thumb|upright=1.25|Localização do Usbequistão
O Usbequistão (; ) é um país sem costa marítima situado na Ásia Central, com de área, que na sua forma geopolítica atual existe desde 1924, quando foi criada a República Socialista Soviética Usbequistanesa, ou, considerando a independência total, desde 1991, quando se separou da União Soviética, mantendo as fronteiras da república soviética extinta. Não obstante a sua juventude em termos políticos, tem uma história rica, com mais de dois mil anos, pois o seu território foi conquistado e perdido por diversas grandes potências de diferentes épocas, que em muitos casos ali se confrontaram, onde floresceram e desapareceram dinastias e impérios, quer dirigidos por etnias locais quer por etnias de origem externa. O território do atual Usbequistão conheceu numerosas fronteiras e grandes migrações de povos que em muitos casos modificaram a sua composição étnica, linguística e religiosa.
O país situa-se no coração da Ásia Central entre estepes, desertos e montanhas, no cruzamento de grandes rotas históricas de comunicação e de comércio, nomeadamente as que ligaram a o Mediterrâneo à China e a Ásia Meridional, como a Rota da Seda. Os usbeques étnicos, de língua turcomana, são descendentes de um dos últimos povos que imigraram para a região e não constituem mais do que 80% da população do país, quanto muito, e há populações significativas de usbeques étnicos noutros países. Na atualidade, o país é o mais populoso da região, com mais de 33,5 milhões de habitantes em 2020 ().
Pré-história Há estudos genéticos que mostram que os primeiros humanos chegaram ao território do Usbequistão há aproximadamente 40 ou 50 mil anos, o que significa que é uma das regiões do mundo povoadas há mais tempo. Porém, as provas arqueológicas dessa presença humana primitiva é fragmentada , ao contrário do que acontece, por exemplo, em regiões da África e da Austrália. Há estudos que identificam a região com o local de origem das populações que mais tarde habitaram a Europa, a Sibéria e a América do Norte. A região é também considerada o local de origem das línguas indo-europeias.
Idade do Bronze Entre e existiu um civilização da Idade do Bronze bastante avançada no sul do Usbequistão e no Turquemenistão (que fica imediatamente a sul e sudoeste do Usbequistão), conhecida como civilização báctrio-margiana ou civilização do Oxo. Esta civilização tinha relações com a do vale do Indo e era composta por uma mistura de povos autóctones não indo-europeus, atualmente completamente desaparecidos, e de indo-arianos vindos do Cazaquistão ocidental. Sítios arqueológicos como o de Jarcutã (no extremo sudeste do Usbequistão, junto à fronteira com o Afeganistão) ou revelam a existência dum modo de vida já urbano, com prática de irrigação para o cultivo de trigo e cevada. Até agora não foi descoberto qualquer vestígio de escrita. A partir de os indo-arianos começaram a migrar para a Índia e foram substituídos no território usbequistanês por tribos de pastores nómadas iranianos, como os soguedianos, que se sedentarizaram.
Conhece-se também outra cultura, chamada de Tazabagíabe, surgida cerca de perto da Corásmia, a sul do mar de Aral, de onde é possível que os iranianos do Turquestão ocidental possam ter vindo. Esta cultura reuniu elementos das da e duma cultura de Andronovo que se estendia de oeste para leste desde os montes Urais até ao lago Baical e a sul até ao rio Sir Dária (Jaxartes). A cultura de Andronovo foi a primeira a ter carros de guerra de duas rodas (bigas); os seus habitantes viviam em aldeias, cultivavam a terra, criavam animais e eram exímios no fabrico de armas e utensílios de bronze.
Persas, gregos e nómadas Báctria, Soguediana e Império Aqueménida
Os dois principais povos iranianos do Usbequistão foram os soguedianos, centrados na região de Samarcanda e Bucara, e os bactrianos, mais a sul, entre o norte do Afeganistão e o sul do Usbequistão. Os indianos chamavam Bahlikâ à Báctria e os chineses . A capital da Báctria era Balque (Balkh, antiga Bactro, no atual Afeganistão). A cidade de Samarcanda () foi fundada pelos soguedianos, provavelmente em meados do , ou um pouco antes, no . Nem os soguedianos nem os bactrianos constituíram estados unificados — os seus territórios eram divididos em principados centrados em volta de cidades. O zoroastrismo, uma religião puramente iraniana, pode ter surgido na Báctria. O Avestá, o texto sagrado zoroastrista, menciona Sughda- ("os soguedianos" ou "Soguediana"), mas a sua datação é complicada; em todo o caso remonta aos primeiros tempos da Antiguidade. Aparentemente, os soguedianos foram citas ou sacas sedentarizados.
Mais a norte, em redor do mar de Aral, habitavam a tribos nómadas de sacas, aparentadas com os citas, e de masságetas, completamente iranianos. Estes últimos eram guerreiros destemidos que, durante o reinado da rainha Tómiris, mataram o xá aqueménida Ciro, o Grande. À semelhança do que acontecia na sociedades soguediana e bactriana, as mulheres desempenhavam um papel importante na sociedades masságeta.
Os habitantes da Báctria e da Soguediana, bem como os da Corásmia (Khorezm ou Kwarezm), seus vizinhos a noroeste, foram maioritariamente agricultores que tinham um elevado domínio das técnicas de irrigação que usavam nos vales do Sir Dária, Amu Dária e Zarafexã. Estavam agrupados em comunidades de dimensões importantes, que trabalhavam metais e praticavam comércio. O nomadismo ocorria sobretudo nas regiões desérticas ou montanhosas.
