O Políptico da Capela-mor da Sé de Viseu é um conjunto de pinturas a óleo sobre madeira de carvalho realizadas no período de 1501-06 e que se destinaram a decorar a Capela Mor da Sé de Viseu tendo sido realizadas por uma equipa de pintores dirigida por um mestre actualmente desconhecido, provavelmente de origem flamenga, podendo ter sido Francisco Henriques, obra em que participou certamente o pintor português do renascimento Vasco Fernandes (c. 1475-1542).
O Políptico, pintado sobre madeira da Flandres, era composto por 18 painéis, 14 dos quais se conservam actualmente no Museu Grão Vasco (Viseu) e um no Seminário de Coimbra.Luís Alberto Casimiro, "Pintura e Escultura do Renascimento no Norte de Portugal", Ciências e Técnicas do Património, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2006-2007, I Série vol. V-VI, pp. 87-114, Os painéis foram dispersos após o desmembramento do Políptico no século XVIII, mas posteriormente catorze deles foram reunidos no Museu Grão Vasco. O estudioso Dagoberto Markl sustenta que o Calvário que se encontra no Seminário de Coimbra faz parte deste Políptico.Pedro Dias e Vítor Serrão, História da Arte em Portugal, Volume 5 - Manuelino, Publicações Alfa, Lisboa, 1986, pags. 139-140 Do Políptico deveria também fazer parte, segundo Dagoberto Markl, aceitando o parecer de Reis SantosReis Santos, Luís (1946), Vasco Fernandes e os Pintores de Viseu do Século XVI, Lisboa, 1946, p. 23, a Assunção da Virgem, um painel central maior do que os outros e que se encontra atualmente no MNAA. Justifica-se que este painel fizesse parte do Políptico pois Santa Maria da Assunção era a padroeira da Sé de Viseu e sem dúvida foi da autoria de Vasco Fernandes porque se verificam semelhanças estilísticas com os painéis que restam do Retábulo da Sé de Lamego.Markl, Dagoberto (1986), História da Arte em Portugal, Publicações Alfa, Lisboa, vol. 6, pág. 114 e seguintes
O grande Políptico da Capela-mor da Sé de Viseu foi encomendado pelo bispo D. Fernando de Miranda (falecido em 1505) e ultimado pelo bispo D. Diogo Ortiz de Vilhegas, sendo constituido por pinturas com passos da Vida de Maria e da Paixão de Cristo.Maria Dalila Aguiar Rodrigues (2000), Modos de Expressão na Pintura Portuguesa - O Processo Criativo de Vasco Fernandes (1500-1542), Dissertação de Doutoramento apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra na especialidade de História da Arte
Descrição O Políptico da Capela-mor da Sé de Viseu é constituido pelas seguintes pinturas, todas actualmente agrupadas e expostas no Museu Grão Vasco (imagem acima), excepto o Calvário que se encontra no Seminário de Coimbra: Anunciação; Visitação; Natividade; Adoração dos Reis Magos; Apresentação no Templo; Circuncisão; Fuga para o Egipto; Última Ceia; Cristo no Horto; Prisão de Cristo; Calvário; Descida da Cruz; Ressurreição; Ascensão; Pentecostes
As pinturas, exceptuando o Calvário, estão expostas no Museu em duas filas sobrepostas de sete pinturas em cada fila na sequência a seguir indicada a contar da esquerda para quem olha, primeiro em baixo e depois em cima, correspondendo à cronologia dos episódios bíblicos, conforme o quadro seguinte:
Última Ceia Cristo no Horto Prisão de Cristo Descida da Cruz Ressurreição Ascensão Pentecostes Anunciação Visitação Natividade Adoração dos Reis Magos Apresentação no Templo Circuncisão Fuga para o Egipto
Mas a colocação original dos painéis na Capela-mor da Sé de Viseu deveria ter sido diferente desta apresentação no Museu Grão Vasco. Pelo menos deveria ter havido três filas sobrepostas, o que levou os autores dos painéis colocados acima, a adaptar as imagens, com alongamento do corpo das figuras, para atenuar a deformação de visão pela posição baixa do espectador.
