miniaturadaimagem|Retrato Mitológico da Família de Luís XIV, de Jean Nocret. Pintura alegórica em que os familiares do monarca são representados como deuses ou heróis da mitologia greco-romana, mostra a importância dos padrões estéticos e do gosto clássico na França do Rei Sol.|350x350px A Querela dos Antigos e Modernos foi uma polêmica intelectual nascida na Academia francesa, e que agitou o mundo literário e artístico do final do ao início do . Tratava da superioridade ou não dos autores da Antiguidade Clássica perante o pensamento moderno.
A querela teve sua origem na década de 1680, quando Charles Perrault, em seu poema "O século de Luís, o Grande", afirmou que artistas e cientistas contemporâneos superavam em excelência os modelos então venerados da Antiguidade greco-romana. De um lado, os antigos defendiam a ideia de autoridade e, do outro, os modernos abordavam o progresso e as rupturas trazidas pela modernidade. A renovação do interesse na Antiguidade, no Classicismo, reflete-se em uma reavaliação crítica das realizações da Antiguidade, que acaba submetendo as próprias escrituras ao exame dos Modernos. A abordagem de Perrault provocou a indignação de Nicolas Boileau, que defendia os valores clássicos em sua obra "Arte Poética". O embate ganhou proporções maiores com o passar dos anos, envolvendo uma série de publicações e debates tanto na França quanto na Inglaterra, com defensores de ambas as partes argumentando sobre a prioridade do conhecimento antigo versus o progresso da modernidade. Na Inglaterra, o debate se expandiu com William Temple e outros defendendo os antigos, enquanto autores como Jonathan Swift satirizavam a querela em suas obras. Em um terceiro período, novamente na França, o conflito evoluiu para a querela de Homero, centrada na prática de tradução e na disputa entre Anne Dacier e Houdar de La Motte sobre a fidelidade ao texto original. O embate continuou até uma reconciliação simbólica em 1716, marcando um importante capítulo na história intelectual e literária do período.
A Querela dos Antigos e Modernos, durante os séculos XVII e XVIII na França, foi fundamentada em dois eixos principais: a importância da imitação para os Antigos e a valorização do tempo contemporâneo para os Modernos. Para os Antigos, que valorizavam a imitação como princípio artístico, a arte deveria seguir as regras estabelecidas pela antiguidade greco-romana, conforme delineadas por Aristóteles em sua obra Poética. Essas regras enfatizavam a imitação da natureza e a verossimilhança, buscando replicar a realidade de maneira fiel. Personagens, situações e mitos antigos serviam como modelos para a produção artística, sendo considerados cumpridores excelentes das regras de imitação. Por outro lado, os Modernos viam seu próprio tempo como inédito e autêntico, superior em qualidade devido ao acumulado de conhecimento e sabedoria. Eles se consideravam capazes de construir conhecimento tanto quanto seus predecessores, mas com a vantagem de terem acesso a um acervo maior de informações devido à passagem do tempo. Essa visão temporal implicava uma concepção de progresso da humanidade e abria espaço para a ideia de um futuro diferente e aperfeiçoado
A disputa no primeiro período da Querela dos Antigos e Moderno em que Charles Perrault e Nicolas Boileau foram os principais personagens só cessa em 30 de agosto de 1694, quando Antoine Arnauld intervém para conciliar ambas as partes, quando os dois se reconciliam em público, perante a Academia Francesa. A reação do público da época sugere que Perrault e seu partido conquistaram a vitória nesta controvérsia. Já a querela entre Anna Dacier e La Motte, em que intervêm os autores tão diferentes como Fénelon, o abade Terrasson e Jean Boivin, termina em 1716, com uma reconciliação pessoal dos atores principais. Ela entrou na história da literatura sob o nome de Disputa de Homero. Mesmo com o esgotamento do conflito, as repercussões desta "Segunda Querela dos Antigos e Modernos" persistem durante o Iluminismo para continuar até a disputa suscitada pelo Romantismo.
Definição A Querela dos Antigos e Modernos é classicamente definida como o embate entre dois grupos: o dos antigos e o dos modernos.
O grupo dos antigos, liderado por Nicolas Boileau, sustentava uma concepção de criação literária baseada na imitação dos autores da Antiguidade. De acordo com essa concepção, é o julgamento do público e da posteridade que faz as obras-primas, não a opinião tendenciosa de uma elite de estudiosos; o valor dos grandes autores da Grécia e de Roma é confirmado por vinte séculos de admiração universal. Embora reconhecendo os méritos dos contemporâneos — Boileau previu que importa também reconhecer a dimensão cumulativa da cultura e homenagear os nossos antecessores. Esta tese se fundamenta na ideia de que a antiguidade grega e romana representavam a perfeição artística, completa e insuperável. Assim, Racine trata nas suas tragédias (Fedra, por exemplo) sobre temas já abordados pelos tragediógrafos gregos. A literatura deveria respeitar as regras do drama clássico desenvolvidas pelos poetas do período clássico e na Poética de Aristóteles. A metáfora dos anões sobre os ombros dos gigantes ilustra esse princípio: estudando as obras dos grandes homens do passado, é possível superá-los.
O grupo dos modernos, representado por Charles Perrault, que defendia o mérito dos autores do século de Luís XIV, afirmava que os autores da Antiguidade eram superáveis e que a criação literária consistia na inovação. Eles argumentavam, em consequência, por uma literatura adaptada para a era moderna e as novas formas artísticas.
