thumb|255px|Armas do Marquês de Castelo Rodrigo. Cristóvão de Moura e Távora (Lisboa, 1538 — Madrid, 26 de dezembro de 1613) foi um fidalgo português, líder do partido espanhol aquando da crise de sucessão de 1580, e um dos mais influentes e brilhantes políticos da fase inicial da União Ibérica.Santiago Martínez Hernández, «Os marqueses de Castelo Rodrigo e a Nobreza portuguesa na monarquia hispânica: estratégias de legitimação, redes familiares e interesses políticos entre a agregação e a restauração (1581-1651)» in Ler História, 57 (2009). Casado com Margarida Corte-Real, da poderosa e rica família Corte-Real, foi escolhido para vice-rei de Portugal em três diferentes ocasiões, tendo influência determinante na condução da política portuguesa no contexto da monarquia hispânica de 1581 até 1612, ano em que concluiu o seu último mandato como vice-rei. Foi sucedido nas suas capitanias e na gestão da sua casa por seu filho Manuel de Moura Corte-Real.António Ornelas Mendes & Jorge Forjaz, Genealogias da Ilha Terceira, vol. III, pp. 484-489. DisLivro Histórica, Lisboa, 2007.«Moura, Cristóvão (D.) (único conde e 1.º marquês de Castelo Rodrigo)» na Enciclopédia Açoriana. Biografia Era filho de Luís de Moura, alcaide-mor de Castelo Rodrigo, e de sua esposa, Brites de Távora, sendo por isso neto materno de Cristóvão de Távora, 2.º senhor do morgado de Caparica, e de sua esposa, Francisca de Sousa. A família Moura tinha origens que remontavam a finais do século XIII, quando, por volta de 1284, obteve da rainha D. Beatriz, viúva do rei D. Afonso III, o senhorio da vila e fortaleza de Moura, como agradecimento pela sua participação na conquista do Algarve. A partir dessa concessão adoptaram o apelido de Moura, dando origem a uma linhagem cujos membros se distinguiram, nos séculos seguintes, ao serviço dos monarcas portugueses, ocupando postos de relevo nas sucessivas casas reais. A antiguidade e a importância da sua linhagem estão atestadas pela presença dos Moura entre as 74 linhagens nobiliárquicas cujas armas aparecem pintadas junto às armas reais no tecto da Sala dos Brasões do Palácio de Sintra desde o tempo do rei D. Manuel I.Anselmo Braamcamp Freire, Brasões da Sala de Sintra, Lisboa, 1899.Felgueiras Gayo, Nobiliário de Famílias de Portugal, vol. VII, pp. 536-539. Braga, 1992. A família perdeu boa parte das suas concessões aquando da crise dinástica de 1383–1385, pois os aderiram à causa de D. João I de Castela que, depois de derrotado na batalha de Aljubarrota em 1385, perdeu o trono de Portugal.

Contudo, e apesar da sua origem fidalga, Cristóvão de Moura foi educado com recursos modestos. Um seu contemporâneo, Pero Roiz Soares, afirma que os pais não tinham sequer 300 mil reais de renda, vivendo honradamente, ainda que com modéstia.Memorial de Pero Roiz Soares (leitura e revisão de M. Lopes de Almeida), p. 374. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953.<ref name="rf">[https://run.unl.pt/handle/10362/71831 Jorge Manuel Rios da Fonseca, «O Palácio de Cristóvão de Moura, Marquês de Castelo Rodrigo e Vice-Rei de Portugal, in Promontoria, ano 11, n.º 11, 2014.]</ref> Graças à posição que seu pai e outros familiares ocupavam na corte portuguesa, foi integrado, ainda adolescente, no serviço da princesa D. Joana de Áustria, filha do imperador Carlos V, que tinha casado com o príncipe D. João Manuel, filho e herdeiro de D. João III.Alfonso Danvila y Burguero, Diplomáticos españoles. Don Cristóbal de Moura, Primer Marqués de Castel Rodrigo (1538-1613), Madrid, Fortanet, 1900.«D. Cristóvão da Moura: de sua pessoa e de casos notáveis de sua vida» in Anedotas Portuguesas e memorias biográficas da corte quinhentista. Istorias e ditos galantes que sucederão e se disserão no paço (edição, introdução, notas e índices de Christopher C. Lund), XCIII, pp. 147-152. Coimbra, Almedina, 1980.

