A história pública é um campo de práticas da historiografia, geralmente praticado por pessoas ligadas ao estudo de História, com o objetivo de interagir com públicos mais amplos do que o das universidades. Através das mais variadas práticas, como a elaboração de amostras em museus, intervenções artísticas, projetos de extensão universitária, documentários, aulas públicas, e muitas outras, a história pública busca ampliar a interação do público geral com o conhecimento histórico.

O termo história pública foi cunhado originalmente na década de 1970 nos Estados Unidos pelo historiador Robert Kelley em meio à crise de desemprego dos recém formados do país. No entanto, práticas que buscam levar o conhecimento histórico para amplas audiências existiam muito antes da cunhagem do termo, de modo que vários historiadores reconheçam formas de história pública anteriores à publicação de Kelley.

Com a institucionalização da história pública através da criação de organizações e de revistas próprias ao campo, inicialmente apenas no contexto estadunidense, a história pública logo passou a se popularizar em outros países, como na Grã-Bretanha e na Austrália, e posteriormente em uma escala mais internacional. Desde a década de 1980, já existem no mundo cursos de graduação e pós-graduação em história pública, com diferentes tipos de currículo e a preparação para a prática em diferentes áreas. Em cada contexto nacional, as práticas de história pública e mesmo seu conceito se desenvolveram de formas diferentes, o que dificulta uma definição concreta do campo, gerando múltiplos debates por parte da historiografia no assunto. Em alguns países, sua prática está mais ligada à história comunitária e à história oral, em outros, surge a partir de discussões sobre o ensino de história, sobre o patrimônio, ou relacionada a determinadas lutas sociais e disputas de memória. Em 2011, foi fundada a Federação Internacional de História Pública, com o intuito de promover diálogos entre as diferentes práticas e teorias da história pública ao redor do mundo, além de dar suporte à fundação de novos programas de história pública em países em que o campo ainda não se desenvolveu.

Apesar de suas diferentes variações, a história pública vem se tornando um amplo campo de pesquisa, que abarca não apenas práticas, mas também reflexões sobre a ação dos historiadores no público nas mais variadas esferas, seja através da consultoria na produção de filmes, jogos e séries, na curadoria de arquivos e museus, na escrita de livros com uma linguagem acessível ao público não-especializado, na criação de websites e recursos online sobre História, na preservação de patrimônios tanto materiais quanto imateriais, entre muitas outras possibilidades. Neste sentido, o campo da história pública possibilita a interação não apenas entre diferentes áreas dentro da historiografia, mas também a realização de cooperações interdisciplinares com profissionais da museologia, arquivologia, antropologia, ciências da computação, entre outras, além de corroborar para a ação do historiador junto a organizações estatais ou do setor privado através de atividades de curadoria e consultoria.

Origem

Ao longo dos séculos diversos historiadores tentaram aproximar o trabalho que desenvolviam a um público mais amplo, mas foi apenas nos Estados Unidos, em 1976, com o historiador Robert Kelley que o termo história pública passou a ser utilizado. A partir de então, a história pública surgiu enquanto um campo de estudos da História e passou a ser institucionalizada nas universidades, com o objetivo de extrapolar a esfera de atuação do historiador para além do contexto universitário.

Nos Estados Unidos, seu surgimento é atribuído por vários historiadores à dificuldade que os recém-formados em História encontravam para conseguir emprego nas universidades estadunidenses. Aliado a isso, também deve ser levado em consideração o engajamento direto de historiadores com as mudanças históricas do momento, como o processo de descolonização dos continentes africano e asiático.

O estudo da história pública passou por um processo de gradual globalização após as suas primeiras duas décadas de existência, passando a ser estudada em alguns países da Europa na década de 1980, e se espalhando para países da América do Sul, África, Ásia e Oceania a partir da década de 1990. Nos diferentes contextos nacionais, a história pública passa a adquirir caráteres próprios, e o próprio conceito sofre discussões e adaptações por todo o mundo.

No ano de 2011, foi fundada a Federação Internacional de História Pública, com o intuito de estimular a discussão e institucionalização da história pública em uma escala internacional, promovendo eventos e debates com participação de historiadores de diversas partes do mundo.

Dificuldades de definição Após o surgimento da história pública na década de 1970 nos Estados Unidos, ela passou a ser praticada em diversos países, tendo adquirido em cada um deles características próprias. Neste sentido, se tornou difícil encontrar uma resposta única para definir o que é a história pública e o que fazem os historiadores públicos, por haver diferentes tipos de práticas e metodologias à disposição. Apenas na segunda metade dos anos 1990 e principalmente a partir da década de 2000 é que os teóricos da história pública se articularam em peso para tentar resolver o problema da indefinição do termo.

O significado original de história pública cunhado nos Estados Unidos, que serviu de base para as outras propostas, seguia o princípio de que a história pública se referia a todo tipo de atividade dos historiadores e do método historiográfico fora das universidades, seja em corporações privadas, em museus ou no governo. Este conceito, no entanto, gerou polêmica ao longo dos anos por sua amplitude, já que abarcava espaços que não necessariamente tinham relação direta com a história pública. Uma das principais críticas ao campo como um todo aborda o sentido de sua existência, considerando a hipótese da história pública apenas dar nome a velhas práticas.

