Tito Lívio Fleury Martins (São Paulo, 1 de junho de 1918 – São Paulo, 4 de junho de 2012) foi um polímata brasileiro que atuou em mais de quinze profissões, tendo se destacado como radialista, jornalista, ator, locutor e empresário. Considerado pioneiro do rádio no país, foi casado com Cacilda Becker, com quem teve um filho, e colaborou por décadas com Jânio Quadros, de cuja família era amigo.

Origens e formação Descendente de paulistas, fluminenses, goianos e matogrossenses, que por sua vez descendiam de portugueses, francesesMesquita, José Barnabé de. O Capitão-mór André Gaudie Ley e a sua descendência. 1921, p. 38. "A família Fleury, muito ramificada nos Estados centraes (Goyaz, Minas e São Paulo) descende de franceses, parecendo segundo uma tradição oral, ser oriunda de um fidalgo que, perseguido pela revolução, veio asilar-se na América." e escoceses,Mesquita, José Barnabé de. O Capitão-mór André Gaudie Ley e a sua descendência. 1921, p. 10. "A família Gaudie Ley amplamente ramificada nos Estados de Matto Grosso e Goyaz, tem seu genearcha na pessoa do Capitão-mór André Gaudie Ley, natural da cidade de Goyaz, filho legitimo do Capitão João Gaudie Ley e D. Anna de Gusmão e Silva, descendente de irlandezes, ou escoceses pela linha paterna.(3) O nome Gaudie Ley é, segundo parece, corruptela de Godly, forma britannea (irlandeza ou escocesa) equivalente a divinamente. (God-ly)" Tito Fleury nasceu em uma família de classe média de São Paulo em 1 de junho de 1918, filho de Ary Oliveira Martins, comerciante diretor de uma loja de artigos médicos, e Cecília Couto de Magalhães Fleury. Formou-se bacharel em Direito em 1942 pela Universidade de São Paulo,Tito Lívio Fleury Martins (1918-2012) - Pioneiro do rádio e empresário. Folha de S.Paulo. Acesso em 05/06/2016.Faculdade de Direito - Relação dos alunos matriculados em 1940 e 1941. Universidade de São Paulo. Acesso em 05/06/2016.Antigos alunos graduados. ARCADAS. Acesso em 02/07/2016. mas não se dedicou muito à profissão, tendo advogado apenas por um tempo no escritório que tinha com um tio.Folha de S.Paulo - Primeiro Caderno, 10/01/1986, p. 5. Acervo Folha. Acesso em 08/06/2016. Mesmo assim, foi membro da Caixa de Assistência Folha de S.Paulo - Primeiro Caderno, 25/09/1986, p. 65. Acervo Folha. Acesso em 08/06/2016. e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/SP.Consulta de Inscritos OAB, nº 4727. OAB/SP. Acesso em 02/07/2016.

Durante o percurso acadêmico, destacou-se de diversas formas: foi presidente da Sociedade Universitária Pan-Americana de Cultura, uma agremiação que congregava acadêmicos de todas as faculdades de São Paulo,Folha de S.Paulo - Caderno Único, 10/09/1941, p. 1. Acervo Folha. Acesso em 08/06/2016.O Estado de S. Paulo - Geral, 15/08/1941, p. 7. Acervo Estadão. Acesso em 11/06/2016.Correio Paulistano, 26/08/1941, p. 4. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 28/06/2016. membro do Partido Acadêmico Conservador, agremiação política dos alunos da Faculdade de Direito, candidato a vice-presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto,Correio Paulistano, 10/08/1941, p. 13. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 28/06/2016.Correio Paulistano, 25/10/1941, p. 2. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 28/06/2016.Correio Paulistano, 08/11/1941, p. 2. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 28/06/2016. membro da Comissão Organizadora do Departamento de Estudos Brasileiros e Panamericanos,A Noite, 14/01/1942, p. 3. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 28/06/2016.Correio Paulistano, 14/01/1942, p. 4. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 28/06/2016. membro da Comissão de Propaganda da FUPE,Correio Paulistano, 25/03/1942, p. 8. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 01/07/2016. anunciador do Campeonato Estadual de AtletismoCorreio Paulistano, 09/10/1938, p. 14. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 02/07/2016. e anunciador da II Olimpíada Universitária Brasileira.Correio Paulistano, 07/04/1940, p. 14. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 28/06/2016.

