Os Monumentos Megalíticos de Alcalar são um grupo de túmulos que compõem uma necrópole do período Calcolítico, localizado na freguesia da Mexilhoeira Grande, no município de Portimão, em Portugal. Foram construídos por uma comunidade que habitou a área por volta dos quarto e terceiro milénios a.C., e que atingiu uma grande complexidade, devido à riqueza natural daquela área. O conjunto arqueológico é formado por cerca de vinte túmulos, além de uma povoação e cinco outros túmulos periféricos. Dois dos monumentos funerários, o sétimo e o nono, foram restaurados e inseridos num percurso de visita, que inclui também um centro interpretativo. Nas imediações é também de interesse um forno de cal do século XVIII.
Descrição Localização O sítio arqueológico de Alcalar está situado perto da vila da Mexilhoeira Grande, e a cerca de 9 Km da cidade de Portimão. Insere-se numa área que vai desde a Serra de Monchique a Norte, até à Baía de Lagos a Sul, e que no período pré-histórico dispunha de um vasto conjunto de recursos naturais, como o conjunto lagunar da Ria de Alvor, e as ribeiras da Torre, Farelo e Arão, permitindo a realização de diversas actividades, como a pastorícia, a caça, a pesca, a agricultura e a recolha de moluscos.
O topónimo do local, Alcalar ou Alcalá, é de origem muçulmana, existindo outros nomes semelhantes na região, como Alcantarilha ou Alcaria.
Conservação e importância O conjunto dos Monumentos Megalíticos de Alcalar está classificado como Monumento Nacional. É um dos monumentos mais visitados no Algarve, tanto pela população local como pelos turistas. Do ponto de vista arqueológico, é um dos sítios mais importantes na região, devido às estruturas funerárias, e pelo grande número e significado dos objectos que foram encontrados.
Composição O antigo complexo de Alcalar incluía um povoado e uma necrópole, formada por vários túmulos megalíticos, organizados em vários grupos. Os monumentos funerários foram construídos em grés, tendo o arqueólogo Estácio da Veiga avançado a hipótese que a pedra terá sido extraída da área dos Pegos Verdes, onde se encontrava um conjunto significativo de afloramentos daquele material.VEIGA, 1886:219
Povoado e forno de cal A zona populacional de Alcalar estava localizada numa colina perto do local dos túmulos, consistindo num conjunto de estruturas, como edifícios e silos, parcialmente escavados no solo, sendo por isso categorizada como Recinto de fossos. Além destes conjuntos de fossos, também foram descobertas estruturas de combustão, e casas de planta semi-circular, com fundações em alvenaria. Neste local foi recolhido um vasto conjunto de espólio, incluindo vestígios de animais, como conchas, peças em pedra polida, e recipientes em cerâmica, o que, em conjunto com as estruturas, testemunha a presença de um povoado neste local, que terá funcionado durante um longo período, entre 3200 a 2000 a.C.
Junto aos monumentos de Alcalar encontra-se um forno de cal de tipologia tradicional, provavelmente de origem setecentista.
Túmulos Ambos os monumentos 7 e 9 têm uma forma aproximada de seio, levando à sua classificação como mamoas. Esta forma, em conjunto com a sua construção num local elevado, poderia servir para serem mais facilmente vistas ao longe, tornando-as como símbolo de poder por parte da povoação que os edificou, e que ficava situada numa colina próxima. Devido à sua construção, em grandes blocos de pedra, tanto o sétimo como o nono túmulos são considerados como monumentos megalíticos. Os túmulos era utilizados apenas para os corpos dos indivíduos mais influentes no povoado, sendo a restante população enterrada noutro local. Isto é comprovado pelos adornos dos corpos nos interiores dos túmulos, em marfim, âmbar, cobre, ouro e pedras verdes, materiais que em certos casos tinham de ser importados de longas distâncias.
