As relações entre Estados Unidos e Sérvia referem-se as relações bilaterais entre os governos da Sérvia e dos Estados Unidos. Foram estabelecidos pela primeira vez em 1882. De 1918 a 2006, os Estados Unidos mantiveram relações com o Reino da Iugoslávia, com a República Socialista Federativa da Iugoslávia e com a Sérvia e Montenegro, dos quais a Sérvia é considerada o Estado sucessor legal.
No final do século XIX, os Estados Unidos procuraram tirar proveito da retirada do Império Otomano da Europa Oriental através do estabelecimento de relações diplomáticas com as nações emergentes, entre elas a Sérvia. A Sérvia e os Estados Unidos foram aliados durante a Primeira Guerra Mundial. Após a Primeira Guerra Mundial, a Sérvia uniu-se ao Reino do Montenegro e aos territórios previamente ocupados pela Áustria-Hungria. Este estado unificado tornou-se conhecido como Iugoslávia, com o qual os Estados Unidos tiveram relações diplomáticas até o início da Segunda Guerra Mundial. Na Frente Iugoslava durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos finalmente apoiaram os monarquistas sérvios conhecidos como Chetniks. No entanto, Josip Broz Tito, líder dos partisans iugoslavos durante a guerra, acabou governando a Iugoslávia após a Segunda Guerra Mundial, o que resultaria em um período de rompimento entre a Iugoslávia e os Estados Unidos no final da década de 1940. O fim da Segunda Guerra Mundial também resultou na emigração em massa de refugiados da Iugoslávia, muitos dos quais eram sérvios que acabaram se mudando para os Estados Unidos. Isso ajudou a criar a primeira grande diáspora sérvia nos Estados Unidos. Alguns dos refugiados sérvios que se estabeleceram nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial eram exilados anticomunistas que tentaram enfraquecer Tito durante a Guerra Fria, usando os Estados Unidos como um local para seus objetivos anticomunistas.
Durante a dissolução da Iugoslávia, os Estados Unidos se envolveram em conflitos combativos e econômicos, particularmente com a Sérvia, conhecida na época como República Federal da Iugoslávia (um dos sucessores da República Socialista Federativa da Iugoslávia). Os Estados Unidos impuseram sanções e encabeçaram uma campanha de bombardeios da OTAN da Iugoslávia em 1999. Ao longo do período de conflito na década de 1990, outra onda de emigração sérvia se seguiu e muitos refugiados sérvios se mudaram para os Estados Unidos. Na década de 2000, as relações diplomáticas entre os Estados Unidos e a Iugoslávia foram restauradas, porém seriam alteradas quando Montenegro se separou em 2006, após o qual a Sérvia foi o Estado sucessor para continuar as relações anteriormente detidas pela República Federal da Iugoslávia. Em 2008, a Assembleia do Kosovo declarou unilateralmente a independência da Sérvia.
História Pré-Iugoslávia As relações diplomáticas entre o então Reino da Sérvia e os Estados Unidos foram estabelecidas no século XIX. Em 1879, o Consulado Geral da Sérvia em Nova Iorque foi aberto. Em 3 de fevereiro de 1882, o parlamento sérvio aprovou um contrato e uma convenção de relações diplomáticas entre o Reino da Sérvia e os Estados Unidos, concedida pelo Rei Milan Obrenović. O Senado dos Estados Unidos aprovou dois documentos em 5 de julho de 1882, sem debates ou emendas. Em 10 de novembro de 1882, Eugene Schuyler tornou-se o primeiro embaixador dos Estados Unidos na Sérvia.
