Ana Maria Luísa de Médici (), (11 de agosto de 1667 – 18 de fevereiro de 1743) foi o último membro da Casa de Médici. Por vezes, em italiano, é também denominada pela variante Anna Maria Ludovica.

Mecenas das artes, ela legou a enorme coleção dos Médici, incluindo os conteúdos de Galleria degli Uffizi, Palácio Pitti e da villas Mediceias (que herdara em 1737 após a morte de seu irmão, João Gastão de Médici, Grão-duque da Toscana) e os tesouros Palatinos (que herdara do marido), ao Estado da Toscana, na condição de que nenhuma parte pudesse vir a ser retirada de Florença "a capital do estado Grão-ducal....[e da sucessão do Sereníssimo Grão-duque".Casciu, pp. 80–88

Ana Maria Luísa era a única filha de Cosme III de Médici, Grão-duque da Toscana, e de Margarida Luísa de Orleães, sobrinha de Luís XIII de França. Pelo casamento com João Guilherme, Eleitor Palatino, tornou-se Princesa-Eleitora do Palatiinado.

A corte Palatina, em Dusseldórfia ganhou a reputação de importante centro de música, dada a proteção de princesa às artes em geral e à música em particular. Como João Guilherme contraíra sífilis o seu casamento não teve descendência o que combinado com a falta de descendência dos seus irmãos significou que os Medici estavam à beira da extinção.

Em 1713 Cosme III alterou as leis de sucessão Toscanas para permitir a sucessão de sua filhana Toscana vigorava a lei Sálica e passou os últimos anos da sua vida a auscultar as potências europeias para que reconhecessem esse novo estatuto. Contudo, em 1735, como parte de um rearranjo territorial e dinástico, as potências europeias nomearam Francisco III Estêvão, duque da Lorena como herdeiro, que acabou por suceder no trono em lugar da princesa. Após a morte do marido, Ana Maria Luísa regressou a Florença, onde tomou o papel de primeira dama, até à ascensão do irmão, João Gastão, que a afastou da corte impondo-lhe residência na Villa La Quiete. Quando João Gastão morreu, em 1737, os enviados de Francisco III Estêvão ofereceram a Ana Maria Luísa a posição de regente nominal da Toscana, mas ela declinou. A sua morte, em 1743, implicou a extinção da Dinastia de Médici, sendo os seus restos mortais sepultados na necrópole da família, a Basílica de São Lourenço, em Florença, que ela ajudara a concluir.

Biografia

Início de vida Apesar dos esforços de sua mãe para interromper a gravidez, com longos passeios a cavalo,Acton, p 101 o parto ocorre com normalidade, nascendo Ana Maria Luísa de Médici que veio a ser a única filha e segunda criança do casamento de Cosme III de Médici, Grão-duque da Toscana, com Margarida Luísa de Orleães. Foi batizada em honra da sua tia materna Ana Maria Luísa de Orleães, Duquesa de Montpensier.

A relação dos seus pais era tempestiva: Margarida Luísa não perdia uma oportunidade para humilhar Cosme.Acton, p 93 Numa ocasião que ficou documentada, ela classificou o marido como "um pobre noivo" na presença do Núncio Papal. A inimizade entre eles continuou até 26 de dezembro de 1674; após todas as tentativas de conciliação falharem, um nervoso Cosme consentiu que a mulher partisse para o Convento de Montmartre, em França. O contrato estabelecido nesse dia revogava os seus privilégios como petite fille de France), e declarava que, após a sua morte, todos os seus bens seriam herdados pelos filhos. Como compensação, Cosme assegurou-lhe uma pensão de 80 000 libras.Acton, pp. 133–135 A Grã-duquesa abandonou a Toscana em junho de 1675 e Ana Maria Luísa nunca mais viu a mãe,Strathern, p 389 sendo criada pela sua avó paterna Vitória Della Rovere.Young p 471

Eleitora Palatina Em 1669, Ana Maria Luísa foi considerada uma noiva potencial para Luís, Grande Delfim de França, o herdeiro-aparente de Luís XIV de França. Cosme III não gostava da ideia de uma aliança com a França, e nunca se dedicou muito a essa causa (ela acabou por ser rejeitada).Acton, p 151 Em vez disso, Cosme ofereceu a mão da filha à sua primeira escolha: o rei Pedro II de Portugal, que ficara viúvo. Portugal era um país com fortes afinidades económicas com a Toscana e aquando da visita ao país, Cosme ficara com excelente impressão das potencialidades do reino, Mas os ministros de Pedro II, temendo que a Princesa Ana Maria Luísa viesse a dominar Pedro II dado que poderia ter herdado a maneira de ser da mãe, declinaram.Acton, p 165 De facto, contemporâneos achavam que o seu feitio era uma combinação do humor do pai e o da avó paterna, Vitória Della Rovere.

