Os valdenses (francês: Vaudois; italiano: Valdesi), também chamados de valdensianos, são uma denominação cristã ascética que teve sua origem entre os seguidores de Pedro Valdo por volta de 1173, em Lyon, na França. Caracterizavam-se por fazer votos de pobreza e de desapego às coisas materiais.

Introdução

O movimento valdense rapidamente se espalhou para os Alpes Cócios, entre o que é hoje a França e a Itália. Fiel às suas raízes históricas, o movimento valdense hoje é centrado em Piemonte, no norte da Itália. Atualmente, subsistem como um grupo etnorreligioso na Itália e Uruguai nas igrejas Valdense e Evangélica Valdense do Rio da Prata, além de descendentes na Alemanha, Estados Unidos, França e Brasil.

O movimento originou-se no final do século XII como os Homens Pobres de Lyon, um grupo organizado por Pedro Valdo, um rico comerciante que doou seus bens por volta de 1173, pregando a pobreza apostólica como sendo caminho para a perfeição. Os ensinamentos valdenses entraram rapidamente em conflito com a Igreja Católica. Em 1215, os valdenses foram declarados heréticos e sujeitos a intensa perseguição; o grupo quase foi aniquilado no século XVII e foi confrontado com discriminação organizada nos séculos que se seguiram. Na era da Reforma Protestante, os valdenses influenciaram o reformador suíço Heinrich Bullinger. Ao encontrar as ideias de outros reformadores semelhantes às deles, eles rapidamente se fundiram no maior movimento protestante. Com as Resoluções de Chanforan, em 12 de setembro de 1532, eles formalmente se tornaram parte da tradição calvinista.

No século XVI, líderes valdenses abraçaram a Reforma Protestante e uniram-se a várias entidades regionais protestantes locais. Já em 1631, os estudiosos protestantes e os próprios teólogos valdenses começaram a considerar os valdenses como precursores da Reforma, que haviam mantido a fé apostólica diante da opressão católica. Os valdenses modernos compartilham princípios fundamentais com os calvinistas, incluindo o sacerdócio de todos os crentes, a comunidade congregacional e certos sacramentos, como a Comunhão e o Batismo. Eles são membros da Comunidade de Igrejas Protestantes na Europa e suas afiliadas em todo o mundo.

A principal denominação dentro do movimento foi a Igreja Evangélica Valdense, a igreja original na Itália. Congregações continuam ativas na Europa, América do Sul e América do Norte. Organizações como a American Waldensian Society mantêm a história desse movimento e declaram assumir como sua missão "proclamar o Evangelho cristão, servir os marginalizados, promover a justiça social, fomentar o trabalho inter-religioso e defender o respeito à diversidade religiosa e à liberdade de consciência."

São a única seita da Idade Média, considerada herética pela Igreja Católica, a subsistir até os dias de hoje.History: Founded in the Middle Ages. American Waldesian Society

Características da moderna Igreja Valdense A atual Igreja Valdense se considera uma igreja protestante da tradição reformada originalmente enquadrada por Ulrico Zuínglio e João Calvino. Reconhece como seu padrão doutrinário a Confissão de Fé publicada em 1655 e baseada na confissão reformada de 1559. Ela admite apenas duas cerimônias, o batismo e a Santa Ceia. A autoridade suprema no corpo é exercida por um sínodo anual, e os assuntos das congregações individuais são administrados por um consistório sob a presidência do pastor.

Ao longo dos séculos, igrejas valdenses foram estabelecidas em países distantes da França, como o Uruguai e os Estados Unidos, onde as congregações valdenses ativas continuam o propósito do movimento valdense. A contemporânea e histórica herança espiritual valdense descreve-se como proclamando o Evangelho, servindo aos marginalizados, promovendo a justiça social, promovendo o trabalho inter-religioso e defendendo o respeito pela diversidade religiosa e pela liberdade de consciência. Hoje, a Igreja Valdense é membro da Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas, do Conselho Metodista Mundial, da Federação de Igrejas Evangélicas na Itália e do Conselho Mundial de Igrejas.

