O Quarto Estado () é uma pintura a óleo sobre tela (293×545 cm) do pintor italiano Giuseppe Pellizza da Volpedo (1868-1907), concluída em 1901 e conservada no Museu do Novecento em Milão.

O Quarto Estado descreve um grupo de trabalhadores marchando em protesto numa praça, presumivelmente a Malaspina de Volpedo. O avanço do desfile não é violento, mas lento e seguro, para sugerir uma sensação de inevitável vitóriaː foi intenção de Pellizza dar vida a "uma massa popular, de trabalhadores da terra, que inteligentes, fortes, robustos, unidos, marcham como torrente esmagadora de quaisquer obstáculos que surgem para atingir o lugar onde encontra o equilíbrio».

Descrição Variado é também o significado da pintura, que se destaca do das obras anteriores Embaixadores da fome e Torrente; enquanto nestas Pellizza apenas quis representar uma manifestação de rua, como acontecera com outras obras contemporâneas (entre as quais La piazza Caricamento de Plinio Nomellini e L'oratore di sciopero de Emilio Longoni),Catálogo da mostra Arte e socialità in Italia dal realismo al simbolismo 1865-1915 no Palazzo della Permanente, Milano, 1979. neste caso o autor pretende assinalar a ascensão da classe trabalhadora, o "quarto estado", ao lado da classe burguesa.Pasqualone, obra referenciada, em Ligações externas.

Em primeiro plano, na frente da multidão em protesto, estão três figuras, dois homens e uma mulher com uma criança nos braços. A mulher, a que Pellizza deu os traços de sua esposa Teresa, está descalça, e incita com um gesto eloquente os manifestantes a segui-la: a sensação de movimento encontra expressão nas inúmeras dobras do seu vestido. À direita da mulher segue aquele que é provavelmente o protagonista da cena, um "homem de cerca de 35 anos, orgulhoso, inteligente, trabalhador" (como disse o próprio Pellizza)Zimmermann, obra referenciada, p. 391 que, com uma mão no bolso e a outra segurando o casaco ao ombro, avança com desenvoltura, graças à solidez do cortejo. À direita deste vai um outro homem que avança em silêncio, pensativo, com a jaqueta caida sobre o ombro esquerdo. thumb|Detalhe de O Quarto Estado|right

A quinta personagem constituída pelo resto dos manifestantes dispõe-se num plano frontal: estes últimos dirigem o olhar em direções diferentes, o que sugere que têm o controle pleno da situação. Todos os camponeses têm gestos muito naturais: alguns levam crianças pela mão ou ao colo, outros colocam a mão sobre os olhos para proteger-se do sol e outros simplesmente olham em frente.

As figuras dos camponeses estão dispostas horizontalmente, de acordo com os ditames da composição paratáxica: nesta solução de composição, se por um lado recorda o classicismo do friso, por outro evoca de forma contudente uma situação muito realista, que pode ser - por exemplo - uma manifestação de rua. É desta forma que Pellizza combina "valores referentes à civilização clássica antiga com a consciência moderna dos próprios direitos civis"; esta combinação também se manifesta nas reminiscências renascentistas da obra, que se inspira na expressividade das figuras diretamente de obras-primas como Escola de Atenas de Rafael e Última Ceia de Leonardo da Vinci.

