thumb|Mapa da irlandofonia na Irlanda. Os lugares mencionados neste artigo constam no mapa.
A fonologia da língua irlandesa varia entre seus diversos dialetos, divididos basicamente nas variantes principais de Ulster, Munster e Connacht. Não havendo pronúncia padronizada para o irlandês, um estudo fonológico geral do idioma deve focar-se em pontos comuns a todos dialetos, assim como nas principais diferenças entre os mesmos.
A fonologia do irlandês é continuamente estudada como disciplina autônoma desde o fim do século XIX, com diversos pesquisadores publicando estudos descritivos dos dialetos de todas as regiões onde a língua é falada. A partir do fim do século XX, linguistas teóricos também vêm estudando o tema, havendo publicado diversos livros, artigos e teses sob esta nova ótica.
Um dos mais marcantes aspectos fonológicos da língua irlandesa é que, semelhantemente ao russo, quase todas as consoantes existem em pares, possuindo diferentes formas "largas" e "delgadas". Consoantes largas são velarizadas (isto é, a parte anterior da língua é retraída e levemente movida na direção do palato mole enquanto a consoante é articulada) ou simplesmente velares (como ). Consoantes delgadas, por sua vez, são palatalizadas (o que significa que a língua é empurrada contra o palato duro durante a articulação) ou propriamente palatais (como ). O contraste entre consoantes largas e delgadas é crítico no irlandês, visto que o sentido de uma palavra pode mudar completamente se uma consoante larga é substituída por sua contraparte delgada ou vice-versa. Além de tal paridade ser crucial para a distinção das próprias consoantes, ainda influencia a pronúncia das vogais adjacentes, a determinação de encontros consonantais possíveis e o comportamento de palavras que começam com vogais.
A língua irlandesa divide diversas características fonológicas com as outras línguas gaélicas vivas, isto é, o escocês e o manês, além de ter algumas semelhanças com a do hiberno-inglês devido ao intenso contato linguístico ao longo da história dos dois idiomas.
História da disciplina thumb|upright|page=7|Página de título de Die araner Mundart. Ein Beitrag zur Erforschung des Westirischen. Até o fim do século XIX, debates linguísticos relativos à língua irlandesa focavam ou na gramática prescritiva tradicional do idioma (com questões como a declinação de substantivos, verbos e adjetivos) ou no desenvolvimento fonético histórico desde o protoindo-europeu até o irlandês antigo, através do protocelta. A primeira análise descritiva da fonologia do idioma foi Die araner Mundart. Ein Beitrag zur Erforschung des Westirischen, publicada em 1899 por Franz Nikolaus Finck, que desenvolveu um sistema próprio de transcrição fonética para descrever o dialetos falado pelos idosos das Ilhas de Aran. A isto seguiu-se em 1906 o trabalho de Edmund Quiggin sobre o dialeto de Meenawannia, em Donegal, também em sistema próprio de transcrição. Holger Pedersen, em 1909, publicou um estudo predominantemente histórico, mas também com alguma descrição fonética de dialetos modernos. Alfer Sommerfet publicou a partir de 1922 descrições de diversas variedades, tanto de Ulster como de Munster. O dialeto de Dunquin, na Península de Dingle, foi descrito por Sjoestedt em 1931.
De 1944 a 1968, o Instituto de Estudos Avançados de Dublin publicou uma série de monografias descrevendo a fonologia de diversos dialetos locais da Irlanda, cobrindo falas de West Muskerry (em Cork), Cois Fhairrge (perto de Galway), An Rinn (em Waterford), Tourmakeady (em Mayo), Teelin (em Donegal), e, por fim, Erris (também em Mayo). Trabalhos fonológicos descritivos mais recentes foram publicados por Leslie Lucas (para Rosguill), A. J. Hughes (para Tangaveane e Comeen, perto de Glenties), Brian Ó Curnáin (para Iorras Aithneach, em Connemara) e Diarmuid Ó Sé (para a Península de Dingle).
