Tito Flávio Domiciano (; 24 de outubro de 51 – 18 de setembro de 96) foi imperador romano de 14 de setembro de 81 até a sua morte a 18 de setembro de 96. Tito Flávio Domiciano era filho de Tito Flávio Sabino Vespasiano com sua mulher Domitila e irmão de Tito, a quem ele sucedeu.

A sua juventude e os começos da sua carreira transcorreram à sombra do seu irmão Tito, que alcançou considerável renome militar durante as campanhas na Germânia e Judeia dos anos 60. Esta situação manteve-se durante o reinado do seu pai Vespasiano, coroado imperador a 21 de dezembro de 69, após um longo ano de guerras civis conhecido como o ano dos quatro imperadores. Ao tempo em que o seu irmão gozou de poderes semelhantes aos do seu pai, ele foi recompensado com honras nominais que não implicavam responsabilidade alguma. À morte do seu pai a 23 de junho de 79, Tito sucedeu-lhe pacificamente, mas o seu curto reinado finalizou abrupta e inesperadamente à sua morte por doença, a 13 de setembro de 81. Ao dia seguinte, Domiciano foi proclamado imperador pela guarda pretoriana. O seu reinado, que duraria quinze anos, seria o mais longo desde o de Tibério.

As fontes clássicas descrevem-no como um tirano cruel e paranoico, localizando entre os imperadores mais odiados ao comparar a sua vileza com as de Calígula ou Nero. Porém, a maior parte das afirmações a respeito dele têm a sua origem em escritores que foram abertamente hostis para com ele: Tácito, Plínio, o Jovem e Suetônio. Estes homens exageraram a crueldade do monarca ao efetuar adversas comparações com os cinco bons imperadores que o sucederam. Como consequência, a historiografia moderna recusa a maior parte da informação que contêm as obras destes escritores ao considerá-los pouco objetivos.Jones (1992), p. 196–98 É descrito como um autocrata despiedado, mas eficiente, cujos programas pacíficos, culturais e econômicos foram precursores do próspero , comparado com o turbulento crepúsculo do . A sua morte marcou o final da dinastia flaviana, bem como a instauração da dinastia antonina.

Biografia Juventude Família

thumb|esquerda|upright=1.0|Estátua de Domiciano, na Gliptoteca de Munique.

Nascido a 24 de outubro de 51, foi o terceiro filho de Tito Flávio Sabino Vespasiano e Domitila Maior.Jones (1992), p. 1 Seus irmãos eram Domitila Menor (nascida em 39) e Tito (também nascido em 39).

As décadas de guerra civil que abalaram o império ao longo do século I a.C. contribuíram enormemente para a decadência da velha aristocracia romana, que foi gradualmente substituída no poder por uma nova nobreza provincial, durante a primeira parte do .Jones (1992), p. 3 Uma dessas famílias foi a dos Flávios, ou gens Flavia, que se elevou a partir de uma obscuridade relativa até a proeminência em apenas quatro gerações, adquirindo considerável riqueza e influência sob o reinado dos imperadores da dinastia júlio-claudiana. O bisavô de Domiciano, Tito Flávio Petro, serviu como centurião sob as ordens de Cneu Pompeu Magno, durante a Segunda Guerra Civil da República de Roma. A sua carreira militar terminou quando Pompeu foi derrotado de maneira esmagadora por Júlio César na Batalha de Farsália.

Contudo, Petro conseguiu melhorar a sua situação casando-se com Tértula, uma mulher muito rica, cuja fortuna garantiu a ascensão do filho de ambos, Tito Flávio Sabino, o avô de Domiciano.Jones (1992), p. 2 Esse adquiriu grande riqueza como arrecadador de impostos na província de Ásia e como banqueiro na Helvécia. Ao casar-se com Vespásia Polião, aliou-se com uma família patrícia de elevada aristocracia. A riqueza e a linhagem dos filhos de Vespásia Polião e Tito Flávio Sabino II garantiram a ascensão dos seus filhos, Vespasiano e Tito Flávio Sabino, à classe senatorial.

