A língua baniwa (em baniwa: walimanai, em AFI [wa.li.'ma.nai), também conhecida como baniwa do içana, ou baniwa-curripaco é uma língua ativa (em estado vulnerável) da família aruak e do grupo japurá-colômbia. A língua é falada pelo povo Baniwa, constituído de aproximadamente 17,6 mil indígenas, divididos em mais de 200 comunidades localizadas às margens do rio Içana, principalmente no médio rio Içana, na fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.
É uma das línguas oficiais do município de São Gabriel da Cachoeira e do estado do Amazonas. No entanto, no território colombiano, o nome "baniwa" designa outro povo e outra língua, utilizando o termo "baniwa-curripaco" para o povo e língua do médio rio Içana.
Durante o século XVIII, escravidão e aldeamentos dos indígenas pelos portugueses provocaram uma nova reorganização geográfica e dialetal da língua devido às fugas de indígenas. Já no século XX, houve uma maior movimentação para as margens do rio, além do envio de missionários para a região, o que, simultaneamente, converteu indígenas e provocou conflitos. Atualmente, a língua baniwa possui representantes vizibilizados pela causa da luta indígena em busca de direitos e preservação das terras, como o ativista André Baniwa, o artista Denilson Baniwa e o antropólogo Gersem Baniwa. Devido à colonização e presença religiosa a partir de 1730, a língua utiliza em sua escrita o alfabeto latino. Um dos primeiros grandes estudos documentados do léxico baniwa data de 1853, feito pelo britânico Alfred Russel Wallace.
A gramática da língua baniwa tem ordem SOV e apresenta nomes dependentes (que exigem complemento nominal) e nomes independentes, além de verbos e adjetivos (que comumente são transformados em verbos). A marcação de pronomes e conjugação verbal é predominantemente relacionada com sufixos e prefixos. Dentre os pronomes, se destaca a divisão entre "feminino" e "não feminino". Além disso, a língua apresenta classificadores, responsáveis por demarcar a forma ou características físicas e que também são marcados por sufixos.
Etimologia O termo baniwa é um exônimo dado pelos portugueses que entraram em contato com o povo, no entanto não existem registros concretos acerca de sua origem ou explicação. Já o termo "curripaco", muitas vezes ligado à língua, surgiu a partir de uma forma pejorativa de baniwas do Médio Içana chamarem baniwas do Alto Içana, sendo uma junção dos termos kurri, que marca a forma impessoal e também a ideia de negação, e paaku, que significa "fala-se". Assim, essa expressão se assemelha com uma ideia de "se diz não".
Apesar da etnia não ter um nome específico para sua língua, eles se intitulam com o nome endônimo walimanai. Essa expressão pode ser interpretada como "os outros novos que vão nascer", em contraste com os antepassados ancestrais (waferinaipe) que construíram o mundo para os vivos de hoje.
Distribuição A língua baniwa está presente na região do curso do rio Içana, região fronteiriça entre o Brasil, no estado do Amazonas, a Colômbia e a Venezuela. Apesar de estar nesses três países, a presença em território brasileiro é a maior, com 7145 falantes, enquanto na Colômbia são 7000 e na Venezuela são 3501. A divisão e presença atual da língua é uma influência direta dos aldeamentos instalados na região durante a colonização, afetando e reorganizando os dialetos e grupos na região.miniaturadaimagem|239x239px|Rio Içana.|esquerda Dialetos A língua baniwa-koripako apresenta quatro super-dialetos que, apesar de apresentarem diferenças, não impedem a compreensão. Além desses quatro principais, existem diversas variações com mesclas de características, uma vez que o casamento de pessoas de diferentes dialetos é uma prática comum. Henri Ramirez, em Dicionário da Língua Baniwa, apresenta a seguinte divisão:
Superdialeto Meridional (Karokana): também conhecido como Victorino, ocupa regiões do rio Guaiania, em fronteiras com a Colômbia. Superdialeto Central (Baniwa): ocupa o rio Içana e seus afluentes (rio Aiari e rio Cuiari) Superdialeto Setentrional (Curripaco): ocupa o alto rio Içana, rio Guainia e cabeceiras do rio Cuiari. Tariano: ocupa a região abaixo do superdialeto central.