Em meados de 1942, fez CPOR, passando boa parte de seu tempo no quartel. Em 1947, foi promovido a 2º Tenente de Cavalaria. Apesar disso, foi mantido como oficial da reserva.Diário de Notícias, 02/07/1947, p. 5. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 28/06/2016.

Pioneirismo no rádio thumb|150px|O jovem Fleury em junho de 1937, um mês após a inauguração da Rádio Bandeirantes. A carreira de Tito no rádio se iniciou cedo: aos 16 anos, já era responsável pelo Canções Regionais, da Cultura (PRE-4).Correio Paulistano, 28/11/1934, p. 9. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 30/06/2016.Correio Paulistano, 01/12/1934, p. 11. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 02/07/2016. Poucos meses depois, já em 1935, passou a apresentar o Programa Regional, na Rádio Sociedade Record (PRB-9).Correio Paulistano, 23/02/1935, p. 9. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 30/06/2016. Nesse mesmo ano, participou de uma hora de calouros da Rádio Cruzeiro do Sul cantando sambas. Um mês depois, ganhou um concurso para locutores na Rádio Excelsior e lá ficou por dois anos, dividindo-se, também, entre a Rádio Record. Esporadicamente, cantava nessas emissoras, como amador.Correio da Manhã, 26/09/1947, p. 11. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 02/07/2016. thumb|left|150px|Aos 17 anos, Tito já era locutor da Rádio Excelsior. Em 1937, pouco antes de completar 19 anos e após vencer outro concurso de locutor, integrou, junto a Plínio Freire de Sá Campello, Joaquim Carlos Nobre e Mário de Carvalho Araújo,Carioca, 22/05/1937, p. 43. Biblioteca Nacional Digital]. Acesso em 07/07/2016. a primeira equipe de locutores da Sociedade Bandeirante de Rádio Difusão (PRH-9), emissora que ajudou a fundar e que viria a se tornar a Rádio Bandeirantes (AM 840/FM 90.9).JÚNIOR, Cláudio Junqueira Braga. O Pioneirismo do Programa de Rádio "O Pulo Do Gato", na Bandeirantes. São Paulo, 2015. Dissertação de Mestrado em Comunicação, UNIP. Disponível em . Acesso em 05/06/2016.060ª SESSÃO ORDINÁRIA. Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Acesso em 28/06/2016.HOMENAGEM AO CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE CAMPELLO - 18.09.1909 - 18.09.2009. Campos do Jordão Cultura. Acesso em 05/06/2016. Participou do programa de estreia da estação em 6 de maio daquele ano, na sede localizada à rua São Bento, 365.Folha de S.Paulo - Primeiro Caderno, 05/05/1987, p. 32. Acervo Folha. Acesso em 08/06/2016. Por esse feito, foi considerado um pioneiro do rádio no Brasil. thumb|150px|Na época em que apresentava o Swing Time, setembro de 1937. Tito ganhou espaço na radiodifusora quando passou a substituir Joaquim Carlos Nobre no período principal. Descrito como "sóbrio e distinto", agradou bastante aos ouvintes da estação. Durante essa época, foi responsável pelas irradiações do X Campeonato Sul-Americano de Atletismo, uma tarefa difícil que conseguiu desempenhar com elegância, segundo um jornal da época.Correio Paulistano, 12/06/1937, p. 6. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 30/06/2016. Em 14 de junho, foi locutor da inauguração do Estúdio Serrador, instalado na sala vermelha do Cine Odeon.Correio Paulistano, 19/06/1937, p. 6. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 30/06/2016. Meses mais tarde, foi apresentador e redator do programa Swing Time, que consistia em audições de artistas populares, trabalho pelo qual recebeu críticas elogiosas.Correio Paulistano, 26/09/1937, p. 22. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 28/06/2016.

