thumb|Cidade de Carguil no inverno thumb|Vale de Zanskar

O distrito de Carguil (; ) é um distrito do território da União do Ladaque, na extremidade nor-noroeste da Índia. Constitui a parte ocidental dos territórios da região histórica do Ladaque que estão sob a administração da Índia; a parte ocidental é o distrito de Lé. Até 2019 fez parte do antigo estado de Jamu e Caxemira. Além da região histórica de Purigue (Purig) ou Purique (Purik), onde se situa a capital, Carguil, o distrito inclui também a região de Zanskar e os vales do Suru, e . Era o distrito menos povoado de Jamu e Caxemira.

A designação Purigue abarcava as áreas em redor da cidade de Carguil, o vale do Suru, Shaghar Chiktan (ou Shaghkar Chiktan, Pashkum (ou Pashkyum), Bodh Kharbu e Mulbekh. Há muito poucos dados sobre a história da região e a maior parte deles, seguidamente expostos, têm muito mais de lenda do que de história científica.

A primeira figura histórica conhecida na região, embora de forma nebulosa e semilendária, é Gaxo Ta Ta Cã (Gasho Tha Tha Khan ou Thatha Khan), um membro da família real de Gilgit que conquistou a região no século VIII ou IX e ali fundou uma dinastia que perduraria várias centena de anos. Outro dos poucos governantes locais conhecidos é Purique Sulatã (sultão de Purigue), que supostamente construiu vários edifícios na região e dominou a área de Suru, que governou de Karchay Khar, perto de Sankoo (uma aldeia 40 km a sul de Carguil). Outros governantes cujo nome ou existência se conhece são Kunchok Sherabtan, de Fokar, Kalon de Mulbekh, vários Kachos e vários sultões de Sod, de Pashkum, Wakha, Chiktan e Karchey, que governaram pequenos principados.

Primeiros colonizadores O povoamento da região, extremamente fria e agreste foi bastante tardia, data provavelmente do , senão mesmo depois. Os dardos dos vários pequenos vales de Gilgit foram os primeiros povoadores, que na Índia são geralmente mencionados como sendo de "raça ariana".

Gilgit faz parte do chamado Dardistão, uma região hoje maioritariamente administrada pelo Paquistão. A acreditar em alguns estudos de historiadores indianos do início do , o local de origem dos dardos que vivem em Da e Dras é o , nas montanhas do Caracórum. Os dardos de Dras pertencem à tribo (ou sheeba) e os habitantes de Da também falam a língua shina.

Os dardos viajaram até Carguil através do Baltistão e Deosai. Alguns estabeleceram-se no Baltistão. Os que se instalaram em Purigue governaram a região até aos tibetanos atacarem o Zanskar. Segundo o historiador Moulvi Hashmat Ullah Khan, esse ataque teria ocorrido em , enquanto que para Sikandar Khan ocorreu mais de mil anos depois, no século IX ou Ainda há vestígios da língua, costumes, práticas religiosas e caraterísticas étnicas dos antigos dardos em algumas área, como Da-Hanu, Chiktan-Garkun e. de forma menos evidente, em Shanghy-Shaghar. No entanto, a esmagadora maioria dos dardos foram assimilados com os tibetanos. Uma das razões para a proibição do governo indiano da entrada de turistas na área de Da-Hanu na década de 1970 terá sido a preservação da pureza dos seus habitantes "arianos".

Segundo outra versão, aparentemente semilendária, as regiões de Shangshu-Shaghar e Dras foram povoadas antes da chegada dos dardos pelos sete filhos de um tal Poyen Lone. Esses sete pioneiros partiram da região de Chalaas, perto do Nanga Parbat, também no Baltistão e atravessaram o Deosai antes de chegarem a Purigue. Houve membros do clã de Poyen Lone que se instalaram no do Baltistão, a maior parte deles nas aldeias de Barsachal, Targon e Tarkati. Contudo, a cultura e língua dos dardos de Kharmang são diferentes das dos dardos de algums áreas do distrito de Carguil, como por exemplo Da-Hanu ou Garkun. Estes são descendentes de imigrantes de Gilgit e a sua língua, o brushaski, é a mesma que é falada no vale de Hunza.