A cidade de Afrassíabe, atualmente um subúrbio de Samarcanda, foi fundada entre os e . No museu do seu sítio arqueológico conservam-se as peças de xadrez mais antigas que se conhecem no mundo. As pinturas murais de Afrassíabe são célebres e a cidade é considerada um dos dos locais de origem da língua persa moderna. Na obra Xanamé ("Épica de Reis"), uma coleção de poemas épicos persas de Ferdusi , o personagem Afrassíabe é o fundador lendário da cidade e rei de todos os turanos, antepassados dos heftalitas e possivelmente também dos caracânidas
Entre 545 e , , o monarca persa que fundou o império persa aqueménida, conquistou a Ásia Central e anexou a Báctria, a Soguediana e a Corásmia como províncias do seu império (a XI, XV e XVI satrapias, respetivamente).
Alexandre, o Grande e os selêucidas
Alexandre, o Grande conquistou a Soguediana e a Báctria em ou , durante a sua campanha contra , e pôs fim à dinastia dos aqueménidas. Dois anos depois fundou uma cidade na margem direita do rio Oxo (Amu Dária), a que deu o nome de Tármita (; ou Tirmidh, possivelmente uma deformação do nome do rei greco-báctrio Demétrio), atualmente Termez, a cidade de mais meridional do Usbequistão. O conquistador macedónio usou Maracanda (Samarcanda) entre 329 e como base das suas expedições militares na região e é possível que as suas famosas festas tenham ocorrido no que é hoje Afrassíabe. Uma dessas expedições foi a tomada da fortaleza conhecida como Rochedo Soguediano (ou Rochedo de , o nome do governador da fortaleza), até então considerada inexpugnável, para onde o líder local soguediano Oxiartes tinha enviado a sua esposa e filhas e onde muitos locais se tinham refugiado. Antes do ataque, Alexandre ofereceu uma capitulação honrosa e segura aos sitiados, o que estes recusaram por considerarem impossível tomar a fortaleza, ainda para mais com a neve espessa que cobria as suas escarpas. Depois da conquista da fortaleza, Alexandre apaixonou-se imediatamente por Roxana, filha de Oxiartes, descrita como a mulher mais atraente jamais vista à exceção da esposa de Dario, com quem se casou.
O casamento de Alexandre contribuiu fortemente para acabar com a feroz resistência popular em Soguediana, liderada por Espitamenes, que fez interromper a progressão do exército gregos, ao passo que a conquista da Báctria foi relativamente fácil. O casamento foi também o prelúdio das bodas de Susa, nas quais gregos se casaram com , em Depois de se casar e antes de empreender a campanha da Índia, Alexandre deixou o seu quartel-general em Maracanda para conquistar a cidadela que existia onde é atualmente Tasquente, a sul da qual, na margem do Jaxartes (rio Sir Dária), ele ordenou a construção duma cidade-entreposto e fortaleza que batizou Alexandria Escate ("Alexandria Extrema", a atual Cujanda, no Tajiquistão).
Após a morte de Alexandre em , o reinado na parte nordeste do seu império, que ficou conhecida como Transoxiana ("terra além do Oxo"), ficou sob o controlo do seu general Seleuco Nicátor, fundador da dinastia selêucida. Durante o seu reinado, a Báctria registou uma imigração massiva de gregos exilados e de helenizados muito superior à de qualquer outra região conquistada por Alexandre.
Durante o reinado de os selêucidas não conseguiram manter o controlo das suas possessões orientais, devido à atenção que os problemas que tinham na Síria requeriam. Foi neste contexto que, sem grande esforço, fundou o Reino Greco-Báctrio em , centrado na Báctria. Durante o reinado de , o segundo sucessor de Diódoto I, o monarca selêucida tentou recuperar a posse da Báctria, sem sucesso, acabando por reconhecer a independência do reino de Eutidemo. Este período foi marcado um desenvolvimento urbano significativo e pelo apogeu do sincretismo greco-oriental.
O Império Selêucida extinguiu-se definitivamente em , quando reinava , quando os que restava do império, em tempos o maior dos reinos helenísticos, foi anexado por Roma.
Invasões de nómadas e criação da Rota da Seda
Entre o e , o território do Reino Greco-Báctrio foi invadido por povos nómadas vindos da China chamados iuechis (yuezhi) e sacas (ou citas). O centro do reino foi então movido para sudeste, tornando-se o Reino Indo-Grego cerca de 190 ou Em , o Império Parta ocupou a parte ocidental da Báctria (atualmente entre o Usbequistão e o Turquemenistão), substituindo ali os sacas, que entretanto tinha migrado para sul, para o atual Afeganistão. O controlo dessa região foi partilhada entre os partas e os iuechis, que a partir de o controlo de toda a região.
Nessa época, o sincretismo religioso, cimentado pelos partas, evoluiu gradualmente para o monoteísmo e a noção de religião universal difundiu-se entre os povos do território atual do Usbequistão. Graças à influência dos sacerdotes (magos), o zoroastrismo tornou-se a religião oficial do Império Sassânida, que sucedeu ao Império Parta em
Mais a leste, o Império Cuchana foi formado a partir de vários principados distintos governados pela tribo iuechi dos cuchanas, no início do 1.º milénio d.C., mais de cem anos depois do Reino Indo-Grego. A Bactriana e parte da Soguediana e da Corásmia foram gradualmente ocupados pelo Império Cuchana entre 105 e 250. Durante vários séculos, a esteve no centro das trocas comerciais e culturais entre o Oriente (China) e o Ocidente (Império Romano), no percurso da Rota da Seda. Além disso, os cuchanas introduziram o budismo na Ásia Central e desenvolveram as artes helenísticas do Oriente.