Este debate literário e filosófico, dentro da história intelectual, é comumente visto como anunciando o Iluminismo e a Modernidade através da vitória do grupo dos modernos. Marc Fumaroli propõe que os antigos "admitem o que há de vivo, desconcertante, comovente na representação da vida humana pelos poetas antigos, enquanto os Modernos são a favor de convenções morais e estéticas uniformes e confortáveis". Segundo ele, também existe uma questão política em torno da querela. Boileau está perto de Port-Royal e, ao defender os autores antigos, também está defendendo a liberdade na República das Letras. Por outro lado, Perrault celebra abertamente a grandeza de Luís XIV.
Debate historiográfico A primeira obra historiográfica a analisar a querela dos antigos e modernos foi o livro de Augustin Simon Irailh Querelles littéraires (1761). Neste livro, a querela é vista como uma disputa com dois lados muito bem delimitados, que agrupa diferentes controvérsias literárias e com desdobramentos marcantes para a história do pensamento francês. Dando continuidade a essa linha interpretativa, Hippolyte Rigault deu um tom teleológico à querela ao acrescentar a noção de que ela sinalizaria a modernidade epistemológica como resultado do rompimento da tradição intelectual greco-romana.
Na passagem do para o XX, Gustave Lanson deu um tom mais sociológico à querela. Se a interpretação de Irailh tendia a salientar a centralidade de autores individuais dentro da querela, Lanson enfatizou a interação entre o grupo dos modernos e o grupo dos antigos. Na primeira metade do , a recepção da querela é marcada pelo clássico de Paul Hazard A crise da consciência europeia (1935), onde o grupo dos modernos representa a modernidade por excelência. A querela seria um sintoma do avanço do pirronismo histórico em que a dúvida cartesiana impulsionava os letrados a duvidarem da tradição greco-latina. Em Ancients and Moderns reconsidered (1981), Joseph M. Levine contribuiu no debate ao colocar a existência de uma contraparte inglesa da querela e mostrar através o diálogo entre eles e os franceses. Levine argumenta que o início da querela estava ligado ao debate humanista, visível nos argumentos eruditos de ambos os lados, e reforça a necessidade de dissociação entre os modernos e a modernidade a fim de compreender a historicidade do debate literário.
A partir da década de 1970, os trabalhos de Marc Fumaroli atribuem aos antigos a antecipação da crítica à “obsessão de si” relacionada ao tempo presente. Em La querelle des Anciens et des Modernes, Fumaroli propõe que para entender a querela era necessário recuar no tempo e observar para as primeiras manifestações que configurariam o partido moderno. Para ele, autores como Pierre de la Ramée e Jean Bodin teriam advogado pela superioridade dos tempos modernos, o que acabou sendo cristalizado por Montaigne em seus Ensaios (1533-1592). Em Antigos contra modernos (1997) Joan DeJean identifica nos modernos uma tendência ao abandono dos critérios clássicos da composição artística, que anteciparia o historicismo no entendimento da especificidade e contingência dos períodos históricos. Além disso, DeJean também traça um paralelo entre a querela e as guerras culturais estadunidenses de fim do .
Em The shock of the ancient (2011), Larry F. Norman aponta que Fumaroli e DeJean representam duas perspectivas distintas sobre a querela. De um lado, Fumaroli demonstra simpatia pelos antigos devido à sua oposição às ambições totalizadoras do racionalismo do e à "auto-obsessão hermética da modernidade". Por outro lado, De Jean acaba negligenciando o conteúdo, os fundamentos e a mobilização das questões específicas do contexto do ao trazê-las para o debate contemporâneo. Em ambos os casos, segundo Norman, as posições dos antigos e modernos se tornam tão claramente definidas que se tornam ideológicas, permitindo que o debate seja transferido para qualquer contexto em que conceitos tradicionais sejam confrontados diretamente. A proposta de Norman é que as obras produzidas pelos letrados envolvidos nos dois lados da querela devem ser lidas como pertencendo ao contexto do classicismo francês.
Antecedentes
Antigos como gigantes e modernos como anões na Idade Média
Segundo Samuel Mateus, o sentido do tempo moderno e da modernidade como entendido na contemporaneidade, um momento de surgimento de novidades, abruptamente separado do passado, foi se constituindo através da formulação de vários lugares-comuns ao longo da história. Eram lugares-comuns nos discursos elaborados desde a Antiguidade sobre o tempo moderno a criação ou apropriação de termos e expressões que designassem um novo tempo, por exemplo, como momento presente (no latim nostra aetas), ou presente cristão (usado durante a Idade Média para opor aquele período a um tempo antigo pagão). Ou ainda, mais importante, o surgimento do próprio vocábulo moderno ainda na antiguidade (do latim modernus, d.C) que significaria a própria atualidade de então. A intenção com o uso de cada um desses modos de pensar a passagem do tempo era separar cada vez mais rigidamente o passado e o tempo presente tido como apropriado, pertencente aos sujeitos que o experimentavam. miniaturadaimagem|Segundo o filósofo do , Bernardo de Chartres, em sua época era possível aos intelectuais construírem o conhecimento a partir das altas contribuições das Autoridades antigas. Depois, os chamados modernos pretenderiam subir às costas dessas autoridades para enxergar mais longe do que elas jamais teriam conseguido. Logo, Samuel Mateus argumenta que certa tensão entre a valorização do pensamento e racionalidade produzidos no tempo em que as pessoas estavam vivendo (seu presente) e o conhecimento acumulado em tempos mais antigos existia desde muito antes da Querela dos Antigos e Modernos. Esse acontecimento, porém, passou a ser visto pela historiografia como expressivo para o estabelecimento de uma noção de diferenciação temporal que antes era menos demarcada na intelectualidade ocidental.
Por exemplo, a metáfora dos anões em ombros de gigantes que foi constantemente reinterpretada e exprime a disputa acontecida no e XVIII, no entanto, foi criada no por Bernardo de Chartres. Ele afirmou que: