Caridea é um dos grupos de Crustáceos comumente reconhecidos como camarões. É uma infraordem composta por aproximadamente 3.500 espécies distribuidas em 37 famílias. Eles são animais dulcicolas, ou seja vivem em ambientes de água doce, podendo ser encontrados em águas de estuários quando jovens. Além de sua importância ecológica como componentes da macrofauna bentônica de rios e riachos, algumas espécies de águas continentais possuem potencial para cultivo e comercialização e têm despertado interesse de carcinocultores. Devido à crescente deterioração dos rios, que são os principais habitats naturais das espécies de água doce, existe necessidade urgente de inventariamento e catalogação das espécies ameaçadas.SAMPAIO, Sara Regina et al. Camarões de águas continentais (Crustacea, Caridea) da Bacia do Atlântico oriental paranaense, com chave de identificação tabular. Acta Biológica Paranaense, v. 38, 2009. PDFBOND-BUCKUP, GEORGINA; BUCKUP, LUDWIG. Os Palaemonidae de águas continentais do Brasil meridional (Crustacea, Decapoda). Revista brasileira de Biologia, v. 49, n. 4, p. 883-896, 1989. PDF As características anatômicas mais notáveis de Caridea são as brânquias filobranquiadas, a segunda pleura abdominal aumentada sobrepondo a primeira e terceira pleura e o primeiro e/ou o segundo pares de pereópodes aumentados e quelados.

Anatomia externa O corpo pode ser dividido em cefalotórax, abdômen e télson.

Cefalotórax miniaturadaimagem|direita|Esquema de um camarão carídeo. Note a segunda pleura abdominal expandida. O cefalotórax é composto por treze segmentos, cinco dos quais pertencem à cabeça e oito ao tórax (pereion), os quais são (da região anterior para posterior): ácron pré-segmentar (indistinto), segmento protocerebral (sem apêndices), um par de primeiras antenas ou antênulas que se voltam para frente do animal, um par de segundas antenas ou simplesmente antenas que geralmente apresentam um tamanho maior do que o animal em comprimento. Na região anterior do corpo encontra-se um rostro serrilhado em formato de quilha (achatado lateralmente, pontiagudo e com espinhos dorsais), no qual se encontram os olhos bem evidentes localizados lateralmente ao rostro.

Mandíbulas, maxílulas e maxilas Apresentam um par de mandíbulas globosas com endito (correspondente à região com processo incisivo e dentes calcificados), um par de maxílulas que auxiliam na alimentação e um par de maxilas muito delicadas que além de auxiliarem na alimentação, promovem fluxo de água que banha as brânquias, devido à presença de um exopodito foliáceo, largo e transparente chamado de escafognatito ou placa mastigobranquial.

Carapaça Na região dorsal a carapaça está aderida dorsalmente aos seguimentos torácicos e forma lateralmente o que é chamado de branquiostegito e que envolve a câmara branquial, cujas brânquias são do tipo morfológico filobrânquia, caracterizadas pela presença de ramos de aspecto foliáceo ou de placas dispostas em séries duplas partindo do eixo central.

Pereópodes Na região posterior do cefalotórax verifica-se a presença de três pares de maxilípides birremes e cinco pares de pereópodes unirremes (apresentando o protopodito com coxa e base, exopodito rudimentar e endopodito com cinco artículos), cujo primeiro ou os dois primeiros pares são quelados e aumentados variavelmente, sendo utilizados para captura de alimento e os dois últimos são longos e sem quelas, utilizados para locomoção. Poro genital As fêmeas apresentam o poro genital na coxa do terceiro pereópode localizado em uma cápsula dividida em duas membranas em forma de folha, o télico. Nos machos, o poro genital abre-se na coxa do quinto par de pernas locomotoras.

