Hidas da Inglaterra (; ) é uma lista de 35 tribos composta na Britânia anglo-saxônica em algum momento entre os séculos VII e IX. Inclui alguns reinos independentes e outros pequenos territórios e atribui um número de hidas para cada um. A lista de tribos é chefiada pela Mércia e consiste quase exclusivamente dos povos que viveram ao sul do estuário de Humber e territórios que cercavam a Mércia, alguns dos quais nunca identificados pelos estudiosos. O valor de hidas à Saxônia Ocidental é o maior: foi sugerido que foi um exagero deliberado.

O objetivo original da obra permanece desconhecido: muitos estudiosos acreditam que foi uma lista de tributo criada por um rei, mas outras propostas foram sugeridas. Os valores do texto podem ser puramente simbólicos e meramente refletem o prestígio de cada território, ou podem representar um exemplo antigo de escrituração. Muitos estão certos de que foi criado na Mércia, que dominou o sul da Britânia anglo-saxã até o começo do , mas outros argumentam que o texto era da Nortúmbria.

O texto foi de grande importância aos historiadores desde meados do , parcialmente porque menciona territórios não registrados em outros documentos. As tentativas de ligar os nomes na lista com lugares modernos são altamente especulativas e todas resultam em mapas a serem tratados com cautela. Três versões diferentes (ou recensões) do texto sobreviveram, duas das quais assemelham-se: uma do formada em parte pela miscelânea de obras; a outra contém um tratado latino do ; a terceira, que sobreviveu em 6 manuscritos medievais, tem omissões e variações de escrita. Todas parecem se basear num mesmo manuscrito perdido: historiadores foram incapazes de estabelecer a data à compilação original. O texto foi usado para construir teorias sobre a organização política anglo-saxã, e dá luz sobre a Mércia e seus vizinhos no tempo quando foi hegemônica sobre outros povos. Foi usado para apoiar teorias sobre a origem e localização das tribos anglo-saxãs e como foram sistematicamente taxadas e governadas por outras. Alguns historiadores propuseram que o texto não é uma lista de povos, mas de áreas administrativas.

A tributação das hidas

O texto é, segundo a descrição de D. P. Kirby, "uma lista dos tributos totais em termos de hidas para alguns territórios ao sul do Humber, que foi variadamente datado de meados do até a segunda metade do ". Muitos dos reinos da Heptarquia estão incluídos. A Mércia, para a qual são atribuídas hidas, está no topo da lista, seguida por um conjunto de pequenas tribos do oeste e norte da Mércia, todas as quais com não mais de hidas listadas. Outras tribos nomeadas tem ainda menos hidas, entre 300 e : destas, Herefina (Herefinna), Noxgaga, Hendrica e Unecungaga não podem ser identificados, enquanto as demais podem ser tentativamente situadas em torno do sul da Inglaterra e na região fronteiriça entre a Mércia e Ânglia Oriental. Otegaga (Ohtgaga) poderiam ser Jutogaga (jutegaga) e poderia ser entendida como uma área assentada por jutos em ou próximo do vale do meon em Hantônia. O termo -gaga é uma má tradução do copista posterior do inglês antigo -wara (povo / homens de), pois o wynn (w) e o erre longo são lidos como g. Alguns territórios, como Hica, tem sido localizados apenas em meios da evidência toponímica. A lista acaba com vários outros reinos da Heptarquia: a Ânglia Oriental ( hidas), a Saxônia Oriental ( hidas), Câncio ( hidas), Saxônia Meridional () e Saxônia Ocidental ( hidas).

Os valores redondos das tributações das hidas pode indicar que são improvavelmente resultado de uma pesquisa acurada. Os métodos de avaliação usados provavelmente diferiram de acordo com o tamanho da região. Os valores podem ser de significado puramente simbólico, refletindo o estatuto de cada tribo no tempo da avaliação. Os totais dados dentro do texto sugerem que o texto foi talvez usado como forma de escrituração. Frank Stenton descreve os valores de hidas dados aos reinos da Heptarquia como exagerados e nos casos da Mércia e Saxônia Ocidental, "inteiramente discrepantes com a informação restante".

