Francisco Ignácio do Amaral Gurgel (Araraquara, — Rio de Janeiro, ), mais conhecido pelo sobrenome Amaral Gurgel, foi um autor de radionovelas, telenovelas, dramaturgo, ator, locutor e escritor brasileiro. Em seus trabalhos iniciais empregou os pseudônimos Assis Machado e Duke.
Gurgel foi autor de "centenas de textos para o rádio e a televisão, além de diversas peças para o teatro", sendo considerado um "precursor da radionovela" no país. Começou sua carreira no teatro em Araraquara em meados da década de 1930, sendo convidado para trabalhar na Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, em 1940. Em 1941 atuou em Em Busca da Felicidade, uma das primeiras radionovelas brasileiras, no papel de Fonseca e, já em 1942, lançou sua primeira radionovela, chamada Gente de Circo. Suas obras Penumbra e Ternura encontraram grande sucesso no rádio, a segunda contando com trilha sonora original gravada por Francisco Alves em 1944. No teatro, as peças Pão Duro e Gente Honesta fizeram enorme sucesso, sendo esta segunda adaptada para o cinema pela Atlântida. Nas palavras do acadêmico Arnaldo Niskier, foi "O rei das novelas de rádio" e um "gênio da literatura brasileira".
Biografia
Primeiros anos Nasceu em Araraquara em 24 de janeiro de 1910, filho de um funcionário dos Correios de nome Luiz Ignácio do Amaral Gurgel com uma dona de casa de nome Sebastiana Assis Machado Gurgel. Seus primeiros anos de vida são conhecidos apenas através de entrevistas e do depoimento concedido em 1976 para a Rádio Nacional, na ocasião do aniversário de quarenta anos da emissora. Gurgel ficou órfão de pai bastante jovem, vítima da gripe espanhola em 1918, e cursou até o segundo ano do curso primário. Segundo o depoimento, a família (constituída por Gurgel, sua mãe e sua irmã) teria se mudado para Cedral e posteriormente retornado a Araraquara por volta de 1923. Sobre o período em Cedral, o escritor diz:[...] ali, conheci tipos que ficaram na minha memória: caboclos de pés descalços e bolsos recheados de dinheiro, capangas de profissão, ladrões de cavalo, imigrantes de todos as raças, inclusive japoneses, que começaram a vir para o Brasil. Assisti brigas, tiroteios e vi homens caírem baleados. Muitos desses tipos registrei mais tarde nas histórias que conto. De volta a Araraquara, Amaral Gurgel retomaria os estudos primários, trabalhando como entregador, ajudante em uma farmácia e vendedor de títulos de capitalização. Foi com essa idade que teria ingressado na Companhia Estrada de Ferro Araraquara, de início sem receber salário, sendo posteriormente promovido a escriturário. No início dos anos 1930, Gurgel começaria a publicar sonetos e artigos nos jornais O Imparcial e Diário de Notícias, ambos de Araraquara, sob o pseudônimo Duke. Tal pseudônimo ficou associado ao escritor em sua cidade natal, sendo incluído na praça batizada em sua homenagem alt=Panfleto de cor azul desbotada onde lê-se a programação do evento Primeiro Festival Artístico pró Sociedade S. Vicente de Paulo, organizado pela Caravana Azul, em Araraquara. Na primeira parte verifica-se o título Sonho de um Pierrot seguido por "Fantasia Sincronizada por F. Gurgel (Xiko); Música por J. Tescari.|miniaturadaimagem|Panfleto do primeiro festival artístico promovido pela companhia de teatro amador Caravana Azul no Teatro Municipal de Araraquara em 1931 - interior.