Imigração das planícies indianas e do Ladaque thumb|esquerda|upright|Jovem budista a dançar uma canção folclórica local em Carguil

Depois da colonização por parte dos dardos e antes da chegada dos tibetanos, chegaram a Purigue imigrantes vindos das planícies indianas, que rapidamente foram assimilados. Segundo o folclore local, os líderes desses imigrantes teriam sido Dastak Paldan and Seergaya Motik. Aproximadamente na mesma altura, — no , segundo Sikandar Khan, — Purigue foi visitada por Lama Naropar e Guru Urgyan Padma, vindos do Zanskar, que levaram com eles Seergaya Motik e Dastak Paldan para Caxemira. Para alguns historiadores locais, como Kacho Sikandar, estas quatro pessoas foram os primeiros habitantes de Caxemira, em Pampore, tendo sido nessa altura que os grandes lagos daquela região estavam a ser drenados para darem lugar a terras habitáveis. As lendas de Caxemira referem que os primeiros habitantes da região foram quatro santos que drenaram os lagos que ocupavam todas as terras, mas não referem que os santos tenham vindo de Purigue ou Zanskar. Há provas da presença de civilização sofisticada em Caxemira no , pelo que nem cronologicamente a lenda tem alguma ligação com a realidade. Contudo, é possível que Seergaya Motik tenha sido quem construiu o castelo existente junto ao rio Indo em Stakna, no Ladaque Central, perto de Lé.

Mais tarde houve uma vaga de imigração de Lé para Purigue. Entre esses imigrantes estavam Teesug e Gangasug, que alguns consideram deusas. O historiador Sikandar Khan chama-lhes dardos, mas Moulvi Hashmat considera-os mons.. Fundaram a aldeia de Achinathang, onde ainda existem ruínas do tempo da fundação, e construíram um castelo no monte Tolon, junto ao Indo, chamado Tolonkhar. Teesug e Gangasug e os seus companheiros Cho Paldan e Chocho Kunzum estabeleceram-se em ‘Stakchey. Nessa época, praticamente toda a região de Purigue era governada por dardos, à exceção de Keteeka Phokar, controlada por tibetanos. Tolonkhar foi depois usado pelos governantes de Chiktan, que também fundaram a aldeia de Stakshan. A casa que as "deusas" construíram em Chiktan Khar desapareceu quando o forte foi reconstruído no mas no rés de chão há uma janela em ruínas que supostamente é da construção original.

Para alguns historiadores de Purigue, como Kacho Skindar, a história da região é basicamente a história das dinastias e clãs dardas e tibetanas.

Unificação sob Tata Cã No século VIII ou , surge o que se pode considerar a primeira figura histórica minimamente aceitável para a historiografia convencional, não baseada apenas no folclore. Trata-se de Gaxo Tata Cã (Gasho Thatha Khan ou Thatha Khan), um membro da família real de Gilgit que conquistou Purigue no início do e ali fundou uma dinastia. Essa dinastia começou por governar a partir da área de Sod e depois estabeleceu-se na área de , onde ainda vivem os seus descendentes. Acredita-se que a família Gasho ou Kacho de Carguil, da qual fez parte o historiador e escritor local Kacho Sikander Cã, é descendente de Tata Cã.

Lendas sobre Tata Cã Há duas histórias no folclore local acerca de Tata Cã. Uma é que ele era uma criança que foi encontrada por caçadores no cimo de um monte e que foi feito rei quando atingiu a maioridade, substituindo o rei cruel que então os governava. Um adivinho tinha dito a este último que um dia haveria um homem que o destronaria. Como a descrição do adivinho correspondia a Tata Cã, o rei mandou assassiná-lo, pelos vistos sem sucesso. Segundo outra história, existiu um príncipe de Gilgit chamado Tancã (Thankhan) cujo meio-irmão Shri Vagor queria matar, o que originou uma guerra civil entre os apoiantes dos dois irmãos.

thumb|Vista da aldeia de Dras e da cordilheira de Tololing

Ambas as lendas convergem depois no episódio em que Tata estava sentado num grande salão assistindo a uma dança quando o seu rival mandou os seus homens matá-lo. O rei julgava que Tata estaria demasiado distraído a ver o espetáculo para conseguir escapar aos soldados, mas os músicos, que adoravam Tata, aperceberam-se do que se passava e começaram a cantar uma canção que o preveniu do ataque eminente. Tata desembainhou a sua espada, espetou-a firmemente no chão e usou-a como escada para para alcançar a chaminé, através da qual fugiu.

