O Retábulo de Santa Auta é um políptico de cinco pinturas a óleo sobre madeira de carvalho de cerca de 1520-1525 de um artista português do Renascimento que, por não estar perfeitamente identificado, se designa como o Mestre do Retábulo de Santa Auta, obra proveniente do Convento da Madre de Deus, em Xabregas, e cujos três painéis, dois deles pintados de ambos os lados, estão actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa. O Retábulo de Santa Auta, que se destinou inicialmente a decorar a capela do Convento da Madre de Deus onde foram depositadas as relíquias de Santa Auta, é composto por três painéis, um central e dois laterais, estando os dois painéis laterais pintados nas duas faces. O painel central tem pintado o Martírio de Santa Úrsula e das Onze Mil Virgens, o painel lateral esquerdo tem na frente o Casamento de Santa Úrsula e do Príncipe Conan e no verso a Partida das relíquias de Santa Auta de Colónia, e o painel lateral direito tem na frente O Papa Ciríaco abençoa Santa Úrsula e as suas companheiras e no verso a Chegada das relíquias de Santa Auta à Igreja da Madre de Deus.

Por não terem sido encontrados documentos conclusivos sobre a autoria do Retábulo de Santa Auta, os estudiosos, pelas características estilísticas da obra, têm proposto vários autores para as pinturas, designadamente Vasco Fernandes, por Cyrillo Volkmar Machado, Cristóvão de Figueiredo, por José de Figueiredo e Reynaldo dos Santos, Gregório Lopes, por José de Figueiredo, e Garcia Fernandes, por Luís Reis Santos.

D. Leonor, irmã do rei em exercício D. Manuel I, viúva de D. João II, fundou o Convento da Madre de Deus e, por ser muito devota de Santa Úrsula, pediu por carta ao Imperador Maximiliano I, seu primo, que lhe mandasse algumas relíquias das Santas Virgens para as depositar naquele Convento. Este acedeu ao pedido e mandou retirar do Mosteiro de Santa Úrsula, em Colónia, onde se acreditava que estivessem sepultadas, as relíquias de Santa Auta () e enviou-as em 1517 para Lisboa. Duas das pinturas do Retábulo de Santa Auta que deve ter sido encomendado por D. Leonor documentam esta trasladação.Damião de Góis, Chronica do Rei Dom Emanuel, edição original de 1566, Quarta Parte, fol. 32, pag. 794 do PDF criado pela Biblioteca Nacional de Portugal/biblioteca nacional digital:

Não obstante o desconhecimento do seu autor, a valia do Retábulo de Santa Auta decorre de ser uma pintura ao mesmo tempo religiosa e cortesã, em que a lenda e a realidade, a história e a actualidade, se misturam de forma significativa.José Luís Porfírio, Pintura Portuguesa, Quetzal Editores, Lisboa (1991), pag. 58-60, ISBN 9725641213. Tendo o seu autor dado muita importância aos detalhes e utilizado uma variada gama cromática que confere uma certa alegria a um tema trágico,Museu Nacional de Arte Antiga, Coleção Museus do Mundo, Coord. João Quina, editor Planeta de Agostini, 2005, pag. 90-95, ISN 989-609-301-6 o Retábulo de Santa Auta é, segundo historiadores da arte, uma das obras mais encantadoras da pintura cosmopolita portuguesa do primeiro quartel do século XVI.História da Arte em Portugal, Pedro Dias coord., Vol. V O Manuelino, Lisboa: Alfa, 1986, pág. 119.Reynaldo dos Santos, Os Primitivos Portugueses (1450-1550), 3ª edição, Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa (1958), pag. 33-34.

Lenda de Santa Úrsula Auta era uma das onze mil virgens que, segundo a lenda e o culto católico do fim da Idade Média, acompanharam Úrsula na sua peregrinação tendo sido todas massacradas em Colónia. Úrsula terá nascido em meados do século IV sendo filha de um rei da Dumnônia, reino localizado na ponta sudoeste da Grã-Bretanha, tendo sido acordado o seu casamento com o Princípe Conan da Armórica, no outro lado do actualmente designado Canal da Mancha.Poncelet, Albert. Enciclopédia Católica. Vol. 15. Nova Iorque: Robert Appleton Company, 1912, "St. Ursula and the Eleven Thousand Virgins"

Quando o séquito de Úrsula atravessava o mar para o seu casamento, uma tempestade milagrosa levou-o sobre o mar num único dia para um porto gaulês e, por tal, Úrsula declarou que antes de seu casamento realizaria uma peregrinação pela Europa. E assim partiu para Roma com os seus seguidores e persuadiu o Papa Ciríaco (desconhecido nos registos pontifícios, embora no final do ano 384 tenha sido eleito o Papa Sirício), e o bispo Sulpicius de Ravena, a juntarem-se a eles. Quando se dirigiram para Colónia, que estava sitiada pelos Hunos, todas as onze mil virgens que a acompanhavam foram massacradas.

A Lenda das Onze Mil Virgens inspirou numerosas obras de arte, algumas de elevado nível artístico, sendo as mais famosas as pinturas dos primitivos de Colónia, nomeadamente o Enterro de Santa Úrsula e suas Companheiras, atribuído ao Mestre de Santa Úrsula, hoje no Museu Wallraf-Richarts, em Colónia. Mas também há versões de Hans Memling, em Bruges, e de Vittore Carpaccio, em Veneza, bem como a pintura Martírio das Onze Mil Virgens e o Retábulo de Santa Auta, ambos no Museu Nacional de Arte Antiga.António M. M. Marques Henriques, "Relíquias e Relicários do Museu de São Roque/Santa Casa da Misericórdia de Lisboa", em Actas do Ciclo de Conferências sobre o Convento de Nª Sª dos Remédios, Évora, 22, 23 e 24 de Maio de 2013,

Descrição Das cinco pinturas do Retábulo de Santa Auta, três - Casamento de Santa Úrsula e do Príncipe Conan, O Papa Ciríaco abençoa Santa Úrsula e as suas companheiras e o Martírio de Santa Úrsula e das Onze Mil Virgens - representam momentos da vida e martírio de Auta enquanto companheira de Santa Úrsula, e as outras duas, Partida das relíquias de Santa Auta de Colónia e Chegada das relíquias de Santa Auta à Igreja da Madre de Deus, a saída de Colónia das relíquias de Auta e a chegada delas ao Convento da Madre de Deus, em Lisboa.

A seguinte descrição dos cinco painéis do Retábulo de Santa Auta segue uma lógica narrativa, que não a sua disposição no local original.

Casamento de Santa Úrsula e do Príncipe Conan

Trata-se do painel lateral esquerdo (anverso) na disposição original do Retábulo de Santa Auta, tendo 67 cm de largura e 72 cm de altura, e representa o encontro, dado que pela lenda não chegaram a casar, entre Úrsula, em posição central da cena, e Conan, os quais têm as mãos direitas dadas que são abençoadas pelo bispo Tiago de Antioquia que está entre eles. Junto a Úrsula está Auta, representada de perfil e identificada pela flecha que tem na mão e a que o pintor atribuiu com a coroa e veste sumptuosa a dignidade de princesa, vendo-se ainda duas outras acompanhantes. Atrás de Conan estão três homens e um pajem que lhe segura a cauda do seu manto.

O bispo usa mitra bipartida de trama de ouro cravejada de joias de ouro e pérolas que assenta sobre um barrete vermelho escuro, pendendo do lado esquerdo uma fita escura que é rematada por quatro pingentes dourados e esféricos. Sobre os ombros tem um pluvial cerzido a ouro e fios de pérolas e nas mãos tem calçadas luvas vermelhas com que abençoa o encontro dos noivos.

No canto superior direito, numa tribuna forrada de brocado e suportada por coluna vermelha, encontra-se um grupo de seis músicos negros que envergam gibão cor-de-rosa com mangas verdes e chapéus largos de aba revirada e golpeada em tons verdes e amarelos. Tocam instrumentos de sopro, mais concretamente três charamelas, uma bombarda e uma sacabuxa. Atrás do grupo, de gorro preto e sobre-vestido amarelo, está alguém que já foi apontado como sendo o maestro dos músicos.

O fundo do quadro é ocupado por um amplo brocado de trama de ouro e ramagens castanhas e verde escuro. No canto superior esquerdo paira um anjo com ampla túnica branca e asas verdes orladas de branco o que dá um carácter sagrado ao evento.

