Zuenir Carlos Ventura (Além Paraíba, – Rio de Janeiro, ) foi um jornalista, repórter, cronista, professor e escritor brasileiro. Em uma carreira de cerca de sete décadas, trabalhou na imprensa escrita como repórter, editor e colunista, além de lecionar e publicar livros que nasceram muitas vezes de sua experiência direta com acontecimentos da vida brasileira.

Sua trajetória atravessou momentos de forte mudança política, social e cultural no país. Ventura acompanhou protestos, transformações na imprensa, o período da ditadura militar brasileira e a redemocratização, passando por jornais e revistas como Tribuna da Imprensa, O Cruzeiro, Veja, Jornal do Brasil e O Globo. A reportagem permaneceu no centro de seu trabalho mesmo quando passou a escrever crônicas e livros.

Entre suas obras mais conhecidas estão 1968: o Ano Que não Terminou, sobre a geração que viveu as tensões políticas e culturais daquele ano, Cidade Partida, escrito depois de meses de convivência e apuração em Vigário Geral, e Chico Mendes: Crime e Castigo, resultado de seu trabalho sobre o assassinato do seringueiro e ambientalista Chico Mendes. Seus livros combinaram investigação jornalística, memória e narrativa para contar acontecimentos por meio das pessoas que os viveram.

Preso após o Ato Institucional n.º 5 em 1968, Ventura retomou a carreira depois de deixar a prisão e recebeu ao longo das décadas prêmios por reportagens e livros. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2014, tomou posse em 2015 e ocupou a cadeira n.º 32 até sua morte, aos 95 anos.

Biografia Primeiros anos e formação thumb|left|upright=1.15|Nova Friburgo, onde Ventura passou parte da infância e da adolescência. Foi nessa fase que começou a trabalhar e estudou como bolsista.

Filho de Antônio José Ventura e Herina de Araújo, Ventura nasceu em Além Paraíba, em Minas Gerais, e ainda bebê foi levado para Ponte Nova, onde passou os primeiros anos da infância e estudou como interno no Colégio Salesiano Dom Helvécio. Quando tinha 11 anos, a família mudou-se para Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro.

Em Nova Friburgo, começou a trabalhar com o pai, que era pintor de paredes, aos 11 anos. Depois foi contínuo de banco, faxineiro de bar e balconista. Seus pais tiveram pouca educação formal, mas sua mãe insistia para que os filhos estudassem. Ventura já era bolsista no Colégio Modelo quando a direção lhe propôs dar aulas a crianças do curso primário em troca da gratuidade do curso científico noturno. A experiência o levou a considerar o magistério.

Depois de se mudar para o Rio de Janeiro, Ventura cursou Letras Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia da então Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 1955, trabalhou ao lado do filólogo Celso Cunha na cátedra de Língua Portuguesa da Faculdade de Jornalismo.

thumb|right|upright=1.15|Na ESDI, Ventura ensinou Comunicação Verbal desde o início das aulas da instituição. O trabalho como professor acompanhou boa parte de sua carreira jornalística.

O ensino continuou fazendo parte de sua vida mesmo depois que o jornalismo se tornou sua principal profissão. Ventura lecionou na UFRJ e na Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), onde participou desde o começo das aulas, em 1963, e ficou responsável pela disciplina de Comunicação Verbal. Sua ligação com a escola durou até o início da década de 1980.

Carreira jornalística thumb|left|upright=1.15|Ventura durante um encontro promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo em 2018. Sua carreira começou no arquivo de um jornal e se estendeu à reportagem, edição, direção de redação e crônica. Enquanto ainda cursava a universidade, Ventura trabalhou como arquivista noturno da Tribuna da Imprensa. Em 1956, surgiu no jornal a necessidade de um artigo sobre o escritor francês Albert Camus, de quem Ventura era leitor. Ele se ofereceu para escrever o texto e, depois da publicação, foi convidado a trabalhar na redação.

No início da década de 1960, passou uma temporada em Paris com uma bolsa de estudos no Centre de Formation des Journalistes. Ao voltar ao Brasil, ocupou diferentes funções de reportagem e chefia. Foi editor internacional do Correio da Manhã, diretor de redação de Fatos & Fotos, chefe de reportagem de O Cruzeiro e editor-chefe da sucursal carioca de Visão.

