A Terceira Via é uma corrente política predominantemente centrista surgida no distributismo e mais tarde no meio social-liberal à social-democrata. Tenta reconciliar medidas de centro-direita e centro-esquerda, sintetizando uma ortodoxia econômica com políticas de assistência e liberdade civil., Não é necessariamente uma alternativa à dicotomia esquerda–direita, mas sim uma alternativa às propostas meramente liberalistas ou socialistas.
A Terceira Via é uma reconceitualização da social-democracia. Ela apoia a expansão do workfare em vez da expansão da seguridade social, programas de treinamento para trabalho, oportunidades educacionais e programas de governo para ajuda, não dependência, por parte dos cidadãos. Procura um compromisso entre um sistema econômico menos intervencionista e uma política de despesas sociais compensatória.
A Terceira Via nasceu de uma reavaliação das políticas dentro de vários movimentos de centro à centro-esquerda nos anos 1980, em resposta a dúvidas quanto à viabilidade econômica do Estado e à percepção do uso excessivo do intervencionismo fiscal que anteriormente havia sido popularizado pelo keynesianismo, mas que naquela época contrastavam com o aumento da popularidade do neoliberalismo e da Nova Direita, começando no final dos anos 1970 e ao longo dos anos 1980. Na época, a social-democracia, que no século XX deu uma contribuição decisiva à criação do estado do bem-estar social pós-Segunda Guerra Mundial, começou a perder fôlego político, o que acabou resultando em uma reformulação ideológica a partir das práticas neoliberais dos governos Thatcher (Reino Unido) e Reagan (EUA).
A Terceira Via atual teve sua origem no governo partidário trabalhista que emergiu na Austrália no final dos anos 1980 e foi promovida por partidos políticos sociais-liberais e sociais-democratas em diferentes partes do mundo. Nos EUA, um dos principais proponentes da Terceira Via foi o ex-presidente Bill Clinton, sendo também defendido por sua esposa, senadora e, posteriormente, secretária de Estado, Hillary Clinton, durante a sua campanha presidencial em 2008. No Reino Unido, o ex-primeiro-ministro Tony Blair, um partidário trabalhista proponente da Terceira Via, alegou que o socialismo por ele defendido era diferente das concepções tradicionais de socialismo e disse: "Meu tipo de socialismo é um conjunto de valores baseados em noções de justiça social. ... O socialismo como uma forma rígida de determinismo econômico terminou, e com razão". Blair referiu-se a isso como um socialismo envolvendo políticas que reconheciam os indivíduos como socialmente interdependentes e defendiam a justiça e a coesão social, a igualdade de valor de cada cidadão e a igualdade de oportunidades. Com base em seu conceito de Terceira Via, Blair deu origem ao Novo Trabalhismo.
O intérprete social-democrata da Terceira Via Anthony Giddens disse que a mesma rejeita a concepção de socialismo do socialismo estatal e, em vez disso, aceita a concepção de socialismo tal como concebida pelo político britânico Anthony Crosland como uma doutrina ética que vê os governos sociais-democratas como tendo alcançado uma viabilidade de socialismo ético ao remover os elementos injustos do capitalismo, proporcionando Estado de bem-estar dentre outras políticas, e que o socialismo contemporâneo superou a reivindicação marxista da necessidade da abolição do capitalismo como modo de produção. Em 2009, Blair declarou publicamente apoio a um "novo capitalismo".
As políticas apoiadas pelos autodenominados apoiantes da Terceira Via podem variar consoante à região, as circunstâncias políticas e as tendências ideológicas. Os defensores da Terceira Via geralmente apoiam parcerias público-privadas (PPPs), um compromisso com responsabilidade fiscal, combinação de igualdade de oportunidade com responsabilidade pessoal, melhora do capital humano e social, e proteção ambiental. Mas mesmo na prossecução desses objetivos, os defensores da Terceira Via diferem nas suas políticas devido a prioridades contraditórias. Anthony Giddens, por exemplo – acreditando que a sociedade deveria ser mais inclusiva para com os idosos – apelou à abolição da idade de aposentadoria para que as pessoas pudessem sair do mercado de trabalho sempre que tivessem poupado o suficiente; O presidente francês Emmanuel Macron fez exatamente o contrário, aumentando a idade de aposentadoria para equilibrar o orçamento. A administração Bill Clinton, influenciado pelas obras do polêmico cientista político Charles Murray, foi menos amigável com o Estado de bem-estar do que Tony Blair.Fielding, Steven (2003). The Labour Party: Continuity and Change in the making of new labour (em inglês). Palgrave Macmillan. pp. 179–180 e p.188.
A Terceira Via já foi criticada por sociais-democratas irredutíveis, anarquistas, comunistas, e em particular socialistas democráticos, como uma traição aos valores da esquerda, com alguns cientistas e analistas políticos caracterizando a Terceira Via como um movimento efetivamente neoliberal.; ; ; ; Também chegou a ser criticado por conservadores, liberais clássicos e libertários de direita pró-capitalismo laissez-faire. De acordo com o economista José Luís Fiori, "o resultado foi uma geleia ideológica, com propostas extremamente vagas e imprecisas", voltado para a abertura, desregulação e desestatização das economias nacionais. De acordo com a revista francesa Nouvelle Observateur, se tratou de um "prolongamento vagamente social da revolução thatcherista".