Manuscritos sobreviventes

Um manuscrito, agora perdido, foi originalmente usado para produzir as três recensões diferentes conhecidas do texto: elas foram chamadas Recensão A, B e C. A Recensão A, a mais antiga e completa, data do . Está incluída numa miscelânea de obras, escritas em inglês antigo e latim, com a Gramática Latina de Elfrico e sua homília Sobre o Início das Criaturas (De initio creaturæ), uma obra escrita em 1034. Está na Biblioteca Britânica, referência MS Harley 3271. foi escrita por diferentes escribas, numa data não posterior a 1032.

A Recensão B, que se assemelha a Recensão A, está presente num tratado latino do , Archaeologus in Modum Glossarii ad rem antiquam posteriorem, escrito por Henry Spelman em 1626. Os nomes tribais são dados em inglês antigo. Há diferenças significativas na escrita entre as duas recensões. As diferenças (por exemplo o uso de hida por Spelman) indica que o texto não foi copiado da Recensão A, mas de um texto diferente, escrito em latim. Segundo Peter Featherstone, a forma altamente editada do texto copiado sugere a possibilidade de que Spelman embelezou o texto latino.

A Recensão C sobreviveu em seis documentos latinos. Os textos contêm omissões e escritas comuns. Quatro versões, do , formam parte de uma coleção de textos legais e, segundo Featherstone, "podem ter sido pensados para servir como parte de um registro do costume inglês nativo". As outras duas versões são um século mais tardio: um está falho e pode ter sido um exercício escribal e o outro foi parte de um conjunto de textos legais.

Origem

thumb|upright=1.05|esquerda|Reino da Mércia em seu apogeu

Os historiadores não foram capazes de concordar acerca da data da compilação original da lista. Segundo Campbell, que nota a plausibilidade dela ter sido produzida durante a ascensão da Mércia, o documento pode provavelmente ser datado do ou VIII. Outros historiadores, como J. Brownbill, Barbara Yorke, Frank Stenton e Cyril Hart, geralmente concordam que o texto originou-se na Mércia em torno dessa época, embora tem diferentes teorias à identidade do senhor mércio sob quem a lista foi compilada. Wendy Davies e Hayo Vierck colocaram a origem do documento mais precisamente em 670-690.

Há quase consenso que o texto se originou na Mércia, parcialmente porque os reis mércios são conhecidos por ter extenso poder sobre outros territórios anglo-saxões do final do ao começo do IX, mas também porque a lista, encabeçada pela Mércia, é quase exclusivamente de povos que viveram ao sul do Humber. Peter Featherstone concluiu que o material original, datado do final do na Mércia, foi então usado para ser incluído num documento do final do e afirma que o Reino da Mércia "estava no centro do mundo mapeado pela lista". Frank Stenton reconheceu que a evidência não é conclusiva quando notou que "a lista foi quase certamente compilada na Mércia".

Em contraste com muitos historiadores, Nicholas Brooks sugeriu que a lista é originária da Nortúmbria, notando que isso explicaria a inclusão de Elmeto e a ausência dos dois reinos nortúmbrios de Deira e Bernícia. Nota que uma listra de tributos mércia não seria iniciada pela Mércia, pois "um rei medieval precoce não imporia tributo sobre seu próprio reino": pode ter uma lista produzida por outro reino, talvez com propósito também diferente.

N. J. Higham argumentou que por conta da data da informação original ser desconhecida e por não haver menção aos maiores reinos nortúmbrios, não se pode provar que fosse uma lista de tributos de origem mércia. Nota que Elmeto, que nunca foi província da Mércia, está incluída na lista. Sugere que a lista pode ter sido uma lista de tributo elaborada por Eduíno da Nortúmbria nos anos 620 e que provavelmente se originou antes de 685, depois do que nenhum rei nortúmbrio exerceu imperium sobre os reinos sutúmbrios. Segundo Higham, os valores avaliados para cada povo são provavelmente específicos dos eventos de 625-626, representando o contraste individual feito entre Eduíno e aqueles que reconheciam sua suserania naquele momento. Isso explica a natureza artificial e redonda dos números que foram usados: o valor de hidas aos saxões ocidentais foi provavelmente o maior número que Eduíno conheceu. Contudo, D. P. Kirby nota que a teoria da origem nortúmbria não foi aceita como convincente pela generalidade.

