miniaturadaimagem| Schelling, Introdução ao Esboço de um Sistema da Naturphilosophie, 1799 (do alemão, "filosofia da natureza"), também referida por vezes como romantische Naturphilosophie ("filosofia natural romântica"), designa um conjunto de correntes da tradição filosófica do idealismo alemão aplicadas ao estudo da natureza no início do século XIX. Foi o tipo de filosofia da natureza que predominou essencialmente nos movimentos literários, filosóficos e científicos na Alemanha entre 1790 e até cerca de 1830. Não possuindo obras canônicas, encontram-se diversos sistemas de Naturphilosophie entre vários pensadores românticos e pós-kantianos, mas foi sistematizada principalmente a partir de Schelling.
A Naturphilosophie se caracterizava por uma visão orgânica, vitalista e holística da Natureza, buscando superar um mecanicismo e reducionismo da ciência predominante. Ela partia do princípio de se investigar uma unidade entre polaridades como o empirismo e a metafísica; o ser humano, sua história e o mundo; o subjetivo e o objetivo; a mente e a matéria. Assim, exaltavam a intuição e a especulação de relações simbólicas entre fenômenos e suas conexões a princípios ideais. Isso proporcionou insights teóricos que permitiram avanços na ciência, bem como a valorização de sentidos subjetivos, sociais e históricos aplicados às ciências naturais. Seus principais expoentes incluem Schelling, Goethe, Oken, Hegel, Ritter e Carus, bem como Fichte, Schlegel e Novalis.
A tradução literal para a expressão "filosofia da natureza" pode ser enganosa, porque já existia uma filosofia natural muito antes deste movimento aparecer. É, portanto, preferível manter o seu nome sem tradução.Blay, Michel (2013). Dictionnaire des concepts philosophiques. p. 553.
História e definição
Precursores formativos O desenvolvimento epistemológico da Naturphilosophie foi influenciado geracionalmente pela noção de um "Tipo Ideal" (em alemão, Urform ou Urtyp), em que se identificavam esquemas ideias em torno dos quais ocorre a variabilidade das estruturas naturais. Esse conceito foi muito presente nas produções literárias, filosóficas e científicas a partir do final das décadas de 1770 e 1780, por exemplo em Kant. Encontrou-se na Histoire Naturelle de Daubenton, cuja tradução em alemão influenciou o pensamento biológico germânico entre 1780 e 1810. O conceito de história natural caracterizou a zoologia de Kielmeyer, Link, Treviranus, dentre outros, e a Naturphilosophie absorveu sua perspectiva de desenvolvimento orgânico. Também propunham-se formas unitárias na anatomia de Wolff e Blumenbach; e no pensamento botânico de Batsch, até que enfim o conceito de Tipo Ideal alcançou uma centralidade teórica na filosofia natural romântica em Goethe.
Outras profundas influências podem ser encontradas a partir das descobertas químicas, em articulação com as questões sociais e culturais. Com a reflexão sobre as mudanças de governo e da história, elaboraram-se pensamentos sobre a situação da individualidade, liberdade e razão. Os Naturphilosophen vieram de uma geração de jovens motivados pelas visões políticas de Kant e por novas perspectivas deflagradas pela Revolução Francesa, os quais buscavam uma reforma intelectual para a educação de agentes morais e autônomos. Herder foi também um precursor desses ideais.Marmasse, Gilles (2007). «Philosophie de la nature (Naturphilosophie)». In: Décultot, Élisabeth; Espagne, Michel; Le Rider, Jacques. Dictionnaire du monde germanique. Paris: Bayard. . pp. 512-515.
