A memória coletiva é um conceito historiográfico definido como um repositório abstrato de informações referentes a uma comunidade, grupo ou lugar que se constitui a partir de memórias individuais em seu processo de interação social. A memória coletiva é composta de símbolos, histórias, narrações e imagens que participam da construção identitária de determinado conjunto de indivíduos. Pierre Nora a definiu como "a memória, ou o conjunto de memórias, mais ou menos conscientes de uma experiência vivida ou mitificada por uma comunidade, cuja identidade é parte integrante do sentimento do passado".Pierre Nora, «Mémoire collective», in Jacques Le Goff (curatore). La nouvelle histoire, Paris: Retz, 1978, p. 398.
Etimologia A palavra memória se relaciona à evolução e acepção linguística do termo μνήμη (em grego antigo: mnḗmē, “memória”, “lembrança”), relacionando-se, assim, ao mito grego da titânide e divindade da memória, Mnemosine (em grego: Μνημοσύνη). Relaciona-se, também, aos termos μέρμερος (mérmeros, “ansioso”), μέριμνα (mérimna, “cuidado, “pensamento”)MARTIN, Thomas R. Ancient Greece from Prehistoric to Hellenistic Times. Yale University Press, 1996.. No latim, é entendido por memoria, da junção de memor (“atenção, lembrança) + -iaVIEIRA, J. L. Dicionário Latim-Português: Termos e Expressões. Edipro, 1. ed. 2020, 1078 p.. Acredita-se que a palavra tenha surgido da raiz *(s)mer- (lembrar, cuidar, pensar), da língua protoindo-europeia.RIX, Helmut (org.). “2.*smer-”. In: Lexikon der indogermanischen Verben [Lexicon of Indo-European Verbs], 2. ed. 2001. Wiesbaden. p. 570
Origens O estudo da memória coletiva é tema de áreas como a História, a História da Arte, a Filosofia, a Antropologia, a Arqueologia, a Sociologia e a Psicologia Social. Sua definição, nessas áreas, costuma estar atrelada a outras noções e conceitos, como o de Amnésia Social, Enquadramento, Esquecimento, Identidade, Monumento e Testemunha. No século XX, alguns estudiosos que contribuíram para a definição do conceito de Memória foram o sociólogo Maurice Halbwachs, com o conceito de memória coletiva, o historiador Pierre Nora, com o conceito de lugares de memória, e o antropólogo André Leroi-Gourhan, que classificou a memória em três tipos: específica, étnica e artificial.
Na primeira década do século XXI, o filósofo Paul Ricoeur publicou a obra “A Memória, A História, o Esquecimento”, em que traz à reflexão o conceito de memória e de esquecimento a partir de uma abordagem fenomenológica. O antropólogo Jöel Candau pensa o conceito em relação ao de Identidade, e propõe pensar a Memória a partir de três níveis, dividindo-a em: (1) memória de baixo nível ou protomemória, (2) memória de alto nível ou memória de recordação ou reconhecimento, e (3) metamemória ou representação que os indivíduos fazem da sua própria memória. Outros autores deram ênfase no estudo da história do conceito de Memória e de como as sociedades históricas entenderam o fenômeno, como é o caso do historiador Jacques Le Goff, com seu verbete “Memória”, a historiadora Frances Yates, com seu estudo sobre a Arte da Memória, e o historiador e filósofo Paolo Rossi, com seus ensaios de história das ideias reunidos no livro “O Passado, a Memória, o Esquecimento”.
O conceito de Memória tem sido abordado nas ciências humanas e sociais para a discussão de temas de pesquisa e como conceito central em campos de estudos, tais como: as políticas de memória - tema abordado por Andreas Huyssen, por exemplo - a cultura da memória, desenvolvido por Beatriz Sarlo, as memórias sensíveis, as guerras de memória, o Revisionismo Histórico, as Artes Visuais, a Crítica Literária, a História Oral, o Patrimônio Cultural.
