Frederick Douglass, nascido como Frederick Augustus Washington Bailey (Condado de Talbot, c. fevereiro de 1818 – Washington, D.C., 20 de fevereiro de 1895) foi um abolicionista, estadista e escritor estadunidense. Chamado "O Sábio de Anacostia" ou "O Leão de Anacostia", ele foi dos mais eminentes afro-americanos do seu tempo, e dos mais influentes na história dos Estados Unidos, sobretudo durante o período da Guerra de Secessão e a consequente abolição da escravatura, para o que pressionou o então presidente Abraham Lincoln.
Filho de uma escrava com um homem branco, Douglass viveu a experiência da servidão e, instruindo-se, dela fugiu em 1838, adotando novo nome como homem livre e com o qual passou à história; dez anos depois publicou sua primeira autobiografia que o levou a excursionar pela Europa, o que lhe mudou o pensamento para ações mais pragmáticas de luta. Durante a guerra civil conseguiu fazer com que os negros pudessem lutar ao lado dos brancos e, terminada esta, continuou suas lutas pela igualdade entre as raças e também entre homens e mulheres.
Seu pensamento contestador contra os sistemas opressivos pregava a constante rebeldia, como expressou a um amigo abolicionista numa carta de 1848: "Sem luta não há progresso. Aqueles que professam em favor da liberdade, e ainda depreciam a agitação, são pessoas que querem ceifar sem arar a terra. Eles querem chuva sem trovão e raios. Eles querem o oceano sem o terrível bramido de suas muitas águas. Esta luta pode ser moral; ou pode ser física; ou pode ser ambas, moral e física; mas ela deve ser uma luta. O poder não concede nada sem demanda. Nunca concedeu e nunca concederá".Citado em (trabalho originalmente publicado pelo Centre for Brazilian Studies Working Paper CBS-60-05, University of Oxford, em maio de 2005 — pdf arquivado do cache do Google). Foi um orador bastante requisitado na causa abolicionista por sua eloquência, (trabalho originalmente publicado pela revista espanhola "Fundamentos" — pdf arquivado do cache do Google). Douglass é autor de frases célebres sempre citadas, como "eu me uniria com qualquer um para fazer o certo e com ninguém para fazer o errado". Os abolicionistas brancos pediam-lhe o depoimento mas procuravam limitar-lhe a narrativa apenas ao testemunho dos fatos, e não à sua análise, que caberia a eles fazer — revelando assim uma outra forma de preconceito: além do racial, o intelectual; mas Douglass se insurgia contra isto, tanto em suas palestras quanto em seus livros, levando aos fatos sua própria interpretação.
Por toda sua luta, Douglass é reconhecido como "o pai do movimento pelos direitos civis" dos Estados Unidos e sua última residência na capital integra o patrimônio histórico nacional daquele país. Para seu biógrafo Joseph W. Holley ele foi o mais influente afro-americano do século XIX, havendo militado em favor de diversas causas sociais que "agitaram a consciência" do país e que foram desde os direitos femininos, reforma agrária, temperança, paz, educação pública e gratuita e abolição da pena de morte — mas sobretudo gastou a maior parte de seu tempo e energia pelo fim da escravidão e pela igualdade de direitos a todos os afrodescendentes; segundo ele: "Douglass entendeu que a luta pela libertação e pela igualdade exigia vigorosa, persistente e inflexível agitação. E reconheceu que os afro-americanos têm papel inerente nesta luta. Menos de um mês antes de sua morte um jovem negro pediu seu conselho a quem iniciava sua carreira no mundo, Douglas respondeu sem hesitação: "Agite! Agite! Agite!"". Sua autobiografia faz parte do cânon da literatura e da cultura estadunidenses.