A carreira política de Vespasiano compreendeu os cargos de questor, edil e pretor, culminando em um consulado em 51, ano de nascimento de Domiciano. Vespasiano alcançou a glória militar devido à sua destacada participação na invasão da Britânia.Jones (1992), p. 8 Embora as fontes antigas aleguem a pobreza da família Flávia durante a época do nascimento de Domiciano,Suetônio, Vidas dos Doze Césares 1 (do sítio LacusCurtius) e até mesmo sugerem que os Flávios caíram em desgraça durante os reinados de Calígula (37 - 41) e Nero (54 - 68),Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vesp. 4 historiadores modernos, como Jones, afirmam que esses relatos constituem somente uma parte da campanha propagandística realizada durante os reinados dos imperadores pertencentes à dinastia flaviana. Tal campanha tinha como objetivo diminuir a popularidade desses imperadores e elogiar o imperador Cláudio (41 - 54) e o seu filho Britânico.Jones (1992), p. 7 Aparentemente, o favor imperial para os Flávios foi considerável ao longo do período entre 40 e 60. Enquanto Tito recebia uma extraordinária educação na corte imperial, junto a Britânico, Vespasiano ascendia a importantes magistraturas civis e militares.

Após retirar-se da vida pública durante a década de 50, Nero nomeou Vespasiano como procônsul da África, em 63. Ele acompanhou o imperador em uma viagem à Grécia, em 66.Jones (1992), p. 9–11 Após o início da 1ª Guerra Judaico-romana, na província de Judeia, o imperador designou Vespasiano comandante dos exércitos daquela região.Jones (1992), p. 13 Domiciano tinha quinze anos, na ocasião. Ao finalizar a sua formação militar, Tito uniu-se ao seu pai e dirigiu uma das suas três legiões durante a campanha.Flávio Josefo, A Guerra dos Judeus III.4.2

Adolescência e caráter Em 66, já haviam morrido a mãe e a irmã de Domiciano, enquanto seu pai e seu irmão lideravam os exércitos na Germânia e na Judeia. Essas circunstâncias levaram-no a passar a maior parte de sua adolescência longe de seus parentes próximos. Durante a 1ª Guerra Judaico-romana, Domiciano ficou ao cuidado de seu tio Tito Flávio Sabino, prefeito urbano de Roma. É provável que Marco Coceio Nerva, seu sucessor no trono, o tomasse sob sua proteção. Ele recebeu uma educação privilegiada, digna de um jovem procedente da classe senatorial; estudou retórica e literatura. Suetônio, na sua obra "Vidas dos Doze Césares" escreveu sobre a capacidade que ele tinha de citar frases de grandes poetas, como Homero e Virgílio, nos eventos públicos;Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Dom. 9Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Dom. 12.3 e descreve-o como um adolescente culto e educado, capaz de conversar de um modo muito elegante.Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Dom. 20 Suas primeiras obras publicadas foram poemas, bem como tratados sobre a lei e administração. Ao contrário do seu irmão Tito, não foi criado propriamente na corte imperial, nem parece que recebeu uma educação militar formal, embora Suetônio o descreva como um atirador talentoso.Jones (1992), p. 16

thumb|upright=1.0|esquerda|Busto de Domiciano nos Museus Capitolinos, Roma. Suetônio, além disso, consagrou uma parte importante da sua biografia a falar da personalidade de Domiciano, e proporciona uma detalhada descrição do seu caráter e aparência física.

Aparentemente, sua calvície envergonhava-o tanto que em etapas posteriores tratou de dissimulá-la com perucas.Morgan (1997), p. 214 Preocupou-se tanto com o assunto que chegou a escrever um livro sobre o cuidado com os cabelos. A respeito da sua personalidade, os escritos de Suetônio variam entre uma descrição do imperador tirano, de um homem física e intelectualmente preguiçoso, ao de um homem de caráter refinado e de grande inteligência.Jones (1992), p. 198 Brian Jones conclui, na sua obra "The Emperor Domitian", que é complexo descrever a verdadeira personalidade de Domiciano em razão da parcialidade das fontes. Segundo sugerem essas fontes, é provável que carecesse do carisma de seu pai e de seu irmão; ele era propenso a suspeitar das pessoas, e tinha um estranho e autodepreciativo senso do humor.Morgan (1997), p. 209Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Dom. 21 A natureza de seu caráter foi agravada pela sua tendência ao isolamento. À medida que passavam os anos, essa tendência acentuou-se até o ponto de se comunicar de modo críptico ou até mesmo parar de manter contato com qualquer pessoa. Talvez isto fosse consequência da sua infância, transcorrida longe de seus familiares mais próximos. Aliás, quando tinha dez anos, a maior parte de seus familiares próximos já tinham morrido, em combate ou de doença. Por outro lado, e como consequência de passar quase toda sua juventude sob o reinado de Nero, os seus anos de educação estiveram fortemente influenciados pela agitação política da época, que culminou na guerra civil de 69, que levaria a sua família ao poder.