Visão geral
Origens Em meados do século XIX, após a Revolução Industrial surge a história a rivalidade de dois sistemas econômicos antagônicos: socialismo e capitalismo laissez-faire. Durante a década de 1920, G. K. Chesterton, juntamente com seu amigo Hilaire Belloc, criam o que chamaram de distributismo. O distributismo trata-se de uma teoria econômica baseada nos princípios nos ensinamentos cristãos, referidos anteriormente na encíclica do Papa Leão XIII, Rerum Novarum, que propõe o direito à propriedade privada para todos chamando a atenção que ambos os sistemas acima referidos não o permitiam. Sob essa égide, no dia 17 de setembro de 1926, Chesterton e Belloc criaram a Liga Distributista, a qual propunha divulgar àquilo que consideravam uma terceira via.
Como termo, terceira via tem sido usado para explicar uma variedade de cursos e ideologias políticas nos últimos séculos. Essas ideias foram implementadas por progressistas no início do século XX. O termo foi retomado na década de 1950 por economistas ordoliberais alemães como Wilhelm Röpke, resultando no desenvolvimento do conceito de economia social de mercado. Mais tarde, Röpke distanciou-se do termo e localizou a economia social de mercado na primeira via, sendo um avanço da economia de livre mercado.
Durante a Primavera de Praga em 1968, o economista tcheco Ota Šik propôs uma reforma econômica de terceira via como parte da política de liberalização e democratização no país. No contexto histórico, tais propostas foram melhor descritas como uma economia liberalizada centralmente planejada em vez do capitalismo socialmente sensível com o qual as políticas da Terceira Via tendem a ser identificadas no Ocidente. Nos anos 1970 e 1980, Enrico Berlinguer, líder do Partido Comunista Italiano, passou a defender uma visão de uma sociedade socialista mais pluralista que a do socialismo real que era tipicamente defendido por partidos oficialmente comunistas, embora mais igualitária do que a social-democracia. Isso fazia parte da tendência mais ampla do eurocomunismo e fornecia uma base teórica para a busca de Berlinguer pelo Compromisso Histórico com os partidários democratas-cristãos italianos.
Uso moderno A política da Terceira Via é visível nas obras de Anthony Giddens, como Consequences of Modernity (1990), Modernity and Self-Identity (1991), The Transformation of Intimacy (1992), Beyond Left and Right (1994) and The Third Way: The Renewal of Social Democracy (1998). Em Beyond Left and Right, Giddens critica o socialismo de mercado e constrói uma estrutura de seis pontos para uma política radical reconstituída que inclui os seguintes valores:
Reparação de solidariedades danificadas; Reconhecimento da centralidade da política de vida; Aceitação que a confiança ativa implica políticas generativas; Abraço da democracia dialógica; Reconsideração do Estado de bem-estar; Confronto da violência.
Em The Third Way, Giddens fornece a estrutura dentro da qual a Terceira Via, também denominada por ele como centro radical, é justificado. Além disso, fornece uma ampla gama de propostas políticas destinadas ao que ele chama de "centro-esquerda progressista" na política britânica.
Bill Clinton abraçou as ideias da Terceira Via durante sua campanha presidencial de 1992.
Em 5 de fevereiro de 1998, o então primeiro-ministro britânico Tony Blair anunciou, em Washington, D.C., junto com o então presidente estadunidense Bill Clinton, a decisão de convocar uma reunião internacional para discutir e atualizar a social-democracia, criando um movimento que foi denominado de "Terceira Via". Naquela época, Blair despontava como uma liderança mundial, conseguindo reunir sucessivamente, em Florença, Washington e Londres, figuras como Bill Clinton, Lionel Jospin, Gerhard Schröder, Massimo D'Alema, Fernando Henrique Cardoso, António Guterres e Ricardo Lagos, entre outros governantes e intelectuais ligados de uma forma ou outra à social-democracia europeia ou ao Partido Democrata estadunidense.
A Terceira Via foi definida como:Algo diferente e distinto do capitalismo liberal com sua crença inabalável nos méritos do livre mercado e do socialismo democrático com sua gestão da demanda e obsessão com o Estado. A Terceira Via é a favor do crescimento, do empreendedorismo, das empresas e da criação de riqueza, mas também é a favor de uma maior justiça social e vê o Estado desempenhar um papel importante na concretização deste objetivo. Então nas palavras de ... Anthony Giddens, da LSE, a Terceira Via rejeita o socialismo de cima para baixo, pois rejeita o neoliberalismo tradicional.A Terceira Via tem sido defendida pelos seus proponentes como uma alternativa "centrista radical" tanto ao capitalismo como ao que considera formas tradicionais de socialismo, inclusive o marxismo e socialismo estatal. Ela defende a humanização do capitalismo, a economia mista, o pluralismo político e a democracia liberal.
A Terceira Via tem sido muitas vezes difícil de resumir de forma holística, em parte devido à sua natureza flexível de colocar os fins à frente dos meios, ou seja, dar prioridade à consecução da justiça social em vez de se concentrar nos métodos pelos quais se alcança a justiça social. Muitas vezes citado como o resumo mais fácil da Terceira Via é 'direitos com responsabilidades' – por exemplo, emparelhando o direito à educação com a responsabilidade de se esforçar para obter boas notas. Especificamente na economia, grande parte da ênfase da Terceira Via é colocada nas receitas fiscais e nos meios pelos quais são geradas. A Terceira Via argumenta que a riqueza deve ser aliciada numa economia globalizada e que qualquer outra fuga de capital causada por impostos elevados é contraproducente para gerar receitas fiscais, pois as receitas fiscais futuras serão perdidas. A Terceira Via argumenta que o crescimento é a melhor forma de aumentar as receitas fiscais e que o crescimento pode ser alcançado através de uma economia de mercado livre, da disciplina fiscal e de um estoque saudável de capital humano.
Além de Giddens, entre outros outros ideólogos da Terceira Via estão Ian Winter e Mark Lyon.
Dentro da social-democracia