No entanto, trabalhos posteriores, sobretudo a partir da década de 2000, passaram a compreender que as múltiplas práticas que fazem parte da história pública não são necessariamente uma falha conceitual, mas uma vantagem. A história pública surge não apenas como um novo nome para velhas práticas, mas sim como um novo campo para discutir as relações entre a história e os diferentes públicos que interagem com ela. Sendo conceituado como um campo de práticas variadas e possíveis, a história pública, conforme se populariza, traz à tona reflexões sobre o papel do historiador na sociedade e sobre como as diferentes representações do passado na mídia podem modificar a relação do público com sua história. Ou seja, a história pública permite pensar mais claramente sobre a audiência, para agir através das mais diferentes práticas e projetos que a incorporam. O conceito de público miniaturadaimagem|upright=1.3|Pintura de 1877 representando um discurso de Péricles em Atenas. Hannah Arendt analisa a democracia ateniense para resgatar os conceitos de "público" e "privado" no Ocidente. Dentro do movimento que buscava definir de forma mais clara o conceito de história pública nas décadas de 1990 e 2000, muitos historiadores passaram a explorar mais especificamente o conceito de público. Estes historiadores compreendem que, ao se lidar conceitualmente com o público, e ao entender quais são as suas características, necessidades e desejos, as práticas de história pública como um todo conseguem atingir suas audiências de forma mais clara e efetiva. Neste sentido, as teorias de Jürgen Habermas e Hannah Arendt, dois clássicos da teoria política do , serviram de base para esclarecer o significado de público.

As proposições de Habermas acerca da esfera pública foram importantes para a compreensão dos diferentes conceitos de público ao longo dos séculos, chegando por fim ao "público massivo de consumidores culturais" formado no . As grandes inovações nas mídias, defende Habermas, possibilitaram que um número maior de pessoas tivessem acesso à cultura e informação, porém com pouco pensamento crítico. A passividade das audiências em relação às formas de comunicação em massa torna a manipulação da informação e a desinformação problemas mais frequentes ao longo do . Sob essa ótica, os historiadores públicos passaram a compreender a necessidade de, por um lado, criticar e responsabilizar produções de caráter histórico que tragam anacronismos e ajam de forma antiética, e de outro, produzir projetos que sejam mais acessíveis ao público leigo, procurando ocupar o espaço das novas mídias com projetos que sejam coerentes com a historiografia.

As discussões trazidas por Hannah Arendt, por sua vez, baseia a sua teoria sobre o conceito de público a partir da retomada dos conceitos de público e privado na pólis grega do a.C.. Essencialmente, o conceito de público para Arendt tem dois sentidos, o primeiro significando aquilo que se torna visível (no sentido de "vir a público"), ou seja, ver e ser visto e ouvir e ser ouvido por todos, e o segundo significando tudo aquilo que é compartilhado por todos os seres humanos, aquilo que é comum aos indivíduos dentro da sociedade. Conforme Arendt, ambos os sentidos de público estavam presentes no contexto grego naquele período. Para a autora, o conceito de esfera pública é seguido pelo seu oposto, a esfera privada, tudo aquilo que é íntimo, como pensamentos e sentimentos. No entanto, durante a era moderna, houve um aumento da esfera privada, e cada vez maior indistinção entre o que é público e o que é privado. A ampliação e supervalorização do mundo privado dentro do conceito de Hannah Arendt é um sintoma negativo da modernidade, pois implica na diminuição da esfera pública, e portanto, a perda daquilo que é comum entre os indivíduos.

Muitas das discussões acerca da teoria da história pública na década de 2000 e 2010 passaram a problematizar a noção de público como agente passivo relacionado ao conteúdo produzido. A consideração do público como agente participativo do processo de construção da memória leva ao conceito de história pública não como divulgação do conteúdo histórico, mas sim como um diálogo entre o conhecimento histórico formal, com rigor historiográfico, e as vivências dos indivíduos que fazem parte do público. Dessa forma, ao invés de simplesmente repassar um conteúdo para uma audiência de forma mais acessível, busca-se construir formas de interação do público com a produção do conteúdo, participando diretamente do processo de construção da memória sobre o passado.

Historiadores no público Ativismo, engajamento civil e justiça social esquerda|miniaturadaimagem|upright=1.3|Protestos em frente da estátua de Robert E. Lee, em Charlottesville, nos Estados Unidos, em 2017, em meio a fortes discussões sobre a herança do movimento confederado e a escravidão no país. O cartaz diz, em inglês, "O preconceito é a face vergonhosa do medo" A pesquisa e a ação do historiador em relação às injustiças cometidas no passado marcaram, em diferentes momentos e lugares, disputas jurídicas, ações governamentais, protestos populares e formas de engajamento civil. Em 1994, o julgamento de Paul Touvier, um francês que colaborou com o governo nazista durante a Segunda Guerra Mundial, se tornou notório por ser o primeiro caso de processo jurídico em que historiadores foram chamados para depôr na condição de especialistas no assunto. Os historiadores René Rémond e François Bédarida depuseram para elucidar o contexto dos crimes contra a humanidade cometidos por Touvier, realizando uma análise crítica dos documentos levantados pelos advogados.