Tata saiu do Baltistão acompanhado do seu irmão de leite SaatiTam e entrou em Purigue pelo passo de montanha de Churbat La. Nas margens do rio Indo encontrou um local inabitado fértil, com uma nascente. Embora não houvesse ponte, os dois homens atravessaram o rio porque ele estava gelado. Quando chegou à outra margem, Tata semeou uma noz que trazia no bolso. Os dois homens seguiram depois para Kokashu, que também constataram que era um local fértil. No centro das planícies de Kokashu, Tata plantou ali uma vara ainda verde que levava consigo, que tinha cortado de uma árvore bhoy.

Tata e os seus homens instalaram-se numa das aldeias desabitadas que encontraram. Depos de terem passado em Chey Chey Tjhang, junto ao Indo, dirigiram-se para Blargo, onde foram saudados por gatos que estavam sentados numa pedra dançaram para eles. Naquela aldeia vivia um brokpa rico que tinha construído uma torre com cacos de utensílios de loiça e de barro. A paragem seguinte foi Brolmo, onde confluem os rios Suru e . Ali, uma velha senhora avisou Tata que nas montanhas rochosas de Kharol havia um leão que comia humanos e ensinou-lhe como devia matá-lo, o que ele fez.

Reinado de Tata Cã Durante o reinado de Tata Cã houve várias pessoas que imigraram para Purigue. As primeiras foram a família de Ahmad-pa, cujo nome indica que estes acontecimentos tiveram lugar depois do advento do islão. Depois chegaram as ditas "deusas" Teesug e Gangasug já referidas, a quem foi dada uma casa em Chiktan, área que governaram, ainda que brevemente.

thumb|esquerda|O rio Suru perto de Carguil

Entre os outros soberanos da região contemporâneos de Tata Cã destacavam-se Choo Paldan e Chocho Kunzum. Estes foram tomados como reféns por assaltantes de etnia ghe provenientes Turquemenistão, juntamente com Teesug e Gangasug. Os raides dos ghe a territórios dos reis mon do Ladaque Superior tinham começado ainda antes da ascensão de Tata Cã. O rapto criou um vazio de poder que foi aproveitado por Tata Cã para expandir os seus territórios. Por sua vez, o soberano de Sot viu-se entalado entre duas potências agressivas e expansionistas: de um lado os tibetanos e do outro os dardos. Constatando que não iria conseguir resistir a nenhum dos seus vizinhos nem seuqer a um só deles, entregou o seu reino a Tata.

Nessa época mudaram-se para Sot muitos dos apoiantes de Tata em Gilgit. Tata mudou a sua capital para Kokashu, onde construiu um palácio no local onde antes se erguia a casa do antigo governante local. Depois de consolidar o seu poder em Sot, Tata virou a sua atenção para o desenvolvimento do seu reino. Ordenou o derrube de florestas para fundar Carguil e Poyen Shilikchay, que foram povoadas por gente do Ladaque e de que foi persuadida a lá se instalar. Outra localidade fundada por Tata foi Oma Chak Thang, onde os seus descendentes ainda são proprietários de terras.

Depois disso, Tata estendeu o seu domínio a Baru, Minji e Ground, antes de tomar Khaltsi. Virou então a sua atenção para Suru Karchay, controlada por tibetanos cuja capital era Phokar. A administração tibetana começava a dar sinais de decadência. O principado tibetano foi anexado e o seu governo foi entregue ao filho de Tata, Navaldey. Este, por sua vez entregou a área ao seu filho Choraai Astan, que lá estabeleceu um principado autónomo com capital no que é hoje Sangrah. Ao irmão mais velho de Navaldey, Boti Cã, também conhecido como Moi Gasho, foram entregues os territórios de Sot e Shaghar Chiktan. Um terceiro irmão estabeleceu-se em Gund (atual Kanihama).

O reinado da dinastia terminou várias gerações depois, com o rei muito popular Aldey Choo.

Difusão do budismo thumb|upright|Chamba de Mulbekh, uma escultura gigante em relevo do Buda Maitreya, datada provavelmente do