Modelos

Na tela vêem-se os rostos de muitos amigos de Pellizza, muitos deles da sua nativa Volpedo. Com referência à imagem ao lado, indicam-se a seguir os modelos que posaram para o artista na execução de O Quarto Estado: 20px|link= Giovanni Zarri, dito Gioanon, nasceu em Volpedo e desde tenra idade começou a trabalhar em carpintaria. Casou-se com Luigina Belloni, com quem teve oito filhos e viveu sempre em Volpedo até à sua morte em 1910. Outro modelo para esta figura foi o jovem Giovani Gatti, farmacêutico de Volpedo com o qual Pellizza se deleitava a falar sobre socialismo. 20px|link= Teresa Bidone nasce em Volpedo em 1875. Em 1892 desposou Pellizza, com quem teve três filhos: Maria, Nerina e Pietro. Faleceu em 1907 imediatamente após ter dado à luz o terceiro filho. 20px|link= Giacomo Bidone que nasceu em Volpedo em 1884 onde viveu exercendo a profissão de carpinteiro até 1891, quando viúvo se mudou para Viguzzolo, tendo depois emigrado para os EUA seguindo os passos de seu tio. 20px|link= Luigi Dolcini nasce em Volpedo em 1881. 20px|link= 20px|link= Giuseppe Tedesi nasce em 1883 em Volpedo. Primogénito uma histórica família de louceiros, viveu na aldeia Brignano-Frascata com a sua esposa Rosalia Giani tendo falecido em 1968. 20px|link= Lorenzo Roveretti nasceu em Volpedo em 1874. 20px|link= Costantino Gatti nasceu em Volpedo em 1849. Conhecido cesteiro casou com Judith Bernini com quem viveu até à sua morte em 1925. 20px|link= Maria Albina Bidone, cunhada mais nova de Pellizza, nasceu em Volpedo em 1879, tendo falecido de tuberculose em 1907; o seu marido, Giovanni Ferrari (20px|link=), tomado pela dor cometeu mais tarde suicídio.

Génese 1891-1895: Embaixadores da fome Pellizza começou a trabalhar num esboço de Embaixadores da fome em 1891, depois de ter assistido a uma manifestação de protesto de um grupo de operários. O artista ficou muito impressionado com a cena, tanto que anotou no seu diário: A questão social impõe-se; muitos estão dedicados a ela e estudam esforçadamente para resolvê-la. Também a arte não deve ser estranha a este movimento em direção a um objetivo que ainda é desconhecido, mas que se sente que deve ser muito melhor do que as condições atuais."La questione sociale s'impone; molti si son dedicati ad essa e studiano alacremente per risolverla. Anche l’arte non dev'essere estranea a questo movimento verso una meta che è ancora un’incognita ma che pure si intuisce dover essere migliore a petto delle condizioni presenti", em Scotti, Il linguaggio universale del Quarto Stato, obra citada, pag. 2 thumb|upright=1.5|Embaixadores da fome constitui a primeira etapa do percurso que conduzirá à elaboração final de O Quarto Estado.

O esboço foi concluído em abril de 1891. O assunto é uma revolta de trabalhadores na praça Malaspina em Volpedo, com três indivíduos à testa de um grupo em protesto: a cena é vista de cima e as figuras estão distribuídas em linhas ortogonais. Apesar do caracter "embrionário" da obra, como haveria mais tarde de afirmar o próprio artista, Embaixadores da fome já se define como pedra angular para o desenvolvimento posterior da obra, apresentando já a peculiaridade do trio da frente e da massa popular em fundo, e o destaque de sombra em primeiro plano.Bußmann, obra referenciada em Ligações externas

Houve várias outras obras intermédias entre o primeiro rascunho de Embaixadores da fome e Torrente. Ainda de 1891 é Piazza Malaspina em Volpedo, representação da topografia de Volpedo feita «dal vero», preparatório para o fundo das versões posteriores;Scotti, Il quarto Stato, obra citada, p. 169 e, de facto, houve duas outras versões de Embaixadores da fome, uma de 1892 e outra de 1895. O esquiço de 1892 é muito semelhante às anteriores, sendo adicionado, no entanto, um grupo de mulheres, figuras antitéticas em comparação com os homens trabalhadores, que desta forma tanto são motivados como acalmados pela presença feminina.ScottiIl quarto Stato, obra citada, p. 28. A última etapa do percurso até Torrente (Fiumana) é a versão dos Embaixadores de 1895, realizada após três anos de paragem em papel pardo, na forma de desenho a giz e carvão vegetal. Pellizza escreveu:Scotti, Pellizza da Volpedo. Catálogo geral, p. 356, "Gli ambasciatori sono due si avanzon seri sulla piazzetta verso il palazzo del signor che proietta l'ombra ai loro piedi [...] si avanza la fame coi i suoi atteggiamenti molteplici - Son uomini, donne, vecchi, bambini: affamati tutti che vengono a reclamare ciò che di diritto - sereni e calmi, del resto, come chi sa di domandare ne più ne meno di quel che gli spetta - essi hanno sofferto assai, è giunta l'ora del riscatto, così pensano e non vogliono ottenere colla forza, ma colla ragione - qualcuno potrà alzare il pugno in atto di minaccia ma la folla non è, con lui, essa fida nei suoi ambasciatori - gli uomini intelligenti [...] Una donna accorso mostra il macilento bambino, un'altra, una terza, è per per terra che tenta invano di allattare il bambino sfinito colle mammelle sterili - un'altra chiama impreca [...]"

