miniaturadaimagem|Vênus Pandemos, por Charles Gleyre, 1854. Afrodite Pandêmia, Pandemos (; "comum a todas as pessoas" ou "venerada por todo o povo") ou ainda Cipriota (de Chipre), é um dos epítetos da deusa grega Afrodite (a Vênus dos romanos).
Segundo alguns antigos autores a deusa, fruto da queda dos testículos de Urano decepados por Cronos, fora pelas ondas (ou pelo vento Zéfiro) levada para as ilhas de Citereia e depois Chipre, possuindo duas origens distintas; no primeiro caso é chamada Afrodite Urânia - deusa dos amores etéreos, superiores, elevados; no outro seria Afrodite Pandêmia - deusa na versão popular, dos desejos incontroláveis, vulgares.
Origem do epíteto Esse epíteto pode ser interpretado de diferentes maneiras. No Simpósio de Platão, Pausânias de Atenas descreve Afrodite Pandêmia como a deusa dos prazeres sensuais, em oposição a Afrodite Urânia, ou "a Afrodite celestial".Plato, Symposium 180d Em Élida, ela foi representada montada em um carneiro por Escopas.Paus. vi. 25. § 2. Outra interpretação é a de Afrodite unindo todos os habitantes de um país em um único corpo social ou político. Nesse sentido, ela era adorada em Atenas junto com Peito (persuasão), e dizia-se que seu culto havia sido instituído por Teseu na época em que ele uniu as cidades dispersas em um grande corpo de cidadãos.Paus. i. 22. § 3. De acordo com algumas autoridades, foi Sólon quem ergueu o santuário de Afrodite Pandêmia, seja porque sua imagem estava na ágora, seja porque as hetairas tiveram que pagar os custos de sua construção.Harpocrat. and Suid. s. v.; Athen. xiii. p. 569. O culto de Afrodite Pandêmia também ocorre em Megalópolis na Arcádia,Paus. viii. 32. § 1 e em Tebas.ix. 16. § 2 Um festival em sua homenagem é mencionado por Ateneu.xiv. p. 659 Os sacrifícios oferecidos a ela consistiam em cabras brancas.Lucian, Dial. Meret. 7; comp. Xenoph. Sympos. 8. § 9; Schol. ad Soph. Oed. Col. 101; Theocrit. Epigr. 13. Pandemos também ocorre como um sobrenome de Eros.Plato, Symposium 180d Segundo Harpocration, que cita Apolodoro, Afrodite Pandêmia tem origens muito antigas: "o título Pandemos foi dado à deusa estabelecida nas proximidades da Ágora Antiga, porque todo o Demos (povo) se reunia ali antigamente em suas assembleias, que chamavam de ágoras." Para homenagear o papel de Afrodite e Peito na unificação da Ática, o festival de Afrodísia era organizado anualmente no quarto dia do mês de Hecatombeu (o quarto dia de cada mês era o dia sagrado de Afrodite). A Sinóquia, que homenageava Atena, protetora de Teseu e principal padroeira de Atenas, também acontecia no mês de Hecatombeu.
Christine Downing comenta que "a descrição de Pausânias do amor associado a Afrodite Pandêmia como dedicado apenas ao prazer sensual e, portanto, dirigido indiferentemente a mulheres e homens, e daquele associado à Afrodite Urânia como "totalmente masculino" e dedicado à educação da alma da amada é, na verdade, uma inovação — pois Afrodite Urânia era servida em Corinto por prostitutas e Afrodite Pandêmia era a deusa adorada por toda a comunidade."
A deusa montada em uma cabra também era conhecida como Afrodite Epitragia, "de uma cabra". Segundo Plutarco, ela recebeu esse epíteto devido a um episódio da vida de Teseu, quando o herói sacrificou uma cabra a Afrodite antes de partir para Creta, na esperança de que ela o guiasse em sua viagem. Como Teseu sacrificou a cabra habitual, o animal se transformou repentinamente em um bode.
Uma deusa "vulgar" Em O Banquete, Platão estabelece uma distinção filosófica e moral entre as duas versões de Afrodite enquanto deusa do amor: a Pandêmia é quem inspira os amores comuns, vulgares e carnais - em contraposição à Urânia que devota-se ao amor sublimado.
Esta distinção fora revelada a Sócrates pela sacerdotisa e filósofa Diotima.