De acordo com Benito Bisso Schmidt, o interesse pelo fenômeno da memória nas diversas áreas do saber e também no campo da criação artística cresceu a partir da segunda metade do século XIX, período marcado pela industrialização e urbanização. Enquanto alguns grupos valorizaram e celebraram essas transformações como progressos no campo da ciência e da tecnologia, outros passaram a vê-las como responsáveis pela “perda dos vínculos comunitários”, pelo “esfacelamento das identidades consolidadas”, e pela “quebra das tradições”. Conforme o autor: “Diante das sensações de desenraizamento e de perda de referenciais, a memória delineou-se como um campo privilegiado de reflexões e debates”.SCHMIDT, B. B. Entre a filosofia e a sociologia: matrizes teóricas das discussões atuais sobre história e memória. Estudos Ibero-Americanos. PUCRS, v. XXXII, n. 1, jun. 2006, pp. 85-97.
Naquele contexto, entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, os primeiros autores a se debruçar sobre o tema da memória foram: Sigmund Freud (1856-1939), que desenvolve o conceito em vários de seus escritosPara saber mais, consultar: FERRARINI, Pâmela Pitágoras Freitas Lima; MAGALHÃES, Lívia Diana Rocha. O conceito de memória na obra Freudiana: breves explanações. Estudos Interdisciplinares em Psicologia. Londrina, v. 5, n. 1, jun. 2014, pp. 109-118. , Henri Bergson (1859-1941), autor de “Matéria e Memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito”, Marcel Proust (1871-1922), autor do romance “Em Busca do Tempo Perdido”, e Maurice Halbwachs (1877-1945), de “A Memória Coletiva”, sendo este o mais referenciado pela historiografia desde a sua publicação.
Definição Memória coletiva é uma definição para o conceito de Memória apresentada pelo sociólogo francês Maurice Halbwachs. O conceito foi difundido principalmente a partir da publicação póstuma de seu livro deixado inacabado “A Memória Coletiva”HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2006., cuja primeira edição data de 1950 e foi publicada primeiramente na França. Antes disso, o tema da memória já estava presente na sua produção desde 1925, quando publicou “Os Contextos Sociais da Memória”, obra com forte influência da sociologia durkheimianaDUVIGNAUD, Jean. Prefácio. In: HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2006, p. 7.. Halbwachs é considerado um discípulo do sociólogo Émile Durkheim, e é identificado com o grupo da chamada Escola de EstrasburgoSCHMIDT, Maria Luisa Sandoval e MAHFOUD, Miguel. Halbwachs: memória coletiva e experiência. Psicologia USP. 1993, vol.4, n.1-2, pp. 285-298.. Sua produção é definida como interdisciplinar, com aproximações com a ciência histórica, tendo Halbwachs, inclusive, mantido diálogos com Marc Bloch e Lucien Febvre, historiadores creditados como os fundadores da Escola dos Annales e que foram seus contemporâneos na Universidade de EstrasburgoUVIGNAUD, 2006, p.11 e SCHMIDT, 2006, p. 93..