Abdômen O abdômen é reduzido, com a segunda pleura abdominal (paredes laterais), uma de cada lado, marcadamente mais expandida e recobrindo parcialmente a primeira e a terceira pleuras. miniaturadaimagem|direita|Detalhe do leque caudal com télson e urópodes. miniaturadaimagem|direita|Palaemon elegans carregando ovos nos pleópodes.É formado por seis segmentos, sendo apenas os cinco primeiros segmentos dotados de pleópodes, que são apêndices utilizados para natação. Nos pléopodes 2 a 5 das fêmeas e 3 a 5 dos machos os endopoditos são afilados e menos que os exopoditos. Télson No sexto segmento, os urópodes e o télson formam o leque caudal. Os urópodes possuem o protopodito com uma base curta e a coxa ausente. O exopodito é maior que o endopodito e este, maior que o télson.

Dimorfismo sexual Externamente, os machos apresentam o primeiro par de pleópodes com estruturas adesivas em formato de gancho (cincinnuli) e o segundo par de pleópodes apresentando appendices masculinae. Já as fêmeas possuem pleópodes proporcionalmente maiores que os dos machos, onde incubam os ovos. A maioria não apresenta espermateca ou outra forma de armazenar espermatozoides. Em espécies que apresentam formas de hermafroditismo, a gônada é um ovotestículo. No caso de protandria, a parte posterior produtora de espermatozóides amadurece primeiro e depois regride quando a parte anterior ovariana se desenvolve. Já em espécies que apresentam hermafroditismo simultâneo, ambas as partes podem se manter funcionais ao mesmo tempo. Espécies em que os machos não estabelecem territórios ou guardam fêmeas normalmente apresentam fêmeas maiores que os machos. Em espécies cujos machos guardam as fêmeas temporariamente, os machos normalmente são maiores que as fêmeas e apresentam estruturas empregadas em confrontos, como quelípodes, grandes e bem desenvolvidos. Já em espécies cujos casais permanecem juntos, ambos costumam apresentar tamanho do corpo e quelípodes similares. Anatomia Interna

Sistema Digestivo miniaturadaimagem|Corte histológico de Palaemonetes vulgaris, ilustrando a anatomia interna típica de um camarão carídeo. O sistema digestivo dos crustáceos decápodes inclui o trato digestivo anterior, o intermediário e o posterior, sendo o trato digestivo anterior e posterior revestidos por uma cutícula contínua ao exosqueleto e trocado junto com este (sua origem é ectodérmica). O intestino anterior compreende a boca, esôfago e estômago. O estômago é revestido por um epitélio cilíndrico simples, com a presença de câmaras especializadas para armazenamento, trituração e separação do alimento, dividido entre um estômago cardíaco anterior e um estômago pilórico posterior. O estômago cardíaco atua como uma bolsa dilatada onde o alimento é armazenado, para posteriormente ser levado ao moinho gástrico, geralmente com dentes esclerotizados e finalmente ao estômago pilórico. O estômago pilórico compreende uma câmara superior e uma glândula de filtro inferior. O filtro consiste de uma fileira externa de cerdas alongadas e uma fileira interna de cerdas curvas dorsalmente formando canais longitudinais de 16 a 18 micrômetros de largura. O trato digestivo posterior se encontra entre o sexto segmento abdominal até o ânus na região ventral ao télson. A ausência de estruturas calcificadas no estômago e a largura dos canais longitudinais no filtro estão relacionadas à dieta predominantemente detritívora.

