miniaturadaimagem|180x180px| Olho da Providência, catedral de Salta, Argentina A Providência designa a ação no mundo de uma vontade externa (não humana, transcendente), levando os eventos a um fim. Referida como providência divina é um termo teológico que se refere a um poder supremo, superintendência, ou agência de Deus ou alguma divindade sobre eventos. A ideia é, portanto, diametralmente oposta à do acaso e, em certo sentido, à da fatalidade. Durante a Antiguidade, os debates filosóficos opuseram os epicuristas, segundo os quais a origem e a evolução do universo são precisamente apenas uma questão de sorte, aos estoicos (fatum stoicum) e certos (neo)platonistas, para os quais — pelo contrário — elas resultam da vontade de um demiurgo (Criador) ou mesmo da ação da natureza, de acordo com leis que são próprias a ela.

Considerada "divina" ou "natural", a ideia de providência se relaciona, portanto, a uma concepção do mundo metafísica, causalista e teleológica.

Evolução do conceito de Providência através da história miniaturadaimagem|180x180px| Áureo romano do século II mostrando, à esquerda, o retrato do imperador Pertinax; à direita, uma figura feminina simbolizando a Providência. Conceitos de providência já eram implícitos em politeísmos como os do Oriente Próximo, por exemplo em literaturas sapienciais e hinos do Antigo Egito e Mesopotâmia: aos diversos deuses pressupunham funções próprias de governança em guiar a nação através de poderes e ações de ordem e benevolência para os homens, provendo chuvas, fartura, saúde, retribuição, justiça, vitória, etc. Essa noção de intervenção divina foi desenvolvida também na interpretação da mitologia grega e está presente nos textos sagrados hindus, como num hino a Agni: No confucionismo, Tian é um conceito de divindade celeste suprema que ordena o Mandato do Céu e estabelece um caminho providencial. Em algumas linhagens do budismo, principalmente a Maaiana e o budismo tibetano, há a noção do Buda Primordial cósmico, que manifesta sua compaixão em favor da iluminação de todos os seres no universo: "A numerosa produção de concessões de desejos do Buda é inconcebível. Uma chuva de joias que beneficia os seres vivos preenche todo o espaço. Os seres vivos se beneficiam de acordo com sua capacidade de compreender.” Uisang (625-702)"O Buda, o pai compassivo, engenhou vários veículos de ensinamentos budistas para guiar os seres à realização da sabedoria abrangente" Kūkai (774-835)No judaísmo, a providência divina (em hebraico, hashgacha) faz parte da sua vivência essencial de religião,Vadja, George. « JUDAÏSME - La religion juive ». Encyclopædia Universalis [en ligne], consultado em 23 de dezembro de 2019. "O judaísmo é uma forma de vida religiosa, cuja característica essencial é a crença em um Ser Supremo, autor - por mais que se veja sua ação - do universo que ele governa por sua providência." em todas as suas escrituras sagradas é descrita a participação imediata de Yhwh desde o Gênesis, na condução da humanidade, e do povo hebreu no Pentateuco, aos livros históricos, Salmos, Provérbios e profetas; a transmissão rabínica registrou comentários e ditos de mestres judeus, como os na Mishná: "Saiba o que está acima de você — um olho que vê, um ouvido que escuta e todas as suas ações escritas em um livro" e "ninguém levanta um dedo aqui embaixo, a menos que seja ordenado acima". Fílon de Alexandria foi um dos primeiros que investigou a teologia da Providência nas escrituras e a sistematizou sob a filosofia helenística e influência do platonismo, abordando o aspecto da imanência de Deus na criação e investigando o tema em uma de suas próprias obras, De Providentia (Da Providência). A tradição judaica e a filosofia grega serviram de influências para os fundamentos religiosos e filosóficos subsequentes das tradições abraâmicas; para outros desenvolvimentos da filosofia pelos judeus, ver Providência divina no judaísmo.