Para ganhar espaço frente às concorrentes, a Bandeirantes se viu obrigada a reduzir a programação de música erudita e começou a investir mais em MPB e esportes, este último de modo improvisado: o escalado para narrar jogos foi Tito, que na época era locutor comercial, e o escolhido para comentá-los foi Enéas Machado de Assis, diretor artístico da rádio. Não obtiveram muito sucesso, mas inovaram ao adotar vestimenta padrão para identificá-los como radialistas da emissora, hoje algo comum. A Bandeirantes só criaria um departamento exclusivo para o esporte em 1939.Rádio Bandeirantes 75 anos: origens do esporte na programação RB. Band.com.br. Acesso em 02/07/2016. Nesse ano, Fleury voltou à Cruzeiro do Sul, onde assumiu o cargo de locutor-chefe e ficou por três anos.Carioca, 1939, p. 46. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 07/07/2016. Transferiu-se, em 1942, para as emissoras associadas Tupi e Difusora de São Paulo, onde trabalhou como locutor de programas e radioator, e depois para a Rede Ipiranga.

A relação com Cacilda Por volta de 1939, conheceu Cacilda Becker, uma jovem atriz de 18 anos que viu dançar em Santos, onde ela participava do teatro amador. Encontrou-a novamente em 1942, quando um colega do curso de Direito que fazia um jornal acadêmico o levou ao camarim para entrevistá-la. Tito, que já trabalhava como repórter, publicou uma entrevista exclusiva com a ainda principiante atriz na revista Universal, sob o título "Cacilda Becker: uma estrela que surge", como que prevendo seu sucesso vindouro. Tornaram-se amigos e, após vários convites de Tito para tomar café com leite após os espetáculos, começaram a namorar no ano seguinte. Os dois viveram maritalmente por cinco anos sem oficializar a união, um tabu para a época.A primeira-dama dos palcos brasileiros. SESC-SP. Acesso em 11/06/2016. Durante esse período, no final de 1944, Cacilda descobriu que estava grávida. O casal concluiu que aquele não era o momento para ter um filho e Cacilda abortou, fazendo uma raspagem, decisão da qual Tito se arrependeu décadas mais tarde. Em 1946, Cacilda enfrentou um novo aborto. Casaram-se em 15 de março de 1947, na Basílica de Nossa Senhora Aparecida,Carioca, 03/04/1947, p. 41. Biblioteca Nacional Digital. Acesso em 07/07/2016. passando Cacilda a assinar Cacilda Becker Fleury Martins, mas o matrimônio durou somente até 1949, desfazendo-se logo após o nascimento do único filho do casal,Cultura - Cacilda Becker. Portal Brasil. Acesso em 05/06/2016.O Estado de S. Paulo - Caderno 2, 23/10/2002, p. 45, D2. Acervo Estadão. Acesso em 08/06/2016.PONTES, Heloísa. A burla do gênero: Cacilda Becker, a Mary Stuart de Pirassununga. São Paulo, 2004. Tempo Social (revista de Sociologia da USP), vol. 16, nº 1. Acesso em 11/06/2016. o ator,Morre o ex-ator Cuca Becker, filho da grande Cacilda Becker. Terra. Acesso em 29/01/2022.Mortes: Filho da grande dama do teatro, viveu a arte e o espiritismo. Folha de S.Paulo. Acesso em 29/01/2022.O silêncio desce sobre Cacilda. Folha de S.Paulo, 15/06/1969 (disponibilizado pelo Banco de Dados Folha). Acesso em 05/06/2016.Ficha técnica da telenovela A Menina do Veleiro Azul, disponível em: FERNANDES, Ismael. Memória da telenovela brasileira. São Paulo: Proposta Editorial, 1982.Ficha técnica do filme Floradas na Serra (1954). Cinema Brasileiro. Acesso em 05/06/2016. empresário,O Estado de S. Paulo - Caderno 2, 14/06/1994, p. 66, D2. Acervo Estadão. Acesso em 13/06/2016. e políticoCuca Becker (2010) - Dados pessoais do candidato. UOL Notícias - Políticos do Brasil. Acesso em 05/06/2016. formado em Filosofia Luiz Carlos Becker Fleury Martins, o "Cuca". O motivo da separação foi o fato de Cacilda ter se apaixonado pelo diretor do Teatro Brasileiro de Comédia, o italiano Adolfo Celi, com quem viveu um curto romance antes de conhecer, em 1956, seu futuro novo marido, o também ator Walmor Chagas.História de uma fúria santa. Observatório de Imprensa. Acesso em 02/07/2016. O desquite amigável foi assinado no começo de 1950. thumb|left|300px|Fleury com Plínio Freire de Sá Campello, Jean Sablon, Cacilda Becker e Genperfil, 1943. thumb|right|220px|Foto oficial do casamento de Fleury e Becker em Aparecida, 15 de março de 1947.