Apoio estadunidense aos monarquistas sérvios durante a Segunda Guerra Mundial thumb|left|200px|Uma placa memorial para a Operação Halyard em Pranjani, Sérvia. Durante a Segunda Guerra Mundial na Iugoslávia, os Estados Unidos inicialmente apoiaram o governo monárquico iugoslavo. Quando os nazistas invadiram a Iugoslávia na primavera de 1941, os Estados Unidos apoiaram decisivamente os chetniks nos primeiros anos da guerra. Este apoio ocorreu sob a forma de extensas relações clandestinas entre o Office of Strategic Services (OSS) e os chetniks com a administração de William Donovan. Essa cooperação foi destacada por operações complexas, como a Operação Halyard, na qual várias centenas de pilotos estadunidenses foram resgatados pelos chetniks. Contudo, o apoio do OSS aos chetniks seria comprometido pela política do MI6 do Reino Unido de favorecer os partisans iugoslavos em detrimento dos chetniks. Em 1943, o apoio do governo dos Estados Unidos aos chetniks contra os partisans iugoslavos era tal que o presidente Franklin D. Roosevelt discutiu com Winston Churchill em uma conversa privada que supunha que as fronteiras iugoslavas seriam completamente redesenhadas em três estados separados, com Pedro Karađorđević Jr. sendo o monarca de um reino sérvio independente no final da guerra. A USAF e a RAF britânica começaram a bombardear Belgrado indiscriminadamente em abril de 1944 quando acreditaram que a ocupação nazista não poderia ser removida sozinha pela resistência caseira. Os círculos de inteligência dos Estados Unidos, gradualmente, admitiram sua influência sobre as operações de guerrilha iugoslavas aos britânicos. No final da guerra, o presidente Harry S. Truman dedicou a Legião de Mérito ao líder chetnik Draža Mihailović, mas o prêmio não seria revelado publicamente até 2005.
Relações na Guerra Fria (1945-1991) Após o final da Segunda Guerra Mundial, a República Socialista Federativa da Iugoslávia foi formada. Um dos primeiros contatos diplomáticos feitos com o novo governo comunista foi o pedido do Departamento de Estado dos Estados Unidos para que o Exército dos Estados Unidos testemunhasse no julgamento de Mihailović.U.S. Defends Mihailovic in Note to Yugoslavs, The Milwaukee Sentinel - April 3, 1946. No entanto, a solicitação foi rejeitada e as primeiras relações entre os Estados Unidos e o governo de Josip Broz Tito ficaram tensas, já que os diplomatas estadunidenses ficariam furiosos com a execução de Mihailović em 1946.Walter R. Roberts, Tito, Mihailović and the Allies 1941-1945, Rutgers University Press, page 307Martin, David. Patriot or Traitor: The Case of General Mihailović: Proceedings and Report of the Commission of Inquiry of the Committee for a Fair Trial for Draja Mihailović. Hoover Archival Documentaries. Hoover Institution Publication, volume 191. Stanford, CA: Hoover Institution Press, Stanford University, 1978. As relações degradaram ainda mais um mês depois, quando duas aeronaves de carga C-47 Skytrain da USAF foram abatidas sobre a Iugoslávia no espaço de duas semanas. Mais aeronaves da USAF seriam abatidas na Iugoslávia até 1948. Como resultado, o senador dos Estados Unidos Thomas Dodd, se opôs firmemente à ajuda financeira estadunidense ao governo de Tito, inclusive dizendo que "Tito tinha mãos ensanguentadas". Em uma das primeiras visitas de Josip Broz Tito aos Estados Unidos, os manifestantes em San Pedro afogariam uma efígie dele.
Os governos comunistas na Europa submeteram-se a Stalin e rejeitaram o auxílio do Plano Marshall pelos Estados Unidos em 1947. Inicialmente, Tito acompanhou e rejeitou o Plano Marshall. No entanto, em 1948, Tito rompeu decisivamente com Stalin a respeito de outras questões, tornando a Iugoslávia um Estado comunista independente. A Iugoslávia então solicitou ajuda estadunidense. Os líderes estadunidenses estavam divididos internamente, mas finalmente concordaram e começaram a enviar dinheiro em pequena escala em 1949 e em uma escala muito maior em 1950 e 1953. A ajuda estadunidense não fez parte do Plano Marshall.