Na sequência da morte precoce de D. João Manuel, falecido com apenas 16 anos de idade, D. Joana retirou-se para Castela em 1554, acompanhada pelo seu séquito de servidores, entre os quais se contava o jovem Cristóvão de Moura. Este, em pouco tempo, assumiu-se como o homem de confiança da princesa viúva, viajando em numerosas ocasiões até Portugal como embaixador extraordinário para cumprimentar, em nome da princesa, os monarcas, seus sogros, e o seu filho, o rei D. Sebastião. A sua influência foi-se acentuando graças à relevância dos seus contactos na Corte portuguesa, pois era sobrinho do diplomata Lourenço Pires de Távora, terceiro senhor da Caparica, irmão de sua mãe, dona Brites de Távora, e primo de D. Cristóvão de Távora, estribeiro-mor do rei D. Sebastião.

Estabelecido na Corte de Espanha desde 1554, ou seja desde os seus 16 anos de idade, e reconhecido por sua inteligência e perspicácia, integrou-se no círculo do príncipe de Eboli, Rui Gomes da Silva, outro português que singraria na alta política da monarquia hispânica, e no de Antonio Pérez del Hierro, o todo poderoso secretário de Filipe II. Transitou para o serviço real, tendo-se destacado e merecido o agradecimento régio pela sua actuação durante a entrevista que Filipe II manteve em Guadalupe, no Natal de 1576, com o seu sobrinho D. Sebastião, o rei de Portugal.A. Rodriguez Moñino, Viaje a España del rey don Sebastián de Portugal 1576-1577. Valencia, 1956.

Após o desaparecimento de D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir em 4 de agosto de 1578, a grande experiência de Cristóvão de Moura nos assuntos da Corte portuguesa, associada à influência do também português Príncipe de Eboli, levou a que Filipe II depositasse nele boa parte do protagonismo das negociações para a sucessão do monarca hispano na coroa de Portugal. Nos meses que se seguiram, Cristóvão de Moura aproveitou os seus inúmeros contactos junto da aristocracia portuguesa e as informações por eles recolhidas para se afirmar como o principal representante dos interesses de Filipe II em Portugal.João Francisco Marques, A Parenética Portuguesa e a Dominação Filipina, p. 39. Instituto Nacional de Investigação Científica, Porto, 1986.Luiz de Menezes, conde de Ericeira, História do Portugal Restaurado, vol. I, p. 14. Oficina de Domingos Rodrigues, Lisboa, 1751.

Demonstrando uma singular habilidade para conquistar adesões e chegar a compromissos, afirmou-se como o primeiro responsável pela diplomacia de Filipe II de Espanha para angariar apoios entre a nobreza e o alto clero para que aceitassem a pretensão ao trono português do monarca espanhol. No processo, alimentou as rivalidades políticas entre o Prior do Crato e o Duque de Bragança, cooptando personagens-chave da sociedade e do governo para a causa do soberano espanhol. Perante a aclamação popular do Prior do Crato como rei D. António I de Portugal, foi um dos defensores de que o rei deveria intervir militarmente no país, por considerar que as negociações e promessas de benefícios não seriam suficientes para conseguir o seu objetivo, devido à animosidade portuguesa contra Castela.Santiago Martínez Hernández, «D. Cristóvão de Moura e a Casa dos Marqueses de Castelo Rodrigo. Proposta de investigação e linhas de análise sobre a figura do grande privado de D. Filipe I», in Governo, política e representações do poder no Portugal Habsburgo e nos seus territórios ultramarinos (1581-1640), p. 82. Centro de História de Além Mar, Lisboa, 2011.

