A língua macua, ou emacua (makua ou emakhuwa) é a principal língua nativa de Moçambique, sendo falada por cerca de 4 milhões de pessoas do grupo étnico macua, membro do conjunto de povos bantos. O idioma pertence à família linguística nigero-congolesa e possui diversas variações e dialetos.

Os seus falantes encontram-se, maioritariamente, ao norte do Rio Zambeze, nas províncias moçambicanas de Nampula, Cabo Delgado, Niassa, Zambézia e Sofala incluindo sul da Tanzânia.

Dialetos

Durante os I e II Seminários sobre a Padronização da Ortografia de Línguas Moçambicanas, ocorridos em 1988 e 1999, foram estabelecidos os dialetos mais significativos da língua macua, listados a seguir. Devido à grande quantidade de dialetos e de termos para os identificar, o nome macua foi designado para a língua como um todo e o dialeto emacua foi considerado como a variante central e de referência para os demais.

Emakhuwa: Falado na província de Nampula (cidade-capital Nampula e distritos de Ribaue, Malema, Lalaua, Mecuburi, Murupula e Rapale) Enahara: Falado na província de Nampula (distritos Mossuril, Ilha de Moçambique, Nacala-Porto, Nacala-a-Velha e parte de Memba). Esaaka: Falado nas províncias de Nampula (distritos Eráti, Nacarôa e parte de Memba) e Cabo-Delgado (distritos Chiúre e Mecúfi) Esankasi: Falado em algumas zonas do distrito de Angoche, província Nampula Emarevoni: Falado nas províncias de Nampula (partes dos distritos de Moma e Mogincual) e Zambézia (parte de Pebane) Elomwe: Falado na província da Zambézia (Gurue, Gilé, Alto Molócue e Ile) Emeeto: Falado nas províncias de Cabo-Delgado (distritos de Montepuez, Balama, Namuno, Pemba, Ancuabe, Quissanga e parte de Meluco, Macomia e Mocimboa da Praia) e Niassa (distritos de Marupa, Nipepe e Maúa) Exirima: Falado na província do Niassa (Cuamba, Metarica e partes de Mandimba)

Quadros Comparativos miniaturadaimagem|285x285px|Mãe e filha na província de Nampula, Moçambique A seguir constam quadros comparativos entre a variante central emacua e os dialetos emacua-imeeto e emacua-enahara, bem como uma comparação entre o macua e o suaíli. +Comparação entre dialetos do macuaEmakhuwaEmeetoEnaharaPortuguêsnsuwancuwanzuwasolmulopwananlopwananlopwanahomemnsanancananzanaontemoleloileloelelohojeomelomelomeloamanhãekhaanimwankaniyaankhaanipequenoyuulupalemuulupaleyuulupalegrande O quadro acima compara respectivamente dois substantivos, três advérbios e dois adjetivos. As variantes são bastante semelhantes entre si, havendo, porém, diferença(s) no início das palavras; por exemplo, nas palavras para "sol" e "ontem", ocorre apenas uma alternância no segundo grafema, sendo usado s em emacua, c em emacua-imeeto e z em emacua-enahara. Além disso, a maioria dos falantes de emacua-enahara afirmam compreender bem o emacua, bem como as duas variantes apresentam poucas diferenças lexicais. +Comparação entre emacua e suaíliEmakhuwaSuaíliPortuguêsmarupomatumboIntestinoekalawagalawacanoamakuramafutaóleoikuwonguoroupamurimamtimacoraçãomakanomaganoacordoikomangomatamboretthepotemboelefantemaxinttanomasindanoconcurso Apesar da proximidade locativa, há poucas palavras semelhantes em macua e suaíli. No entanto, os vocábulos apresentados na tabela auxiliam no entendimento de algumas tendências fonológicas da língua macua refletidas na escrita, como o desvozeamento das consoantes oclusivas:

matumbo x marupo

magano x makano

Fonética e Fonologia

Consoantes A língua apresenta 26 consoantes, como mostrado na tabela abaixo. É importante ressaltar que o sistema fonológico do macua contém apenas oclusivas desvozeadas - assim, os grafemas b, d e g só ocorrem em empréstimos e são, na maioria das vezes, pronunciados através dos fones desvozeados [p], [t] e [k], respectivamente. O grafema b na palavra “Moçambique”, por exemplo, é maioritariamente pronunciado pelos falantes de macua através do fone [p]. +Consoantes do macua conforme o AFIModo/LugarBilabialLabio-DetalDentalAlveolarRetroflexaPalatalLábio-VelarVelarGlotalOclusivaNão Aspiradapt̪ʈckAspiradapʰt̪ʰʈʰkʰFricativaf v ðs zçhNasal m n ɲ ŋAproximante LaterallʎAfricadad͡ʒVibranterAproximante j w A aspiração das oclusivas é um aspecto contrastivo do macua. Assim, há palavras que se diferenciam apenas pela aspiração de uma consoante oclusiva, como mostrado nos vocábulos a seguir:

