Berta Gleizer Ribeiro (nascida Bertha Gleizer; Bălți, — Rio de Janeiro, ) foi uma antropóloga, etnóloga e museóloga moldava-brasileira, autoridade em cultura material dos povos indígenas do Brasil. Foi casada com o também antropólogo e senador Darcy Ribeiro.

Bertha e sua irmã mais velha Genny, foram abandonadas ainda crianças numa pequena província do Leste Europeu após o suicídio da mãe, pois seu pai já se encontrava no Brasil em busca de oportunidades de trabalho devido à perseguição antissemita que os judeus estavam sofrendo na região. Somente com a ajuda de uma organização internacional é que as duas conseguiram reencontrá-lo em 1932. Alguns anos depois, sua irmã e seu pai são presos e deportados por supostas atividades subversivas na época em que o país passava por intensa repressão política aos imigrantes judeus no início da ditadura Vargas. Ficando órfã, passa a ser cuidada por famílias de imigrantes judeus sob a tutela do Partido Comunista Brasileiro (PCB), se casando posteriormente com Darcy Ribeiro em 1948.

A carreira de Berta Ribeiro passa então a ser construída de acordo com os movimentos profissionais e políticos do marido ao longo dos anos, mas sua grande ascensão ocorre quando dele se separa na década de 70, aos 50 anos de idade. Adquire então uma nova paixão, os saberes e fazeres dos povos indígenas, e esse reposicionamento pessoal propicia a sua manifestação e produção em vários setores: acadêmico, político, cultural, editorial e artístico, se tornando posteriormente a maior especialista em cultura material indígena no Brasil do seu tempo.

Ia a campo desenvolver suas pesquisas, a partir do contato direto com diferentes povos indígenas em vários estados do país. Visitou vários museus pelo mundo, organizando exposições sobre arte e cultura indígenas do Brasil, além de publicar constantemente sobre povos e costumes. Construiu também importantes bases metodológicas e de classificação para pesquisas de cultura material e na documentação etnomuseológica dos acervos etnográficos. Sua intensa produção acadêmica, artística e cultural foi decorrente da dedicação exclusiva ao seu trabalho, pois atuou em diversas frentes — como pesquisadora e formadora de coleções em museus, publicou nove livros e mais de quarenta artigos, escreveu capítulos em várias obras, além de ter sido professora universitária em cursos de graduação e pós-graduação. Até o fim da vida, atuou nos campos da antropologia, museologia, etnologia, arte e ecologia.

Foi membro da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), do Conselho Regional de Museologia do Rio de Janeiro e também do Conselho Editorial das Revistas Ciências em Museus, Ciência Hoje das Crianças e dos Anais do Museu Paulista. Fez parte da comissão julgadora de seleção para pós graduação em Artes Visuais e professora no programa de mestrado em História e Crítica da Arte na Escola de Belas-Artes (EBA/UFRJ). Foi assessora da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e chefe de museologia do Museu do Índio (MI), professora do Departamento de Antropologia do Museu Nacional e também desenvolveu pesquisas para a National Geographic Society.

Biografia Família e primeiros anos Bertha Gleizer nasceu em 2 de outubro de 1924, na cidade de Bălți (atualmente na Moldávia), região romena da Bessarábia. De família judia, filha de Rosa Sadovinic Gleizer e Motel Gleizer. Seu pai deixou o país em julho de 1929, imigrando para o Brasil na busca por melhores condições de sobrevivência e desenvolvimento, pois a situação era precária devido as graves restrições que os judeus na Romênia vinham sofrendo com o aumento do antissemitismo, a ascensão de movimentos fascistas cristãos e também dos ataques pogroms no território. Motel, não podendo buscá-las de imediato, nem mandar-lhes o necessário para viver, recebeu a notícia do suicídio de sua esposa Rosa, pois ela não suportara a vida miserável, deixando as duas filhas sozinhas. Graças ao intermédio da Jewish Colonization Association (JCA), uma organização internacional que fornecia aos judeus meios para emigrarem e também pela intercessão do rabino Raffalovich, as meninas foram trazidas para o Brasil. Berta chega ao Rio de Janeiro como imigrante, aos oito anos de idade na companhia da irmã, Genny Gleizer de quatorze anos (às vezes, escrito Jenny) em 1932, e sendo os três muito pobres, dividiam um quarto na Rua do Riachuelo. Seu pai trabalhava como comerciante nos arredores da Praça XI, reduto da comunidade judaica na época.