Contexto histórico e intelectual 250px|miniaturadaimagem|esquerda|Mapa de 1856 mostra os estados escravistas (cinza), estados "livres" (rosa), territórios federais (verde), o Kansas (branco) e o paralelo 36°30′ N indicado. No século XIX os Estados Unidos tinham vivenciado uma ampliação do seu território, tanto pela compra (casos da Luisiana, da Flórida ou mais tarde o Alasca) e pela anexação (caso do Texas, do Oregon e Maine), como pela conquista militar numa guerra contra o México que durara dois anos e resultou na conquista, em 1848, do Novo México e da Califórnia. A população também sofreu um salto quantitativo: de nove milhões e seiscentos mil habitantes em 1820 chegou a 1860 a trinta e um milhões e trezentos mil.
Enquanto os estados do sul, de clima mais quente, tinham sua economia fortemente centrada na agricultura e, portanto, com grande número de mão-de-obra escrava, os nortistas tinham uma formação mais baseada no comércio, indústria e numa agricultura não escravocrata que, com o tempo, foi acelerando as diferenças de interesses entre ambos, também perceptível pela origem dos imigrantes que os povoaram: ao norte de maioria protestante (ingleses, alemães) e ao sul de maioria católica (latinos); em 1820 o Compromisso do Missouri consagrou a divisão, proibindo a escravidão acima do Paralelo 36°30' Norte. Em 1850 a Califórnia, apesar de estar abaixo deste limite, ganhou o direito de ser não-escravista, forçando em 1850 a celebração do Compromisso Clay, que dava ao povo o direito de decidir se seu estado teria ou não cativos.
No Norte logo começaram a surgir várias sociedades abolicionistas, manifestações antiescravistas, e publicação de poesias, livros (como o célebre A Cabana do Pai Tomás) e panfletos combatendo a prática da exploração servil. Antes da metade do século eram mais de duzentas mil pessoas engajadas nesta causa, em mais de duas mil associações. As sociedades abolicionistas patrocinavam a fuga de escravos do Sul para estados onde seriam cidadãos livres; também constituíram a Libéria em África (1847), destinando-a para os cativos que quisessem voltar ao continente.
Na política também houve grandes modificações: com a expansão para o Oeste ocorre a diminuição do poder dos Whigs, força dominante formada pelos grandes proprietários rurais e grandes comerciantes do Leste, fazendo surgir o Partido Democrata (composto por pequenos comerciantes e profissionais liberais); o Partido Republicano tornou-se oficialmente abolicionista em 1854.
Em 1859 John Brown leva a luta pelo fim da escravidão ao extremo, provocando uma sublevação de cativos na Virgínia, atacando um arsenal do exército. Preso, foi condenado à forca, tornando-se um mártir da causa abolicionista. Durante a eleição de 1860 o Partido Democrata apresentou uma divisão, lançando dois candidatos: o vice-presidente John C. Breckinridge foi o candidato dos escravistas do Sul, ao passo que os nortistas moderados lançaram Stephen Douglas, senador por Illinois. Disputou ainda o pleito Gerrit Smith pelo novo Partido Constituinte da União, de proposta basicamente antiescravista. Finalmente os republicanos lançaram Abraham Lincoln e o resultado do pleito foi a vitória deste último, beneficiado pela divisão democrata, cujos candidatos obtiveram, juntos, muito mais votos que ele. A consequência foi a saída da Carolina do Sul da União, insurgindo-se contra o resultado do pleito, provocando uma reação violenta contra os abolicionistas, no Norte, que os culpava pela divisão do país. Em fevereiro do ano seguinte mais seis estados (Geórgia, Flórida, Mississipi, Alabama, Louisiana e Texas) repetiram o gesto da Carolina do Sul e formaram os Estados Confederados da América, aos quais depois se juntaram a Virgínia, Tennessee, Carolina do Norte e Arkansas (permaneceram na União os estados escravocratas de Delaware, Maryland, Missouri e Kentucky). O país dividiu-se de forma tal que a guerra estourou a 12 de abril: de um lado vinte e três estados nortistas com uma população de vinte e dois milhões de habitantes e do outro os onze estados sulistas e uma população de nove milhões de pessoas, dos quais três milhões e quinhentas mil eram escravas.
