Eduardo da Fonseca (1863-1938) foi um professor de música e compositor do Porto, cidade onde fundou uma casa editora de músicas com sede social na Praça de Carlos Alberto, n.º 7-8. Recebeu as insígnias de Cavaleiro da Ordem Militar de N.ª S.ª da Conceição de Vila Viçosa (1892)Cf. Registo Geral de Mercês de D. Carlos I, liv. 4, fl.270v, ANTT PT/TT/RGM/L/0004/000165. A insígnia ter-lhe-á sido colocada no peito pela própria mão do Sr. D. Carlos, que quis assim consagrar-lhe indiscutível mérito (Cf. Colline, Eduardo da Fonseca. A arte musical: Revista publicada quinzenalmente. Lisboa, ano v, n.º 103, p. 80; citação extraída de Ana Luísa Fernandes Paz, Ensino da música em Portugal (1868-1930): uma história da pedagogia e do imaginário musical, tese de doutoramento, IE, UL, 2014). e da Ordem de S. Tiago da Espada.Informações colhidas na notícia Falecimentos - Eduardo da Fonseca, jornal A Ordem, edição de 19 de Março de 1938. Foi sócio correspondente da Societé des Auteurs et Compositeurs de Musique (Paris) e do Centro Musical Paraense (Brasil)De que foi tesoureiro seu irmão Abílio da Fonseca, cf. Almanak Laemert de 1925, vol. 3, pág. 626., membro da Comissão Portuense de Música Sacra, consócio do Orfeão Lusitano e do Grupo de Santa Cecília.
Biografia
Filho de Francisco António da Fonseca e de Emília Rosa de Jesus, da freguesia da Sé, Porto, Eduardo da Fonseca nasceu no Hospital da Ordem Terceira do Carmo a 26 de Março de 1863.Cf. assento de baptismo nr 58 Livro B, nr 14, freg. N. S. da Vitória, concelho do Porto, fl 30.
Estudou com César das NevesCésar Augusto Pereira das Neves (1841-1920) foi professor de música no Liceu da Ordem do Carmo. Autor de um método de guitarra, publicou em 1902 um Compêndio de Musica, solfejo e canto coral para alunos de ambos os sexos (Porto, Livraria Portuense de Lopes & Companhia, 1902). Fundou no Porto a primeira oficina tipográfica de música do país, distinguiu-se como professor de música, ensinando piano, violino, canto e harmonia e dedicou-se durante largo tempo à recolha e pesquisa dos cantares populares portugueses. no Liceu da Ordem do Carmo Cf. O aluno Eduardo da Fonseca cantará o Salutaris Hostie, composto pelo snr. Badoni, página 2 do Jornal do Porto nr. 218 de 24.09.1876., de quem aos 18 anos já era auxiliar, vindo depois a suceder-lhe como professor de música e organista titular da Ordem Terceira de N.Senhora do Carmo. Ao mesmo tempo, foi completando a sua formação musical estudando piano, harmonia e composição com Miguel Ângelo e Francini, instrumentação com José Cândido, canto com o seu amigo íntimo Romanoff Salvini (1825-1894) e órgão com Costa Lima. Como executante (violoncelo) colaborava já em inúmeros concertos, nomeadamente nos de Ciríaco Cardoso (1846-1900).Nessa qualidade Eduardo da Fonseca sobreviveu ao incêndio do Teatro Baquet, a 20 de Março de 1888. Sobre este teatro ver O Teatro Baquet – da fundação às cinzas (1859-1888), por M.I. Rosinhas, tese de licenciatura, FLUP, 2015. Composições suas começaram a aparecer por volta de 1888.
Foi ainda professor no Real Colégio dos Órfãos (1888-)A partir de 1888.01.20, cf. jornal 'O Primeiro de Janeiro' de 1963.01.20., no Asilo Escola do Terço e no Recolhimento das Meninas Órfãs de Nossa Senhora da Esperança (Porto, S. Lázaro). Juntava os seus alunos todos os anos na festa do Prémio Xavier da Mota no Ateneu Comercial do Porto. Em Braga vinha à Oficina de S. José e ao Colégio de Montariol. Em Agosto de 1889 foi nomeado para o lugar de professor de canto coral na Escola Normal do Porto, em substituição de Bernardo Moreira de Sá.Notícia Nomeação, pág.2 do Jornal do Porto de 2 de Agosto de 1889 (BND).
