Bartolomeu da Costa (Castelo Branco, 24 de agosto de 1553 – Lisboa, 27 de março de 1608) foi cónego e Tesoureiro-mor da Sé de Lisboa e um benfeitor da Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco. Instituiu na casa de sua família, na rua d'Ega em Castelo Branco, um hospital que ficou anexo à da Misericórdia da então vila e que mais tarde se denominou Hospital dos Convalescentes.Manuel da Silva Castelo Branco, Cadernos de Cultura, cap. Assistência aos doentes em Castelo Branco, pág 6, 1991

Família

Era filho de Simão da Costa e de Catarina da Costa, Por sua vez Simão da Costa era sobrinho de D. Álvaro da Costa (Camareiro e armador-mor de D. Manuel I) e Catarina da Costa era sobrinha neta de D. Jorge da Costa (o Cardeal de Alpedrinha)Manuel Abranches de Soveral, Ensaio sobre a origem dos Costas medievais.

Embora o ramo de que descendia o pai de Bartolomeu da Costa não fosse muito abastado, Simão da Costa inseria-se numa família rica e detentora de um grande poder em Lisboa, na medida em que esta, graças às funções de D. Álvaro da Costa, irmão de sua mãe, alcançara a via do enriqueciento muito significativo. Por seu lado, a mãe de Bartolomeu da Costa, Catarina da Costa, descendia de uma meia irmã de D. Jorge da Costa: deste modo, pertencia a uma linhagem iniciada pelo Cardeal de Alpedrinha, o qual marcou a vida política, eclesiástica e cultural portuguesa na seguda metade do séc. XV e da primeira década do séc. XVIMaria de Lurdes Rosa (coord.), D. Álvaro da Costa e a sua descendência. Poder, arte e devoção (artigo Bartolomeu da Costa, o Tesoureiro Santo (1553-1608): reversão da riqueza e reforma da Igreja de Paula Almeida Mendes), pág 248, ed. IEM..

thumb|left|Casa do Tesoureiro Santo na rua d'Ega, em Castelo Branco. Casa de família de Bartolomeu da Costa, local onde instituiu o seu hospital

Assim, Bartolomeu da Costa pertencia, pelo lado materno, a uma família poderosa e influente a nível eclesiástico e, pelo lado paterno, a uma família rica e poderosa do ponto de vista político.

VidaAntónio Lopes Pires Nunes, O Livro do V Centenário da Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco, 2016

Na sua infância, em Castelo Branco, revelou ser uma criança muito meiga, não era dada a brincadeiras ou passatempos. Quis ser religioso e tentou obter a autorização dos pais para tomar o habito no Convento de S. FranciscoAntónio Carvalho de Parada, Diálogos, p. 31, ed. Pedro Craesbeeck, Lisboa, 1611.

Em 1577 foi estudar para a Universidade de Coimbra, onde se inscreveu no curso de teologia, embora continuasse a desejar ser religioso. Durante a sua estadia em Coimbra nunca lhe faltaram meios, mas todos eram poucos para distribuir pelos pobres. Em Coimbra foi ordenado Sacerdote e continuou as obras de caridade que exercia desde criançaAntónio Carvalho de Parada, Diálogos, p. 37, ed. Pedro Craesbeeck, Lisboa, 1611.

Em 1584, após obter a licenciatura, mudou-se para Lisboa, onde foi servir como coadjutor do Tesoureiro-mor da Sé até se tornar ele mesmo o Tesoureiro-mor. Enquanto cónego tinha disponível uma avultada renda, mas tudo destinava aos pobres. Enquanto estava em Lisboa (talvez por volta de 1590) instituiu na casa de sua família, em Castelo Branco, um hospitalAntónio Carvalho de Parada, Diálogos, p. 43, ed. Pedro Craesbeeck, Lisboa, 1611.

miniaturadaimagem|Traslado do testamento de Bartolomeu da Costa

O comportamento e as linhas de acção de Barolomeu da Costa traduziram a uma decisão de forte renuncia a todo um quadro não só de uma poderosa e influente dinastia eclesiástica, como também de uma família cívil rica e não menos poderosa. Pese embora o facto de ter aceite o cargo de Tesoureiro-mor, o qual obviamente lhe assegurou benefícios, Bartolomeu da Costa, cujo ideal de vida perfeita era pautado pelo exercício das virtudes e de práticas espirituais e devotas, tentou inverter essa situação na medida em que empregou a sua fortuna e património na asistencia aos pobres e na fundação de obras pias, como o seu hospital em Castelo Branco. As suas virudes e o seu zelo pastoral traduziram efectivamente a figura de um sacerdote exemplar, Deste modo o seu caso parece ilustrar como a perfeição cristã, que lhe asseguraria a salvação eterna, era algo acessível a todos os fiéis e possível em todos os estados.Maria de Lurdes Rosa (coord.), D. Álvaro da Costa e a sua descendência. Poder, arte e devoção (artigo Bartolomeu da Costa, o Tesoureiro Santo (1553-1608): reversão da riqueza e reforma da Igreja de Paula Almeida Mendes), pág 266, ed. IEM..

