz-se que, assim que chega a primavera (ára pyau), os Nossos Pais Áureos rejuvenescem junto com a natureza. O rejuvenescimento periódico dos deuses e de toda a natureza ocorre graças à tatachina, a "névoa vivificante" sob o encargo de Jacairá.CADOGAN, 1992, p. 88.

Nhane Ramõi e Nhane Jari Nhane (ou Nhande) Ramõi Jusu Papa (“Nosso Grande Avô Eterno”) se constituiu a si próprio do “jaçucá/jaxucá” (jasuka/jachuka), uma substância originária, vital e com qualidades criadoras. Foi quem criou os outros seres divinos e sua esposa, Nhane (ou Nhande) Jari (“Nossa Avó”), alçada do centro de seu jeguaká (espécie de diadema que perpassa, como ornamento, testa e cabeça), o adorno ritual. Criou também a Terra que então tinha o formato de um mbeju-guasu (“beiju grande”)MONTARDO, Deise Lucy Oliveira. Através do Mbaraka: música e xamanismo guarani. 2002. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002., estendendo-a até a forma atual, e levantou também o céu e as matas. Viveu sobre a terra por pouco tempo, antes que fosse ocupada pelos homens, deixando-a, sem morrer, por um desentendimento com a mulher. Tomado de profunda raiva causada por ciúmes, quase chegou a destruir sua própria criação que foi a terra, sendo impedido, contudo, por Nhane Jari com a entoação do primeiro canto sagrado realizado sobre a terra, tomando como acompanhamento o takuapu, instrumento feminino feito de taquara, com aproximadamente 1,10m, que é golpeado no solo produzindo um som surdo que acompanha os maracás masculinos, espécie de chocalho de cabaça e sementes específicas.<ref name=ÑANDEVA>Guarani Ñandeva - Povos Indígenas no Brasil. (s. d.). Socioambiental.org.</ref>

O Avô (Таmої, “Avô”, ou Che Ramoї/Xe Ramoї, “Meu Avô”) dos guaraios, povo guarani da Bolívia, é Abaangui, ao mesmo tempo considerado o criador da Lua e pai dos heróis que se tornam Sol e Lua. Para os tupis, Che Ramoї/Xe Ramoї é como eles chamam o criador Monã.

Nhande Ru e Nhande Ci O filho de Nhane Ramõi, Nhande Ru Paven (“Nosso Pai de Todos”), também conhecido como Nhanderu Eté (“Nosso Pai Verdadeiro”), Nhanderu Tenondé (“Nosso Pai Primordial”), Nhanderu Guasu ou Nhande Ruvusu (“Nosso Pai Grande”), Nhanderu YmãLADEIRA, Maria Inês. O caminhar sob a luz: o território Mbya à beira do oceano. São Paulo: [s.n.], 1992. 198 p. Dissertação de mestrado em Antropologia-PUC/SP. p. 103. (“Nosso Pai Velho/Antigo”) e Che Ru/Xe Ru/Xiru (“Meu Pai”), e sua esposa Nhande Ci (ou Nhande Sy, “Nossa Mãe”), também conhecida como Nhandeci Eté (“Nossa Mãe Verdadeira”) e Nhande Jarỹi ("Nossa Avó"),CADOGAN, 1959, p. 72. ficaram responsáveis pela divisão política da terra e o assentamento dos diferentes povos em seus respectivos territórios, criando montanhas para delimitar o território guarani.

A palavra guarani ymã ou ymuã, de "Nhanderu Ymã", vem do tupi umûã/umûan/umûana, origem do nome do deus criador tupi Umuana, Munhã ou Monã, com o mesmo significado de "velho/antigo".YMA. In: GLOSBE DICCIONARIO. Disponível em: https://pt.glosbe.com/gn/pt/yma. Acesso em: 31 maio 2026.NAVARRO, 2013, p. 529.NAVARRO, 2013, p. 498.

Nhande Ru roubou o fogo dos urubus e o entregou aos homens (façanha que, nos mitos tupis-guaranis, é realizado por diferentes heróis ou deidades); criou a flauta sagrada (mimby apyka) e o tabaco (petÿ) para os rituais. Da mesma forma que seu pai, decidiu abandonar a terra em função de um desentendimento com sua esposa que estava grávida de gêmeos, sendo um bebê filho seu, e o outro de um deus obscuro de nome Nhanderu Mbaecuaá (“Nosso Pai Conhecedor de Todas as Coisas”), seu auxiliar, e fixou sua casa no zênite do Yvaga, o céu e morada dos deuses guaranis.

Assim, Nhande Ci saiu de seu lar no centro do mundo (yvy mbyté) em busca de seu marido e com frequência perguntava ao filho, que ainda não havia nascido, qual o caminho a ser seguido. Quaraí, o filho em seu ventre, chegou a indicar o caminho errado para sua mãe, que lhe havia negado uma flor que queria para brincar durante o percurso, e Nhande Ci chegou à morada dos jaguares. A avó destes seres ferozes tentou em vão salvar a vida da mulher, mas seus filhos, ao voltarem famintos, devoraram Nhande Ci, deixando vivos apenas os pequenos gêmeos, Quaraí e Jaci, que eram indestrutíveis. Nhande Ci é posteriormente revivida e levada ao Yvaga por Nhande Ru, quando então eles geram Tupã (na versão nhandeva) e onde Quaraí e Jaci irão reencontrá-la depois de crescidos.NIMUENDAJÚ, 1987, p. 61. Nhanderu deu-lhe também por morada a “terra sem mal”, Yvy marã e'ỹ, o paraíso além do mar, onde a arara e o sabiá de Nhandeci recepcionam os recém-chegados e ela, em seguida, os acolhe.NIMUENDAJÚ, 1987, p. 104, 151.