Os embaixadores são dois e avançam sérios na praça para o palácio do senhor que projeta a sombra a seus pés [...] avança a fome com as suas múltiplas atitudes - são homens, mulheres, idosos, crianças: todos os que têm fome vêm reclamar o que é de direito - serenos e calmos, apesar de tudo, como que a exigir nem mais nem menos do que aquilo que merecem - eles sofreram tanto, é chegada a hora da redenção, assim pensam eles e não o querem obter pela força, mas com razão - alguém poderá levantar o punho em ameaça, mas a multidão não o acompanha, esta confia nos seus embaixadores - homens inteligentes [...] uma mulher que corre mostrando a criança magra, uma outra, um terceira, está o chão e tenta em vão alimentar o bebê exausto com os seios estéreis - outra grita maldições.

Na passagem anterior, o artista enfatiza a sua vontade de realizar um quadro generalistaː para ser representativo não apenas dos camponeses de Volpedo, mas de toda uma parte da sociedade que "sofreu tanto" e que tem a intenção de reivindicar os seus direitos através de uma luta "serena, calma e fundamentada».

1895-1898: Torrente (Fiumana)

Pellizza, antes de pintar a grande tela Torrente, decidiu, em agosto de 1895, realizar um estudo em óleo preliminar: esta versão é na verdade um ponto de ruptura com os antecedentes Embaixadores da fome. Em comparação com as versões anteriores, a massa de gente aqui é vastíssima, de modo a formar - como o título sugere - uma verdadeira torrente humana; também muda a gama de luz, desta vez com o uso de «contrastes desde o amarelo ao vermelho, com dominantes sulfurosas nas figuras e com tonalidades de azul e verde em fundo, onde o céu é de forte intensidade azul e as plantas de verde que se refletem no solo.»Scotti, Pellizza da Volpedo. Catalogo geral, p. 357. "Decorria agosto 1895, Pellizza decide mudar para o novo título, que devia aludir a uma maior massa humana por trás dos primeiros protagonistas, massa que encontramos nesta tela. Em comparação com os esboços anteriores, Pellizza, no entanto, eliminou o destaque de sombra em primeiro plano, trazendo portanto das figuras mais à frente; como resultado, estes também parecem menos tomados de cima e têm uma massa ligeiramente mais fina" Simultaneamente, a sombra em primeiro plano é abolida e é favorecido um ponto de vista menos elevado, de modo a dar maior ênfase à multidão, desta vez trazida mais para a frente. É junta uma nova figura feminina com um bebê nos braços; esta última, colocada em posição subordinada em relação aos protagonistas, entende-se passivamente como uma alegoria da humanidade.

Graças também "à realização de vários desenhos e cartões preparatórios" e de "fotografias tiradas especificamente com os seus modelos posando", Pellizza pôde desenvolver a versão final da própria Fiumana em julho de 1895. As diferenças são várias: a paisagem sofre algumas mudanças, enquanto que a linha de figuras é chegada para trás, assim como fica mais delgada, permitindo a inserção de outros homens. O objetivo de Pellizza era o de restituir vitalidade a um povo que já não era "uma natureza morta, mas uma massa viva e palpitante, cheia de esperança humilde ou de ameaças obscuras".Lamberti, obra referenciada, p. 88. Outra particularidade de Fiumana é o seu valor universal, cristalizado num poema escrito na margem da tela pelo próprio Pellizza:Fiori, obra referenciada, p. 198.

Texto originalTradução livreS'ode ... passa la Fiumana dell'umanità genti correte ad ingrossarla. Il restarsi è delitto filosofo lascia i libri tuoi a metterti alla sua testa, la guida coi tuoi studi. Artista con essa ti reca ad alleviarle i dolori colla operaio lascia la bottega in cui per lungo lavoro ti consumi e con essa ti reca