O Papa Ciríaco abençoa Santa Úrsula e as suas companheiras

Trata-se do painel lateral direito (anverso) do Retábulo de Santa Auta, tendo de altura 69 cm e 74,5 cm de largura e representa a ida de Santa Úrsula, Santa Auta e restante companhia a Roma onde foram abençoados pelo Papa.

O Papa, em posição de destaque à direita da composição, abençoa os peregrinos que tem perante si, estando ajoelhados à sua frente, a partir da esquerda, Santa Auta, Santa Úrsula, o Príncipe Conan e uma jovem, que têm atrás uma fila de sete jovens que lideram as restantes onze mil virgens, de quem se vê apenas o topo das cabeças.

O Papa, com a imponência da sua posição superior, veste uma gola alva de mangas largas e, sobre ela, uma casula de brocado de ouro; tem nos ombros um pluvial de tecido verde bordado a ouro, preso por alamar que ostenta ao centro um peitoral com um rubi inserido num quadrifólio de pérolas, e usa na cabeça uma tiara dourada. Calça luvas vermelhas, fazendo o gesto da bênção com a mão direita e segurando a cruz processional com a esquerda. Atrás de si perfilam-se três cardeais, tendo o da direita um hábito vermelho, capuz preto e galero na mão e o último tem o galero vermelho de aba redonda na cabeça.

Em fundo, do lado esquerdo, a meia distância no cimo de um monte, está um castelo; no centro, ao longe, uma paisagem rochosa, e do lado direito, perto das figuras, os contrafortes de palácio ou igreja, havendo um relógio numa das torres.

Martírio de Santa Úrsula e das Onze Mil Virgens

Este é o painel central do Retábulo de Santa Auta, em forma de luneta, tendo de altura 93 cm e de largura 192,5 cm e representando, do lado esquerdo, o embarque das Virgens na cidade de Basileia e, do lado direito, o seu martírio quando chegam a Colónia.Nota sobre a obra na Matriznet

No cais de embarque encontram-se várias personagens, destacando-se em primeiro plano um bispo com mitra dourada, alva amarela, casula e pluvial de brocado de ouro, e firmal de brocado dourado tendo no peito uma jóia de ouro cercada de diamantes e com um rubi incrustado no centro. Apoia-se numa muleta castanha, usando um anel de ouro e uma jóia na mão esquerda. À esquerda do bispo está representado um Papa com a respectiva tiara de ouro, alva anilada, pluvial de brocado com peitoral de ouro e pedras preciosas e luvas vermelhas, segurando com a mão esquerda a haste de cristal e fazendo com a direita a bênção. Ao seu lado gesticulando, está uma figura feminina com veste de religiosa tendo escapular branco cingido na cabeça por um diadema dourado, hábito castanho e manto igualmente com cercadura dourada. Uma jovem de cabelo loiro e gorra vermelha e uma outra com cabeça descoberta são as últimas personagens que se destacam na multidão que se encontra no cais.

Em primeiro plano está um batel, onde viajam três personagens que se podem identificar como o príncipe Conan, Santa Úrsula e Santa Auta, conduzido por um barqueiro de chapéu vermelho, gibão amarelo e calções encarnados, que afasta o barco do cais com a ajuda de um remo.

Na parte direita do quadro, continuando a narrativa, é a chegada do grupo a Colónia, incluindo de novo Santa Úrsula, o príncipe Conan, Santa Auta, o Papa Ciríaco, Tiago de Antioquia e, provavelmente, um cardeal, e o seguinte martírio das onze mil virgens pelos Hunos, sob incitamento dos Romanos.

Como elemento unificador da narrativa, o fundo da composição é constituído por um amplo estuário onde estão fundeados sete galeões e duas caravelas e que se identificam pelas bandeiras portuguesas da época de D. João II, bem como flâmulas e bandeiras com a esfera armilar de D. Manuel.

Segundo José Luís Porfírio, em Martírio de Santa Úrsula e das Onze Mil Virgens verifica-se uma muito elaborada composição narrativa: num primeiro plano, em três tempos sucessivos, dá-se a viagem fluvial de Santa Úrsula, do Príncipe Conan e de Santa Auta até ao seu martírio e, em pano de fundo, traz a contemporaneidade da frota portuguesa que conduziu as relíquias até Lisboa.

Partida das relíquias de Santa Auta de Colónia