Pesquisas sobre a fonologia teórica da língua irlandesa tiveram seu marco inaugural com a publicação de Córas fuaimeanna na Gaeilge, por Mícheál Ó Siadhail e Arndt Wigger, em 1975, que aplicou ao idioma princípios e práticas legados pela recente e inovadora obra The Sound Pattern of English, de Noam Chomsky. Monografias examinando a fonologia do irlandês de um ponto de vista teórico incluem as de Antony Green e Eugeniusz Cyran sob a teoria da otimalidade, e a de Anna Bloch-Rozmej, que estuda o dialeto de Connemara sob a ótica da fonologia de governo.
Consoantes A maioria dos dialetos irlandeses possui as seguintes consoantes, aqui demonstradas pelo Alfabeto Fonético Internacional:
+ Fonemas consonantais Labial Coronal Dorsal Glotal larga delgada larga delgada larga delgada Oclusiva surda sonora Fricativa/Aproximante surda sonora Nasal Vibrante simples Lateral
Onglides e offglides As consoantes largas, quando imediatamente antes de uma vogal anterior, recebem uma aproximante velar () audível intermediária (chamada onglide), de forma que (, "nove") e (, "modo"), a título de exemplo, são respectivamente pronunciadas e . Esta semivogal é labializada após consoantes labiais, tornando-se uma aproximante labiovelar (), de forma que (, "amarelo") é pronunciado . Semelhantemente, consoantes delgadas recebem uma aproximante palatal intermediária quando imediatamente antes de vogais posteriores, de forma que (, "grosso") é pronunciado .
Quando uma consoante larga segue uma vogal anterior, uma semivogal , chamada offglide, é introduzida entre ambas, formando um ditongo, de forma que (, "vender"), por exemplo, é pronunciado . Paralelamente, quando uma consoante delgada segue uma vogal posterior, o onglide é acrescentado entre ambas, de forma que (, "lugar") é pronunciado , (, "bebida" no caso genitivo) é , (, "entendimento") é e (, "para nós") é .
Alofonia, redução e distinção Os fonemas da língua irlandesa permitem algum nível de alofonia e reduções consonantais, a variar em dimensão entre variedades distintas do idioma. Especial relevância deve ser dada aos desenvolvimentos da antiga distinção entre consoantes coronais fortes e suaves do irlandês antigo, que assumiram diferentes contornos em cada dialeto local.
Fricativas labiais (que pode ser escrito como , , ou ) tem dois alófonos básicos: a aproximante labiovelar () e a fricativa labiodental sonora velarizada (). A distribuição destes alófonos varia entre dialetos: em Munster, geralmente se utiliza apenas , enquanto em Ulster o uso é geralmente homogêneo. Em Connacht, aparece inicialmente antes de vogais (e.g. , "é") e em outras posições (e.g. "santo"; "outono"; e , "apressado").
O restante das fricativas labiais são tipicamente labiodentais (), mas, assim como , também têm alófonos bilabiais () em muitos dialetos. A distribuição destas formas depende tanto das vogais adjacentes (consoantes bilabiais são mais frequentes acompanhando vogais arredondadas como das preferências de falantes individuais.
Oclusivas palatais delgadas As oclusivas palatais delgadas () podem ser articuladas como palatais propriamente ditas (isto é, ) ou como palatovelares, isto é, tendo ponto de articulação intermediário entre palatais e velares.
/j/ O fonema tem três alófonos na maioria dos dialetos: uma aproximante palatal antes vogais além de e no fim de sílabas (e.g. , "bom"; e , "será"); uma fricativa palatal sonora (e.g. , "sol"); e um som intermediário , mais fricativo que , mas menos que , utilizado antes de (e.g. , "retificado").
Interação de /x/ e /ç/ com /h/ Em muitos dialetos, tanto (geralmente escrita como <ch>) como sua contraparte delgada confundem-se com em diversas circunstâncias. Por exemplo, na lenição de e , é substituído por antes de vogais posteriores, como em thabharfainn (, "eu daria") e sheoil (, "dirigiu"). Em Munster, torna-se após vogais, como em fiche (, "vinte"). Em Ring, torna-se no fim de palavras monossílabas, como scáth (, "medo"). Em alguns dialetos de Ulster, como o da Ilha Tory, pode ser substituído por , como em cha (, "não"), e pode mesmo ser deletado ao fim das palavras, como em santach (, "mesquinho"). Em outros dialetos de Ulster, pode também ser deletado antes de , como em seacht (, "sete").