Em 1967, participou da criação de O Sol e acompanhou protestos e mobilizações estudantis. Depois do AI-5, decretado em dezembro de 1968, Ventura foi preso por cerca de três meses. Mary também foi presa e permaneceu detida aproximadamente um mês. Ventura contou mais tarde que não sofreu tortura física, embora temesse que isso acontecesse.

No fim de 1969, produziu para a Editora Abril a série de doze reportagens Os anos 60 – a década que mudou tudo, posteriormente publicada em livro. Em 1971, voltou à Visão, onde chefiou a sucursal do Rio até 1977. Nesse período, cobriu a Revolução dos Cravos, em Portugal, e colaborou como roteirista no documentário Que país é este?, dirigido por Leon Hirszman para a televisão italiana. Em 1977, transferiu-se para a Veja e, em 1981, para a IstoÉ, sempre em funções de chefia.

Em 1985, Ventura foi para o Jornal do Brasil. Foi convidado a reformular a revista Domingo e depois ocupou outras funções de chefia no jornal. Também participou da reformulação do Caderno B e da criação de outros espaços voltados à cultura.

thumb|right|upright=0.85|O assassinato de Chico Mendes, fotografado aqui em 1988, levou Ventura ao Acre para uma longa apuração. A reportagem recebeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog e, anos depois, deu origem ao livro Chico Mendes: Crime e Castigo.

Após o assassinato do sindicalista e ambientalista Chico Mendes, morto em Xapuri, no Acre, em dezembro de 1988, Ventura viajou para a região e passou cerca de um mês investigando o crime. A série O Acre de Chico Mendes, publicada pelo Jornal do Brasil em 1989, recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog.

Genésio Ferreira da Silva, testemunha do assassinato que tinha 13 anos e estava sob ameaça, foi acolhido na casa de Ventura, no Rio de Janeiro, onde viveu dos 13 aos 21 anos. Em 2003, Ventura voltou ao Acre para concluir a reportagem que reuniu em Chico Mendes: Crime e Castigo.

Depois de deixar o Jornal do Brasil, Ventura estreou como cronista de O Globo em 30 de janeiro de 1999. Suas colunas tratavam de assuntos como política, cultura, sociedade e o cotidiano do Rio de Janeiro. Ao falar sobre a observação necessária para a crônica, resumiu: "O cronista trabalha muito com os olhos".

Em entrevistas, Ventura defendia cuidado na apuração e alertava contra a pressa de transformar uma impressão em certeza, especialmente diante de denúncias. Também via o jornalismo como um registro de acontecimentos ainda em movimento, que mais tarde poderiam ser examinados com maior distância por historiadores.

Livros e reconhecimento thumb|left|upright=1.15|Depois da Chacina de Vigário Geral, Ventura passou cerca de dez meses frequentando a comunidade. A experiência deu origem a parte da apuração de Cidade Partida. Em 1968: o Ano Que não Terminou, publicado em 1988, Ventura narrou os protestos, as mudanças culturais e a repressão política daquele ano usando recursos da reportagem e da narrativa de não ficção. O livro chegou a 48 edições e vendeu mais de 400 mil exemplares. Serviu de inspiração para a minissérie Anos Rebeldes, exibida pela TV Globo em 1992, e o capítulo "Um herói solitário" inspirou o documentário francês O Homem que Disse Não, dirigido por Olivier Horn.

Depois da Chacina de Vigário Geral, em 1993, Ventura passou cerca de dez meses frequentando a comunidade e acompanhou a mobilização da sociedade civil contra a violência que resultou no movimento Viva Rio. Em Cidade Partida, escreveu que havia encontrado em Vigário Geral "um mundo onde a república não chegou". O livro recebeu o segundo lugar na categoria Reportagem do Prêmio Jabuti de 1995.