Assim, os estudos normalmente recaem sobre o dialeto baniwa-curripaco que, por serem comumente muito próximos, são estudados muitas vezes juntos e também é uma forma de diferenciar a língua do baniwa de Maroa. Segue uma comparação dos dialetos baniwa-koripako:
+ Comparação de palavras nos dialetos Português Superdialeto Centrais Superdialeto Setentrionais Superdialeto Meridional Tariano onça dzaawi jaawi dzaawi jaawi cobra aapi aapi eepi-tsi ããpi saber -aanhee -anhii -aanhee -aanhi cortar -takhaa -jʊa -takhaa -apitsa nadar -aajhaa -hiɲa -aanhaa -aajhaa longe jakaa teekʊ jakaa wia-ka pesado hamiɲa hamiɲa hameɻʊ hamiɲa
Línguas relacionadas A língua baniwa faz parte da família linguística aruak. Essa família foi marcada pela sua presença em todo o continente americano e apresenta mais de 400 mil falantes dos quais metade está na região da Amazônia setentrional. Assim, a árvore da família, proposta por Henri Ramirez em seu livro "Línguas Arawak da Amazônia Setentrional", é a seguinte:
Família aruak
Oriental Amapá Paikur-Marawan Xingú-Tapajós Pareci-Saraveka e Yawalapiti Waurá-Mehinaku Ocidental Japurá-Colômbia Piapoco e Achagua Baniwa-Curripaco Warekena e †Mandawaka Kabiyari Yukuna e †Wainuma-Mariate †Kauixana Resígaro Rio Negro Baré, †Guinau e † Anauyá-Yabahana Alto Orinoco Baniva de Maroa e †Yavitero-Pareni †Maipure Negro-Roraima †Aruã †Manao, †Wirina, †Bahuana e †Cariaí Wapixana-Atorai †Mawayana Purus-Ucayali Apurinã e Piro-Kuniba-Canamari-Mantineri Kampa Bolívia-Mato Grosso Bauré e Mojo Terena-Kinikinao Caribe-Venezuela Lokono, Island Carib-Garifuna, †Taino e †Caquetio Guahiro e Parauhano †Marawa e †Waraiko
História
História da língua miniaturadaimagem|Indígena baniwa com pinturas faciais características do povo A documentação da história da língua baniwa se inicia com o contato com os colonizadores portugueses a partir de 1730, pois não se tem registros documentados da origem da língua e trocas culturais e linguísticas predecessoras. Apesar disso, o povo mesmo não tendo história escrita nos moldes europeus atuais, apresenta suas tradições e cultura de maneira oral. Assim, os missionários católicos carmelitas foram os primeiros a alcançar a região, tendo como objetivo a catequização e a inserção de formas europeias de trabalho com mão de obra indígena. Assim, os descimentos fizeram muitas comunidades indígenas do médio rio Içana fugirem para cursos de água menores (igarapés) e para a Venezuela, formando uma nova distribuição dialetal. Durante a colonização, as danças tradicionais, a cultura, os saberes e a língua das comunidades foram reprimidas, havendo uma imposição de valores europeus. Os eventos de separação e fuga permitiram uma preservação do baniwa distante de outras culturas e línguas.
No final do século XIX, após o fim da influência colonizadora, a dominação na região passou a estar envolvida com o ciclo da borracha. Já durante o século XX, após a Segunda Guerra Mundial, houve uma movimentação de retorno ao fluxo principal do rio, concentrando novamente as populações em seu curso. Durante esse período, a chegada de missionários salesianos impactou a formação da língua com a inserção do nheengatu, língua utilizada para a catequese e que se tornou paralela ao baniwa na comunicação. De forma paralela, a chegada de missionários evangélicos na região, durante a década de 40, intensificou ainda mais a repressão social contra as características tradicionais indígenas, ocasionando uma conversão em massa da população e o apagamento de diversos aspectos tradicionais. miniaturadaimagem|Parte de uma exposição de arte indígena do artista baniwa Denilson Baniwa.|esquerda Desse modo, atualmente, existem conflitos ideológicos e religiosos na região, com os evangélicos sendo um grupo mais fechado à retomada da cultura indígena em oposição aos grupos católicos, que são mais abertos para tais práticas. Além desse contexto interno, a situação nacional indígena também afeta os grupos, apresentando uma participação ativa em debates acerca dos direitos indígenas.