Representação miniaturadaimagem|esquerda|Camafeu romano, século I a.C. - século II a.C., Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Enquanto a versão celestial da deusa tinha por símbolo uma tartaruga para representar sua castidade, a vulgar tinha por representação um bode, animal com características opostas; nas casas era comum ter-se imagens da deusa, com inscrições aludindo ao seu caráter - como numa delas narrada por Teócrito, que dizia: "Esta Vênus não é a Vênus popular, é a Vênus urânia. A casta Crisógona colocou-a na casa de Amphicles, a quem deu vários filhos, comoventes penhores da sua ternura e fidelidade. Todos os anos, o primeiro cuidado desses felizes esposos é de vos invocar, poderosa deusa, e em prêmio da sua piedade, todos os anos lhes aumentais a ventura. Prosperam sempre os mortais que honram os deuses."
O célebre Escopas fizera uma escultura para a cidade de Élis, uma representação de Afrodite montada sobre um bode; a mesma alegoria é encontrada numa antiga gravura em pedra que, no século XIX, foi objeto de uma pintura por parte de Gleyre com esta mesma representação.
Adoração Seu culto era proeminente sobretudo na cidade portuária de Corinto, reconhecida por suas cortesãs - dentre as quais a famosa Laís, a Bela de quem a Antologia traz o seguinte epigrama: "Eu, altiva Laís, de quem a Grécia era joguete, eu que tinha à porta um enxame de jovens amantes, consagro a Afrodite este espelho, pois não desejo ver-me tal qual sou, e já não posso ver-me tal qual era."
Também em Chipre, terra de grandes cortesãs, seu culto era comum e foi ali que se desenrolou o mito do escultor Pigmaleão que, após um pedido à deusa viu sua estátua ganhar vida; da sua união com a estátua nascera um filho que viria a fundar a cidade de Pafos, onde Afrodite era adorada.
A Afrodite vulgar chegou a ser responsável por um dos três períodos de cada ano: no mito em que ela disputa com Perséfone o amor de Adônis, as duas levam ao arbítrio de Zeus que, vendo ser inferior a causa que as duas adúlteras traziam, transferiu o julgamento a Calíope que decidiu dividir o ano em três períodos - um ficaria Adônis sozinho, outro com a deusa do amor e o final com a deusa da morte; esta divisão tripla do calendário era usual na Síria, Ásia Menor e na Grécia primitiva (onde mais tarde foi abandonada por uma divisão em duas partes), tendo cada período um emblema: a primeira parte era representada por um leão, símbolo de Esmirna, mãe do semideus; a segunda, o bode, símbolo de Afrodite e, finalmente, a serpente de Perséfone.GRAVES, op. cit. abaixo, p. 74-77.
Filhos atribuídos Junito Brandão diz que alguns autores antigos atribuem a ela a maternidade de Eros, que seria então fruto de sua união com o deus Hermes - sendo esta uma das duas genealogias que mais se impuseram para a origem do deus do amor (a outra versão hegemônica dá-lhe por pais Hermes e Perséfone). Esta atribuição da genealogia de Eros é referendada por Robert Graves, que diz "outros sustentam que era filho de Afrodite e de Hermes ou de Ares, ou do próprio pai daquela, Zeus" - neste último caso mais adiante esclarece o autor: "que Afrodite era a mãe de Eros e Zeus seu pai é uma insinuação de que a paixão sexual não se detém ante o incesto".
Afrodite fora punida por suas infidelidades ao marido Hefesto, que a flagrara na cama com Ares e chamara todos os deuses para testemunharem o delito; para se redimir ela fora a Pafos onde, no mar, recuperou sua virgindade; Hermes, que a vira nua durante o flagrante, declarou seu amor pela deusa e, com ele, teve Hermafrodito; como forma de agradecer a Poseidon por tê-la protegido durante o vexatório momento, teve com ele dois filhos - Rodo e Herófilo; seria ainda por causa de seu caráter infiel e volúvel que Hera a fez gerar deformado, de uma nova traição ao esposo com Dionísio, a Príapo e seu pênis descomunal - como uma forma de puni-la; o mesmo fizera Zeus, fazendo-a apaixonar-se por um mortal - Anquises - com quem teve Eneias.GRAVES, op. cit., p. 73
Ver também Afrodite Afrodite Urânia Palavras gregas para o amor Vênus (mitologia)
Bibliografia
Categoria:Epítetos de Afrodite