Para além de professor e editor de música, folclorista e compositor de música sacra, foi também autor de várias peças para piano (valsas, polkas etc) anunciadas como de meia força ao serem publicadas pela sua casa editora de músicas no Porto. No seu artigo A Praça Carlos Alberto Ver Tripeiro de Agosto 1952, pp. 110-113 e p. 156 do Tripeiro de Setembro de 1952. Hugo Marçal refere a casa de músicas Eduardo da Fonseca e a Ordem do Carmo, da qual esboça brevemente a história.Fundada em 1736, deu início em 1791 às obras do seu Hospital, que veio a ser inaugurado em 8 de Fevereiro de 1801. A aula de música foi instituída em 1880 pelo cónego Rodrigues de Sousa, e regida pelo professor César das Neves.
As novidades musicais da sua casa editora de músicas anunciadas em 1892Cf. dedicatória à Imprensa Portuense datada de 1892 de 'O Repórter', Paso doble para piano (edição E.F. Nr. 19). incluíam já A Portuguesa, a marcha patriótica de Alfredo Keil que está na origem do futuro Hino Nacional. Uma outra edição anuncia a das Cenas Portuguesas n.º 1 a 3 de Viana da Mota (1868-1948).A terceira edição (1894) da Cantiga de Amor op.9, nr.1, tem o número de chapa E.F. 41, cf. BNP C.N. 650 A. Entre outros autores de obras publicadas pela casa editora encontram-se Pedro Blanco, Júlio Moutinho, A. Soller, B. Gouveia, F. Roncagli, A. Viana, Mutz, Lowthian, A. Lobo, X. Lopes, N. Ribas e A. Ferreira.
Colaborou no Cancioneiro de Músicas Populares de César das Neves e Gualdino de Campos (1847-1919)Prefaciado por Teófilo Braga (1843-1924) e disponível em http://purl.pt/742., que obteve o Grande Diploma de Honra da Exposição da Imprensa de 1898. Foi autor da transcrição para canto e piano das Poesias e Canções Populares do concelho da Maia recolhidas por A. Monteiro e revistas por S. Rocha (1900).Porto, Livraria Portug. Editora de J. Maria da Costa, 1900.
Em 1917 colaborou na parte musical (com Armando Leça, Moreira de Sá, António Fragoso, etc) do monumental Album Artístico-Literário-Musical da iniciativa de Renée Labbe publicado gratuitamente a favor da Cruz Vermelha por J. Costa Carregal.Cf. Tripeiro de 1967, p. 160.
Para além de música sacra, Eduardo da Fonseca compôs para o teatro, nomeadamente para operetas e revistas de Júlio Moutinho, António Lemos e Abílio de Mesquita. Musicou o Hino do Centenário Henriquino e o hino de O Comércio do Porto, por ocasião do cinquentenário deste jornal.Cf. notícia Falecimentos - Eduardo da Fonseca, Comércio do Porto, 15 de Março de 1938.
Faleceu na sua casa (Praça de Carlos Alberto, Porto) a 14 de Março de 1938Cf. Eduardo da Fonseca - Faleceu ontem este considerado compositor musical, Jornal de Notícias, 15 de Março de 1938., com a idade de 74 anos. O Grupo Santa Cecília executou a parte musical das suas exéquias fúnebres, sob a direcção de Afonso Valentim. Está sepultado no cemitério de Agramonte.Cf. notícia Comendador Eduardo da Fonseca - o funeral do ilustre compositor no Comércio do Porto e informação de Armando Leça no Tripeiro de 1963, p.91. A mesma notícia refere, no seu funeral, as representações do Conservatório de Música do Porto, da Escola de Belas-Artes do Porto, da Biblioteca Municipal do Porto, do Ateneu Comercial do Porto, da Mesa da S. Casa da Misericórdia do Porto, dos orfeões do Porto, Lusitano, Académico, de vários colégios, de asilos, seminários, etc. O féretro foi coberto com a bandeira da Confraternização dos Antigos Alunos das Aulas do Carmo, de que Eduardo da Fonseca foi um dos impusionadores.
Esboço cronológico
Notícias coligidas em jornais da época:
1888.10.15 - Eduardo da Fonseca executa ao órgão da igreja do Carmo o Stabat Mater de Rossini e a marcha fúnebre da opera Iona na missa de requiem por José Antonio Coque, pai do repórter do Jornal de Notícias José Coque.Notícia Missa, pág. 2 do Jornal do Porto nº 245 de 16 de Outbubro de 1888 (BND).
1889.6.4 - Referência a uma missa composta por Eduardo da Fonseca, que também acompanha ao piano alunos da aula de música da Ordem do Carmo sob a regência de César das Neves.Cf. notícia ‘’Hospital do Carmo’’ no Jornal do Porto nr. 131 de 4.6.1889, página 2.
1889.8.2 - Antecipação pelo Jornal do Porto das festividades da Ordem do Carmo previstas para o domingo seguinte, em que as obras a grande orquesta serão regidas pelo maestrino Eduardo da Fonseca, que também deverá acompanhar ao piano.Notícia Ordem do Carmo, pág.2 do Jornal do Porto de 2 de Agosto de 1889 (BND).