Em 1934, sua irmã Genny vai para São Paulo em busca de trabalho, mas acaba sendo presa indevidamente, quando ainda era menor de idade, pela polícia política paulista em 15 de julho de 1935 por supostas atividades subversivas. Ficou incomunicável por muito tempo, sofrendo torturas físicas e psicológicas e apesar da grande comoção no país e dos protestos populares contra sua prisão, foi deportada para a Romênia na madrugada de 12 de outubro de 1935 via Porto de Santos à bordo do cargueiro francês Aurigny. Chegando na França entretanto, foi resgatada e posteriormente, estabeleceu-se nos Estados Unidos, onde formou-se em psicologia. Seu caso serviu como modelo para as futuras ações repressivas do governo Vargas, a partir da reestruturação da polícia política, que passava a agir baseada na recém promulgada Lei de Segurança Nacional de 1935.

Três meses após a expulsão da irmã, no início de 1936 — auge da repressão aos imigrantes no Brasil —, a polícia política invade um centro cultural de trabalhadores judeus onde funcionava a redação do semanário Der Unhoib (O Começo), buscando e prendendo os estrangeiros que lá se encontravam, sendo a maioria deportada juntamente com seu pai à bordo do navio Bagé em 16 de abril de 1936. Assim como Genny, Motel Gleizer teria sido resgatado na França junto a outros imigrantes expulsos do país e posteriormente, foi morto em um campo de concentração.

Berta ficou órfã no Brasil, e entre 1936 e 1940 foi morar com famílias judias no Rio de Janeiro e em São Paulo, sob a guarda do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em São Paulo, estudou na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), frequentando também um curso técnico de contabilidade, e para levantar dinheiro e concluir seus estudos, foi datilógrafa e também secretária — com esse emprego, mudou-se para uma pensão em 1940, tornando-se independente do PCB.

Casamento Em 1946, conhece seu futuro marido, Darcy Ribeiro, em uma manifestação do Partido Comunista em São Paulo, casando-se em maio de 1948, quando o mesmo ingressou no Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Com ele, partiu para um trabalho de campo entre os índios Kadiwéu, Kaiowás, Terenas e Ofaié-Xavantes do sul do Mato Grosso. Passou então a assinar Berta G. Ribeiro, omitindo o sobrenome Gleizer, o qual poucos conheciam, pois sempre temeu ter o mesmo destino de seus familiares.

Ribeiro exerceu inúmeras pesquisas de campo, que se iniciaram entre 1949 e 1951 quando começou a acompanhar o marido. A esse respeito, descreveu Maria Stella Amorim: "de seu amor por Darcy adveio a paixão pela antropologia", e as viagens se seguiram até quase o fim da sua vida. O trecho, retirado da obra autobiográfica Confissões de Darcy Ribeiro, retrata, ainda que de maneira breve, a importância da esposa em sua vida:

Carreira Em 1950, Berta Ribeiro ingressou no bacharelado em Geografia e História da Universidade do Distrito Federal (UDF) — atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Concluiu o curso em 1953, indo lecionar Geografia do Brasil no Instituto Lafayette. Em 1953, começou a estagiar na Divisão de Antropologia do Museu Nacional, iniciando seus estudos para criar uma classificação dos adornos plumários dos índios Urubu-Kaapor, concluindo sua licenciatura em Geografia e História em 1954.

Ribeiro elaborou instrumentos metodológicos inovadores de classificação de acervos de cultura material, descritos em Bases para uma Classificação dos Adornos Plumários dos Índios do Brasil publicado em 1957. Apresentou diversos trabalhos e organizou mostras culturais nos anos seguintes, sempre com temáticas sobre cultura indígena. Recebeu o Prêmio João Ribeiro, da Academia Brasileira de Letras (ABL), pelo livro Arte Plumária dos Índios Kaapor, em colaboração com o marido. Entre 1959 e 1960, empreende pesquisa bibliográfica para a elaboração do artigo Línguas e Culturas Indígenas no Brasil e do livro Os Índios e a Civilização, de Darcy Ribeiro.