História da documentação A documentação da língua baniwa apresentou por muito tempo um grande impasse em relação às muitas similaridades entre os dialetos e línguas da família aruak, impossibilitando registros mais precisos antes da delimitação do que seria a língua baniwa. Dessa maneira, os primeiros estudos começaram no século XIX, sendo um dos mais expressivos o estudo do léxico realizado por Alfred Russel Wallace em suas viagens entre 1848 e 1853. Assim, o relatório de Wallace influenciou as pesquisas futuras, como as dos pesquisadores Koch-Grünberg, Curt Nimuendajú e Martius.
Durante o século XX, se desenvolveram pesquisas mais aprofundadas em aspectos específicos da língua baniwa: as primeiras descrições fonológicas; classificações nominais, numerais e adjetivais; gramática e léxico; descrição fonológica; fonéticas sobre tons e acentos. Os estudos também continuam avançando ao longo do século XXI, como, por exemplo, a gramática e dicionário feito por Henri Ramirez.thumb|Escola baniwa no rio Içana.Um ponto importante para a documentação da língua baniwa foi a tradução do Novo Testamento pela missionária evangélica Sophie Muller. A tradutora foi responsável por criar um sistema ortográfico próprio que é utilizado por certos grupos, ao mesmo tempo que outros assumem o sistema estabelecido por Ramirez.
História do ensino O ensino da língua baniwa apresenta o longo de sua história uma desvalorização devido à aspectos religiosos, que escanteiam as origens do povo. Apesar disso, atualmente existem movimentos educacionais nas escolas da região que buscam implementar o ensino da língua baniwa por meio de práticas institucionais e culturais. Durante a tentativa de implementar um ensino bilíngue, o principal impasse é a falta de materiais didáticos da língua. Assim, ao mesmo tempo que os conteúdos são passados na língua materna, a mesma não é estudada diretamente. Fonologia
Consoantes A língua baniwa apresenta 17 consoantes divididas em plosivas (oclusivas), africadas, nasais, fricativas, aproximantes e aproximante lateral. No entanto, as plosivas surdas apresentam variações de aspiração (ʰ). O fone [b] é muito raro na língua, sendo em comumente utilizado em palavras importadas do português. O fone [j] também é raro nos dialetos centrais e meridionais. Os fones [dz] e [ts] são palatalizados quando vem antes da vogal [i].
Vogais A língua baniwa apresenta 4 vogais, sendo elas divididas em anterior ou posterior e entre fechada, semifechada e aberta. No entanto, as realizações do fonema /u/ oscilam entre [o] e [u]. Além disso, o fonema /i/ é realizado como [j] quando começa a palavra e a vogal seguinte não é [i]. As vogais podem aparecer de forma breve ou longa, oral ou nasalizada, sonora ou surda.A língua frequentemente apresenta situações com vogais longas, as quais têm as mesmas características fonológicas dos ditongos e tritongos, realizando uma oposição entre as vogais longas e curtas para diferenciar palavras. Enquanto isso, variantes nasais sempre ocorrem quando estão acompanhadas de uma consoante nasal (normalmente anterior à vogal), ocorrendo também a inserção da fricativa glotal surda entre os sons, de modo que a nasalização sempre aparece como N(h)V (onde N é uma consoante nasal e V é uma vogal) e, no uso coloquial, é muitas vezes tida como apenas Ṽ. Já as variações surdas ocorrem mais frequentemente ao fim da palavra ou em sílabas átonas.
Tons