O HMHS Britannic foi um navio de passageiros britânico construído pelos estaleiros da Harland and Wolff, em Belfast, para a White Star Line, porém transformado em navio-hospital antes de entrar em operação comercial. Originalmente chamado de Gigantic, foi o terceiro da Classe Olympic de transatlânticos, depois do RMS Olympic e o RMS Titanic. Sua construção começou em novembro de 1911, com lançamento em 26 de fevereiro de 1914. O Britannic foi pensado para ser o maior, o mais seguro e o mais luxuoso navio de sua classe, com seu desenho e projeto sendo alterados depois do naufrágio do Titanic, em abril de 1912.
O Britannic foi requisitado pela Marinha Real Britânica em 1915, durante seu período de equipagem, para servir como navio-hospital na Primeira Guerra Mundial, viajando entre o Reino Unido e Dardanelos no Império Otomano. Ele sofreu uma explosão após colidir com uma mina subaquática na manhã do dia 21 de novembro de 1916, no mar Egeu, durante sua sexta viagem, afundando em pouco menos de uma hora. Entretanto, as causas exatas de seu naufrágio permanecem desconhecidas até hoje. A imprensa britânica pensou se tratar de uma ação inimiga e aproveitou para atacar a "barbárie alemã".
Ele foi substituído na frota da White Star Line, depois da guerra, pelo RMS Majestic. Em 1975, seus destroços foram localizados pelo explorador francês Jacques-Yves Cousteau. O Britannic é o maior navio para passageiros naufragado do mundo, embora não tão famoso quanto seu irmão Titanic, atraindo mergulhadores e expedições de exploração desde sua redescoberta, com o principal objetivo, na maioria das vezes, de determinar as causas do naufrágio.
Antecedentes Joseph Bruce Ismay, presidente da companhia de navegação White Star Line, e lorde William Pirrie, 1.º Barão Pirrie e presidente dos estaleiros navais da Harland and Wolff, decidiram, em 1907, construir três embarcações de proporções até então inigualáveis para competir com o e o da Cunard Line. Entretanto, o objetivo dos dois era competir em termos de luxuosidade, não em velocidade. Os nomes dos três foram posteriormente decididos e mostravam as intenções estilísticas em termos de tamanho: Olympic, Titanic e Gigantic (em referência a três raças da mitologia grega: olimpianos, titãs e gigantes). Os dois primeiros seriam construídos praticamente juntos, enquanto o terceiro teria sua construção iniciada depois do lançamento de seus irmãos.
Os projetos foram realizados pelos engenheiros navais Thomas Andrews e Alexander Carlisle, com a construção das duas primeiras embarcações começando respectivamente em 1908 e 1909. Seus tamanhos eram tais que foi necessário antes construir pórticos especiais para abrigá-los. Apenas dois podiam ser construídos lado a lado. Os três navios originalmente tinham 270 metros de comprimento, uma arqueação bruta de aproximadamente 48 mil toneladas, com capacidade de viajar a uma velocidade média de 22 nós, abaixo dos recordes de velocidade do Mauretania e Lusitania, mas mesmo assim o suficiente para completar uma viagem transatlântica em uma semana.
Construção O RMS Olympic foi lançado em outubro de 1910 e realizou sua viagem inaugural em junho de 1911, enquanto o RMS Titanic foi lançado em maio de 1911 e teve sua viagem inaugural em abril de 1912. A construção do Gigantic começou pouco depois, com o batimento de sua quilha em 30 de novembro de 1911 e seu comissionamento originalmente previsto para o início de 1914. Os trabalhos se iniciaram em um bom ritmo, porém rapidamente foram ofuscados pelo naufrágio do Titanic, em 15 de abril de 1912, quando a construção foi imediatamente suspensa, com os engenheiros aguardando os resultados das comissões de investigação britânica e norte-americana, bem como as recomendações a serem incorporadas ao novo navio.
thumb|300px|O Britannic em construção, c. 1914. As investigações acarretaram muitas mudanças, a primeira delas no próprio nome. Considerado muito orgulhoso, especialmente após o naufrágio do irmão Titanic, o nome Gigantic foi alterado para Britannic, que já havia sido empregado em 1874 pela White Star Line em outra embarcação de muito sucesso, o SS Britannic. A companhia sempre negou que sua intenção original era chamá-lo de Gigantic, porém é reconhecido que esse nome foi considerado, além de cartazes antigos e jornais da época apoiarem esse fato.
Os trabalhos de construção foram retomados e várias outras mudanças de projeto foram implementadas, principalmente nas partes relacionadas à segurança. Um casco duplo foi adicionado, os compartimentos estanques centrais foram reforçados (com esta tendo sido uma falha que acelerou o naufrágio do Titanic) e botes salva vidas com capacidade para todos a bordo foram adicionados. Os novos compartimentos estanques permitiam que o Britannic se mantivesse à tona com até seis compartimentos inundados. Além disso, enormes turcos foram instalados a fim de permitir que os botes fossem abaixados com maior rapidez, mesmo que o navio estivesse adernando para um dos lados. A White Star Line também publicou folhetos detalhando as melhorias de segurança do Britannic para combater a má publicidade gerada pelo Titanic.