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Morte

Por ocasião de sua morte o Cabido da Sé de Lisboa, reunido sob a presidência do Ilustríssimo D. Miguel de Castro, arcebispo de Lisboa, inscreveu no calendário, com grande aplauso de todos, o seguinteGeorge Cardoso Agiológio Lusitano, Tomo II, p. 3134, ed. Henrique Oliveira, Lisboa, 1657:

Pessoas devotas mandaram retratá-lo na esperança de, com o retrato, poderem remediar as saudades do Tesoureiro. Os capitulares levaram o ataúde nos seus ombros até à Sé e, para que fosse visto por todos, destaparam-no, logo caindo sobre ele inúmeras lágrimas de um sentimento de perda irremediável: lamentado pelos pobres e aclamado santo pelo povoAntónio Lopes Pires Nunes, O Livro do V Centenário da Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco, p. 62, 2016.

Enquanto durou o ofício na capela-mor, eram tantas as pessoas que queriam beijar os pés e as mãos do Santo Tesoureiro e tocar com rosários o seu rosto, que só com dificuldade se podia chegar até ele. Apesar do corpo estar guardado pelo Cabido, as pessoas cortavam-lhe pedaços da alba e da camisa e arrancavam-lhe cabelos, levavam o que podiam de tal maneira que, quando o enterraram, faltavam já peças do seu vestuário sacerdotal. As pessoas que não conseguiam chegar perto do corpo choravam.

Tendo terminado as cerimónias, o Cabido tentou tirar o seu corpo da capela-mor para rezar o responso, mas as pessoas eram tantas que isso não foi possível. Então levou o corpo de novo para a capela-mor, para junto do altar de S. Vicente, e fecharam as grades para não se poder entrar. Toda a gente demonstrava um grande amor pelo Santo Tesoureiro e pediam que se deixasse estar ali o corpo até à tarde do mesmo dia. Porém, logo se lhe deu sepultura com a intenção de depois levar o corpo até ao seu hospital, em Castelo Branco, porque «já que ali não chegara a servir os pobres em vida, os podia servir com a presença do seu corpo, por cujo respeito os doentes alcançariam de Deus a saúde»António Carvalho de Parada, Diálogos, p. 106, ed. Pedro Craesbeeck, Lisboa, 1611.

Por testamento indicou o lugar onde desejava ser sepultado: «...que meu corpo seja enterrado na Sé de Lisboa, na sepultura de meu irmão e se morrer em Castelo Branco no mosteiro de N.ª Sr.ª da Graça, na sepultura de meu pai..»Testamento de Bartolomeu da Costa. Após o seu funeral, depois de lido com atenção o seu testamento, terá sido cumprida a sua vontade e o seu corpo ficou sepultado em Lisboa, com grandes probabilidades no interior da Sé. À devastação do Terramoto de 1755 seguiram-se os danos das obras de restauro na década de 30 do séc. XX que, no que diz respeito a campas rasas, poucas deixaram à vista. Existe a possibilidade da lápide sepulcral de Bartolomeu da Costa se encontrar depositada no Carneiro Carlos Margaça Veiga, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Depoemento em O Livro do V Centenário da Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco.

Legado

Perdoou as dívidas a todos os que lhe deviam dinheiro e deixou à Misericórdia da sua terra natal consideráveis bens para esta construir um hospital para os seus próprios doentes, que permitiram à Misericórdia de Castelo Branco abandonar a pobreza que há mais de um século a impedia de prestar um verdadeiro serviço à comunidade António Lopes Pires Nunes, O Livro do V Centenário da Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco, p. 33, 2016 José Pedro Paiva (coord.), Portugalie Monumenta Misericordiarum, Vol 5, p. 460, ed. União das Misericórdias Portuguesas, 2002.

miniaturadaimagem|Estátua Bartolomeu da Costa, 2013, escultora Cristina Ataide

Bartolomeu da Costa na actualidade

thumb|left|Monumento a Bartolomeu da Costa, 2013, Junto à sede da Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco, escultora Cristina Ataide.

Até à estatização dos cuidados de saúde em 1974, o hospital da cidade de Castelo Branco - o hospital da misericórdia, que desde 1835 estava instalado no Convento de N.ª Sr.ª das Graças - tinha o seu nome.

Foi eleito, pela V Mordomia da Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco, o patrono das comemorações do V Centenário da Instituição e, reconhecendo o impulso que o seu legado deu, foi-lhe dedicada uma estátua.

Bibliografia

VÁRIOS, Manuel da Silva Castelo Branco, Cadernos de cultura nº 3, capítulo II, 1991. NUNES, António Lopes Pires, O livro do V Centenário da Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco, ed. Almondina, 2016. PARADA, António de Carvalho, Diálogos, Lisboa, ed. Pedro Craesbeeck, 1611. CARDOSO, George, Agiológio Lusitano, ed. Henrique Oliveira, 1657. DIAS, José Lopes e SILVA, Castro e, A Misericórdia de Castelo Branco, Apontamentos Históricos, Castelo Branco, 1958. ROSA, Maria de Lurdes (coord.), D. Álvaro da Costa e a sua descendência. Poder, arte e devoção, ed. IEM, Lisboa. PAIVA, José Pedro (coord.), Portugalie Monumenta Misericordiarum, ed.União das Misericórdias Portuguesas, Lisboa, 2002

Ligações externas

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