-tek- 'construir' x -thek- 'descascar'

-lap- 'rezar' x laph 'xingamento'

Em determinados contextos, os fones [ð], [z], [ç] e [c] representados, respectivamente, pelos grafemas dh, z, x e c, constituem variações regionais (alofones) em relação ao fone [s], representado pelo grafema s na variante de referência. A seguir constam exemplos em 4 dialetos para a palavra ‘agradável’.

osiva Emakhuwa (variante de referência)

ociva Esaaka

oziva Enahara

odhiva Esankasi

Em lomué, os fonemas ʈ] e ʈʰ] da variante de referência são realizados foneticamente como [tʃ] e [tʃʰ], sendo representados, respectivamente, pelos grafemas c e ch nesta variante:

+SignificadoEscrita em emacuaFone em emacuaEscrita em lomuéFone em lomuéremédiomirette[ʈ]mirece[tʃ]cadávermurutthu[ʈʰ]miruchu[tʃʰ]júbilootthapa[ʈʰ]ochapa[tʃʰ]

As semivogais w e y comportam-se na estrutura da sílaba como consoantes. Há forte presença da nasalização na língua. Aponta-se que esse fato tem origens no uso do disco labial pelas mulheres macuas.

Modificação de consoantes A língua macua detém certas transformações fonéticas, dentre elas:

Labialização, marcada com w. Exemplo:

athwaala 'esta gente'

Palatalização, marcada com y. Exemplo:

epyo 'semente'

Vogais Pode-se dizer que o macua possui dez vogais, sendo cinco vogais breves e cinco longas, de modo que a duração vocálica é contrastiva - ou seja, há palavras que diferem apenas pela presença de vogal longa ou breve em determinada posição. Quando a vogal é alongada, sua duração é marcada ortograficamente pela duplicação do caractere em questão, como mostrado a seguir:

omala ‘acabar’ x omaala ‘calar-se’

omela ‘germinar’ x omeela ‘repartir’

orula ‘despir' x oruula ‘fazer emergir’ +Vogais do macua conforme o AFIAnteriorCentralPosteriorBreveLongaBreveLongaBreveLongaFechadaii:uu:Semifechadaee:oo:Abertaaa: Tons A maioria dos dialetos do macua são tonais, apresentando dois tons: alto e baixo. No entanto, esses tons são maioritariamente atrelados a regras, como mostrado em alguns exemplos mais abaixo, referentes ao dialeto Esaaka.

Esse assunto ainda está em debate entre os linguistas, mas se pode dizer que a distinção lexical oriunda da diferença tonal no macua se limita a poucos dados. Ou seja, são raros os casos em que dois vocábulos têm significados diferentes apenas pela diferença tonal, pois a demarcação dos tons é geralmente fixa nas palavras.

Regra da atribuição de tom alto:

Em verbos no infinitivo, a primeira e terceira sílabas do radical verbal possuem um tom alto subjacente, sendo o tom alto atribuído à terceira sílaba quando o radical possui quatro sílabas ou mais:

olímélíha ‘cultivar’

Regra da duplicação do tom alto:

Um tom alto subjacente é duplicado em uma sílaba anteriormente neutra que o sucede caso ainda restem outras duas sílabas na palavra:

ohísíkiluma ‘não me morder um pouco’ - sem a regra da duplicação, o tom da sílaba ‘si’ seria neutro.

Escrita A língua macua utiliza o sistema de escrita alfabético e o alfabeto latino, servindo-se dos seguintes caracteres:

a, d, e, f, h, i, j, k, l, m, n, o, p, r, s, t, u, v, w, y +Correlação entre fones e grafemas nas consoantesFonesppʰt̪t̪ʰʈʈʰckkʰfvðszçhmnɲŋlʎd͡ʒrjwGrafemaspphtthtttthckkhfvdhszxhmnnyngllyjryw +Correlação entre fones e grafemas nas vogaisFonesaa:ee:ii:oo:uu:Grafemasaaaeeeiiiooouuu Há também o uso de outros caracteres em determinadas situações, como abordado na seção de fonética e fonologia: z, c e x podem ocorrer como variações regionais de s, bem como b, g e d podem aparecer em topônimos e antropônimos.