A ideia principal da definição proposta por Halbwachs para o conceito de memória coletiva é que a memória é sempre formada pelo indivíduo no seu processo de interação social. Para o autor, a memória individual nunca está “inteiramente isolada e fechada”, mas o indivíduo que lembra o faz a partir de pontos de referência encontrados no mundo externo – na sociedade, na relação com o outro. Em uma passagem da sua obra, Halbwachs define esse pensamento:Para que a nossa memória se aproveite da memória dos outros, não basta que estes nos apresentem seus testemunhos: também é preciso que ela não tenha deixado de concordar com as memórias deles e que existam muitos pontos de contato entre uma e outra para que a lembrança que nos fazem recordar venha a ser reconstruída sobre uma base comum. Não basta reconstruir pedaço a pedaço a imagem de um acontecimento passado para obter uma lembrança. É preciso que esta reconstrução funcione a partir de dados ou de noções comuns que estejam em nosso espírito e também no dos outros, porque elas estão sempre passando destes para aqueles e vice-versa, o que será possível somente se tiverem feito parte e continuarem fazendo parte de uma mesma sociedade, de um mesmo grupo.HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2006, p. 39.A definição de que a memória individual depende e só é formada a partir de grupos de referência é retomada pelo autor de “A Memória Coletiva” mais adiante, quando reforça a impossibilidade de formação de uma memória individual que esteja deslocada da relação do indivíduo com o ambiente social em que vive. Nesse sentido, a própria linguagem escrita ou falada que os indivíduos carregam e expressam é um instrumento que permite que as lembranças sejam elaboradas:Examinemos agora a memória individual. Ela não está inteiramente isolada e fechada. Para evocar seu próprio passado, em geral a pessoa precisa recorrer às lembranças de outras, e se transporta a pontos de referência que existem fora de si, determinados pela sociedade. Mais do que isso, o funcionamento da memória individual não é possível sem esses instrumentos que são as palavras e as ideias, que o indivíduo não inventou, mas toma emprestado de seu ambiente.Idem, p. 72.Alguns exemplos mencionados por Halbwachs para construir seu conceito se referem à memória da primeira infância. Segundo afirma, a não lembrança desse período das nossas vidas é explicada pelo fato de que, nesta fase, “nossas impressões não se ligam a nenhuma base [comum] enquanto ainda não nos tornamos um ser social”Idem, p. 43.. Eventualmente, podemos ter a impressão de alguma lembrança da nossa primeira infância, mas se tratam de lembranças formadas mais tarde, a partir do que nos contam nossos pais sobre aquele período, por exemplo.
Halbwachs também propõe na sua obra mais conhecida uma distinção entre a memória coletiva e a história, apontando dois aspectos desta diferença. Primeiro, a memória coletiva se distingue da história por ser “corrente de pensamento contínuo”, por estar viva na consciência do grupo que a mantém e, por definição, não ultrapassar os limites desse grupoIdem, p. 102.. Já a história, para o autor, é caracterizada por ser descontínua, por realizar a divisão dos fatos ou do tempo passado (como a divisão da sequência dos séculos em períodos), obedecendo a uma “necessidade didática de esquematização”Idem, p. 103..
Além disso, a memória coletiva se apresenta de forma múltipla, sendo mais preciso, inclusive, se falar na existência de “muitas memórias coletivas”, diferentemente da história, que se apresenta como única. Como afirma o autor: “A história pode se apresentar como a memória universal da espécie humana. Contudo, não existe nenhuma memória universal. Toda memória coletiva tem como suporte um grupo limitado no tempo e no espaço”Idem, p. 106..
Sobre este pensamento de Halbwachs a respeito da História, José D’Assunção BarrosBARROS, José D’Assunção. Tempos e lugares da memória - uma relação com a História. Historiae. Rio Grande, v.8, n.1, 2017, pp. 9-30. aponta para o fato de que o sociólogo francês expressava a concepção de História ligada à historiografia francesa dos Annales e mesmo às historiografias marxistas daquele período, precedidas das “historiografias plurais” desenvolvidas mais recentemente, especialmente a partir das últimas décadas do século XXIdem, pp. 15-16.. O uso do conceito de memória coletiva de Halbwachs é muito recorrente nas produções de pesquisadores das ciências humanas e sociais, notadamente na área de História. Por exemplo, é a partir do conceito de Halbwachs que Pierre Nora desenvolve o conceito de Lugares de Memória.
Já Michel Pollak, que produziu sobre as chamadas memórias subterrâneas, irá retomar o autor de “A memória coletiva” para repensar o conceito de memória individual, e demonstrar como os sujeitos esquecem ou silenciam, por várias razões, quanto a temas que podem ser traumáticos (como a experiência do Holocausto, por exemplo).
História e Memória Coletiva