A conquista da Gália Cisalpina foi uma série de conflitos cujo objetivo era a submissão dos povos que viviam na região da moderna planície Padana ocidental (conhecida na época como Ager Gallicus) iniciada no século III a.C., logo depois da Primeira Guerra Púnica, e terminada com a constituição da província romana em meados do século II a.C., pouco antes da Terceira Guerra Púnica. A pacificação total da região, já anexada, se estendeu até o século I a.C..

A conquista romana da Gália Cisalpina ("Gália deste lado dos Alpes") foi um processo gradual de longa duração. Nas palavras de Fergus Millar, "foi na Ligúria, nas terras celtas do vale do Pó, e na Venécia e Ístria que os romanos deste período exibiram uma combinação consistente e irredutível de imperialismo, militarismo, expansionismo e colonialismoFergus Millar, "The Political Character of the Classical Roman Republic, 200–151 B.C.," as reprinted in Rome, the Greek World, and the East (University of North Carolina Press, 2002), p. 110, originally published in Journal of Roman Studies 74 (1984) 1–19. (190–188). (pp. 109–110).. Apesar das fontes para o período serem poucas e fragmentárias, com exceção de Políbio, é impossível argumentar que os romanos tenham agido apenas defensivamente neste períodoE.S. Staveley, "Rome and Italy in the Early Third Century," in The Cambridge Ancient History (Cambridge University Press, 1989, 2002 reprint), vol. 7, p. 431 online..

Campo Gálico

Em 332 a.C. foi firmado entre Roma e os sênones da Gália um tratado de paz que, enquanto durou, garantiu um interlúdio de paz de cerca de trinta anos.Christiane Éluère, I Celti: "barbari d'Occidente", p. 68. Col. «Universale Electa/Gallimard●Storia e civiltà» (nº 44). Quase quarenta anos depois, em 295 a.C., no âmbito da Terceira Guerra Samnita, os sênones se aliaram aos úmbrios, etruscos e samnitas contra Roma. A coalizão, inicialmente vencedora (a Batalha de Arrécio), foi derrotada logo depois na grande Batalha de Sentino (295 a.C.). A derrota permitiu que Roma criasse o Campo Gálico e a fundação da colônia de Senigália (na moderna região das Marcas),Demandt, p. 86. um nome que ainda hoje permanece e guarda a memória dos povos gauleses que viviam ali. Em 283 a.C., esta primeira fase se concluiu e Roma pôde ocupar todo o território ao sul dos Apeninos depois de derrotar uma coalizão etrusco-sênone novamente na Batalha do Lago Vadimo (283 a.C.).Floro, I, 13.

Conquista da Gália

A província foi primeiro um comando militar (imperium) que podia ser entregue aos dois cônsules e a seis pretores, especialmente antes da anexaçãoE.S. Staveley, "Rome and Italy in the Early Third Century," in The Cambridge Ancient History (Cambridge University Press, 1970), vol. 7, part 2, p. 431 online.. Este comando militar era às vezes estendido além do mandato de um ano do magistrado eleito para aquele ano por mais um ou dois anos (prorogatio), o que permitia que os romanos mantivessem a continuidade de uma campanha militar em andamento sob o comando de oficiais experientes e também que se mantivesse sob controle a quantidade de pessoas autorizadas a assumir comandos militaresAndrew Lintott, The Constitution of the Roman Republic (Oxford University Press, 1999.), p. 113 ff.; T. Corey Brennan, The Praetorship in the Roman Republic (Oxford University Press, 2000), pp. 625–626..

Depois de 42 a.C., a Cisalpina foi completamente anexada ao governo da cidade de Roma e não mais era considerada uma província; a administração passou a ser feita através de governos municipais como no resto da ItáliaWerner Eck, "Provincial Administration and Finance," in The Cambridge Ancient History (Cambridge University Press, 2000), vol. 11, p. 345 online..