Segundo Estácio da Veiga, nos túmulos foram encontrados muitos vestígios osteológicos, embora os esqueletos estivessem muito incompletos e fragmentados, reduzindo as sua capacidade de serem estudados, embora o investigador ainda tenha chegado a algumas conclusões. Por exemplo, quatro dentes encontravam-se muito gastos, situação comum nos vestígios deste tipo da pré-história, e alguns fragmentos de fémures tinham «muita elevação, espessura e sulco fundo na linha aspera, que se nota haver nos cro-magnon». Acrescentou que «a secção transversal da tibia não é prismática ou triangular nos três quintos superiores como geralmente o é nas raças européas actuaes, mas sensivelmente propendente para a platyenemia, isto é, não tendo mais que duas faces bem determinadas, sem que a superior forme angulo elevado. É também caracteristico da família de Cro-Magnon, e de muitos depósitos neolithicos». Referiu igualmente que «Outro osso se indica como caracteristico muitas vezes apreciado em depositos d'esses tempos e é o perono-canellado, como o que represento sob a Fig. 3 [...] No dolmen coberto de Alcalá colligi tres fagmenlos de humeros do braço esquerdo, sendo um d'elles sómente períorado, mas nos outros dois ha tão minguada espessura entre o fundo da cavidade olecraneana o o da coronoidea, que, apontada á luz, se nota ter passado ao estado de translucidez; o que parece mostrar que a força muscular exerceu vigorosa acção n'aquelles pontos de inserção.» Conclui dizendo que «o conjuncto d'estes caracteristicos ainda assim não permite seguras conclusões: entretanto parece offerecer incontestaveis referencias ás raças neoliticas».VEIGA, 1886:222-223
Núcleo central Perto do centro de interpretação de Alcalar, A ocidente da Estrada Municipal 532, nas proximidades do centro de interpretação de Alcalar, encontra-se um grupo de seis monumentos funerários, conhecido como núcleo central. O primeiro monumento, Alcalar 1, é uma anta coberta por uma mamoa, e apresenta um estado de degradação muito avançado. O segundo monumento é um tolo, igualmente coberto por uma mamoa, e também está em mau estado de conservação. O terceiro túmulo, denominado de Alcalar 3, é outro tolo dentro de uma mamoa, e ainda se encontra em bom estado. O monumento Alcalar 4, é igualmente uma mamoa encerrando um tolo, e apresenta um estado de conservação regular, sendo ainda visíveis partes da câmara funerária, tal como os dois monólitos à entrada. O quinto e o sexto monumentos, ambos destruídos, eram tolos que partilhavam a mesma mamoa. O monumento Alcalar 10 está situado junto aos túmulos 1 a 6, e é constituído por um tolo em bom estado de conservação.
Monumento 7 Devido ao seu caráter monumental, o tolo 7 (que foi construído no terceiro milénio) constitui um centro de histórico-cultural e científico incontestável do sítio arqueológico, incluindo os vários artefatos descobertos. O túmulo colméia monte de pedras, é construído a partir de um montículo de pedras em torno de um tolo, com um corredor subjacente e uma câmara abobadada. A sua base é composta por xisto e é duplicada em uma parede que rodeia a estrutura, formando um caminho. O seu diâmetro é de 27 m, com uma entrada virada para o leste localizada no meio da estrutura. O acesso à câmara principal é feito através de um corredor virado para o leste, coberto de grandes lajes de pedra calcária que concentram-se estritamente no acesso à cripta. Este espaço é coberto por uma laje de pedra calcária e fica no centro geométrico do túmulo.
O monumento 7 data de meados do terceiro milénio a.C..
Monumento 9 O monumento 9 foi construído cerca de 200 a 300 anos após o seu antecessor, já nos finais do terceiro milénio ou princípios do segundo. Esta datação foi feita com base nas ossadas de um enterramento secundário, no interior da estrutura. Estes vestígios, que estavam em cima de duas taças de cerâmica, eram compostos por ossos compridos e um crânio de um homem robusto de meia idade, que em certa altura sofreu de um traumatismo craniano, do qual sobreviveu, porque o osso foi reconstruído. A idade dos ossos foi identificada pelo Laboratório de Antropologia da Universidade de Coimbra. No túmulo foram encontrados os vestígios de mais quatro indivíduos, alguns adultos e outros crianças.