Neste complexo processo de defesa dos interesses da Casa de Áustria em Portugal, Cristóvão de Moura conseguiu congregar em torno da candidatura do seu senhor o maior número de partidários, não sem antes lhes garantir honras, mercês, hábitos, comendas e somas consideráveis. Apesar da resistência popular, esmagada pela intervenção militar liderada por Fernando Álvarez de Toledo y Pimentel, o duque de Alba, entre a alta nobreza foram escassas as resistências em aceitar as mercês e as garantias que Cristóvão de Moura ofereceu em nome do novo rei, à fidalguia e ao alto clero.José Pedro Paiva, «Bishops and Politics: The Portuguese Episcopacy During the Dynastic Crisis of 1580», e-Journal of Portuguese History, vol. 4-2, (2006), pp. 1-19. Neste processo, a lealdade demonstrada aos interesses de Filipe II implicou o estigma da traição, atribuído pelos seguidores de D. António, prior do Crato, o único pretendente que se opôs abertamente ao avanço de Filipe II sobre a coroa portuguesa, que ganharia corpo após a Restauração e perduraria ao longo dos séculos.

Com a vitória na batalha de Alcântara, a ocupação militar de Portugal pelo exército de Filipe II, com as violências, motins populares e excessos de diversa índole que desencadeara, estava concluída no final do Verão de 1580.Rafael Valladares, La conquista de Lisboa. Violencia militar y comunidad política en Portugal, 1578-1583. Marcial Pons, Madrid, 2008. Restava apenas o controlo do último foco de resistência dos partidários de D. António I, centrado na ilha Terceira, que apenas seria conquistada em 27 de julho de 1583, após o desembarque da Baía das Mós e o saque da cidade de Angra que se lhe seguiu.

Nos finais de 1580 já se tinha realizado a convocatória para as Cortes de Tomar, assembleia que se realizaria em abril do ano seguinte, e na qual se definiu a estrutura de governo que, baseada no respeito pelos privilégios e foros do reino de Portugal, sobreviveu com algumas mudanças até 1640. Graças à Patente das Mercês, Graças, e privilégios, documento que fora negociada em Almeirim por Cristóvão de Moura e referendado nas Cortes de Tomar, o rei comprometeu-se a respeitar os privilégios nobiliárquicos, a acolher os nobres portugueses no serviço da sua Casa e da sua família, e a integrá-los no governo e no sistema defensivo do reino de Portugal e da monarquia hispânica.

Com a ascensão de Filipe II ao trono português, integrou o Conselho de Portugal, um colegiado de cinco membros que assessorava permanentemente o soberano nas questões referentes ao governo deste reino. Entre outras benesses, o soberano recompensou os seus serviços, concedendo-lhe por mercê o cargo de vedor da Fazenda por carta régia de 10 de abril de 1581.

Em finais de 1581, Cristóvão de Moura foi escolhido para casar com D. Margarida Corte-Real, a muito rica herdeira da família Corte-Real,João Afonso Corte-Real, «Génese e sequencial da Genealogia e Heráldica do título Côrte-Real». Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, XXXIV, fascs. 3-4, (1973). filha e herdeira de Vasco Anes Corte Real, o capitão do donatário na cidade de Angra, a capital da ilha Terceira, então último bastião da resistência contra as pretensões da Casa de Áustria em Portugal, e na ilha de São Jorge. A noiva escolhida, Margarida Corte-Real, tivera um irmão, o primogénito da família, e três irmãs. Contudo, o seu irmão, Manuel Corte-Real, o herdeiro presumptivo das capitanias, fora morto na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, o que extinguiu a linha varonil da família. Nestas circunstâncias, a falta de um filho legítimo masculino não permitiria assegurar a continuação da famílias na posse das capitanias de Angra e São Jorge, cuja sucessão estava sujeita à «lei mental». Contudo, Vasco Anes Corte-Real conseguira do cardeal-rei D. Henrique uma especial autorização, emitida por alvará de 14 de agosto de 1579, que permitia que a filha mais velha do capitão, D. Margarida Corte Real, o sucedesse como 5.º capitão do donatário em ambas as capitanias, desde que aceitasse casar com quem el-rei escolhesse e que o escolhido adoptasse o apelido de Corte-Real.Manuel Luís Maldonado, Fenix Angrence, vol. 3, p. 17. O casamento foi celebrado em Lisboa a 18 de dezembro de 1581, tendo no acto o noivo, como previsto no alvará autorizador, adoptado o apelido Corte-Real, passando a denominar-se Cristóvão de Moura Corte-Real.Queiroz Veloso, O Reinado do Cardeal D. Henrique, p. 343. Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1946.José Maria Queiroz Veloso, O Reinado do Cardeal D. Henrique. A Perda da Independência, pp. 341-343. Lisboa, edição do autor, 1946.