Circulação e trocas gasosas O sistema circulatório básico dos crustáceos decápodes geralmente consiste em um coração dorsal com óstios dentro de uma cavidade pericárdica e vasos que desembocam dentro de uma hemocele aberta. Cinco artérias partem do coração anteriormente, além de uma artéria abdominal mediana que parte posteriormente e uma artéria esternal surge a partir do lado de baixo do coração. Essas artérias ramificam-se suprindo vários órgãos do organismo. O sangue dos decápodes contém vários tipos de células, incluindo amebócitos fagocíticos e granulares, assim como células explosivas errantes especiais, que liberam coagulantes em áreas lesadas. A hemocianina é uma proteína carreadora de oxigênio, presente no processo respiratório de malacóstracos, a qual utiliza cobre como sítio de ligação do oxigênio. As brânquias dos camarões carídeos são do tipo filobrânquio e provavelmente são derivadas dos epipoditos das pernas torácicas, que foram modificadas para fornecer uma superfície ampla, nas quais o líquido circulatório é posto em contato direto com a fonte de oxigênio, por apresentar uma superfície úmida, fina e permeável entre os ambientes interno e externo. Apesar de haver uma carapaça envolvendo as brânquias e servindo como proteção a elas, os carídeos possuem exopoditos longos nas maxilas (conhecidos como escafognatito) que vibram para gerar correntes de ventilatórias dentro das câmaras branquiais

Excreção e osmorregulação Os decápodes carídeos eliminam amônia por meio de nefrídeos e pelas brânquias. As glândulas antenais ou glândulas verdes são os órgãos excretores dos decápodes. A extremidade interna de fundo cego é chamada de sáculo e leva ao poro por meio de um ducto espiralado, chegando a uma bexiga dilatada nas proximidades do orifício. Os canais cheios de sangue da hemocele misturam-se com as extensões ramificadas do epitélio sacular, formando uma superfície ampla na qual ocorre a filtração. A maior parte da regulação da composição da urina é realizada pelas ativas entre o sangue e o túbulo excretor, sendo importante o equilíbrio hídrico e iônico. A cutícula também serve como uma barreira entre os ambientes externo e interno, controlando as trocas. Além disso, ela é importante para evitar a perda excessiva de água no ambiente terrestre e captação excessiva na água doce. Sistema nervoso Os crustáceos dispõem de um sistema nervoso central estruturado, com a presença de pares de gânglios cerebrais e cordão nervoso ventral. Os pares de gânglios encontram-se unidos por comissuras e conectivos, sendo os três gânglios anteriores parcialmente fundidos, formando a estrutura cerebral que se liga ao cordão nervoso ventral através do conectivo circum-esofageal. Tais gânglios são: protocérebro (anterior), deutocérebro (medial) e tritocérebro (posterior). Cada componente da estrutura cerebral é responsável por um tipo de processamento e resposta, sendo o protocérebro está envolvido no processamento de informações visuais e distribuição das secreções hormonais. A região associativa e de processamento é o deutocérebro e o tritocérebro é responsável pelo processamento de estímulos ambientais e fisiológicos.

Controle endócrino O processamento e o controle funcional do sistema nervoso nos crustáceos são dependentes da distribuição e ação de monoaminas, entre elas a serotonina, dopamina, octopamina, noradrenalina, adrenalina, entre outras. A serotonina é um neurotransmissor de ampla distribuição no sistema nervoso de crustáceos adultos, estando presente em neurônios grandes e ramificados, tendo uma função neuroativa, participando do ciclo reprodutivo e de muda. A modulação da liberação de transmissores em crustáceos tem sido atribuída ao peptídeo FMRF-amida que se encontra envolvido com efeitos cardio-excitatórios e provável função como neuro-hormônio, modulando também a serotonina. Reprodução A cópula ocorre pouco tempo após uma muda da fêmea, o que pode ocorrer ao longo de todo ano, pois as fêmeas não costumam apresentar ciclo reprodutivo sincronizado. Em contraste com camarões peneídeos, que apresentam fertilização interna, a maioria dos camarões carídeos apresentam fertilização externa.

Na maioria das espécies que vivem em grandes grupos, o encontro entre machos e fêmeas receptivas é ao acaso e o casal permanece junto apenas no momento da cópula. Em espécies que apresentam comportamento de guarda temporária do macho pela fêmea, o macho pode guardar agressivamente a fêmea por dias até que ela passe por uma muda e a cópula ocorra.

Estratégias alternativas de acasalamento