|300x300px|esquerda Em 1931, Gurgel participa da companhia de teatro amador Caravana Azul com sua peça Sonho de Pierrot, encenada no Teatro Municipal de Araraquara, descrita por Renato Murce como "uma ópera falada com música do maestro José Tescari e por Gurgel como “um ‘mudrama’, pois que todos os movimentos dos personagens eram acompanhados pela música. Uma espécie de ópera falada. Mas também poderia ser considerada uma opereta, pois tinha trechos cantados!". Foi através da pela que o autor relata ter conhecido Amélia D'Alva de Mattos, com quem viria a se casar em 1937. O primeiro filho do casal, Luis Carlos, nasceu em 1939 e o segundo, José Sérgio, em 1941. alt=Carta enviada por Mario de Andrade a Amaral Gurgel em 21/10/1936 informando sobre a vitória de Terra Bendita no concurso de peças teatrais promovido pelo Departamento de Cultura de São Paulo.|miniaturadaimagem|Carta enviada por Mario de Andrade a Amaral Gurgel em 21/10/1936 informando sobre a vitória de Terra Bendita no concurso de peças teatrais promovido pelo Departamento de Cultura de São Paulo. Por volta de 1933 teria começado a atuar na incipiente PRD-4 Rádio Cultura de Araraquara. Em 1936 o Departamento de Cultura do Município de São Paulo, sob direção de Mario de Andrade, lançou um concurso de peças teatrais, no qual uma peça de Gurgel chamada Terra Bendita recebeu a segunda colocação, sendo publicada como livro no ano seguinte. Há um erro na edição, conforme o próprio autor explica, pois na capa do livro não foi publicado seu nome, mas sim o pseudônimo Assis Machado, que empregou para a inscrição no concurso. O erro se repetiu por muitos anos a partir dessa fonte. Procópio Ferreira leva a peça para os palcos do Teatro Municipal de Araraquara em 1937, atuando no papel de Juvêncio, e depois para o Teatro Boa Vista em São Paulo. Em 1939 o programa Teatro em Casa, da Rádio Nacional, transmitiu uma adaptação de Terra Bendita, identificando o autor ainda pelo pseudônimo.
A partir de então a emissora carioca passa a encomendar obras de Gurgel, a saber as peças: Não Julgueis (veiculada em 20 de Agosto de 1939), Trapézios Volantes (em 8 de dezembro) e Os Transviados (em 22 de dezembro). Estes dois últimos fizeram enorme sucesso de público e acabaram publicados como romance em uma mesma edição pela Editora da Rádio Nacional em 1944. A aproximação entre o escritor e a emissora teve como principal mediador locutor Celso Guimarães. Ele é finalmente contratado, se mudando para o Rio de Janeiro em 1940. alt=Livro de capa marrom onde se lê "Assis Machado / Terra Bemdita: Romance em tres actos"|esquerda|miniaturadaimagem|Capa do livro Terra Bendita, de Assis Machado (pseudônimo de Amaral Gurgel), de 1937, publicado pelo Departamento de Cultura do Município de São Paulo. Ainda em 1939, Gurgel enviou um conto chamado “Amanhã É Domingo” para um concurso do Semanário Dom Casmurro, recebendo a sexta colocação. Dois votos favoráveis partiram dos jurados Oduvaldo Vianna e Graciliano Ramos.
Novelista na Rádio Nacional A Rádio Nacional surge como rádio-sociedade em 1936, mudando de direção três vezes até ser incorporada ao Estado por Vargas. Em um contexto de Estado Novo, Vargas atribuía à empresa um papel de integração nacional e de comunicação direta do governo varguista com as camadas mais pobres da população. Para cumprir tal projeto, o governo aposta em músicas populares, programas humorísticos e radioteatro para atrair público.
