miniaturadaimagem|Lançamento do quarto submarino do programa, o , em 2025 Programa de Desenvolvimento de Submarinos (ProSub) é um acordo de transferência de tecnologia da França para o Brasil firmado no ano de 2008. Ele compreende a produção de quatro submarinos convencionais e um submarino nuclear num novo estaleiro e base naval em Itaguaí, Rio de Janeiro, para serviço na Marinha do Brasil. Os modelos convencionais formam a classe Riachuelo, baseada na classe Scorpène francesa, e o nuclear será uma versão maior dos Riachuelo, denominado Álvaro Alberto. O reator nuclear do submarino não faz parte do programa e será provido pelo Brasil através do Programa Nuclear da Marinha, que é distinto, mas necessário ao ProSub. O armamento do submarino será convencional, não nuclear.

A Marinha do Brasil ambiciona um submarino nuclear desde os anos 1970. Nas décadas seguintes ela dominou o ciclo do combustível nuclear, nacionalizou a produção de submarinos convencionais de projeto alemão (a classe Tupi) e tentou projetar seus próprios modelos. O projeto estagnou até a retomada do interesse político e concomitante disponibilidade de verbas, nos anos 2000. A Estratégia Nacional de Defesa de 2008 propôs um reaparelhamento naval focado na negação do uso do mar, para o qual seria preciso uma "força submarina de envergadura". Esta seria construída com a tecnologia do estaleiro francês DCNS (atual Naval Group) e de sócios na indústria brasileira. Os contratos assinados em 2009 somavam o valor de 6,7 bilhões de euros.

A justificativa oficial para o submarino nuclear é a necessidade de uma embarcação de grande autonomia e poder dissuasório para a defesa dos recursos distantes da "Amazônia Azul", sem definir um inimigo específico. Para a economia civil, o programa gera empregos e induz um arrasto tecnológico. Especialistas em defesa discutem se os benefícios compensam a imensa despesa necessária e questionam até que ponto a justificativa oficial é o objetivo real. O programa também pode ser explicado pela inércia institucional e o desejo de projeção internacional, pois seu sucesso colocaria o Brasil no seleto grupo de operadores de submarinos nucleares: Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, China e Índia.

O planejamento naval de 2009 previa uma frota de seis submarinos nucleares e quinze convencionais, mas não houve encomendas adicionais desde então. A base naval em Itaguaí já entrou em operação, tendo recebido a sede do Comando da Força de Submarinos em 2021. Três dos submarinos convencionais já foram comissionados pela Esquadra e mais um está em preparação. Os cronogramas têm sido atrasados desde a crise econômica de 2014, e o programa foi também alvo de investigações de corrupção relativas ao sócio brasileiro da DCNS, a Odebrecht. Ainda há desafios técnicos a superar. Projeta-se que o submarino nuclear, originalmente prometido para cerca de 2020, só entrará em serviço ao final dos anos 2030.

Antecedentes Importação de submarinos (1914–1977)

miniaturadaimagem|Os três submersíveis da classe Foca com suas tripulações As primeiras propostas de construção de submersíveis para a Marinha do Brasil datam do final do século XIX e início do século XX, quando essa tecnologia começava a se distinguir como arma de guerra eficaz entre as potências militares da época. Alguns oficiais brasileiros apresentaram projetos, como o tenente engenheiro naval Emílio Júlio Hess, autor de uma caldeira para embarcações imersas, mas nenhum teve os recursos para seguir adiante. A subsequente história dos submarinos no Brasil é uma sucessão de fornecedores estrangeiros, começando com a Itália, onde foram construídos os três submersíveis da classe Foca, com os quais foi ativada a Flotilha de Submersíveis, precursora da atual Força de Submarinos, em 17 de julho de 1914.

Seguiram-se duas classes italianas, a Balilla, com uma unidade, o Humaytá, em 1929, e a Perla (Tupy, no Brasil), com três unidades recebidas em 1937. Após a Segunda Guerra Mundial a Marinha teve acesso a navios sobressalentes através do Acordo Militar Brasil-Estados Unidos. Ela recebeu, nos anos 1950 e 1960, quatro unidades de submarinos Fleet Type, seguidas por onze unidades de submarinos Guppy no início dos anos 1970. A indisposição dos americanos em transferir equipamentos no estado da arte preocupou a Marinha do Brasil com a nacionalização de componentes e a troca de fornecedores. No Reino Unido compraram-se, até 1977, três unidades da classe Oberon. O Brasil já dominava a operação de submarinos, mas ainda não tinha capacidade de construí-los.

Evolução da propulsão submarina miniaturadaimagem|Fleet Type diesel-elétrico, mesmo tipo em serviço no Brasil nos anos 1950 e 1960 (acima), Nautilus de propulsão nuclear e armamento convencional (no meio) e George Washington de propulsão nuclear e mísseis balísticos (abaixo) A maioria das esquadras no mundo, incluindo a brasileira, usa submarinos de propulsão convencional ou diesel-elétrica, na qual na qual motores diesel carregam baterias e estas alimentam motores elétricos para a navegação submersa. Isto exige aproximações periódicas da superfície para renovar o ar ambiente e carregar as baterias, sacrificando sua maior vantagem, a ocultação. O problema pode ser amenizado com um esnórquel, um mastro içado até a superfície de uma determinada profunidade, a cota periscópica, para admitir o ar atmosférico. Esta inovação fez parte do novo padrão tecnológico pós-Segunda Guerra e foi usada pela primeira vez no Brasil com o Rio Grande do Sul (S-11), comissionado nos anos 1970.