Consoantes coronais Entre as consoantes coronais, a maioria delas é alveolar, mas oclusivas e laterais largas são tipicamente dentais () e é tipicamente palatoalveolar. As oclusivas coronais delgadas ( podem ser realizadas como africadas alveolopalatais () em diversos dialetos, como os de Tourmakeady, Erris e Teelin. Como herança do contraste entre laterais fortes e suaves no irlandês antigo, alguns dialetos contrastam suas laterais em pares de dentais e alveolares (quando largas) e pós-alveolares e alveolares (quando delgadas), como os de Mayo, Glenties e das Ilhas de Aran.
Em irlandês antigo, as consoantes soantes coronais distinguiam-se não apenas entre formas largas e delgadas, mas também por tensão, havendo pares de fortes e suaves para as mesmas. A maioria dos linguistas modernos transcreve convencionalmente consoantes suaves como minúsculas e fortes como , enquanto outros utilizam as minúsculas para transcrever as soantes fortes e as letras gregas como . Em suma, o irlandês antigo tinha quatro fonemas róticos (), quatro laterais () e quatro coronais nasais ().
As soantes fortes e suaves contrastavam-se fonemicamente entre vogais e no fim de palavras após vogais em irlandês antigo, como nos pares (, "ela ouve") e (, "que ele carregue"); (, "castanho") e (, "pecado"); ou (, "estaca") e (, "som"). No começo de palavras, apenas as formas fortes eram utilizadas, mas tornavam-se suaves em ambientes nos quais havia lenição: compare-se, por exemplo, (, "mistério") e (, "provisão") com (, "seu mistério") e (, "sua provisão").
Na língua irlandesa moderna, as quatro róticas foram reduzidas a dois em todos os dialetos, enquanto, de forma geral, os dialetos de Connacht e Ulster preservaram uma distinção entre quatro laterais e quatro nasais, enquanto os de Munster as simplificaram em dois fonemas. Segue-se um quadro comparativo das realizações destes fonemas em diversos dialetos:
Irlandês antigo Ulster Connacht Munster Rosguill Glenties Mayo Connemara Aran Península de Dingle West Muskerry inicialmente alhures Nota: e são alveolopalatais.
Dessonorização Quando uma obstruente sonora ou tem contato com , esta é absorvida por aquela, que se torna surda (no caso de , como visto acima, a contraparte surda sendo ). Este fenômeno é especialmente encontrado no futuro verbal (em que é representado por f) e na formação de adjetivos verbais (nos quais o som é representado por th). Por exemplo, o futuro do verbo scuab (), "esfregar"), scuabfaidh, é pronunciado , e seu adjetivo verbal scuabtha como , ambos os casos tendo o som pronunciado como .
Sândi O irlandês exibe alguns efeitos de sândi externos, isto é, mudanças fonológicas entre diferentes palavras, especialmente durante a fala rápida. A forma mais comum de sândi no irlandês é a assimilação, mediante a qual um som muda sua pronúncia para se tornar mais semelhante a outro som adjacente. Um tipo de assimilação ocorre quando uma consoante coronal larga torna-se delgada antes de uma palavra que se inicia com uma consoante delgada e vice-versa. A título de exemplo, compare-se a palavra isolada feall (, enganar) com a expressão d'fheall sé orm (, "aquilo me enganou").
A consoante n também pode assimilar o ponto de articulação de uma consoante posterior, tornando-se labial, palatal ou velar. Por exemplo, compare-se ceann (, "um") com ceann bacach (, "um lamentável") e ceann carrach (, "um encrustado").
Da mesma forma, uma consoante sonora no fim de uma palavra pode se tornar surda quando a próxima palavra começa com uma consoante surda, como na realização para lúb sé ("ele curvou"), que ensurdece o som final de lúb (, "curvar").
Acento tônico Uma palavra irlandesa normalmente tem apenas uma sílaba tônica: a primeira. Algumas palavras, contudo, especialmente advérbios e empréstimos, são exceções, a exemplo de amháin (, "único") e tobac (, "tabaco").