Nas fontes romanas anteriores a cerca de 100 a.C., Gallia é um termo flexível que se refere frequentemente apenas à Gália Cisalpina, mas à vezes à Gália como uma totalidade pouco definida e, em outras, num sentido muito limitado, apenas à Gália Cispadana ("deste lado do rio Pó"). A tabela seguinte lista cônsules, pretores e promagistrados para a Gallia até 125 a.C., quando a administração da Cisalpina passa a ser considerada à luz dos eventos na Gália Transalpina. Depois de 197 a.C., comandantes de status pretoriano não mais foram empregados na Ligúria e nem contra os gauleses; as operações militares eram geralmente conduzidas pelos dois cônsules ou por um cônsul se o outro estivesse no exteriorT. Corey Brennan, The Praetorship in the Roman Republic (Oxford University Press, 2000), vol. 1, p. 200.. Estão incluídos na lista ações militares e nomeações envolvendo a Ligúria, Venécia e Ístria quando há relação direta com a Gallia.

Conquista dos ínsubres Em 249 a.C., os boios pediram socorro aos gauleses que viviam do outro lado dos Alpes (a "Gália Transalpina"), iniciando uma nova crise que terminou em 225 a.C,Christiane Eluère, p. 69. ano no qual se registrou a últimaOgilvie, Cronologia. invasão gaulesa à Itália. Naquele ano, soldados e cavaleiros celtas atravessaram os Alpes para ajudar os gauleses cisalpinos. Estavam presentes as tribos dos ínsubres, boios e gesetasKruta, La grande storia dei Celti, pp. 251. e a horda invasora conseguiu derrotar os romanos na Batalha de Fésulas, mas foram depois derrotados e massacrados pelos exércitos romanos na Batalha de Telamão, no mesmo ano, a norte da moderna Orbetello.Políbio, Histórias II,25-27. Esta vitória abriu caminho para que os romanos conquistassem definitivamente o todo o norte da Itália, incluindo a montanhosa Ligúria.

Em 222 a.C, pela primeira vez um exército romano cruzou o rio Pó e invadiu a Gália Cisalpina. Na Batalha de Clastídio, os romanos conseguiram capturar a capital dos ínsubres, Mediolano (a moderna Milão). Para consolidar seu próprio domínio sobre a região, foram fundadas as colônias de Placência, no território dos boios, e Cremona, no dos ínsubres.