Durante as escavações também foi encontrada um osso de falange, que foi inicialmente identificado como sendo de um cavalo e depois como parte de um zebro, um tipo de equídeo já extinto, que viveu na região até ao século XV. Normalmente, as falanges encontradas noutros túmulos estavam decoradas, o que não sucedeu com o osso encontrado no monumento 9. Uma das peças mais importantes encontrada foi um pequeno cilindro de pedra que tinha sido decorado com figuras de olhos, conhecido como o ídolo oculado. A metade decorada do cilindro foi descoberta no local, enquanto que a parte restante foi encontrada entre as terras que tinham sido removidas durante as escavações do século XIX, e que foram depois analisadas. A peça foi alvo de restauro no Museu de Portimão, onde foi exposta.
Foi edificado de forma diferente do seu antecessor, em pedra calcada com barro, o que deixou mais resistente, embora tenham permanecido falhas na estrutura interna, que o terão feito colapsar ainda durante o seu período de utilização. Era de dimensões mais reduzidas do que o sétimo túmulo.
Tal como sucedeu com o sétimo monumento, o túmulo 9 era composto por uma câmara interior e um corredor de acesso, que foram ambos instalados com lajes de pedra de grandes dimensões, em calcário ou grês. Esta câmara era habitualmente utilizada para colocar os cadáveres das pessoas mais influentes, que eram acompanhados por vários objectos que simbolizavam o seu poder. O corredor e a câmara foram depois cobertos por pedras de menores dimensões, em certos casos ligados por barro, até formar um monte de forma circular. O túmulo era depois coroado por pequenas pedras, principalmente em calcário branco, de forma a ser mais visível de longe, e finalmente rematado por lajes. Era rodeado por um muro para contenção periférica, que foi erigido em alvenaria de calcário e arenito amarelo. Uma vez que os construtores não sabiam erigir uma abóbada, colocaram uma grande laje de pedra no topo do túmulo, para tapar o furo em cima da câmara interior.
Segundo Elena Morán e Rui Parreira, também é de grande importância o espaço aberto em frente do túmulo, cujas dimensões, quase tão grandes quanto a estrutura em si, possibilitavam a sua utilização em rituais. Com efeito, neste espaço foram encontrados vestígios de reuniões sociais e de partilha comunitária.
Núcleo ocidental Os túmulos 8, 11, 14, 15 e 16 formam o chamado núcleo ocidental do grupo de monumentos de Alcalar. O oitavo e o décimo primeiro eram tolos cobertos por mamoas, tendo o primeiro sido destruído, enquanto que o segundo apresenta um péssimo estado de conservação. O décimo quarto túmulo, em avançado estado de degradação, era também um tolo, tal como o décimo quinto, que tinha mamoa. O monumento Alcalar 16 era outro tolo.
Núcleo do Vidigal Velho Os monumentos 12 e 13 eram ambos tholos que foram destruídos, e formavam o núcleo do Vidigal Velho.
História
Ocupação primitiva Durante o terceiro milénio a.C., foi formado um assentamento populacional de grandes dimensões na zona de Alcalar, com mais de 25 Ha, e que consistia numa zona residencial e numa necrópole com vários túmulos. Esta comunidade apresentava uma economia multifacetada, baseada nos recursos naturais da região, que além das funções básicas ligadas à terra, como pesca, caça e pastorícia, também permitiu o desenvolvimento de práticas mais avançadas, como a tecelagem, olaria e a metalurgia do cobre.
É provável que o grupo de estruturas megalíticas tenha sido construído entre 2000 e 1600 a.C., no período Calcolítico.