Propósito

thumb|upright=1.05|esquerda|Grã-Bretanha no

O objetivo da lista permanece incerto. Ao longo dos anos diferentes teorias sugeriram seu propósito em relação as datas para sua criação. Segundo muitos especialistas, era uma lista de tributo criada seguindo as instruções de reis anglo-saxões Ofa e Vulfário de Mércia e Eduíno da Nortúmbria — mas pode ter sido usada por diferentes propósitos em vários momentos durante sua história. Cyril Hart descreveu-a como uma lista de tributo que envolveu toda a Britânia anglo-saxã ao sul do Humber e que foi criada por Ofa, mas reconhece que nenhuma prova existe que foi compilada durante seu reinado. Higham nota que a sintaxe do texto requer que uma palavra implicando 'tributo' foi omitida de cada linha e argumento que foi "quase certamente uma lista de tributo". Segundo Higham, a enorme quantidade de hidas dos saxões ocidentais indica que houve grande ligação entre a escala do tributo e quaisquer considerações políticas. James Campbell argumentou que se a lista serviu a qualquer objetivo prático, implica que o tributo foi avaliado e obtido de modo organizado, e nota que, "seja o que for, e o que significa, indica um grau de ordem, ou coerência no exercício do poder (...)".

Yorke reconhece que o objetivo da lista é desconhecido e que pode não ser, como comumente se acordou, uma lista de tributos de um senhor. Ela sinaliza contra assumir que os povos menores (de hidas ou menos) possuíam quaisquer "meios de definir-se como gentes distintas". Ela nota que entre esses, a ilha de Wight e a tribo Girua Meridional, minúsculas em termos de hidas e geograficamente isoladas de outros povos, estavam entre aquelas poucas que possuíam suas próprias dinastias reais. P. H. Sawyer argumenta que os valores podem ter um propósito simbólico e que foram destinados a ser uma expressão do estatuto de cada reino e província. Para Sawyer, a obscuridade de alguns dos nomes tribais e a ausência da lista de outros aponta para uma data anterior para o texto original, que ele descreve como um "monumento do poder mércio". As hidas avaliadas à Saxônia Ocidental podem refletir seu estatuto superior numa data posterior e implicaria que a lista na sua atual forma foi escrita na Saxônia Ocidental. A avaliação dos hidas da saxônia Ocidental foi considerada como erro pelo historiador J. Brownbill, mas Cyril Hart mantêm que o valor à Saxônia Ocidental é correta e que foi um dos vários valores destinados a exigir o maior tributo possível dos principais rivais da Mércia.

Historiografia

Henry Spelman foi o primeiro a publicar a obra em seu primeiro volume do Glossarium Archaiologicum (1626) e há também uma versão do texto num livro escrito em 1691 por Thomas Gale, mas nenhuma discussão emergiu sobre o Hidas da Inglaterra até 1848, quando o Os Saxões na Inglaterra de John Mitchell Kembel foi publicado. Em 1884, Walter de Gray Birch escreveu um artigo à Sociedade Arqueológica Britânica, no qual discutiu em detalhe a localização de cada uma das tribos. O termo em inglês Tribal Hidage foi introduzido por Frederic William Maitland em 1897, em seu livro Domesday Book and Beyond. Durante as décadas seguintes, artigos foram publicados por William John Corbett (1900), Hector Munro Chadwick (1905) e John Brownbill (1912 e 1925). Os registros subsequentes mais importantes desde Corbett, segundo Campbell, são de Josiah Cox Russell (1947), Cyril Hart (1971), Wendy Davies e Hayo Vierck (1974) e David Dumville (1989).