Ano Comandantes militares romanos na função de Observação 238 a.C. Tibério Semprônio Graco Cônsul Campanha militar na LigúriaPaulo Orósio 4.12.1; Zonaras 8.18; Lívio, Ab Urbe Condita Epit. 20; MRR1 p. 221. 238 a.C. Públio Valério Falto Cônsul Lutou contra os boios e outras populações gaulesasPaulo Orósio 4.12.1; Zonaras 8.18; cf. Lívio, Ab Urbe Condita Epit. 20; MRR1 p. 221; MRR2 p. 628. 236 a.C. Públio Cornélio Lêntulo Caudino Cônsul Lutou contra os boios e outras populações gaulesas, algumas das quais provenientes da Gália Transalpina; depois, lutou contra os lígures e celebrou um triunfoZonaras 8.18; cf. Polibio 2.21.5–5 e Lívio, Ab Urbe Condita Epit. 20; Acta Triumphalia Degrassi 76f., 549; Eutrópio III.2 (con il praenomen Lucius); MRR1 p. 222. 236 a.C. Caio Licínio Varo Cônsul Lutou contra os boios e outras populações gaulesasZonaras 8.18; cf. Polibio 2.21.5–5 e Lívio, Ab Urbe Condita Epit. 20; MRR1 p. 222. 233 a.C. Q. Fábio Máximo Verrugoso Cônsul Venceu os lígures e construiu um templo dedicado ao deus HonosCícero, In Pisonem 58, De natura deorum 2.61; Acta Triumphalia Degrassi 76f., 549; Plutarco, Vidas Paralelas, Fabius 2.1; Auctor, De viris illustribus 43; Zonaras 8.18) MRR1 p. 224. 230 a.C. Marco Emílio Bárbula Cônsul Participou da campanha na Ligúria com seu colega (ver próximo) 230 a.C. Marco Júnio Pera Cônsul Participou da campanha na Ligúria com a Marco Emílio BárbulaMRR1 p. 226, with sources. 225 a.C. Desconhecido Pretor Derrotado por um exército de gauleses na Batalha de Fésulas, na Etrúria (ver próximo)MRR1 p. 230. 225 a.C. Lúcio Emílio Papo Cônsul Enviado inicialmente contra os gauleses em Arímino, depois da derrota do exército pretoriano em Fésulas, ficou na Etrúria, onde se juntou a Marco Atílio Régulo (ver próximo), na Batalha de Telamão (225 a.C.) contra os gauleses e os derrotou;Políbio II, 23.5 e 25–31; Plínio, o Velho, História Natural III, 138; Apiano de Alexandria, Guerre celtiche 2; Dião Cássio frammento 50.4; Paulo Orósio 4.13.5–10. celebrou um triunfo "De Galleis";Acta Triumphalia Degrassi 78f., 550; Floro I, 20.3: Eutropio III, 5. devastou o território dos boios e lígures 225 Marco Atílio Régulo Cônsul Uniu-se a Lúcio Emílio Papo depois de uma campanha militar na Sardenha; morreu na Batalha de TelamãoPolíbio II, 23.6 e 27–28; Plínio, o Velho, História Natural III, 138; Paulo Orósio 4.13.5–10; Zonaras 8.20; MRR1 p. 230. 224 a.C. Tito Mânlio Torquato Cônsul Com seu colega, Quinto Fúlvio Flaco, conseguiu a rendição dos boios e foi o primeiro romano a atravessar o rio Pó, onde lutou com os ínsubresPolíbio II, 31.8–10; Paulo Orósio 4.3.11; Lívio, Ab Urbe Condita Epit. 20 e Zonara 8.20; MRR1 p. 231. 224 a.C. Quinto Fúlvio Flaco Cônsul Atuou com Tito Mânlio Torquato (ver acima) 223 a.C. Caio Flamínio Nepos Cônsul Com seu colega (ver abaixo) lutou contra os ínsubres,Políbio II, 32–33) obtendo um triunfo depois de uma votação popular,Acta Triumphalia Degrassi 78f., 550; Livio XXI, 63.2 e XXIII, 14.4; Sílio Itálico VI, 653–635; Zonaras 8.20. o que lhe valeu o título de primeiro dos populares, depois que o Senado recusou-se, por questões religiosas e políticas, concerder-lhe umSílio Itálico IV, 704–706, V, 107–113 e 649–655; Plutarco, Vidas Paralelas, Fabius 2.4; Floro I, 20.4; Paulo Orósio IV, 13.4; MRR1 p. 232.. 223 a.C. Públio Fúrio Filo Cônsul Celebrou um triunfo "De Galleis et Liguribus"Acta Triumphalia Degrassi 78 seg., 550; Zonaras 8.20. 222 a.C. Marco Cláudio Marcelo Cônsul Com seu colega consular (ver abaixo) combateu os ínsubres e os gesetas perto de Acerras; perseguiu uma força gaulesa atravessando o Pó e cercando Clastídio, onde conseguiu sua spolia opima; reunindo-se a Cipião, cercou e ocupou o importante ópido gaulesco de Mediolano, encerrando a guerra contra os ínsubres; celebrou um triunfo sobre eles e sobre os germânicos, além de dedicar um templo à deusa VirtudeMRR1 p. 233.. 222 a.C. Cneu Cornélio Cipião Calvo Cônsul Com Marcelo, lutou em Acerras e Mediolano

Segunda Guerra Púnica Os gauleses da Itália do norte se revoltaram novamente depois da invasão do general cartaginês Aníbal, no contexto da Segunda Guerra Púnica. Como aliados, os gauleses foram fundamentais para a vitória na Batalha do Lago Trasimeno (217 a.C.) e na Batalha de Canas (216 a.C.), duas terríveis derrotas para os romanos. Os boios conseguiram, por sua vez, bater os romanos na emboscada da Floresta Litana em 216 a.C.. Porém, depois da derrota de Aníbal em Zama (202 a.C.), os romanos se voltaram furiosamente contra os gauleses.