Segundo Gilles Marmasse, ela apresentava "preocupações filosóficas específicas do pós-kantismo no exame da natureza" ao se opor à ciência mecanicista de inspiração galileana e newtoniana, na medida em que esta favorecia aspectos quantitativos, "desconfiava da metafísica" e via na experimentação o critério da verdade científica. A Naturphilosophie, por sua vez, "considera seu objeto como um todo vivo" que "deve ser compreendido de maneira unitária usando princípios intelectuais a priori". Essa filosofia natural retoma "o lema de Lessing legado por Jacobi: hen kai pan" ("Um e Todo") para aplicá-lo à natureza. Émile Bréhier observa que esta viva oposição acompanha o desenvolvimento das ciências experimentais, em que se começa a perceber que elas possuem particularidades qualitativas para as quais é impossível dar uma expressão matemática.Bréhier, Émile (1954). VRIN. Bibliothèque d'histoire de la philosophie. p. 100.
Para os pensadores românticos deste período, o progresso antimecanicista de uma ciência que tende a apagar as fronteiras entre o inorgânico e o orgânico (magnetismo e galvanismo) forneceu o espetáculo de uma natureza capaz de se tornar espírito, contra a corrente tradicional de uma filosofia que insistia, antes, na especificidade do sujeito humano. Para eles, tratava-se então de defender a primazia do Espírito e da Natureza sobre o mundo visível e racional.Hegel, Georg Wilhelm Friedrich (2004). Philosophie de la Nature. Vol. II Paris: Vrin. p. 17 A Naturphilosophie introduz distinções qualitativas que resultam em destacar a riqueza e a fertilidade do mundo. Trata-se, observa Émile Bréhier, de contestar a explicação puramente mecânica, que, segundo a opinião de Schelling, destrói a unidade da natureza.Bréhier, Émile (1954). VRIN. Bibliothèque d'histoire de la philosophie. p. 101. Esta suposta unidade já não provém da lei física imposta desde Descartes, mas da "intuição imediata de uma relação de formas".Bernard Mabille nota: "Foi Herder com Ideias para a Filosofia da História da Humanidade e Goethe com seu Ensaio para Explicar a Metamorfose das Plantas que deram à Naturphilosophie as bases de sua visão do mundo: uma Natureza como um todo, não separada do espírito, conjunto de forças organizadas segundo polaridades e cujos fenômenos não estão separados, mas unidos num movimento de metamorfose do inferior para o superior". Ver Mabille, Bernard (2015), La nature: approches philosophiques. p. 182. Concretamente, trata-se de responder à questão da origem da multiplicidade das espécies. A Naturphilosophie substitui então o antigo método de classificação dos conceitos por um método de intuição que segue as transformações dos mesmos no outro. Leibniz antecipará esta ideia ao falar de "continuidade de formas". A Naturphilosophie, resume Émile Bréhier, é assim dominada por duas ideias que o progresso da ciência sugeriu aos filósofos: a ideia de polaridade e a de continuidade das formas."Ao derivar a totalidade das formas de pensamento do conflito entre uma força centrífuga e uma força centrípeta cuja flutuação define a imaginação transcendental, Johann Gottlieb Fichte com seus Princípios da Doutrina da Ciência (1794) estabeleceu as condições para a transformação do esquema da oposição de forças num esquema explicativo universal". Ver Dictionnaire des concepts philosophiques, p. 554.
Fortemente marcada pelo pensamento de Spinoza (sendo contemporânea ao contexto do , a "controvérsia panteísta", ligada à redescoberta de Spinoza no final do Iluminismo alemão), a Naturphilosophie pretendia ser uma "ciência especulativa", capaz de ir e vir entre Natura naturata ("Natureza naturada") e Natura naturans ("Natureza naturante"). Em outras palavras, o filósofo-cientista deveria se elevar do produto acabado para o ato de "produzir", à infinita atividade produtiva da própria natureza, que se autolimita aos produtos acabados. Segundo Goethe, precursor dessa abordagem, a Natureza é trabalhada por uma força vivificante e rejuvenescedora na qual todos os seres são reimersos; esta força schellingiana, de natureza quase divina, aproxima a Naturphilosophie da doutrina panteísta.Bréhier, Émile (1954). VRIN. Bibliothèque d'histoire de la philosophie. p. 103Mabille, Bernard (2015). La nature: approches philosophiques. p. 182 Na perspectiva schellingiana, a Natura naturans é menos um objeto de estudo para o filósofo, do que o verdadeiro sujeito de um processo dinâmico que se desenvolve e se reflete através de objetos naturais.Bréhier, Émile (2015). Histoire de la philosophie. — II. La philosophie moderne. p. 505.