Exílio Com o Golpe de Estado no Brasil em 1964, Berta Ribeiro e o marido exilaram-se no Uruguai. Trabalha então na pesquisa bibliográfica e na revisão de traduções para a série Estudos de Antropologia da Civilização e no levantamento bibliográfico e estatístico de A Universidade Necessária, ambas publicações de Darcy Ribeiro. O casal retorna ao Brasil em 1968, mas Darcy foi preso e ficou durante oito meses na Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói. Do lado de fora, Berta mobilizou intelectuais e pessoas influentes para agilizar sua libertação. Após nova determinação de prisão pelo regime militar, o casal Ribeiro segue então para um segundo exílio em 1969 na Venezuela, e de 1970 a 1974 no Chile e no Peru. Em Lima, Berta Ribeiro realiza pesquisa sobre estrutura familiar e socialização em uma oficina coordenada pela professora Violeta Sara Lafosse, recolhendo dados para sua dissertação Crianças Trabalhadoras – Trabalho e Escolaridade de Menores em Lima.

Retorno ao Brasil thumb|right|Aldeia Maracanã, antigo Museu do Índio em 2013 Em 1974, já no Brasil, separa-se do marido e no ano seguinte presta consultoria para a elaboração do projeto do Centro de Documentação Etnológica e Indigenista do antigo Museu do Índio do Rio de Janeiro, dirigido por Carlos de Araújo Moreira Neto e em 1975 assume a assistência de direção da Editora Paz e Terra. No ano de 1976, estagia no setor de etnologia e etnografia do Departamento de Antropologia do Museu Nacional e atua como pesquisadora no projeto Etnografia e Emprego Social da Tecnologia Indígena e Popular coordenado por Maria Heloísa Fenelón Costa. Em 1977, torna-se Pesquisadora B do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). Visitou diversas aldeias indígenas no Alto e Médio Xingu e no Ceará. Entre 1978 e 1979, participou do Movimento Feminino pela Anistia e da Campanha pela demarcação das Terras Indígenas, coordenada pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI).

thumb|left|Prainha em São Gabriel da Cachoeira, região do Alto Rio Negro Em 1978, quando a antropóloga se encontrava na região do Alto Rio Negro para estudar o trançado indígena, soube que dois indígenas haviam escrito a mitologia dos Desana, motivados anteriormente por um padre da Missão Salesiana de São Gabriel da Cachoeira a transcrever essas narrativas. No mesmo período em que estava na localidade e os originais foram devolvidos por uma editora, Ribeiro se interessou pelo projeto e ajudou pai e filho — Umúsin Panlõn Kumu (Firmiano Lana) e Tolamãn Kenhirí (Luis Lana), a reformularem o texto de forma a conseguir sua publicação em 1980, que se tornou o livro Antes o Mundo Não Existia, e criando assim, uma parceria com a família Lana que se estendeu até o fim da sua vida. Sempre ficou patente em suas publicações e em seu discurso, o quanto ela prezava de modo especial os Desana, dentre todos os grupos indígenas que conheceu.

Em princípios dos anos 80, no Rio de Janeiro, concebeu a exposição Os Índios das Águas Pretas, provavelmente a primeira das quais foi curadora, e que envolvia, como as que se seguiram posteriormente, aspectos da vida indígena, assim como a discussão de temas amazônicos relacionados com a ecologia. Nessa mesma ótica, foram montadas com grande repercussão, as exposições Brasilidades na Casa França-Brasil em 1998 e Amazônia Urgente em 1990, que acompanhada de seu livro homônimo, itinerou pela Estação Carioca no Rio de Janeiro, pelo Centro Cultural São Paulo, em Brasília e pelo Centro Cultural Tancredo Neves em Belém.

thumb|right|Aldeia no Parque Indígena do Xingu