A literatura sobre o rádio brasileiro costuma considerar Em Busca da Felicidade, de 1941, como a primeira radionovela irradiada no país. Nos últimos anos, os usos dos termos radioteatro e radionovela passaram a ser mais discutidos e esse pioneirismo deixa de ser tão auto-evidente como se considerava. De toda forma, Em Busca da Felicidade foi um marco histórico pelo engajamento do público, abrindo caminho para toda uma era do rádio que tinha as radionovelas como atração principal. Amaral Gurgel já escrevia ficção para a Rádio Nacional desde 1940, inclusive com obras seriadas. São exemplos de trabalhos desse tipo: As Aventuras de Frank Vernon (obra seriada), João Timbira em Redor do Brasil (obra "animada no microfone") e Policial Vassalo (atração ficcional dentro do Programa Luiz Vassalo). No depoimento, Amaral Gurgel cita também uma outra atração chamada Bazar que teria ficado sob sua responsabilidade, a respeito da qual não foram encontrados mais vestígios:Deram-me um programa matinal das nove às onze (os horários nobres só começavam depois das dezenove horas), dei-lhe o título de Bazar. Para me auxiliar, dois locutores ótimos: Aurélio de Andrade e Rubens do Amaral, que também faziam a narração. Pedi duas vozes femininas, mas não iam usar na rádio atriz para tal horário. Celso Guimarães chamou uma mocinha de Niterói que já fizera pequenos papéis no Teatro em Casa, e surgiu uma outra atriz que fizera Teatro de Estudante. Foram contratadas. Eram apenas Isis de Oliveira e Yara Sales.Nesse período também participou como locutor do concurso “As Mais Lindas Cartas de Amor”, fazendo par com Yara Sales. Teve as seguintes obras veiculadas no Teatro em Casa: A Mulher que eu Pago (05/01/1940, adaptada de sua peça de teatro de mesmo nome), O Mandarim (23/02/1940, adaptado do romance de Eça de Queiroz), Linda (19/04/1940) e Luta (31/01/1941)
Pouco depois da estreia de Em Busca da Felicidade, Oduvaldo Vianna escreve Fatalidade, “a primeira radionovela criada no Brasil”, para a Rádio São Paulo. No ano seguinte, a Rádio Nacional encomenda a Amaral Gurgel a novela Gente de Circo, sua primeira incursão no gênero. No ano seguinte, mais três novelas de Gurgel chamam a atenção do público. A primeira se chamava Três Vidas, transmitida às 21h39. A segunda, chamada A Outra, entrou na programação no horário das 10h30. Já a última, chamada Penumbra, parece ter atraído ainda mais ouvintes no horário das 13h00. Penumbra foi anunciada como próxima adaptação para o cinema pela produtora Atlântida em 1947, porém o filme nunca chegou a ser lançado. O depoimento aponta que esta se chamaria Alvorada, mas foi inicialmente rejeitada pela Nacional por se passar em um morro carioca: Vagando o novo horário das treze horas, Victor [Costa] pediu-me uma novela. Escrevi Alvorada, um enredo no qual eu queria mostrar a vida nos morros cariocas. No ensaio, Paulo Gracindo e Zezé Fonseca torceram o nariz. Uma história num ambiente de pobreza e miséria não iria funcionar. Levaram seus protestos a Victor Costa, que me chamou. Discutimos. Irritado, rasguei os primeiros capítulos que já havia escrito. Victor empalideceu: a novela ia começar poucas horas depois e não existia nenhum outro original. Mais calmo, sentei-me à máquina e bati rapidamente o primeiro capítulo de uma novela, na qual eu pretendia gozar os artistas e o público. Queriam mistérios com fundos falsos, medalhinhas e outras bobagens? Eu faria. Queriam cenas lacrimogêneas, forçadas pelos pais a um casamento que não os agradava? Eu faria. Mas, casamentos forçados estavam fora de época. Por isso situei a história em mil oitocentos e trinta, e não assisti aos ensaios, nem ouvi os primeiros capítulos. Só quando começaram a me cumprimentar pelo sucesso, e o próprio Victor veio me abraçar, compreendi que aquilo que começara como molecagem era um bem de ouro. [...] Foi assim que nasceu a novela PENUMBRA, o meu maior sucesso do gênero. Paulo Gracindo deu à sua filha, nascida naquele ano, o nome da heroína nossa da história: Lenora.As radionovelas ocupavam um lugar na cultura popular que rendia em muitos momentos críticas duras dos profissionais especializados. Curiosamente, ao mesmo tempo que essa crítica conseguia reconhecer os méritos de alguns desses escritores, como é o caso de Ghiaroni chamado de “um poeta, que, para ganhar o pão, faz novela de rádio”, e do próprio Amaral Gurgel, suas obras eram criticadas pelo excesso de “choro-tiro-facada”.