Mesmo admitindo ar com um esnórquel, o submarino convencional se expõe à detecção visual, acústica e radar, pois o topo do mastro fica visível na superfície e a operação dos motores diesel a plena carga irradia muito ruído. Para limitar a exposição, o submarino poupa as baterias, sacrificando a mobilidade. Quanto maior a velocidade submersa, maior o consumo de energia; a velocidade de pico esgota as baterias em poucas horas. Sua autonomia (tempo de operação até regressar à base) e raio de ação são portanto limitados.

Em busca do "verdadeiro submarino", de imersão ilimitada, os engenheiros incorporaram a propulsão nuclear, através da qual poucos quilogramas de combustível de urânio movimentam um submarino nuclear por centenas de milhares de quilômetros. Os únicos limites ao seu raio de ação e autonomia são a resistência da tripulação, os suprimentos e as avarias. Seu reator nuclear fornece maior potência do que as baterias do submarino diesel-elétrico, sem necessidade do ar, desenvolvendo velocidades maiores em períodos mais extensos. Ele gera mais ruído, mas isto é mais do que compensado por não precisar esnorquear. Para acomodar o reator, o submarino nuclear é maior, o que lhe permite mais espaço para armas e mantimentos e casco reforçado para imersão em maiores profundidades.

O armamento de um submarino nuclear pode ser convencional, de mísseis de cruzeiro ou de mísseis balísticos. Na nomenclatura de língua inglesa, isto corresponde às classes SSN, SSGN e SSBN. Nesta classificação, os submarinos diesel-elétricos usados no Brasil são designados SSK e os submarinos pretendidos no Prosub são SSN, também chamados de submarinos nucleares de ataque (SNA). Para ressaltar que o submarino não terá armamento nuclear, a Marinha do Brasil chama-o também de "submarino convencional de propulsão nuclear" (SCNA), o que pode ser confuso no exterior, onde "submarino convencional" é sinônimo de submarino de propulsão diesel-elétrica. O almirante Mauro César Rodrigues Pereira, ministro da Marinha de 1995 a 1999, nega que se tenha cogitado um SSBN brasileiro.

A Marinha dos Estados Unidos lançou ao mar o submarino nuclear pioneiro, o USS Nautilus, em 1954. Durante a Guerra Fria, quatro outras marinhas comissionaram essas embarcações: a soviética, britânica, francesa e chinesa. Todos esses países detinham armas nucleares. O domínio da propulsão nuclear têm requisitos tecnológicos (o enriquecimento de urânio) e políticos: o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), em vigor desde 1970, exige salvaguardas e inspeções da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) para que o combustível nuclear não seja desviado para a fabricação de explosivos. Estados-parte do TNP desprovidos de armamento nuclear sofrem fortes pressões políticas, dissuadindo muitos de buscar a propulsão nuclear. O Brasil demorou até 1998 para assinar o TNP. Seus representantes internacionais ainda são críticos a alguns aspectos do regime de não proliferação nuclear, acusando-o de restringir o acesso dos países subdesenvolvidos à tecnologia nuclear sem uma contrapartida de desarmamento das potências nucleares. O programa brasileiro de propulsão nuclear pode ser contextualizado entre programas contemporâneos de outros dois países em desenvolvimento: a Índia e a Argentina.

Submarinos na estratégia nacional do século XX

miniaturadaimagem|Flotilha de submarinos da classe Tupi Os primeiros submersíveis brasileiros foram projetados para a defesa de costa e tinham um raio de ação e poder de combate limitados., Parte 1. Os submarinos da Segunda Guerra Mundial e início da Guerra Fria dispunham de capacidades maiores, mas sua função principal era de adestrar as forças de superfície e aéreas na escolta de comboios e luta antissubmarino., Parte 4. O paradigma reinante na Marinha era de proteger o tráfego marítimo contra os submarinos inimigos. O conflito seria global e o papel do Brasil seria complementar ao dos Estados Unidos na defesa coletiva do hemisfério. O emprego clássico dos submarinos, na ação ofensiva e negação do uso do mar, era estudado, mas não prioritário.

A doutrina naval dos anos 1970 rompeu com essa postura ao julgar mais provável um conflito regional e não global, contra ameaças aéreas e de superfície, e não só submarinas. As marinhas brasileira e americana continuavam em termos cordiais, mas a brasileira agora sonhava com autonomia estratégica e tecnológica, acompanhando a política externa do governo Geisel (1974–1979). Buscando reconhecimento ao Brasil como potência emergente, este governo rompeu o Acordo Militar com os Estados Unidos e admitiu pautas "norte-sul" e não só a bipolaridade "leste-oeste" da Guerra Fria. Á Marinha, caberia zelar pelos interesses específicos do Brasil no oceano. Havia recursos a defender no mar territorial, expandido a 200 milhas náuticas por decisão unilateral do governo anterior.

Nos sonhos da nova geração de oficiais, uma futura marinha de águas azuis brasileira projetaria poder e negaria o uso do mar ao inimigo através de porta-aviões e submarinos nucleares. Na Guerra Fria as funções dos submarinos nucleares de ataque eram a operação próximo às bases inimigas, próximo às forças-tarefa ou acompanhando unidades inimigas (incluindo submarinos). Eles poderiam atacar unidades de superfície e desembarcar grupos de operações especiais. Na Guerra das Malvinas de 1982, observadores brasileiros impressionaram-se quando um submarino nuclear britânico afundou um cruzador argentino, obrigando a retirada da frota de superfície argentina da região de conflito. O submarino nuclear, que a Argentina não possuía nem tinha como revidar, mostrou-se um instrumento rápido e decisivo para negar o uso do mar ao inimigo.