Características miniaturadaimagem|300x300px|Fantasia dos Alpes (1822), por Carl Gustav Carus. Carus buscou elevar a pintura de paisagem a um novo patamar de importância, ligando-a à psicologia e aos ideais da Naturphilosophie: o retrato deveria apresentar atmosferas afetivas e intuições místicas. Em suas Cartas, afirma por exemplo sobre as montanhas: "Com que eloquência e força nos fala a história das montanhas (...) e quão claramente essa história nos fala em certas formações estratificadas e contornos de montanhas: tão claramente que sugere até aos não iniciados que tal história existe!"; e que, no topo delas: "seu ego desaparece, você não é nada, Deus é tudo." Uma das características principais da Naturphilosophie era a concepção orgânica da Natureza, em que toda ela era vista como um organismo vivo e dinâmico. Schelling afirmava, por exemplo: "Mente é a Natureza invisível, enquanto a Natureza é a Mente visível". Com a filosofia do ego de Fichte, havia surgido o problema de dualismo entre subjetivo e objetivo, ideal e real, identidade e não identidade. A Naturphilosophie foi uma solução romântica para buscar suas interações e tentar a conciliação, de maneira que houvesse uma possibilidade de conhecimento. Seus proponentes criticavam, assim, a concepção cartesiana de matéria em termos matemáticos ou de extensão. Tentaram escapar dos extremos do dualismo ou do materialismo retornando ao conceito competidor de matéria como vis viva, proposto por Leibniz. Levavam em consideração a existência de forças vitais na Natureza, de modo que havia uma relativa continuidade com o chamado vitalismo do Iluminismo. Também adotaram a perspectiva de Spinoza, em que mente e matéria eram dois modos de uma substância única.
A perspectiva da Naturphilosophie deu muita ênfase à articulação e correlação de aspectos polares, utilizando-as para explicar uma "doutrina dinâmica da natureza". Isso teve efeito de produzir uma reforma conceitual significativa no pensamento científico da época. Com isso, o tipo de naturalismo da Naturphilosophie buscava a síntese e conciliação. Por exemplo, ao mesmo tempo em que há nela um reducionismo físico ou biológico que busca definir de maneira exaustiva a matéria básica dos processos naturais e explicar o todo da realidade, recusa-se a interpretar a Natureza simplesmente como essas partes reduzidas, pois somam-se a isso relações de valor e significado subjetivo. Ela adota uma visão de mundo que percebe fenômenos e leis imanentes, mas as expande a princípios ideais que constituem o todo absoluto da Natureza; por exemplo, Schelling atribui princípios de moralidade, metafísica, vitalismo e liberdade à interpretação natural. Na direção contrária, ocorre também um entendimento de discursos teológicos e mitológicos de uma maneira naturalista.
Inicialmente, a Naturphilosophie foi formada se contrapondo à Wissenschaftslehre de Fichte em duas teses: Schelling elaborou um realismo transcendental, em que se considera a Natureza como existindo independentemente de toda consciência, mesmo a do sujeito transcendental; e o naturalismo transcendental, segundo o qual tudo é explicável conforme as leis da Natureza, incluindo a própria racionalidade transcendental. A Natureza era incondicionada, e, ao invés de uma substância de caráter estático, era uma atividade absoluta e produtividade infinita (o que antes era atributo apenas do ego absoluto fichteano). Apesar de utilizar de analogias, Schelling afirmava cautela para que não se reduzissem fenômenos complexos da natureza a ideias, forças e elementos simplistas, com o risco de hipostatização, e defendia uma rigorosa empiria e precisão através da quantificação também. Ele foi também um forte crítico do vitalismo.