O cristianismo retoma a ideia da Providência divina: um dos versos do Pai Nosso é "que seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu" e, bem no começo da Idade Média, os Padres da Igreja desenvolveram uma teologia inteiramente centrada nessa ideia, destacando-se Eusébio de Cesareia, que preservou os escritos de Fílon de Alexandria, e a expansão do estudo sobre a providência continuada por Teodoreto de Ciro, que na obra Da Divina Providência elabora demonstrações sobre o cuidado de Deus nos movimentos do céu, das estações e de outros fenômenos da natureza, além do equilíbrio nas sociedades. Mas, no final deste período, com crescente interesse filosófico e teológico, o destaque é posto na reciprocidade entre a ação da providência (divina) e o livre-arbítrio (humano).

No islamismo, seguindo a tradição monoteísta diversas passagens do Corão destacam a ação de Alá na manutenção da harmonia do universo, com afirmações de que toda a Criação reflete Sua presença através de sinais, além de narrativas da intervenção de anjos e da condução divina no desenvolvimento da civilização e nas revelações ao profeta Maomé. A teologia islâmica dos séculos iniciais debateu a questão do livre-arbítrio e determinismo, com diferentes visões em suas escolas de pensamento, e a causação divina esteve estreitamente relacionada à ordem natural na ciência e filosofia islâmica. Destaca-se a discussão do tema por Avicena, que define:A providência consiste em o Primeiro conhecer em Sua essência a existência da ordem do bem, sendo em Sua essência uma causa de bondade e perfeição, de acordo com o que é possível ... Ele assim conhece a ordem do bem da maneira mais alta possível, pela qual aquilo que Ele sabe ... transborda Dele, dentro do reino da contingência, da maneira que é mais perfeita em ser conducente à ordem. Este é, então, o significado da providência (Comentário à Metafísica IX.6)Ibne Arabi, no sufismo, define que a capacidade interna de os seres afetarem as coisas existentes está sempre de acordo com o decreto providencial divino.

Durante o período seguinte, a Renascença (séculos XV-XVI) emerge uma concepção do mundo humanista, onde o livre-arbítrio gradualmente assume a ascensão, junto com a retomada do neoplatonismo.

No início do século XVII, dois filósofos, o inglês Francis Bacon e o francês René Descartes lançam os fundamentos teóricos do que mais tarde será chamado de "progresso". Esta é frequentemente considerada como a versão secularizada da providência, desde o final do século XVIII ("Iluminismo") e, especialmente, o início do século XIX, data em que a palavra "progresso" entra na linguagem comum, com a consolidação da ciência moderna como condutora, enquanto a palavra "providência" passou a ser mais utilizada nos círculos eclesiásticos e religiosos e onde a concepção de mundo dominante é a filosofia da história. Considerou-se então que os homens lideram seu próprio destino e que a crença de Deus, se não for contestada (ateísmo), não passa de uma simples opção.

Se a modernidade e mais especificamente o secularismo removeram a palavra "providência" da linguagem cotidiana, a ideia não desapareceu completamente. Na França, por exemplo, encontra-se o olho da providência no topo da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), bem como na nota de 1 dólar, e no século XIX é cunhada a expressão "Estado-providência" para designar a ideia (criticada por mentes liberais) de que o estado moderno é levado a desempenhar com os cidadãos um papel comparável ao que anteriormente era atribuído à providência: suprir suas necessidades básicas.

Origem e etimologia da palavra A palavra vem do latim providentia, que significa "previsão" e é um neologismo criado por Cícero, pro- "frente" e videre "ver", e conforme ele explica em seu De Natura Deorum 2.74: "'providência' é uma expressão elíptica ... quando falamos do mundo como governado pela providência, deve-se entender as palavras 'dos deuses' e deve-se conceber que a sentença inteira e completa seria 'o mundo é governado pela providência dos deuses".