História Fontes históricas O moderno conhecimento da história medieval dos valdenses origina-se quase que exclusivamente da Igreja Católica, ou seja, a instituição que os condenava como heréticos. Por causa dessa escassez documental e desconexão da qual devemos extrair a descrição das crenças valdenses, muito do que se sabe sobre os primeiros valdenses vem de relatos como "Profissão de Fé de Valdo de Lyon"; Durando d'Osca (c. 1187-1200) Liber antiheresis; e o Rescriptum of Bergamo Conference (1218).

Documentos antigos que informam sobre a incipiente história valdense incluem Will of Stefano d'Anse (1187), Manifestatio haeresis Albigensium et Lugdunensium (c. 1206–1208); e o Anonymous chronicle of Lyon (c. 1220). Há também outros dois relatórios escritos para a Inquisição por Reinerius Saccho (falecido em 1259), um ex-cátaro que se converteu ao catolicismo, publicado em 1254 como "Summa de Catharis et Pauperibus de Lugduno" (Sobre os Cátaros e os Pobres de Lyon).

Teorias de origens alternativas Já foi dito que os valdenses foram primeiramente ensinados pelo apóstolo Paulo de Tarso, que visitou a Espanha e depois viajou para o Piemonte. Como a Igreja Católica entregou-se a excessos dogmáticos no tempo de Constantino, os valdenses se mantiveram fiéis à sua fé apostólica de pobreza e piedade. Essas versões perderam crédito durante o século XIX.

Há também alegações de que os valdenses eram anteriores a Pedro Valdo. Em "História da Igreja dos Valdenses" (1859), Antoine Monastier cita Eberhard de Béthune, abade de Foncald, escrevendo no final do século XII, que os valdenses surgiram durante o papado de Lúcio. Monastier leva-o a significar Lúcio II, papa de 1144 a 1145, e conclui que os valdenses estavam ativos antes de 1145. Bernard também diz que o mesmo papa Lúcio os condenou como hereges, mas foram condenados pelo papa Lúcio III em 1184.

Monastier também diz que Eberhard de Béthune, escrevendo em 1210 (embora Monastier diga 1160), alegou que o nome "valdense" significava habitantes do vale ou aqueles que "moram num vale de tristeza e lágrimas" e estava em uso antes de Pedro Valdo.

Origem

alt=|esquerda|miniaturadaimagem|upright=1.0|Pedro Valdo, líder dos valdenses De acordo com relatos e com a tradição, o movimento valdense tem origem com Pedro Valdo, um rico comerciante de Lyon. Renunciou sua riqueza como sendo um fardo para a pregação e estilo de vida apostólico, sendo esse o caminho para a perfeição espiritual, o que levou outros membros da Igreja Católica a seguirem seu exemplo.| History: Founded in the Middle Ages. American Waldesian Society Devido à sua repulsa à riqueza, o movimento logo ficou conhecido como "Os Homens Pobres de Lyon", ou "Os pobres da Lombardia".

O movimento valdense, desde o seu início, era caracterizado pela pregação leiga. Esta prática significava que pessoas que não possuíam cargos eclesiásticos podiam pregar; pobreza voluntária e uma ligação extrema com as Sagradas Escrituras. Entre 1175-1185, Pedro Valdo encomendou de um clérigo uma tradução (ou ele mesmo traduziu, segundo fontes existentes) do Novo Testamento para o franco-provençal, língua local na época. Passou a pregar mesmo sem ser sacerdote. Desde o início, os valdenses afirmavam o direito de cada fiel de ter a Bíblia em sua própria língua, sendo esta a fonte de toda autoridade eclesiástica.TOURN Giorgio, Les Vaudois, l’étonnante aventure d’un peuple-église, Claudiana, 1999.