Além disso, muitas vezes o fone [f] pode ser representado tanto pelo grafema f quanto pelo grafema ph, como no exemplo a seguir:

ofola ~ ophola ‘formar fila’

Quanto à similaridade de pronúncia com o português brasileiro, ocorrem apenas poucas diferenças nos seguintes caracteres: +CaracterePronúncia em emacuaPronúncia em portuguêsc[c][k] ou [s]h[h]não corresponde a um fonej[d͡ʒ]ʒw[w][u] ou [v]

Nome

Classes Nominais Uma grande particularidade das línguas Bantu é a grande variedade de classes nominais, definidas por caracterizarem o nome de modo semelhante aos gêneros feminino e masculino no português, por exemplo. Além disso, o chamado sistema de concordância Bantu delimita que os verbos, adjetivos, pronomes e numerais relacionados aos substantivos também sofram modificações de acordo com a classe nominal em questão.

A fim de indicar a classe nominal de um substantivo, é inserido em seu radical um prefixo específico. Diferentemente de línguas como o português e o espanhol, em que há uma distinção de gênero que se restringe a poucas categorias, a língua macua apresenta uma grande quantidade de classes nominais, cujas fronteiras entre si são mais tênues. Ademais, a flexão de número dos substantivos (formação do plural) também é delimitada por essas classes.

A seguir estão listadas e exemplificadas as principais classes nominais e suas flexões. As marcas entre aspas, como "homem", são usualmente utilizadas para facilitar a compreensão.

Mu- "homem" e A- "homens"

Estas classes geralmente se referem a seres humanos ou profissões. O prefixo mu- torna-se mw- antes de vogais, enquanto o prefixo a- não se altera.

Mulopwana ‘o homem’ Alopwana ‘os homens’

Mwixuttihi ‘o mestre’ Awixuttihi ‘os mestres’

Mu- "coqueiro" e Mi- "coqueiros"

Nessas classes encontram-se muitos nomes de árvores. Novamente, o prefixo mu- torna-se mw- antes de vogais, enquanto o prefixo mi- não se altera.

Mukole ‘o coqueiro’ Mikole ‘os coqueiros’

Mwako ‘o monte’ Miako ‘os montes’

Ni- "zagaia" e Ma- "zagaias"

Seguidos por radicais vocálicos, ni- torna-se ne- e ma- torna-se me-.

Nivaka ‘a zagaia’ Mavaka ‘as zagaias’

Neeku ‘a nuvem’ Meeku ‘as nuvens’

E- "cabrito" e I- "cabritos"

Estas classes geralmente denotam frutas, animais, coisas úteis ou palavras emprestadas do português.

Epuri ‘o cabrito’ Ipuri ‘os cabritos’

Elivuru ‘o livro’ Ilivuru ‘os livros’

Va- “perto”

Essa classe locativa remonta à ideia de proximidade locativa ou temporal. O prefixo va- é adicionado ao prefixo do substantivo adicional, bem como é acrescentado o sufixo -ni.

Vamashini ‘na água’ Vanlukuni ‘em cima da rocha'

O- “para”

Essa classe locativa exprime a ideia de direção ou origem da ação descrita no verbo. O prefixo o- substitui o prefixo original do substantivo.

Omatta ‘à horta’

Mo- “dentro”

Essa classe locativa é utilizada quando um evento acontece dentro de algum lugar. O prefixo mo- é acrescentado ao prefixo original ou lhe substitui e geralmente o sufixo -ni é adicionado.

Mpaani ‘na/dentro da casa’

O- em verbos nominalizados

Verbos no infinitivo (também iniciados por o-) podem ser usados como substantivos.

Ohawa 'o sofrer = sofrimento'

O- em substantivos abstratos Orilu 'infelicidade'

Observação: Os verbos nominalizados e substantivos abstratos iniciados em O- distinguem-se através da concordância dos termos que os seguem. A concordância dos verbos nominalizados é o- ou w- (antes de vogal), já a concordância dos substantivos abstratos é a-.

Orilu aka 'a minha infelicidade'

Ohawa waka 'o meu sofrimento'

Pronomes Pessoais Os pronomes pessoais podem ser utilizados de modo separado, constituindo morfemas livres, ou atrelados ao verbo, constituindo morfemas presos. Os exemplos dos pronomes isolados dados a seguir foram retirados de uma lista de vocabulário.

Quando representam o sujeito de uma ação, os pronomes pessoais são demarcados por prefixos na raiz verbal. Os pronomes pessoais que denotam o objeto são exprimidos através de interfixos.