Anunciação
A Anunciação é um dos painéis que constitui o Políptico da Capela-mor da Sé de Viseu, tendo sido criado, tal como as outras componentes deste Políptico, no período entre 1501 e 1506. Tendo de altura 131 cm e de largura 81 cm, a obra representa o episódio bíblico da Anunciação.
Na posição habitual das pinturas sobre o tema da Anunciação, o arcanjo Gabriel surge planando e em posição de genuflexão, na sua missão de mensageiro divino, empunhando o longo filactério de pergaminho com a tradicional inscrição Ave Gratia Plena (Ave Cheia de Graça). A Virgem cruza as mãos à altura do peito em sinal de submissão. A pomba como símbolo do Espírito Santo, está envolta numa auréola luminosa que lhe dá visibilidade e autonomia na composição.
Como é usual, o evento decorre no interior de uma habitação, em que se vê o leito da Virgem e alguns objectos simbólicos, como um vaso com açucenas, o cesto de costura e um livro aberto. Ao fundo, na paisagem, é visível o puteus aquaram viventium (poço de águas vivas) da iconografia mariana. A fisionomia das duas figuras, a cor ruiva e o anelado dos seus cabelos, bem como o tratamento dos tecidos, que conferem volume e acentuam com pregueados a sua monumentalidade, a profundidade espacial através dos elementos decorativos do pavimento, a incidência da luz nos planos intermédios, são indicadores da inspiração flamenga desta pintura. Na mesma linha, destaca-se o cuidado tratamento de alguns pormenores, como o friso de pedras preciosas que remata a longa veste de Gabriel ou o véu transparente da Virgem. Os desgastes e alguns repintes pontuais são visíveis na parte superior do painel, numa zona que originalmente estaria oculta pela estrutura entalhada do Políptico da Capela-mor.Nota sobre a Anunciação na Matriznet,
Visitação
A Visitação é um dos painéis que constitui o Políptico da Capela-mor da Sé de Viseu, tendo sido criado, tal como as outras componentes deste Políptico, no período entre 1501 e 1506. Tendo de altura 131,5 cm e de largura 81,2 cm, a obra representa o episódio bíblico da Visitação.
A Virgem e Santa Isabel estão em primeiro plano num terraço decorado com temas vegetais tratado com rigor de ilustração botânica. Um largo fundo paisagístico, que prolonga até ao infinito o horizonte visual, enquadra a cena do abraço entre as duas primas. À esquerda vislumbra-se com pormenor uma cidade habitada, com diversas figuras, entre elas um mendigo, nas mais diversas actividades. A arquitectura de inspiração nórdica é representada com minúcia, permitindo identificar na fachada de um dos edifícios um relógio mecânico. Na paisagem, as elevações rochosas e a variância de tons claros e escuros permitem diferenciar planos e sugerir a profundidade sistemática do espaço.
E se existem erros anatómicos identificáveis nas duas figuras femininas, ou na coloração da sua pele, acentuados por alterações posteriores, a qualidade pictórica do fundo, numa gama muito diversificada de tonalidades de azul, é notável. De facto, no horizonte, as formas dos montes e os conjuntos arbóreos diluem-se em efeitos atmosféricos magistralmente sugeridos. A necessidade de destacar a pintura dos painéis das salientes estruturas entalhadas e douradas e da fraca iluminação dos locais onde permaneciam, é um dado a ter em conta para entender a importância do tipo de efeitos luminosos, bem como o recurso a cores vivas e contrastantes.Nota sobre a Visitação na Matriznet,
Natividade
A Natividade é um dos painéis que constitui o Políptico da Capela-mor da Sé de Viseu, tendo sido criado, tal como as outras componentes deste Políptico, no período entre 1501 e 1506. Tendo de altura 131 cm e de largura 81 cm, a obra representa o episódio bíblico do nascimento de Jesus.
Em primeiro plano, Jesus recém-nascido é rodeado pela Virgem, São José e dois anjos. A composição triangular centra-se no Menino Jesus sendo estruturada pelos olhares convergentes das figuras, exceptuando apenas o de um anjo que a sugerir o teatro litúrgico medieval puxa o manto de São José. A Natividade tem lugar num edifício em ruínas onde surgem, à esquerda, as cabeças dos animais tradicionais, a vaca e o burro. Por uma abertura, e num fundo paisagístico, vislumbra-se a representação de outro evento: a Anunciação aos Pastores. Um pormenor iconográfico interessante é o molho de espigas de trigo colocado junto ao Menino e que, de acordo com Erwin Panofsky, alude ao local de nascimento de Cristo, a "Casa do Pão". No fundo paisagístico, uma árvore despida de folhagem, seguida de uma semelhante rejuvenescida, sugerem, respectivamente, o Antigo e o Novo Testamento. O realismo dos pormenores em primeiro plano, em contraste com as formas distantes que sugerem o aprofundamento do espaço, a arquitectura correctamente perspectivada, bem como o foco de luz no plano intermédio, apontam para a acção de um pintor com recursos técnicos notáveis.Nota sobre a Natividade na Matriznet,
Adoração dos Reis Magos
A Adoração dos Reis Magos é um dos painéis que constitui o Políptico da Capela-mor da Sé de Viseu, tendo sido criado, tal como as outras componentes deste Políptico, no período entre 1501 e 1506. Tendo de altura 131 cm e de largura 81 cm, a obra representa o episódio bíblico do Adoração dos Reis Magos.
Elemento distintivo desta representação da Adoração dos Reis Magos é a presença de um Índio brasileiro na figura do rei negro Baltazar, tratando-se da primeira representação de um representante dos Povos indígenas do Brasil na arte ocidental, pouco depois da Descoberta do Brasil. Colocado no centro da composição, Baltazar ostenta um traje onde se misturam influências europeias tradicionais (a camisa e os calções) com a novidade exótica de um toucado de penas, bem como inúmeros colares de contas coloridas, braceletes de ouro nos pulsos e tornozelos, brincos de coral branco, remate de penas, idênticas às do toucado, no decote e na franja do corpete, e uma flecha tupinambá com o seu longo cabo. Segura igualmente uma taça feita de nós de coco montada em prata, o que reforça ainda o seu carácter exótico.A sua inserção em episódio evangélico tão importante salienta a ideia da cristianização do continente recém-descoberto pelos europeus e a disponibilidade da população indígena para a mensagem cristã.
O painel comprova também o esforço de realismo minucioso dos pormenores bem ao gosto flamengo que o autor procurou seguir. Assim, são de notar a textura do brocado ricamente adornado do Rei Mago (Gaspar?) de joelhos, em primeiro plano, o brilho dos metais, o rigor descritivo da cabana, onde figuram, para além dos animais tradicionais, um vaso de barro e uma vela acesa, ou o tratamento da paisagem arquitectónica em pano de fundo.Nota sobre a Adoração dos Reis Magos na Matriznet
Apresentação no Templo
A Apresentação no Templo é um dos painéis que constitui o Políptico da Capela-mor da Sé de Viseu, tendo sido criado, tal como as outras componentes deste Políptico, no período entre 1501 e 1506. Tendo de altura 132 cm e de largura 83 cm, a obra representa o episódio bíblico da Apresentação de Jesus no Templo.
A Virgem e o velho Simeão seguram o Menino que apresenta um corpo inesperadamente musculado havendo outras personagens que participam como acompanhantes e acólitos, verificando-se uma iconografia rica e detalhada especialmente neste painel. Em primeiro plano e de costas, uma figura feminina segura com a mão esquerda um cesto com três pombos o que corresponde ao cumprimento da lei de Moisés, pela qual neste acto seriam oferecidos em sacrifício um par de rolas ou dois pombos. No tondo colocado na parte central superior da parede do fundo, está representado um tema do Antigo Testamento: o anjo segura a mão de Abraão no momento do Sacrifício de Isaac. Na mesma parede do fundo, deixando entrever um fundo arquitectónico, surge um pórtico de arquitectura já renascentista, encimado pelo escudo português.