Em 1998, publicou O Rio de J. Carlos, com texto de Ventura e organização de Cássio Loredano, dedicado à obra do ilustrador e caricaturista J. Carlos. No mesmo ano, lançou Inveja: Mal Secreto, publicado depois em Portugal e na Itália. Em Minhas histórias dos outros, de 2005, reuniu episódios de sua carreira e encontros com personagens que conheceu como jornalista.

thumb|right|upright=1.15|Zuenir Ventura e Luis Fernando Verissimo em 2018. Os dois participaram, com Arthur Dapieve, do livro Conversa sobre o tempo.

Em 1968: O Que Fizemos de Nós, publicado em 2008, Ventura voltou à geração de 1968 e examinou como jovens da primeira década do século XXI se relacionavam com temas como política, corpo e drogas. A obra ficou em terceiro lugar na categoria Reportagem do Prêmio Jabuti de 2009.

Ventura também trabalhou em documentários. Codirigiu Um Dia Qualquer e foi roteirista de Paulinho da Viola: Meu Tempo é Hoje, dirigido por Izabel Jaguaribe. Em 2012, lançou Sagrada Família, romance que mistura ficção e memórias de sua infância e adolescência.

Em 2008, Ventura foi um dos cinco jornalistas homenageados com o Troféu Especial de Imprensa "ONU: 60 Anos da Declaração/Prêmios Vladimir Herzog", criado pelo Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil e pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos para jornalistas que haviam se destacado na defesa dos direitos humanos na imprensa brasileira. Em 2010, foi escolhido Jornalista do Ano pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros.

Cidade Partida recebeu uma edição especial de trinta anos em 2024, com prefácio de Mauro Ventura. Em 2026, a trajetória de Zuenir Ventura tornou-se tema do documentário Mestre Zu, dirigido por Zelito Viana. O filme reuniu lembranças de amigos e foi exibido na Academia Brasileira de Letras.

Academia Brasileira de Letras

thumb|left|upright=1.15|O Petit Trianon, sede da Academia Brasileira de Letras no Rio de Janeiro. Ventura tomou posse na cadeira n.º 32 em 2015.

Em 30 de outubro de 2014, Ventura recebeu 35 dos 37 votos para ocupar a cadeira n.º 32 da Academia Brasileira de Letras, vaga desde a morte de Ariano Suassuna. Tornou-se o sétimo ocupante da cadeira, cujo patrono é Manuel de Araújo Porto-Alegre.

A posse ocorreu em 6 de março de 2015. Ventura foi recebido por Cleonice Berardinelli, Merval Pereira colocou-lhe o colar acadêmico e Domício Proença Filho entregou o diploma. Ocupou a cadeira n.º 32 até sua morte, em setembro de 2026.

Vida pessoal e morte thumb|right|upright=1.05|Durante uma entrevista à Agência Brasil, em 2012 Conheceu a jornalista Mary Akiersztein durante sua passagem pela Tribuna da Imprensa, e os dois se casaram em 1962. O casal teve dois filhos, Mauro, nascido em 1963, e Elisa, nascida em 1964. Mauro Ventura seguiu carreira como jornalista e escritor.

Experiências pessoais reapareceram em parte de seus livros. Sagrada Família combina ficção com memórias de infância e adolescência, enquanto Minhas histórias dos outros reúne episódios vividos ao longo da carreira jornalística.

Morreu em 22 de setembro de 2026, em casa, aos 95 anos, em decorrência de uma pneumonia. Seu corpo foi velado na Academia Brasileira de Letras e enterrado no mausoléu da ABL no Cemitério de São João Batista.

Obras selecionadas

1968: o Ano Que não Terminou (1988) Cidade Partida (1994) Inveja: Mal Secreto (1998) O Rio de J. Carlos, organizado por Cássio Loredano (1998) Crônicas de um fim de século (1999) 70/80: Cultura em trânsito – da repressão à abertura, com Heloísa Buarque de Hollanda e Elio Gaspari (2000) Chico Mendes: Crime e Castigo (2003) Um voluntário da pátria, da coleção Vozes do golpe (2004) Minhas histórias dos outros (2005) 1968: O Que Fizemos de Nós (2008) Conversa sobre o tempo, com Luis Fernando Verissimo e Arthur Dapieve (2010) Sagrada Família (2012)

Ver também Jornalismo literário, forma de escrita que combina apuração jornalística e recursos narrativos, presente em grande parte de sua obra de não ficção