O Britannic foi lançado ao mar em 26 de fevereiro de 1914, sob o olhar de centenas de espectadores. Foi um dia muito movimentado para a cidade de Belfast, com a imprensa realizando várias entrevistas e um jantar especial sendo organizado em homenagem ao navio. O processo de equipagem se iniciou em seguida para preencher o casco vazio com várias máquinas e as chaminés. Esperava-se que a embarcação fosse concluída em setembro, porém em julho a White Star anunciou que seu comissionamento seria adiado até a primavera. Na realidade a empresa passava por problemas financeiros e precisava se focar em suas embarcações já operantes. O Britannic foi levado para a doca seca em setembro, com suas três hélices sendo instaladas. A ideia do comissionamento na primavera foi interrompida pelo início da Primeira Guerra Mundial. Sua equipagem foi paralisada e em 13 de novembro de 1915, o Britannic foi requisitado pelo Almirantado Britânico para transportar soldados e feridos, recebendo o prefixo His Majesty's Hospital Ship (HMHS).
Conversão thumb|left|250px|Concepção artística do Britannic como um navio de passageiros. O Britannic sofreu mais mudanças, principalmente visuais, para seu novo propósito. Embora sua construção estivesse praticamente concluída, seu casco foi pintado de branco com uma listra verde e três cruzes vermelhas de cada lado iluminadas por lâmpadas. Em seu interior, 3 309 camas foram instaladas. As áreas comuns dos conveses superiores foram transformadas em quartos para os feridos, as cabines do convés B foram adaptadas para alojar os médicos, enquanto o salão de jantar e de recepção da primeira classe no convés D foram transformados em salas de operação. Os conveses mais baixos ficaram direcionados para a acomodação de feridos. Todos os equipamentos médicos foram instalados quando o Britannic chegou em Liverpool.
Essa transformação improvisada implicou um problema com os botes salva-vidas: somente cinco dos oito turcos gigantes tiveram tempo de serem instalados. Os equipamentos do navio foram complementados por turcos Wellin (os mesmo utilizados no Olympic e no Titanic), capazes de descer dois barcos: um comum e um desmontável. Esses turcos foram instalados na parte central, com dois deles também sendo colocados no convés da popa, totalizando 58 botes.
Características
Como o terceiro e último navio da Classe Olympic, o Britannic se beneficiou das melhorias julgadas como necessárias depois do serviço de seus dois irmãos mais velhos, da mesma maneira como o Titanic havia recebido algumas alterações antes de seu comissionamento baseadas nas primeiras viagens do Olympic. Apesar de terem sido visualmente quase idênticos, os construtores desde o início estavam cientes que existiriam muitas diferenças entre os três navios. O naufrágio do Titanic e as medidas de segurança resultantes causaram mudanças ainda maiores, porém mudanças no pensamento dos clientes e da concorrência também tiveram um impacto sobre os aspectos de negócio do navio. O custo inicial do Britannic foi estimado em 1,5 milhões de libras esterlinas, o mesmo de seus irmãos. As alterações ocorridas durante sua construção e sua conversão a navio-hospital acabaram aumentando os custos, com o valor total sendo estimado em 1,9 milhões de libras.
Aspectos técnicos thumb|Trabalhadores montando as turbinas do Britannic, c. 1915. As dimensões do Britannic permaneceram bastante semelhantes às de seus irmãos: tinha 28,7 m de largura por 58 m de altura e 269,06 metros de comprimento, mesmo do Olympic e do Titanic. Possuía uma tonelagem de arqueação bruta de 48 158 t, ultrapassando em muito seus predecessores, porém isso não o fazia o maior navio de passageiros do mundo na época: o título pertencia ao alemão SS Vaterland. A embarcação era impulsionada por um sistema misto como seus irmãos: dois motores a vapor de tripla expansão para movimentar duas hélices de três lâminas cada, enquanto uma turbina recuperava o excesso de vapor para movimentar uma hélice central com quatro lâminas. A potência foi aumentada para compensar o aumento na dimensão do navio e assim evitar perda de velocidade, lhe permitindo alcançar até 21 nós (39 km/h). Seu maquinário era o maior já construído até então em uma época que a propulsão a vapor estava sendo lentamente substituída por uma propulsão gerada apenas por turbinas.
O Britannic recebeu várias melhorias para corrigir insuficiências observadas no naufrágio do Titanic. O casco duplo ficou mais espesso e foi estendido até o convés F ao longo da parte central do navio. Assim, teoricamente, a água não poderia alcançar as salas das caldeiras em caso de colisão e o centro da embarcação estaria protegido. Os compartimentos estanques também foram melhorados: como seus irmãos o Britannic tinha dezesseis, porém as paredes de alguns compartimentos foram reforçadas, com cinco deles chegando até o convés B (isto é, três conveses acima das do Titanic) e os outros indo até o convés E, vários metros acima da linha d'água. Assim, o navio podia se manter flutuando em caso de até seis compartimentos frontais estarem inundados (enquanto o Titanic podia ter apenas quatro). Dessa forma, os construtores acreditavam que o Britannic estava protegido de todos os perigos que poderiam aparecer contra um navio comercial.
Os turcos dos botes salva-vidas eram bem diferentes dos outros dois navios. Na verdade, os barcos não ficavam guardados no convés dos botes mas sim suspensos por turcos gigantes, deteriorando um pouco a estética geral da embarcação. Estes eram capazes de suportar até seis botes cada, com o número total de turcos no projeto sendo de oito: dois na frente do convés, quatro na parte de trás do convés e outros dois na popa. Entretanto, pelas limitações de tempo, apenas os quatro turcos da parte de trás do convés dos botes e um dos turcos da parte da frente foram instalados. Turcos tipo Wellin foram temporariamente adicionados no centro do convés superior e na popa. Os botes em si receberam atenção especial: eram os maiores já colocados em um navio de passageiros até então. Dois barcos a motor também foram colocados a bordo em caso de alguma emergência. Tudo isso foi feito para tentar apagar a memória da falta de botes suficientes do Titanic.