A Iugoslávia passou a abrir mais diálogo diplomático com as nações ocidentais após a ruptura Tito-Stalin, o qual assegurou que a Iugoslávia não se tornasse um membro do Pacto de Varsóvia. Em 1º de janeiro de 1967, a Iugoslávia foi o primeiro país comunista a abrir suas fronteiras a todos os visitantes estrangeiros e abolir os requisitos de visto. As viagens aéreas comerciais regulares entre os Estados Unidos e a Iugoslávia foram introduzidas com Pan Am e Jat Airways. Devido a isso, oportunidades comerciais reabriram entre os Estados Unidos e a Iugoslávia e as empresas estadunidenses começaram a exportar para a Iugoslávia. Da mesma forma, na década de 1980, a Iugoslávia estava até mesmo exportando muitos de seus automóveis fabricados da linha de montagem Zastava Automobili em Kragujevac para os Estados Unidos. O presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter discutiu questões relacionadas com a Palestina e com o Egito com Tito e se referiu a ele como um "grande líder mundial". Posteriormente, o governo Reagan teve como alvo a economia iugoslava numa Decisão Diretiva de Segurança Nacional (NSDD 133), em 1984, classificada como Segredo Sensível e intitulada "Política dos Estados Unidos para a Iugoslávia". Uma versão censurada desclassificada em 1990, a NSDD 54, tratava da Europa Oriental e foi emitida em 1982. Esta última defendeu "desenvolver esforços para promover uma 'revolução silenciosa' para derrubar governos e partidos comunistas", enquanto reintegrava os países da Europa Oriental numa economia orientada para o mercado.Sean Gervasi, 'Germany, the US, and the Yugorlav Crisis,' Covert Action, n. 43, Winter 1992–93, p 42
Radicais sérvios nos Estados Unidos durante a existência da Iugoslávia thumb|right|200px|Nikola Kavaja sequestrou o voo 293 da American Airlines em 20 de junho de 1979 com a intenção de colidi-lo no edifício da Liga dos Comunistas em Belgrado.
Durante grande parte do período socialista, os Estados Unidos foram um refúgio para muitos anticomunistas sérvios que viviam fora da Iugoslávia. Em 20 de junho de 1979, um nacionalista sérvio chamado Nikola Kavaja sequestrou o voo 293 da American Airlines na cidade de Nova Iorque com a intenção de colidir o Boeing 707 na sede da Liga dos Comunistas da Iugoslávia em Belgrado. A aeronave, no entanto, pousou em Shannon, na Irlanda, onde Kavaja foi preso.
Um grupo de seis nacionalistas sérvios, entre eles Boško Radonjić, colocou uma bomba caseira na residência do consulado iugoslavo em Chicago em 1975. Radonjić tornou-se mais tarde o líder da gangue Westies na cidade de Nova Iorque, onde participou de crime organizado e extorsão. Posteriormente, tornou-se um dos gângsteres mais temidos no submundo da cidade de Nova Iorque e desenvolveu extensas amizades com Vojislav Stanimirović, John Gotti e a família Gambino. Depois que Sammy Gravano entregou John Gotti para o Federal Bureau of Investigation em dezembro de 1990, Radonjić foi altamente suspeito de ter tentado arranjar o julgamento em favor de John Gotti. Como resultado disso, Radonjić foi preso em dezembro de 1999; depois de o FBI descobrir que o próprio estava a bordo de um avião que fazia uma viagem da Europa para Cuba, foi solicitado que o voo fosse desviado para o Aeroporto Internacional de Miami, onde Radonjić ficou retido e acabou por ser detido pelo FBI. Ele seria preso nos Estados Unidos novamente em janeiro de 2000 para uma investigação mais aprofundada sobre o julgamento de Gotti, em 1992. Após a libertação, em 2001, deixaria os Estados Unidos e retornaria para a Sérvia, onde viveu até sua morte em 2011. Também foi admirador e amigo de longa data de Radovan Karadžić até o último se esconder em 1996.