1890.3.19 - Na Ordem do Carmo, Eduardo da Fonseca acompanha ao órgão uma ária de Stradella cantada por Frank de Castro, com Xisto Lopes no violoncelo, numa cerimónia de sufrágio pelas vítimas do Teatro Baquet, na ocasião do 2º aniversário da catástrofe da sua destruição e incêndio.Notícia Comemorando a incêndio do Baquet, pág.2 do Jornal do Porto de 19 de Março de 1890 (BND).
1890.6.3 - Nas mesmas páginas que noticiam a morte de Camilo Castelo Branco, o Jornal do Porto refere a exposição ao público do Hospital da Ordem Terceira do Carmo, para cuja festividade Eduardo da Fonseca compôs uma Missa e Tantum Ergo que foram executados por alunos das aulas do Carmo.<ref>Notícia Hospital do Carmo, pág.2 do Jornal do Porto de 3 de Junho de 1890 (BND). Cf. ainda a notícia A festa do Carmo', pág. 2 do jornal A República nr.45 de 2 de Junho de 1890 (BND).</ref>
1891.11.22 - O Rei D.Carlos elogia Eduardo da Fonseca aquando da visita da família real ao Recolhimento das Órfas, em S. Lázaro, conferindo-lhe o hábito da Ordem da Conceição. Nessa matinée actuava a orquesta de cordas infantil feminina que Eduardo da Fonseca dirigia e em que se tocaram várias composições suas.Ver notícia A Família Real no Porto, 1ª página do Jornal do Porto de 24-Nov-1891.
1892.02.21 - Uma notícia no Jornal do Porto de 22 de Fevereiro de 1892Página 3, (BND) refere Eduardo da Fonseca a acompanhar a grande órgão, na Igreja do Carmo, o barítono italiano Sr. Scaramella.
1892.07.10 - Eduardo da Fonseca dirige o coro e orquesta das alunas do Recolhimento das Orfãs de Nossa Senhora da Esperança na sessão solene anual consagrada à memória dos beneméritos benfeitores da Irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia, em que se tocam algumas obras suas.Notícia Santa Casa da Misericórdia - sessão solene, pág. 2 do Jornal do Porto nº 158 de 11 de Julho de 1892 (BND).
1896.01.13 - Notícia no Diário Ilustrado de 14 de Janeiro de 1896Página 2, (BND) refere que Eduardo da Fonseca, autor da célebre passe-calle, Amor da Pátria, dedicada aos académicos do Porto, vai escrever uma nova composição com letra de César das Neves, dedicada aos mesmos académicos, em honra dos expedicionários.
1896.02.01 - Eduardo da Fonseca acompanha a grande órgão a missa de responso que o Ginásio Club mandou rezar na Igreja do Carmo pelos soldados portugueses mortos na campanha em África, assistindo o general Cibrão.Cf. Diário Ilustrado de 2 de Fevereiro de 1896, pág. 2 (BND).
1896.11.07 - Os alunos das aulas de música da Ordem do Carmo são acompanhados a grande órgão por Eduardo da Fonseca na irgeia do Carmo, onde se rezou uma missa de sufrágio pelos soldados que morreram no combate de Coelela.Notícia Combate de Coelela, pág.3 da edição de 9 de Novembro do Diário Ilustrado (BND)
1897.08.1/2 - Salientam-se, no sarau literário-musical da Ordem do Carmo (celebrações do dia da padroeira) a orquesta de arco e o coral feminino sob a direcção de Eduardo da Fonseca.O grupo vocal e a orquestra foram organizados apenas com alunos das aulas de música da Ordem, cf. Tripeiro de Agosto de 1947, p. 91.
1897.09.25 - Eduardo da Fonseca ao piano colabora numa soirée-concerto realizada no Grande Hotel do Elevador no Bom Jesus do Monte, em Braga.Diário Ilustrado de 1897-09-25 (nr. 8.807), página 3 (BND).
1898.09.02 - A Casa Eduardo da Fonseca edita o Hino 1.º de Maio com letra de Gomes Leal e música de João Garrido Peres.Cf. Tripeiro 1948, Set, p. 116.
1899.12.20 - Eduardo da Fonseca e Xisto Lopes inauguram o novo órgão de Vilar de Paraíso, em Gaia.Cf. Tripeiro 1949, Dezembro, p.189.
1900.03.21 - Eduardo da Fonseca toca órgão no ofício fúnebre do poeta António Nobre que teve lugar na Igreja da Trindade.Cf. pág.181 da fotobiografia de António Nobre da autoria Mário Cláudio, Publicações D. Quixote, 2001.