Jaime II de Inglaterra propôs o seu cunhado, Francisco II d’Este, Duque de Módena, mas a princesa considerou o estatuto de Duque demasiado baixo em termos de protocolo para a filha de um Grão-duque.Acton, p 182

Após as recusas de Espanha, de Portugal, de França e de Saboia, Leopoldo I, Sacro Imperador Romano-Germânico, sugeriu João Guilherme, Eleitor Palatino.Acton, p 181 O Eleitor Palatino obtivera do imperador o tratamento de Alteza Real, para Cosme III em fevereiro de 1691.Recorde-se que Cosme III fora ultrapassado em precedência pelo Duque de Saboia –o que o deixara furioso- que obtivera o estatuto “real” dada a sua pretensão ao trono de Chipre, reino já abolido) Consequentemente, João Guilherme, fora a última escolha, tendo os noivos casado por procuração em 29 de abril de 1691. Nas festividades que se seguiram, um contemporâneo descreve os atributos físicos da nova Princesa-Eleitora: "é alta, de compleição equilibrada, olhos grandes e expressivos, e de cor preta tal como o cabelo; a sua boca era pequena, com lábios cheios; os dentes tão brancos como marfim....".

Em 6 de maio de 1691, ela partiu para Dusseldórfia, a capital dos estados do seu marido, acompanhada pelo seu irmão mais novo, João Gastão de Médici. João Guilherme surpreendeu-a em Innsbruck, onde a foi receber e onde oficialmente casaram. O Palatinado que Ana Maria Luísa veio a encontrar, era um país devastado pela Guerra dos Nove Anos, que estava em curso. Luís XIV atacara o Palatinado em nome do seu irmão, Filipe I de Orleães, ocupando a cidade de Philippsburg.Wilson, p 88Pevitt, p 14

Ana Maria Luísa engravidou em 1692; contudo, ela sofreu um aborto. Pensou-se que pouco após a sua chegada teria contraído sífilis do marido, o que explicaria porque Ana Maria Luísa e João Guilherme falharam em produzir descendência.Hale, p 189Hale, pp. 188–189Hibbert, p 304 Ana Maria Luísa e João Guilherme, não obstante, partilharam um casamento harmonioso Lawrence, p 230

Mecenas das artes A Eleitora passava a maior parte do seu tempo em bailes, eventos musicais e outras festividades. O marido patrocinou a construção dum teatro onde Ana assistia a peças de escritor francês Molière.Mosco, p 185 Mas também a própria Ana Maria Luísa protegia muitos músicos, a ponto da corte Palatina ser vista como um centro internacional de música erudita.Chelleri, Fortunato; Vavoulis, Vavoulis, p ix Ela convidou Fortunato Chelleri para a sua corte, nomeando-o maestro di cappella ("mestre de música"). Agostino Steffani, a polímata, foi patrocinado pela Eleitora desde a sua chegada a Düsseldorf, em 1703, até ao seu regresso à Toscana; a biblioteca do Conservatório de Florença acomoda duas edições dos seus duetos de câmara.Timms, p 116

Instigada pelo pai, Ana Maria Luísa negociou o casamento do irmão mais novo e, em 2 de julho de 1697, João Gastão de Médici casou, em Dusseldorfia, com Ana Maria Francisca de Saxe-Lauemburgo, herdeira do ducado de Saxe-Lauemburgo.Acton, pp. 208–211 Mas a mulher de João Gastão repugnava-o e acabaram por se separar em 1708.Strathern, p 404

No mesmo ano do casamento de João Gastão, foi celebrada a Paz de Ryswick que terminou com a Guerra dos Nove Anos. As tropas francesas retiraram do Eleitorado do Palatinado e João Guilherme recebeu o Condado de Megen (nos Países Baixos). Na sequência da revogação do Édito de Nantes, um documento que dera direitos aos Calvinistas em 1685 2 000 huguenotes franceses tinham emigrado, em 1685, para o Palatinado.Otterness, p 14 João Guilherme, fortemente criticado pelo eleitor do Brandemburgo, pelo tratamento dado aos protestantes Palatinos, introduziu a Religionsdeklartion em 1705, que sancionava a liberdade religiosa.Otterness, p 15