Heródoto e a Providência O historiador grego Heródoto (484-420 a. C.) foi o primeiro autor grego a usar a palavra providência (pronoia, pro + nous - mente, pensar antes, antevisão; inclui significado de prudência e previdência) em um sentido religioso, explicando que a providência divina é a fonte de sabedoria que mantém a natureza em estado de equilíbrio e impede que um tipo de criatura domine sobre todas as outras.Heródoto, História, Livro III, Capítulo 44

Xenofonte e Sócrates Xenofonte (430-355 a. C.) relata que Sócrates disse que aqueles que não veem nenhuma providência divina (em um certo número de eventos da vida) e que os fazem depender da inteligência humana, são loucos.Xenofonte, Memoráveis, Livro I, Capítulo I, §9 Na conversa com Aristodemo,Xenofonte, Memoráveis, Capítulos III-IV Sócrates pretende demonstrar a existência da providência divina.

Platão (428-348 a. C.) Nos textos platônicos, a palavra grega "pronoia" é muito rara: só é encontrada em três diálogos, o Fedro, o Timeu e as Leis, e normalmente (é o caso, em particular, do livro IX das Leis) no sentido jurídico de "premeditação": existem, de fato, apenas duas passagens de Timeu (30c1, 44c7) em que essa palavra significa propriamente "providência". Mas isso não implica que a noção de providência divina seja, na filosofia de Platão, um elemento marginal. De fato, a providência está em pleno funcionamento no Livro X das Leis,Soury G., 'Le problème de la Providence et le De sera numinis vindicta de Plutarque", Revue des Études Grecques, Année 1945, Volume 58, Numéro 58-274-278, . sem que a palavra pronoia seja mencionada. O conceito de providência divina (bem como de inteligência divina) ocupa na filosofia de Platão um lugar completamente central, na medida em que é somente recorrendo a esse conceito que Platão pode resolver adequadamente o problema das causas de geração e corrupção colocadas nas últimas páginas de Fédon: a teoria da providência esboçada em Timeu e nas Leis é, portanto, o complemento necessário a um curso que, no Fédon, havia permanecido essencialmente inacabado.Trabattoni F., Conférence sur "La Providence chez Platon", Université de Genève, 18 novembre 2008.

Tomás de Aquino relata dos ditos de Gregório de Nissa que Platão distinguiu uma tripla providência: a primeira, a do Deus soberano, que tem como objeto primeiro e principal as essências, isto é, todos os seres espirituais e inteligíveis, e que, consequentemente, se estende ao mundo inteiro pelos gêneros e espécies e pelas causas universais constituídas pelos corpos celestes. A segunda, que provê cada um dos animais, plantas e outros seres, sujeitos à geração e corrupção, sob esse mesmo aspecto de geração, corrupção e outras mudanças. Platão atribui essa providência "aos deuses que percorrem o céu" (segundo o conceito antigo de mundo sublunar, onde ocorrem as mudanças devido à variação dos astros e estações). A terceira providência tem como campo aquele que se relaciona com a vida humana. Ele a atribui "a alguns demônios (daimôn) residentes na terra" que, segundo ele, são "os guardiões das ações humanas". No entanto, para Platão, a segunda e a terceira dessas providências dependem da primeira, "o Deus soberano tendo ele mesmo estabelecido esses provedores do segundo e terceiro grau".Tomás de Aquino, Suma contra os Gentios, Livro III, Questão 76.

Plutarco Plutarco (45-120) aborda a Providência em particular no "De sera numinis vindicta",Soury G. Le problème de la Providence et le « De sera numinis vindicta » de Plutarque Revue des Études Grecques, 1945, Volume 58 Numéro 58-274-278 em que Plutarco discute a questão da providência divina associada à justiça.

Origens estoicas e neoplatônicas do conceito de Providência

miniaturadaimagem|Alegoria da Divina Providência, afresco do Palácio Barberini por Pietro de Cortona