Enide é um dos poemas de Idílios do Rei de Alfred Tennyson para cuja ilustração, na edição em francês de 1867, o artista francês Gustave Doré criou nove desenhos com base nos quais foram produzidas as gravuras que apareceram no livro.
Idílios do Rei () de Alfred Tennyson é um conjunto de 11 poemas publicados entre 1859 e 1885 estando um deles, "Enid", subdividido em dois, donde um total de 12 poemas, que tratam a lenda do Rei Artur e as personagens do Ciclo Arturiano, tendo Gustave Doré ilustrado os quatro primeiros poemas, Enid, Vivien, Elaine e Guinevere, com 36 desenhos publicados inicialmente em 1867. via Google Books
Gustave Doré (1832–83), um brilhante gravador não só pelo domínio da técnica como pelo nível artístico do desenho, foi um dos mais prolíficos e bem-sucedidos ilustradores de livros do final do século XIX, tendo criado um conjunto de 36 belas ilustrações para os quatro primeiros poemas de Idílios do Rei.
Tal como muitas das suas obras, as ilustrações de Doré para Idílios possuem um grande nível dramático, detalhe e impacto, estando impregnadas de um sentimento melancólico e sobrenatural. A sua técnica magistral é evidente em cenas idealizadas esplêndidas, ilustrando o envolvimento romântico de quatro damas adoráveis: Enide, a esposa de Geraint, um dos cavaleiros de Artur, a "astuta Vivien", uma beleza intrigante que tenta seduzir o mago Merlim, "a bela Elaine", fortemente apaixonada por Lancelote, e Guinevere, a pérfida esposa do rei Artur.Doré's Illustrations for "Idylls of the King", Amazon,
Resumo da história e descrição das imagens Geraint, cavaleiro da corte do rei Artur e da ordem da Távola Redonda, príncipe de Devon, estava casado com Enide, a única filha de Yniol, a quem muito amava. A rainha Guinevere grata ao príncipe Geraint pelos serviços prestados queria também muito a Enide. Mas quando o surgiu o rumor de que a rainha se enamorara por Lancelote, embora sem prova, Geraint temendo que Enide sofresse com a grande afeição pela rainha, pediu ao rei, com a desculpa de o seu principado, na fronteira do reino, estar a ser atacado por saqueadores e outros que fora-da-lei, para ir defender as suas fronteiras. O rei autorizou o pedido, e o príncipe partiu com Enide e um grupo de cinquenta cavaleiros em direção ao seu país. Ali, Geraint cercava a esposa de cuidados e adoração, nunca a deixando sozinha, esquecendo a promessa que tinha feito ao rei de se dedicar aos falcões e à caça, a justas e torneios, a elevar a sua fama e tratar do seu governo do seu principado. Mas as pessoas começaram a falar que Geraint havia perdido a virilidade com o amor imoderado pela esposa. Enide sabia disto mas tardava em contar ao marido por timidez e para não lhe ser desagradável. Mas Geraint, vendo-a triste, suspeitou de alguma mancha na pureza dela.
Então uma manhã cedo acordou o escudeiro ordenou-lhe: "Prepara o meu corcel e o palafrém da princesa!" E disse a Enide, "Quero ir numa aventura, pois embora pareça que perdi o meu valor, ainda não caí tão baixo quanto alguns dizem. Quanto a você, pegue nas piores roupas, tudo o que você tem de pior e venha comigo." Então ela foi vestir um casaco desbotado e um véu que guardava como relíquias lembrando que estava com elas vestida a primeira vez que Geraint a vira e como ele a amara com aquele traje.
Um pedaço da escada de uma torre gasta de muito pisada Estando o rei Artur na cidade velha de Caerleon-on-Usk deu a ordem para a caçada na manhã seguinte e pela manhã toda a corte foi para a caça. A rainha atrasou-se, mas montou num cavalo, atravessou o rio Usk e foi à procura do Rei. Parou numa pequena elevação para escutar os cães, mas em vez disso chegou o príncipe Geraint, também atrasado e não usando nem traje de caça nem arma, exceto uma espada de cabo dourado. Quando estavam à espera, viram aparecer um cavaleiro, uma dama e um anão que não quiseram identificar-se perante a rainha. Sem armas para vingar a afronta, Geraint seguiu o trio até um castelo novo que parecia acabado de fazer onde entraram. Do outro lado do rio, passando uma ponte, estava um castelo em ruínas.