Ascensão da dinastia flaviana Ano dos quatro imperadores thumb|upright=1.3|O Império Romano durante o ano dos quatro imperadores, as províncias azuis indicam as regiões leais a Vespasiano.

A 9 de junho de 68, entre a crescente oposição do senado e o exército, Nero suicidou-se, terminando assim com a dinastia júlio-claudiana e desencadeando uma devastadora guerra civil conhecida como o "ano dos quatro imperadores". Em tal guerra, os quatro generais mais influentes do Império Romano — Galba, Otão, Vitélio e Vespasiano — disputaram sucessivamente o controle imperial. Informado da morte do último Júlio-Cláudio, bem como da nomeação como imperador de Sérvio Sulpício Galba, então governador da Hispânia Tarraconense, o futuro imperador decidiu pausar a sua campanha e enviar seu filho Tito a apresentar os seus respeitos ao novo imperador.Tácito, Historias II.1

Antes de atingir a província da Itália, Tito foi informado do assassinato de Galba e de que Otão fora nomeado sucessor. Ao iniciar seu reinado, o ex-governador da Lusitânia teve de fazer face à rebelião de Vitélio e as suas legiões germanas. O rebelde foi coroado imperador pelas suas tropas e iniciou uma marcha sobre Roma. Não querendo arriscar-se a ser capturado por nenhum dos dois bandos, Tito suspendeu a viagem e voltou para Judeia.Tácito, Historias II.2

Otão e Vitélio eram cientes da ameaça que representava Vespasiano. Com quatro legiões à sua disposição, liderava uma força composta por cerca de 80 mil soldados. Além disso, sua sólida posição na Judeia conferiu-lhe a vantagem de ficar próximo da província do Egito, território vital que controlava o fornecimento de cereais da capital. Paralelamente, seu irmão, Tito Flávio Sabino, era prefeito urbano, pelo qual controlava o destacamento militar estacionado na cidade.Tácito, Historias III.64 Apesar de acrescentar tensão entre suas tropas, decidiu não atuar enquanto Galba e Otão detiveram o poder. Contudo, depois da derrota de Otão na Primeira Batalha de Bedríaco,Tácito, Historias II.41–49 e de seu suicídio, os exércitos da Judeia e do Egito decidiram agir e nomearam Vespasiano imperador em 1º de julho de 69.Flávio Josefo, A Guerra dos Judeus IV.10.4 Vespasiano aceitou e, após duras negociações, Tito obteve o apoio do governador da Síria, Muciano; esta união representava a formação de uma imponente força no leste.Tácito, Histories II.5 Ao mesmo tempo que Vespasiano se mudava para Alexandria com o fim de se assegurar o controle da província egípcia, Tito ficou no comando do exército no conflito com os judeus sediciosos. Em razão disso, Muciano teve a tarefa de tomar Roma.Flávio Josefo, Guerra dos Judeus IV.11.1Tácito, Historias II.82

thumb|esquerda|upright=1.0|Réplica do século XVI de um busto de Vitélio. Museu do Louvre (Paris). Em Roma, Vitélio pôs Domiciano sob prisão domiciliar a fim de poder empregá-lo como refém frente ao iminente ataque de Muciano.Tácito, Historias III.59 A situação do imperador era desesperadora, pois seus soldados desertaram em massa para as filas do adversário. A 24 de outubro de 69, os dois exércitos enfrentaram-se na Segunda Batalha de Bedríaco, que finalizou-se com uma esmagadora vitória sobre os soldados vitelianos.Tácito, Historias III.34 Após a derrota, Vitélio tentou assinar um tratado em que renunciava ao trono voluntariamente; porém, os pretorianos impediram-no.Tácito, Historias III.66