Primeiros anos, escravidão e aprendizado miniaturadaimagem|Anúncio de 1839 no Baltimore Sun oferece recompensas por escravos fugidos. Nascido num lugar próximo à costa de Maryland, sabe-se que seu pai era um homem branco e sua mãe, Harriet Bailey, uma escrava. Foi criado pela avó e por uma tia quando era pequeno, sendo que vira a mãe somente umas cinco vezes até sua morte, ocorrida quando ele tinha sete anos. A separação das mães de seus filhos era um costume na época pois as mulheres em idade fértil eram mais aptas que as mais velhas ao trabalho pesado na agricultura, então ele ficou com a avó Betsey na fazenda de Holmes Hill junto a outras doze crianças que eram seus irmãos ou primos; sua mãe trabalhava numa plantação distante do lugar onde nascera, Tukahoe, e para visitá-lo teria que percorrer uma longa distância a pé após o horário de trabalho, e retornar a tempo para a jornada seguinte: apesar disto, sua mãe era uma mulher inteligente, uma das raras escravas que sabiam ler e escrever na região. Ela morreu em 1825. Frederick tinha quatro irmãs (Sarah, Eliza, Kitty e Arianna) e um irmão (Perry).
No ano seguinte após a morte da mãe ocorreu algo que ele mais tarde descreveria como a primeira vez que teve a sensação de "abandono e traição": sua avó o levara para a plantação de Why House, conhecida como aquela da Casa-Grande, de propriedade de Edward Lloyd — em que morava o senhor Lloyd e sua família — e o deixou ali, sem qualquer aviso. Edward Lloyd era um senhor de escravos muito rico, e mantinha mais de dez cativos como serviçais de sua casa de um total de mais de mil em suas mais de duas dezenas de fazendas onde plantava milho, tabaco e trigo. A fazenda era administrada pelo Capitão Aaron Anthony, proprietário de Frederick. Como ele era muito novo para trabalhar no campo, servia como garoto de recados, cuidava das vacas, dos jardins e quintal, e observou a crueldade com que o feitor e seu dono Anthony, lidava com os trabalhadores.
Enquanto testemunhava desde cedo as crueldades da escravidão no campo, outra sorte lhe estava reservada pois aos oito anos foi enviado para trabalhar em casa de um carpinteiro naval, chamado Hugh Auld, em Baltimore, vivendo com o novo senhor e sua esposa, Sophia Aud, para cuidar do filho pequeno do casal, Thomas (os Auld eram sogros de Lucretia Anthony Auld, filha de Aaron). Ali foi alfabetizado e pela primeira vez ouviu a palavra abolição; segundo diria mais tarde: "Indo morar em Baltimore foi lançada a fundação, e abriu-se a porta de entrada, para toda a minha subsequente prosperidade". De fato, ele era o primeiro escravo que Sophia tivera e parecera-lhe natural que o ensinasse a ler junto ao filho. Douglass assimilava rapidamente as lições, sendo orgulho para a senhora, mas quando Hugh percebeu o que a mulher estava a fazer, houve uma forte discussão onde ele advertiu-a para o ato (considerado ilegal) de ensinar um escravo a ler, além de perigoso pois estes, uma vez alfabetizados, poderiam falar em liberdade.
Embora privado das lições de sua dona ele decidira não parar de aprender e, ganhando trocados polindo botas, negociava com os garotos brancos pobres da vizinhança aulas em troca de pão e treinava a escrita nas cercas e em pedras. Quando descobriu, por volta dos doze anos de idade, a existência da publicação The Columbian Orator, passou a adquiri-la e a decorar seus artigos, além de aprender conceitos como direitos humanos e liberdade. O conceito de "abolição" aprendeu lendo o jornal Baltimore American. Também lia os jornais que eram jogados fora e, com isto, pôde acompanhar os debates nacionais acerca da escravidão e, frequentando igrejas para negros livres, experimentou a comovente experiência de ver outros homens negros que falavam em público e sabiam ler. Aos treze anos adquiriu uma obra popular sobre retórica e começou a exercitar-se na oratória.