No outro lado da ponte estava o conde Yniol com a cabeça branca, vestido roupas gastas. Geraint disse-lhe que procurava abrigo para a noite e Yniol ofereceu-lhe guarida. Mas quando Geraint entrou no pátio do castelo, viu o chão cheio de urtigas e tudo estava em ruínas. Ali estava uma porta quase a desmoronar coberta de ervas daninhas, no chão estava grande parte de uma torre, adornada com flores silvestres. Bem no alto, um pedaço da escada de uma torre gasta de muito pisada, mas agora silenciosa, nua ao sol (imagem inicial), e monstruosos tufos de hera cobriam a parede.Alfred Tennyson, "Enide", ilustrador: Gustave Doré, tradutor do inglês para o francês: Francisque Michel, Librairie Hachette et Cie., 1867, in The Project Gutenberg, . thumb|direita|Quando o pálido Oriente começou a ganhar vida ao sol, ela se levantou. Sua mãe fez o mesmo e, com uma mão na outra, desceram para o prado (1867), desenho de Gustave Doré Enquanto esperava no pátio do castelo, ouviu-se a voz a cantar de Enide, filha de Yniol, através da janela aberta do grande salão o que muito sensibilizou Geraint. Então, passando por cima de uma pilha de pedras, entrou no salão onde encontrou uma velha senhora vestida de escuro e ao lado dela a bela Enide, a filha do casal, e Geraint ficou enamorado dela.
Quando o pálido Oriente começou a ganhar vida ao sol Então o conde Yniol contou que o senhor do castelo novo a quem Geraint seguira é sobrinho dele e pretendente de Enide. E porque Enide lhe foi recusada ele fez tudo para arruinar Yniol. Geraint pede-lhe armas para o torneio do dia seguinte e pede-lhe que seja Enide a dama por quem ele vai lutar. Passada a noite, e quando o pálido Oriente começou a ganhar vida ao sol, ela se levantou. Sua mãe fez o mesmo e, com uma mão na outra, desceram para o prado onde iria decorrer o torneio e lá esperaram por Yniol e Geraint.
Quando Geraint viu Enide foi tomado de grande admiração. Chegaram damas e cavaleiros errantes e foi espetada uma vara de prata encimada por um falcão de ouro como prémio do torneio. Deu-se depois o combate entre Geraint e o sobrinho de Yniol. Três vezes eles se enfrentaram e três vezes quebraram suas lanças. Em seguida, desmontaram e combateram terrivelmente à espada sem que algum vencesse. Então Yniol gritou: "Lembra-te do grande insulto à rainha" e estas palavras deram a Geraint um novo ardor. E levantou a espada e quebrou o elmo do oponente, pôs o pé sobre o peito dele e perguntou: "Qual o teu nome?" O guerreiro caído respondeu, rosnando: "Édyrn, filho de Nudd. Tenho vergonha de ter que o dizer. O meu orgulho dissipou-se, pois todos viram a minha derrota".
Primeiro, vais com a tua dama e o teu anão à corte do rei Artur thumb|esquerda|Primeiro, vais com a tua dama e o teu anão à corte do rei Artur, e lá pedirás perdão à rainha pelo insulto (1867), desenho de Gustave Doré Então Geraint ordenou-lhe: "Edyrn, filho de Nudd, vais fazer duas coisas, ou morres. Primeiro, vais com a tua dama e o teu anão à corte do rei Artur, e lá pedirás perdão à rainha pelo insulto e executarás a sentença que ela der; depois regressas para o condado de teus pais". Edyrn aceitou e levantando-se, foi para a corte de Artur e ali a rainha facilmente o perdoou. Como era jovem, mudou e veio a odiar o pecado que se assemelhava ao de Mordred, sobrinho de Artur, acabando por sucumbir numa grande batalha em que lutava pelo rei.