Em 1179, Pedro Valdo e um de seus discípulos foram a Roma, onde o Papa Alexandre III e a cúria romana os receberam. Eles tiveram que explicar sua fé diante de três clérigos dominicanos, ordem responsável pela hermenêutica e exegese das Sagradas Escrituras. Entre os inquisidores, estava o bispo inglês Walter Map. Foram questionados pontos doutrinários como sacerdócio universal, evangelho em línguas bárbaras, isto é, que não fossem latim ou grego, e a questão da pobreza voluntária. Os resultados foram inconclusivos, e o Terceiro Concílio de Latrão, no mesmo ano, condenou as ideias de Pedro Valdo, mas não o movimento em si. Seus líderes ainda não haviam sido excomungados. Os valdenses prosseguiram e desobedeceram o Terceiro Concílio de Latrão e continuaram a pregar de acordo com a sua própria interpretação das Escrituras.

Em 1184, o Papa Lúcio III excomungou Pedro Valdo e, em 1215, o Quarto Concílio de Latrão concordou, declarando o movimento como herético e sujeito a perseguições.

Pedro Valdo e seus seguidores desenvolveram um sistema itinerante, deslocando-se de cidade em cidade secretamente em pequenos grupos, onde poderiam confessar os pecados e arrumar serviços. Um pregador valdense itinerante era conhecido como Barba. Estes eram estimulados a estudar e memorizar livros da Bíblia, para que, em momentos de necessidade, as próprias passagens memorizadas servissem-lhes como alimento espiritual. KAELBER, Lutz. Other-and inner-worldly asceticism in medieval Waldensianism: A Weberian analysis. Sociology of Religion, v. 56, n. 2, p. 91-119, 1995. O grupo valdense devia abrigar os barbas e ajudá-los a prosseguir para outra cidade em segredo. Pedro Valdo possivelmente morreu no início do século XIII, possivelmente na Alemanha. Ele nunca foi capturado e seus restos mortais permanecem desconhecidos. alt=|miniaturadaimagem|upright=1.0|Pedro Valdo em Roma, explicando-se aos inquisidores e ao Papa Alexandre III, em 1179. Os valdenses da época pertenciam a um de três grupos:

Sandaliati Doctores: instruíam e treinavam os missionários Novellani: pregavam para a população geral

Eles também eram chamados Insabbatati, Sabati, Inzabbatati, ou Sabotiers - devido ao sabot, um tipo de calçado que eles usavam.

Os valdenses deram um valor raro ao texto bíblico na Idade Média, providenciando traduções e cópias no vernáculo.Kienzle, Beverly Mayne (1998) "Holiness and Obedience: denouncement of twelfth-century Waldensian lay preaching", in The Devil, Heresy, and Witchcraft in the Middle Ages: Essays in Honor of Jeffrey B. Russell, ed. Alberto Ferreiro. Leiden: Brill Os estudantes valdenses usavam a Bíblia como seu principal objetivo de estudo. Antes da invenção da prensa móvel de Johannes Gutenberg, todas as bíblias eram copiadas à mão, e muito tempo era gasto no processo. Portanto, poucos exemplares completos da bíblia eram estimados. Os jovens valdenses memorizavam livros inteiros das Escrituras e muitos poderiam recitar todo o Novo Testamento, juntamente com passagens do Antigo Testamento. Por causa das contínuas e brutais perseguições, suas preciosas cópias dos livros bíblicos foram, às vezes, destruídas. Se isso acontecesse, eles poderiam reproduzir o manuscrito inteiro de memória.

Os valdenses compartilham um contexto histórico comum com outros movimentos religiosos populares na Baixa Idade Média, tais como os franciscanos, arnoldistas, seguidores de Pedro de Bruys, dominicanos, bogomilos, cátaros, dentre outros. Exceto alguns grupos, como os dominicanos e franciscanos, no geral esses movimentos foram tidos como heréticos e sofrem dura repressão.LAMBERT, Malcolm D. Medieval Heresy: popular movements from the Gregorian Reform to the Reformation. Oxford: Blackwell, 1992.TOURN Giorgio, Les Vaudois, l’étonnante aventure d’un peuple-église, Claudiana, 1999 O que é peculiar na história dos valdenses é a capacidade deles terem sobrevivido às perseguições, mantendo-se como comunidade bem adentro das eras moderna e contemporânea.

Crianças valdenses