A sucessão Toscana

Cosme III desejava alterar a sucessão Toscana, que até à data se fazia unicamente por linha masculina, de forma a permitir a ascensão da sua filha, Ana Maria Luísa, na eventualidade de falhar a sucessão masculina. Mas os seus planos tiveram uma forte oposição quer do imperador, quer das potências europeias.Acton, p 255 Carlos VI, Sacro Imperador Romano-Germânico, suserano nominal da Toscana, aceitaria essa decisão na condição dele lhe sucedesse. Cosme e sua filha discordavam da proposta. Sem um acordo à vista, a "Questão Toscana" ficou adormecida.Acton, p 256

Alguns anos mais tarde, como a sucessão se tornara mais urgente, o Cardeal Francisco Maria de Médici, irmão mais novo de Cosme III, foi liberto dos seus votos e coagido a casar com a filha do duque reinante de Guastalla, Leonor Gonzaga, em 1709. A Eleitora suplicou-lhe que cuidasse da sua saúde e que "nos desse a consolação dum pequenino príncipe".Acton, p 246 Contudo, dois anos mais tarde, ele morreu sem geração, levando consigo quaisquer esperanças de um herdeiro.Acton, p 251

Na sequência do morte do seu herdeiro aparente, o Grão-príncipe Fernando, em 1713, Cosme apresentou uma lei no Senado, a assembleia legislativa da Toscana, promulgando que Cosme e o seu novo herdeiro-aparente, João Gastão, deveriam preceder a Eleitora, caso ela ascendesse ao trono.Young, p 479 Carlos VI ficou furioso; respondeu que o Grão-ducado era um feudo imperial e, por isso, apenas ele tinha a prerrogativa de alterar as leis de sucessão.Acton, p 261 Para complicar ainda mais as coisas, Isabel Farnésio, herdeira do Ducado de Parma e Placência, segunda mulher de Filipe V de Espanha, na sua qualidade de bisneta de Margarida de Médici,tia de Cosme III apresentou as suas pretensões ao trono da Toscana.Solari, p 282Young, p 480 Em maio de 1716, Carlos VI, que mudava constantemente de posição sobre a matéria, disse a Florença que a sucessão da Eleitora estava fora de causa, referindo também que a Áustria e a Toscana deveriam em breve chegar a acordo sobre qual a casa real que deveria suceder aos Médici.Acton, p 262

Em junho de 1717, Cosme manifestou o desejo de que fosse a Casa d’Este a suceder à Eleitora. Anteriormente, Carlos VI oferecera ao Grão-duque compensações territoriais (que se traduziriam no Estado dos Presídios) caso ele escolhesse rapidamente. Mas, em 1718, Carlos VI repudiou a escolha de Cosme, declarando que a união da Toscana e do Ducado de Módena (o património dos Este) era inaceitável.Acton, p 267 A partir daqui gerou-se um impasse entre os dois.Young, p 482

Regresso a Florença

O Eleitor Palatino morreu em junho de 1716. A sua viúva, Ana Maria Luísa, regressou a Florença em outubro de 1717.Acton, p 264 A Grã-princesa viúva Violante Beatriz, viúva do seu irmão Fernando, e Ana Maria Luísa não mantiveram uma boa relação. Assim que teve conhecimento da intenção de Ana Maria Luísa de regressar, Violante Beatriz preparou a sua partida para Munique, a capital do estado governado pelo irmão, mas João Gastão quis que ela ficasse.Acton, p 265 Para impedir que as duas senhoras entrassem em conflito sobre a precedência, Cosme III definiu o estatuto de Violante Beatriz pouco antes da chegada da Eleitora, nomeando-a Governadora de Siena.Acton, pp. 265–266

A 4 de abril de 1718 a Inglaterra, a França e as Províncias Unidas (e mais tarde a Áustria) acordaram em nomear Carlos de Bourbon, o filho mais velho de Isabel Farnésio e de Filipe V de Espanha, como herdeiro da Toscana (sem qualquer referência a Ana Maria Luísa).Solari, pp. 281–282 Em 1722, a Eleitora nem sequer fora reconhecida como herdeira e Cosme III reduzido a espetador na conferência sobre o futuro da Toscana.Acton, p 275