Ao terceiro dia, Geraint quis levar Enide para a corte, onde com autorização da rainha se casariam. Mas Enide estava aterrorizada por estar tão mal vestida. Mas eis que a mãe dela chega com um vestido brilhante, que espalhou na cama da filha. Com a derrota de Edyrn, Yniol voltou a tomar posse do seu condado e devolveram-lhe tudo o que lhes haviam pilhado, incluindo o vestido brilhante. Mas Geraint não se importou que Enide levasse o vestido velho, pois a rainha lhe prometera vestir a noiva com o vestido mais brilhante que houvesse e partiram para a corte. Genebra veio receber o jovem casal e abraçou Enide de todo o coração como amiga, honrou-a como a noiva do príncipe e vestiu-a para o seu casamento brilhante como o sol. Durante toda a semana, Caerleon esteve em festas e depois o casamento foi celebrado pelo santo Dubric com toda a pompa.
Tudo isto aconteceu no Pentecostes do ano anterior. Mas Enide guardou o vestido desbotado em memória do encontro com Geraint, e de como ele se namorara dela naquele traje e dos seus receios de ser mal recebida na corte assim vestida. Naquela manhã, quando ele lhe ordenou que vestisse o seu vestido mais pobre, Enide encontrou-o e vestiu-o.
Enide ficou de lado para esperar pelo desfecho, sem ousar seguir a luta thumb|direita|Enide ficou de lado para esperar pelo desfecho, sem ousar seguir a luta (1867), desenho de Gustave Doré Saíram pela manhã, e Geraint disse a Enide que fosse à frente a uma distância respeitável, e que não falasse com ele, seja o que for que aconteça, tendo Enide ficado chocada. E com Enide na frente cruzaram fronteiras e seguiram por caminhos de bandidos, pântanos escuros e lagoas assombrados, através de solidões e caminhos perigosos.
A meio da manhã, Enide viu três cavaleiros de alta estatura montados e armados da cabeça aos pés, atrás de uma rocha nas sombras, todos malfeitores, esperando por eles. Então ela recuou e foi avisar o marido, tendo ele respondido que lhe havia pedido silêncio. Então os três bandidos caíram sobre Geraint, mas o príncipe com a sua longa lança perfurou o peito de um e em seguida voltou-se contra os outros dois, cortou-lhes as espadas e matou-os. Descendo do cavalo retirou dos três as belas armaduras, prendeu-as aos cavalos e ordenou a Enide para guiar os cavalos à frente dela e assim prosseguiram por caminhos ermos.
A piedade começou a tomar conta dele e aproximou-se dela, mas continuou calado, sofrendo, cada minuto parecendo-lhe um século. Mas eis que Enide viu diante da sombra de carvalhos três outros cavaleiros que esperavam todos armados e um deles parecia mais forte que Geraint. Enide decidiu aguardar a chegada do marido para avisá-lo mesmo que desobedecendo-lhe.
Ao aviso, Geraint respondeu com raiva: "Há cem na floresta, e cada um deles mais forte do que eu, e ainda que todos viessem sobre mim, eu ficaria menos desgostado do que com a sua desobediência. Mantenha-se longe, e se eu sucumbir, junte-se ao vencedor". Enide ficou de lado para esperar pelo desfecho, sem ousar seguir a luta murmurando apenas curtas orações, um suspiro por cada golpe. O bandido que ela mais temia atirou-se a Geraint mas falhou o golpe; mas a lança do príncipe penetrou no meio do corselete do gigante que rolou na poeira e ficou imóvel. Os companheiros covardes fugiram, mas foram alcançados e sofreram a morte que antes tinham dado a pessoas inocentes.
Da cidade, por um caminho esculpido na rocha, vinha um jovem thumb|esquerda|Da cidade, por um caminho esculpido na rocha, vinha um jovem (1867), desenho de Gustave Doré Depois Geraint desmontou e tomou a lança que mais lhe agradou, sacou aos três as armaduras brilhantes, amarrou-as aos cavalos, juntou as rédeas dos três e disse para Enide os guiar à frente dela. E ela assim fez através do bosque. Geraint seguiu-a ainda mais de perto. O esforço dela em manter juntos por caminhos difíceis da floresta dois grupos de três cavalos carregados de armas ressonantes suavizou a amargura que ele sentia no coração.